Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista e professor. Possui os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro "A Doença como Manifestação da Vida".
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Esta é uma pequena fatia da aula “LENDO WINNICOTT 10 – A Psicanálise realmente culpabiliza as mães?” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – WINNICOTT da CONFRARIA ANALÍTICA.
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Muitos detratores da Psicanálise alegam que ela teria propagado a falsa ideia de que “a culpa [dos problemas emocionais de uma pessoa] é da mãe”.
De fato, trata-se de uma afirmação que não corresponde à verdade. Porém, é igualmente falso que os psicanalistas defendam tamanha tolice.
Mas, então, como surgiu essa fake news?
Ela decorre de uma compreensão equivocada, fruto de má-fé ou pura ignorância, de uma descoberta psicanalítica importantíssima e indiscutível:
A descoberta de que o suporte físico e emocional oferecido normalmente aos bebês nos primeiros meses de vida é indispensável para o estabelecimento das condições básicas da vida psíquica, como a integração do self, por exemplo.
E se tal cuidado é imprescindível, isso significa, obviamente, que sua ausência pode comprometer seriamente o desenvolvimento emocional.
É claro que os danos ao bebê podem variar de intensidade e estar associados a outros fatores, mas, em algum grau, tendem a ocorrer.
Ora, em 99,9% dos casos, quem oferece o suporte é a própria mãe.
Logo, quando o bebê o recebe de maneira insuficiente (o que, diga-se de passagem, não é comum), podemos dizer tranquilamente que houve uma falha no cuidado materno.
Isso não significa culpabilizar a mãe, até porque tal falha pode ter acontecido por motivos que estão fora de seu controle, como uma depressão pós-parto, por exemplo.
Quer entender isso melhor?
Então, assista à AULA ESPECIAL publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.
Nela, eu comento trechos do artigo “A mãe dedicada comum”, de Winnicott, em que o autor explica por que reconhecer os efeitos patogênicos de falhas no cuidado materno não é o mesmo que atribuir culpa às mães.
O título da aula é “LENDO WINNICOTT #10 – A Psicanálise realmente culpabiliza as mães?” e ela já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – WINNICOTT.
A Confraria é hoje a maior e mais acessível escola de formação em teoria psicanalítica do Brasil.
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De vez em quando, na clínica, a gente se depara com pacientes que sofrem do que eu chamaria de “tendência à autoculpabilização”.
São pessoas que costumam se sentir culpadas por qualquer infortúnio que lhes aconteça, mesmo que não tenham feito absolutamente nada para provocá-los.
Trata-se de um padrão diametralmente oposto ao do vitimismo, que é a tendência a achar que a culpa dos próprios problemas é sempre do outro.
Considerando que a culpa é um afeto extremamente desagradável, é fácil compreender a motivação dos vitimistas:
Eles querem justamente evitar o desprazer de se sentirem culpados.
Mas como entender a tendência à autoculpabilização?
Se sentir culpa é tão ruim, por que será que algumas pessoas tendem a se culpar tanto? Masoquismo?
Não.
É que o sentimento de culpa vem sempre acompanhado de uma ideia falsa, mas muito satisfatória, especialmente para pessoas inseguras:
A ilusão de que elas podem ter controle sobre tudo.
Veja o caso da Taís, por exemplo.
Ela é uma dessas pessoas com propensão a se julgarem sempre culpadas.
Recentemente, a moça descobriu que o namorado a traiu com sua melhor amiga.
E a primeira coisa que lhe passou pela cabeça ao saber disso foi:
“O que será que eu fiz para que ele me traísse?”
A seguir, começou a pensar nas raras ocasiões em que tratou o rapaz com impaciência ou não quis atender a um pedido dele.
— Acho que se eu tivesse sido mais companheira, isso não teria acontecido, disse ela, aos prantos, em uma de suas sessões de análise.
Perceba como sentir-se culpada fez Taís imaginar que poderia ter evitado a traição do namorado se tivesse agido de forma diferente.
Ou seja, a culpa levou a jovem a acreditar que tinha CONTROLE sobre a situação, que o comportamento do namorado era determinado pelas ações dela.
Pensar assim lhe dá a esperança de que, no próximo relacionamento, “se fizer tudo direitinho”, conseguirá evitar um desfecho semelhante.
Conclusão: se culpar por tudo é uma forma de alimentar a ilusão de onipotência — o sonho dourado de toda pessoa insegura…
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Esta é uma pequena fatia da aula “Clínica lacaniana das psicoses (II): tratamento” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN da CONFRARIA ANALÍTICA.
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De um ponto de vista lacaniano, o tratamento psicanalítico da neurose visa fundamentalmente suscitar um processo de DESESTABILIZAÇÃO.
Com efeito, na neurose, o sujeito encontra-se excessivamente ESTABILIZADO em função do forte apego que tem ao seu eu ideal.
Esse apego o leva a rechaçar as dimensões de seu psiquismo que são incompatíveis com a imagem idealizada que tem de si mesmo.
E são justamente essas dimensões rechaçadas que estão na origem dos problemas emocionais que levam o neurótico a buscar ajuda.
É por isso que o analista precisa desestabilizar o sujeito: para estimulá-lo a sair deste estado de alienação e se abrir para o encontro com suas outras facetas.
Por outro lado, quando estamos trabalhando com um paciente psicótico, a análise precisa caminhar na direção oposta, ou seja, rumo à estabilização.
Afinal, na psicose falta essa espécie de centro gravitacional com o qual o neurótico pode contar para fugir de si mesmo.
No psicótico, ao invés deste centro, existe um buraco. Por isso, ele encontra-se num estado de errância, de desorientação fundamental.
Nesse sentido, o tratamento lacaniano da psicose deve ter como objetivo ajudar o sujeito a construir algo que funcione como um suplemento para essa lacuna.
Se, na neurose, o trabalho visa desestabilizar, na psicose precisamos ajudar o sujeito a encontrar caminhos para a estabilização.
— Ok, Lucas, mas, na prática, como isso acontece? O que o analista, na perspectiva lacaniana, deve e não deve fazer com pacientes psicóticos?
Eu respondo justamente essas perguntas na aula especial que foi publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, a minha escola de formação teórica em Psicanálise.
O título dela é “Clínica lacaniana das psicoses (II): tratamento” e está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN.
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A projeção é um dos mecanismos de defesa que mais utilizamos.
Ela consiste na crença de que um determinado processo psíquico que ocorre em mim está, na verdade, acontecendo em outra pessoa.
Eu especificaria três níveis de projeção, que variam conforme o grau de certeza que a pessoa tem em relação ao que está sendo projetado.
Na projeção NEURÓTICA, o sujeito possui apenas uma impressão de que o outro apresenta o conteúdo que ele está projetando.
Elias, por exemplo, passou dias achando que Davi estava magoado consigo, sendo que, na verdade, era o próprio Elias quem alimentava uma hostilidade contra o amigo.
Em apenas uma sessão de análise, Elias conseguiu se dar conta da projeção e a impressão em relação a Davi foi facilmente dissipada.
O segundo nível de projeção eu chamaria de projeção BORDERLINE.
Nesse, a pessoa não tem apenas uma impressão ou vaga sensação em relação ao outro.
Ela acredita fortemente no que projeta e, inclusive, DISTORCE sua percepção da realidade para que a projeção seja justificada.
Vitória, por exemplo, interpretou uma simples brincadeira inofensiva de seu irmão (de 7 anos de idade) como um ataque frontal à sua honra.
A moça estava projetando no menino um objeto persecutório interno que se formou em seu psiquismo em função de graves problemas na relação com os pais.
Finalizando, podemos distinguir uma terceira (e mais conhecida) forma de projeção: a PSICÓTICA.
Nessa, o sujeito não tem apenas uma forte convicção, como na projeção borderline. O psicótico acredita PIAMENTE no que está projetando.
Um objeto mau, do mesmo tipo que perturba Vitória, por exemplo, pode estar presente na mente de um psicótico e ser projetado na forma de uma CERTEZA ABSOLUTA de estar sendo vigiado e controlado por um apresentador de TV.
Por que motivo a projeção acontece?
Pela mesma razão que justifica o acionamento de todo e qualquer mecanismo de defesa: a evitação de uma dor psíquica insuportável.
Essa dor é provocada justamente pelo processo psíquico que o sujeito projeta.
Ele supõe, acredita ou tem certeza absoluta de que o processo está do lado de fora por não ser capaz de suportá-lo do lado de dentro.
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Esta é uma pequena fatia da aula “Clínica lacaniana das psicoses (I): diagnóstico” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN da CONFRARIA ANALÍTICA.
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Muitas pessoas acreditam que a presença de alucinações e pensamentos delirantes no quadro clínico é suficiente para diagnosticar um paciente como psicótico.
Mas isso não é verdade.
Sujeitos neuróticos também podem relatar que estão vendo coisas inexistentes ou construir certas interpretações que passam muito longe da realidade.
Anna O., por exemplo, a conhecida paciente histérica de Josef Breuer, alucinou que uma serpente negra se aproximava de seu pai para mordê-lo.
O “Homem dos Ratos” de Freud, embora fosse um neurótico obsessivo, relatava certas ideias que podem muito bem ser classificadas como delirantes.
Portanto, tais fenômenos não são exclusividade da psicose.
Para usá-los como índices diagnósticos, é essencial considerar como o paciente se relaciona com eles.
O neurótico está aberto à possibilidade de questionar a veracidade de suas alucinações e pensamentos delirantes. O psicótico, não.
Como dizia Lacan, na psicose, a pessoa não só acredita que ouve vozes, mas crê NAS VOZES, no que elas dizem.
Essa CERTEZA é um dos traços que permitem a identificação de um quadro psicótico. Mas existem outros, igualmente importantes.
Eu falo sobre eles (e também sobre a certeza) detalhadamente e com exemplos na aula publicada hoje (sexta) na CONFRARIA ANALÍTICA.
O título dela é: “Clinica lacaniana das psicoses (I): diagnóstico” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN.
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No livro “Além do princípio do prazer”, Freud narra uma curiosa cena protagonizada por seu netinho Ernst, de um ano e meio na época.
O menino tinha um carretel de madeira enrolado em um cordão e costumava brincar de jogar o objeto para longe de si, puxando-o de volta logo em seguida.
Quando lançava o carretel, Ernst emitia um som que sua mãe e seu avô interpretaram como sendo uma tentativa de dizer “fort” (“foi embora”, em alemão).
Ao trazer o objeto de volta para junto de si, o garoto dizia, alegremente, a palavra “da” (“aqui” ou “está aqui”).
Vendo que Ernst, apesar de muito apegado à mãe, não chorava quando ela estava longe, Freud interpretou a brincadeira da seguinte forma:
Ao fazer o carretel “ir embora” e retornar, o menino estaria reproduzindo simbolicamente as idas e vindas da mãe.
Transformando a mãe simbolicamente naquele objeto, Ernst passava a ter CONTROLE sobre os movimentos dela.
Assim, a mãe desaparecia e voltava quando ELE queria, não ela.
Ou seja, a brincadeira fazia o garoto se sentir SUJEITO da situação e não mais um mero objeto do desejo materno.
Se o anseio do garoto fosse apenas evitar o desprazer de estar longe da mãe, ele poderia simplesmente manter o carretel sempre junto a si.
Mas Ernst queria algo mais. Algo que está justamente para além do princípio do prazer: o menino queria DOMINAR a situação.
Por isso, ele precisava reproduzir não só a presença, mas também a ausência da mãe, ou seja, justamente o movimento que lhe causava dor.
Muitos de nós recorremos a esse mesmo processo defensivo empregado pelo netinho de Freud.
O problema é que as nossas “brincadeiras” de adultos envolvem PESSOAS e não carreteis.
Muita gente usa seus relacionamentos amorosos para tentar dominar, simbolicamente, uma situação dolorosa que vivenciaram na infância.
A pessoa se casa com um homem tão frio quanto o pai, por exemplo, para tentar simbolicamente mudar o genitor e torná-lo mais afetuoso.
Será que isso está acontecendo com você?
Será que você está até hoje tentando consertar o passado reencenando-o no presente?
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