Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista e professor. Possui os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro "A Doença como Manifestação da Vida".
Participe, por apenas R$49,99 por mês ou 497,00 por ano, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “Sono, sonho, insônia e ansiedade”, que já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS da CONFRARIA ANALÍTICA.
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Por que não passamos a noite inteira com a mente “desligada”, apenas descansando, em vez de alucinarmos situações às vezes tão heteróclitas?
(Sim, o sonho é uma espécie de alucinação. Por isso, às vezes acordamos e pensamos: “Nossa, parecia tão real…”.)
O sonho é a prova de que nosso aparelho psíquico não suspende sua atividade durante o sono.
Mas por que não? Por que ele não para?
A verdade é que não há consenso na literatura científica a respeito disso.
Há várias hipóteses biológicas para explicar a função dos sonhos: processamento de informações, regulação emocional, manutenção da saúde neural etc.
É provável todas elas estejam corretas em alguma medida, pois não são mutuamente excludentes.
Do ponto de vista psicanalítico, todo o mundo conhece a hipótese de Freud: os sonhos representam simbolicamente a realização de desejos.
Mas será mesmo que a concepção freudiana é suficientemente abrangente para ser aplicada a todos os sonhos?
Do meu ponto de vista, não.
Minha hipótese é a de que a realização disfarçada de desejos é APENAS UMA das formas que o aparelho psíquico encontra para cumprir a verdadeira função que realiza ao produzir os sonhos, a saber:
Neutralizar nossas ansiedades para permitir que a gente continue dormindo.
Quer saber mais sobre essa hipótese?
Então assista à AULA ESPECIAL “Sonho, sono, insônia e ansiedade” que acaba de ser publicada na CONFRARIA ANALÍTICA.
A aula está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS.
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Uma das primeiras e mais importantes descobertas que Freud fez sobre o ser humano foi a de que todos nós somos apaixonados por nosso eu ideal.
Isso pode ser visto como muita clareza, por exemplo, nos casos que o médico vienense examina lá nos “Estudos sobre Histeria”.
Um deles é o de uma jovem que desenvolveu dores nas pernas porque escondeu de si mesma o desejo de ficar com o marido da irmã mais velha que acabara de falecer.
Por que essa paciente reprimiu esse impulso “talarico”?
Ora, por conta da paixão pela imagem idealizada que queria ter de si, ou seja, pelo amor que tinha por seu eu ideal.
De fato, pensar em pleno leito de morte da irmã “Agora meu cunhado está livre. Posso me casar com ele” não combinava muito com o modelo de moça 100% decente e virtuosa que ela queria encarnar.
Assim, na tentativa de caber no apertadíssimo vestido de seu eu ideal, a jovem fingiu para si mesma que o desejo de pegar o cunhado nunca havia lhe passado pela cabeça.
Resultado: adoeceu.
Adoeceu porque não quis se enxergar.
E não quis se enxergar porque estava mais apaixonada pela imagem idealizada de si do que pelo marido da irmã.
Isso também acontece com você e comigo, tá?
Todos nós construímos um modelo perfeitinho e imaginário de nós mesmos com base naquilo que vivenciamos e ouvimos na infância.
E aí passamos a vida inteira correndo atrás desse modelo e fazendo todo e qualquer sacrifício para nos tornarmos conformes a ele.
Tem gente que sacrifica o reconhecimento de sua vulnerabilidade porque quer porque quer se enxergar no espelho da alma como 100% forte e imbatível.
Tem gente, como a paciente de Freud, que sacrifica a afirmação de seu desejo em nome de um ideal hipócrita e inalcançável de suposta pureza.
E tem também aqueles que, fascinados pela imagem ideal de bonzinhos, vivem jogando para debaixo do tapete da consciência seus inevitáveis impulsos agressivos.
Um dos propósitos da Psicanálise é nos ajudar a perder essa paixão farisaica e escravizante pelo eu ideal — substituir o apego à imagem pelo amor à verdade.
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Ao pensarmos no conceito freudiano de pulsão, podemos ser levados a imaginar uma seta que sai do sujeito e vai na direção do objeto.
Tomemos, como exemplo, a pulsão oral:
Imaginamos um bebezinho recém-nascido ávido por saciar o comichão que sente nos lábios e que, para isso, busca o seio materno a fim de sugá-lo.
Esquematicamente, poderíamos representar essa cena assim:
Bebê -> seio
O problema é que essa representação tende a nos levar a uma falsa conclusão:
A de que o movimento pulsional se esgotaria no encontro do sujeito com o objeto.
Esse corolário é equivocado, em primeiro lugar, porque Freud diz com todas as letras que a pulsão é uma força constante, portanto, insaciável.
Nesse sentido, a melhor figura para representá-la não seria uma seta que vai do sujeito para o objeto, mas um CIRCUITO:
A pulsão parte do sujeito, passa pelo objeto, mas, por não encontrar satisfação plena, retorna ao próprio sujeito.
Todo o mundo sabe que o bebê frequentemente usa o próprio dedo como objeto — prova cabal de que o seio não é suficiente para acabar com o “comichão” labial.
Além disso, a pulsão não se manifesta só no movimento ativo de busca do sujeito pelo objeto.
Ela também se expressa pelo movimento de FAZER-SE OBJETO dos investimentos pulsionais do outro — o bebê também curte ser beijado pela mãe.
Essa constatação nos obriga a acrescentar ao esquema original (Bebê -> seio) outra seta de direção oposta (<-). Contudo, essa seta não parte do seio, ou seja, do objeto.
Como diz o próprio Freud no texto de 1915 sobre as pulsões, é preciso aparecer um “novo sujeito” nessa história.
Sim, pois eu não posso ser objeto de outro objeto. Só posso ser objeto de um sujeito. E esse sujeito é justamente o OUTRO.
Agora veja: se eu acrescento ao esquema original uma segunda seta que parte do outro e vai na direção do sujeito, eu acabo de criar um… circuito.
Um circuito que começa no sujeito, passa pelo objeto, retorna ao próprio sujeito e, num terceiro momento, encontra um outro sujeito.
Pois bem… É esse terceiro tempo que não está presente no autismo e é por isso que se diz que na estrutura autista há uma falha na instauração do circuito pulsional.
Quer saber mais sobre isso?
Então, confira a aula especial “O AUTISMO COMO QUARTA ESTRUTURA 02 – O fracasso na instauração do circuito pulsional”, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.
A aula está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – LACAN e o linque para fazer parte da nossa escola está no meu perfil.
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Exceto algumas pessoas gravemente doentes, todo o mundo sente culpa após fazer algo que considera errado e que causou dano a outrem.
Trata-se de um fenômeno natural e involuntário que deriva da nossa capacidade de nos importarmos com o outro e do fato de possuirmos algum tipo de código moral.
Portanto, com exceção daqueles que popularmente chamamos de “psic0p4tas”, ninguém está livre de sentir culpa ao perceber que pisou na bola.
Todavia, creio ser necessário apontar a diferença entre culpa e CULPABILIZAÇÃO.
A culpabilização é uma forma patológica de lidar com a culpa. Ela consiste em alimentar um processo de autocondenação e remorso.
O sujeito que se culpabiliza fica se chicoteando mentalmente e querendo inutilmente voltar no tempo para evitar o erro cometido.
Mas veja bem: a culpabilização não é uma forma de g0z4r com a culpa.
Pelo contrário: a pessoa se culpabiliza justamente porque NÃO SUPORTA se sentir culpada.
Explico:
Para pessoas imaturas, o sentimento de culpa é tão aflitivo que elas querem se livrar dele o mais rápido possível.
O remorso e as autocondenações são como que “penitências” que o sujeito aplica sobre si na busca por “expiar” a culpa.
É como se o indivíduo conversasse consigo mesmo nos seguintes termos:
“Fiz bobagem, superego, eu sei. Mas olha como, na verdade, eu sou uma pessoa boa e estou disposto a pagar pelos erros que cometi. Pode me chicotear à vontade, só me livra dessa culpa maldita o mais rápido que puder.”
Entendeu? Paradoxalmente, a culpabilização é uma tentativa de FUGIR da culpa, ou seja, de não assumir a responsabilidade pelo erro.
É por isso que o sujeito culpabilizado fica querendo voltar no tempo. Ele não está disposto a assumir as consequências de sua pisada na bola.
A forma saudável de lidar com a culpa não é se culpabilizando; é se RESPONSABILIZANDO.
Não adianta nada ficar batendo no peito e se recriminando. Isso é só o puro suco do narcisismo e da imaturidade emocional.
Na saúde, a gente transforma o sentimento de culpa em DESEJO de reparação e de mudança.
A gente foca no que pode fazer e não no que já fez.
A gente olha pra frente.
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Ela poderia ter se casado com aquele jovem charmoso e refinado, de quem chegou a ficar noiva na época da faculdade.
Mas ele simbolizava seu pai apagado e distante e a figura paterna lhe havia sido interditada como objeto de desejo pela mãe controladora e misândrica.
Assim, ela preferiu se casar com um rapaz que via como inferior, que era emocionalmente instável e que a traiu duas vezes.
Se dependesse dela, teria permanecido naquela péssima relação. Mas o próprio cara decidiu pedir o divórcio.
Um dos amigos dele aproveitou a oportunidade e, com a desculpa de consolá-la pela separação, acabou indo para a cama com ela.
Esse sujeito era casado e, por isso, a moça não quis continuar com o affaire.
“Tudo bem. Uma mulher a mais ou a menos não faz diferença na minha vida”, ele disse.
Algum tempo depois, ficou seis meses com um cara que queria casar com ela. Mas a moça nunca se importou muito com ele…
O próximo relacionamento foi com um homem que a tratava como pr0stitut4 e dizia que eles nunca se casariam porque ela era protestante.
Depois dele, ficou cerca de quatro meses com um cara que terminou com ela porque sua esposa estava retornando grávida para a cidade em que estavam.
Na sequência, permaneceu durante três anos com um sujeito que lhe dizia:
“Se você quiser ter um caso comigo, tudo bem, mas nada acontecerá porque minha família se oporia ao casamento, e eu nunca vou contra a vontade deles”.
Depois de mais duas experiências amorosas frustradas, ela finalmente decidiu buscar ajuda e começou a fazer análise com o psicanalista norte-americano Smiley Blanton.
“Eu não consigo ter um relacionamento satisfatório e duradouro”: esta foi a queixa principal que a moça apresentou ao terapeuta.
Blanton descreve o caso dela num pequeno artigo chamado “Mulheres Fálicas”, que foi comentado por mim na AULA ESPECIAL publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.
No texto, vemos que a chave para a compreensão da trágica vida amorosa dessa paciente era sua fixação na figura materna.
O título da aula é “AULA ESPECIAL – Mulheres fálicas e mães dominadoras” e ela já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS.
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Como você reage quando alguém lhe faz mal INJUSTAMENTE?
Sublinho a palavra “injustamente” porque, às vezes, o sofrimento que o outro nos causa pode ser apenas uma consequência inevitável do mal que lhe fizemos primeiro.
Mas aqui estou me referindo àqueles cenários em que é, de fato, o outro quem toma a iniciativa de nos atacar.
Por exemplo, quando você é vítima de uma atitude desonesta por parte de um colega de trabalho.
Ambos estavam concorrendo a uma promoção, mas aí o sujeito vai lá e fala mal de você para o chefe, de modo que você acaba perdendo a disputa.
Como você reage em situações como essa?
Qualquer indivíduo minimamente maduro do ponto de vista psíquico se sentirá indignado com a atitude do colega e se verá TENTADO a fazer um ato de vingança.
Pessoas emocionalmente maduras amam o próprio eu e, portanto, não conseguem tolerar de forma passiva que ele seja atacado gratuitamente.
Portanto, eu não ficaria surpreso se você me dissesse que, num primeiro momento, pensaria em alguma forma de “retribuir” a patifaria do colega.
Olho por olho, dente por dente.
No entanto, é provável que se você fosse, de fato, um sujeito emocionalmente maduro, o desejo de vingança acabaria sendo abandonado.
Em vez de nutri-lo, você confrontaria o colega, deixando-o ciente da sua indignação e tentaria reverter a perda da promoção conversando diretamente com o chefe.
Sabe por que eu sei que você agiria assim?
Porque pessoas emocionalmente maduras não se vitimizam.
Elas até podem SER vítimas de injustiças (isso é praticamente inevitável), mas não se sentem confortáveis no LUGAR DE VÍTIMAS.
Por isso, raramente colocam em prática o impulso natural da vingança.
Com efeito, para me vingar, eu preciso permanecer nutrindo a IMAGEM DE MIM MESMO COMO VÍTIMA, como um coitado nas mãos de meu agressor.
O sujeito que se vinga não percebe, mas está ESCOLHENDO manter-se estacionado na trilha em que encontrou seu algoz ao invés de retomar o seu caminho espontâneo.
Além disso, sob o manto hipócrita da ideia de “fazer justiça”, ele está apenas dissimuladamente satisfazendo os seus próprios impulsos agressivos.
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