Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista e professor. Possui os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro "A Doença como Manifestação da Vida".
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Neste vídeo: entenda o que determina as variações de nossa autoestima e o que isso tem a ver com o conceito psicanalítico de Outro.
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Você certamente já deve ter visto na internet ou mesmo em livros supostamente técnicos uma imagem representando o id como um diabinho e o superego como um anjinho.
Muito provavelmente os autores dessas imagens jamais leram “O ego e o id”, texto de 1923 no qual Freud introduz aqueles conceitos na teoria psicanalítica. Afinal, se o tivessem lido, não fariam uma representação tão infiel das noções de id e superego.
Em outros momentos, eu já expliquei porque é incorreto associar o superego à figura de um anjo. Agora, quero me concentrar em desfazer o equívoco de se pensar o id como um “capetinha interior”.
Essa comparação só faz sentido se adotarmos um olhar moralista sobre nossos impulsos sexuais e agressivos – ponto de vista que não é o da Psicanálise.
Id foi o termo em latim escolhido pela tradução inglesa das obras de Freud para o vocábulo “Es” que, em alemão, designa um pronome impessoal, como o nosso “Isso”.
Freud não escolheu essa palavra aleatoriamente. De fato, ele precisava de um termo que fizesse referência àquilo que está presente em nós, mas, ao mesmo tempo, não faz parte do nosso Eu. Por isso, lhe pareceu oportuno utilizar a palavra “Es” que, inclusive, já vinha sendo empregada num sentido semelhante por Georg Groddeck, um médico psicanalista de que Freud gostava muito.
O que está presente em nós, mas não faz parte do nosso Eu? Ora, tudo aquilo que já vem conosco “de fábrica”. Com efeito, antes de termos um Eu, nós já SOMOS. Mas somos o quê? Basicamente um corpo animado por impulsos. Impulsos que nos levam a buscar sobrevivência, a buscar prazer e a buscar destruição. É isso o que nós somos antes de termos um Eu. E é esse estado primário do ser que Freud denomina de Id.
Depois que desenvolvemos um Eu, o Id não desaparece. Afinal, apesar de termos vestido uma imagem (o Eu), continuamos sendo um corpo animado por impulsos. Impulsos que não raro perturbam o Eu, mas que, ao mesmo tempo, revelam que somos muito mais do que a imagem que construímos de nós mesmos.
O Id, portanto, não é um capetinha. É apenas o que de você está para-além do espelho.
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Imagine que você esteja fazendo uma viagem de trem com um grupo de amigos.
Antes de chegarem ao destino, vocês precisarão passar por diversas estações. Apesar do desejo de chegar logo ao local em que irão passar as férias, você suporta pacientemente o longo trajeto.
Agora imagine que um dos seus amigos resolve ficar em uma das estações pelas quais o trem está passando. Questionado, ele diz: “Ah, eu não sei se o lugar para o qual estamos indo vai ser bom de verdade. Nesta estação eu tenho certeza de que vou me sentir bem, pois já estive aqui outras vezes e gostei muito. Então, para não correr o risco de me decepcionar lá na frente, prefiro ficar por aqui mesmo.”
A atitude desse amigo é exatamente análoga ao que acontece com uma parte de nós no curso de nosso desenvolvimento emocional.
De fato, a conquista da maturidade psíquica depende do abandono das formas de satisfação que utilizávamos na infância e dos vínculos infantis com nossos pais. Contudo, existe sempre uma parte de nós (sim, somos constituídos de diversas partes) que não quer renunciar, por exemplo, a certa fantasia sexual infantil ou à ligação incestuosa com um dos pais.
É essa resistência de uma parte de nós a sair da infância que nós chamamos, em Psicanálise, de fixação.
O adoecimento emocional ocorre justamente quando essa parte que permaneceu fixada na infância ganha força na vida do sujeito em função de alguma frustração ou decepção enfrentadas pelas partes amadurecidas.
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Neste vídeo você vai aprender de forma simples e clara o significado do conceito de sublimação na teoria psicanalítica.
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Um seguidor pergunta: “Quais ações devem ser concretizadas por mim para que eu consiga elevar meu amor-próprio?”
Minha resposta: A saúde é o estado natural do ser. O adoecimento físico é apenas a expressão de uma perturbação da ordem natural do corpo por algum fator (vírus, bactérias, alimentação incorreta, sedentarismo etc.). Estou chamando sua atenção para isso para mostrar que sua pergunta se baseia em um pressuposto equivocado: você acredita que a elevação do amor-próprio seja uma condição a ser conquistada por meio de certas ações quando, na verdade, você já deveria naturalmente ter amor-próprio, pois esse é um dos atributos da saúde psíquica. Se você percebe que não se ama, isso significa que existem fatores que estão perturbando sua saúde mental e produzindo, como um efeito, a perda de amor-próprio. Portanto, a pergunta que você deve se colocar não é “o que devo fazer para aumentar meu amor-próprio?”, mas “o que aconteceu comigo e o que eu fiz com o que aconteceu comigo para que meu amor-próprio esteja tão baixo?”. Assim como o diabetes tipo 2 é uma condição anormal do corpo desenvolvida em resposta a maus hábitos alimentares, assim também a falta de amor-próprio costuma ser um modo patológico de relação consigo mesmo produzido para responder a experiências desfavoráveis de interação com o outro (especialmente pai e mãe) e de fantasias construídas com base nessas experiências. Nesse sentido, enquanto você não elaborar os elementos da sua história de vida aos quais você respondeu com a redução de seu amor-próprio, nenhuma “ação concreta” o ajudará.
Veja as respostas que dei para outras duas perguntas de seguidores clicando aqui.
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No Seminário 23 (“O Sinthoma”), o psicanalista Jacques Lacan diz o seguinte: “Pode-se dizer que o homem é para uma mulher tudo o que quiserem, a saber, uma aflição pior que um sinthoma. […]. Trata-se mesmo de uma devastação.”
Qual é a leitura que faço dessa formulação?
1 – A mulher é um sintoma para o homem: o sintoma é um processo patológico que serve para representar simbolicamente um desejo reprimido e, ao mesmo tempo, possibilitar a satisfação indireta desse desejo. Em função do complexo de Édipo, o homem coloca a mulher no lugar deixado vago pela mãe. Portanto, a mulher representa simbolicamente o objeto materno. Ao mesmo tempo, o desejo que o homem vai buscar satisfazer com ela é exatamente o de ficar com a mãe, o qual foi reprimido na saída do complexo de Édipo. Portanto, a mulher é um sintoma para o homem porque representa simbolicamente a mãe e torna-se o meio através do qual ele satisfaz indiretamente seu desejo incestuoso.
2 – Por que o homem não é um sintoma para uma mulher, mas algo mais aflitivo, uma devastação? Porque a mulher não busca no homem apenas um representante simbólico de seu pai. Lembre-se que, no complexo de Édipo, antes da menina se vincular ao pai, ela estava ligada à mãe. É desse vínculo primitivo com o objeto materno que vem a devastação. Freud destacava o fato facilmente verificável na clínica que um número significativo de mulheres possui uma relação difícil com suas mães. Para Freud, isso era decorrente do fato de que a menina atribuiria à mãe a culpa por ter nascido sem pênis. Lacan, por sua vez, entenderá que a queixa da menina junto à mãe não é por conta do pênis, mas em função do fato de que a mãe não pode lhe transmitir o que é uma “mulher de verdade”, pois essa Mulher, com “m” maiúsculo não existe. Não existe uma identidade feminina universal, diferentemente do que acontece com os homens que estão sempre às voltas com o fantasma do “homem de verdade”, do “homão da porra”, do “homem com H maiúsculo”.
O homem é uma devastação para uma mulher porque ela o coloca não só no lugar do pai, mas, sobretudo, no lugar da mãe, dessa mãe insuficiente, que não lhe satisfez, deixando-a aflita e, ao mesmo tempo, livre para desejar.
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O neurótico é essencialmente alguém que ficou preso ao passado.
Freud se deu conta disso muito cedo em sua carreira como terapeuta ao formular a tese de que seus pacientes histéricos sofriam de “reminiscências”.
Na verdade, toda pessoa, independentemente de sua condição de saúde mental, possui uma dimensão do seu ser que permanece apegada aos prazeres e às dores da infância. Com efeito, não aceitamos integralmente as limitações da vida adulta. Há uma parte de cada um de nós que continua sendo criança.
O problema, no caso dos neuróticos, é que essa parte infantil É A MAIOR PARTE do ser do sujeito. Isso faz com que ele conscientemente tente ser adulto, mas inconscientemente se mantenha na infância.
O resultado é adoecimento. Depressão, ansiedade excessiva, obsessões, compulsões, dificuldades de relacionamento interpessoal… Todas essas formas de enfermidades emocionais são, no fim das contas, resultantes do apego excessivo do sujeito a certas formas infantis de satisfação, a padrões infantis de relacionamento, a conflitos infantis, a queixas infantis dirigidas aos pais etc.
É por isso que Freud costumava dizer que a Psicanálise é uma pós-educação. De fato, numa terapia psicanalítica ajudamos o sujeito a verdadeiramente amadurecer reservando para o grão de infância que inevitavelmente permanecerá em si um destino não patológico.
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Muita gente acredita que a Psicanálise é um tipo de conversa. Isso é um equívoco.
A conversa é basicamente uma troca de ideias. Quando conversamos, estamos interessados em verbalizar o que pensamos e também em ouvir o que o outro pensa. O interlocutor, por sua vez, faz a mesma coisa.
Ora, não é isso o que acontece numa Psicanálise.
De fato, numa sessão analítica, o paciente fala e deseja ouvir o que o seu analista tem a dizer. Aliás, esse interesse pela palavra do terapeuta é um dos sinais do que nós chamamos de transferência, ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento.
No entanto, ao contrário do que acontece numa conversa, o analista frustra a demanda do paciente de saber quais são suas ideias. Com efeito, numa Psicanálise, o terapeuta não fala o que pensa, mas tenta colocar em palavras aquilo que está nas entrelinhas do discurso do paciente. Em outras palavras, o psicanalista entrega ao analisante aquilo que está implícito em sua própria fala.
É por isso que fazer análise é uma experiência simultaneamente incômoda e aliviadora.
É desconfortável porque frustra o nosso desejo infantil de termos um guru a nos guiar pela vida dizendo o que devemos fazer e como devemos ser.
Todavia, é uma experiência também reconfortante porque nos oferece a possibilidade de sermos verdadeiramente escutados em nossa singularidade, o que raramente ocorre numa conversa, na qual que o interlocutor, amiúde, ao invés de nos escutar atentamente, está mais preocupado com o que irá dizer quando nos calarmos.
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Primeiramente, deixa eu definir o que é repressão para você que está chegando agora por aqui.
Repressão (ou recalque) é um mecanismo psicológico descoberto por Sigmund Freud, fundador da Psicanálise. Trata-se de um procedimento mental que utilizamos inconscientemente quando surgem na nossa alma certas ideias que são incompatíveis com a imagem que queremos ter de nós mesmos.
Exemplo: tomemos o caso de uma jovem de 22 anos que percebe a si mesma (e quer continuar se percebendo) como sexualmente pura do ponto de vista religioso. Eventualmente, essa moça desenvolve uma intensa amizade com uma colega de trabalho e essa situação acaba servindo como gatilho para que desejos de natureza homossexual aflorem na alma dela. Ora, essa jovem não pode admitir para si esses desejos, pois eles não são compatíveis com a autoimagem de pessoa sexualmente pura que ela possui. É aí que entra a repressão. Para se defender das ideias homossexuais, essa moça inconscientemente impedirá que elas ganhem acesso à sua consciência.
E é exatamente isso que significa reprimir (recalcar): impedir que determinadas ideias se tornem conscientes.
Qual é o problema na utilização desse mecanismo? O problema é que, ao bloquear o acesso de certas ideias na consciência, a gente perde a possibilidade de analisá-las, tratá-las e, eventualmente, descartá-las.
É muito simples. Veja: eu só consigo jogar fora um objeto que não desejo mais utilizar se eu SOUBER que essa coisa está na minha casa e, portanto, puder avaliar se vale a pena ficar com ela ou não. Se esse objeto estiver escondido, não tem como eu descartá-lo. Óbvio.
Da mesma forma, a jovem do exemplo acima não terá a oportunidade de renunciar aos desejos homossexuais (como provavelmente gostaria tendo em vista seus ideais), pois não se permite reconhecê-los.
Vejam que curioso: ela, que percebe a homossexualidade como incompatível com a imagem de si, está paradoxalmente CONSERVANDO em sua alma os pensamentos homossexuais na medida em que decidiu não olhar para eles à luz da consciência.
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Este vídeo é o nono e último da série “Os Dez Mandamentos” visto que os dois últimos mandamentos tratam da mesma questão: a cobiça de objetos alheios, ou seja, a inveja. No vídeo, falo sobre as duas principais causas da inveja e sobre os movimentos subjetivos necessários para vencê-la.
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Neste vídeo: confira as principais contribuições de Melanie Klein para a teoria psicanalítica obtidas por meio da técnica do brincar.
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A partir desta semana, você encontrará na minha coluna do @diarioriodoce a seção DIVÃ DO NÁPOLI na qual responderei perguntas dos seguidores do Instagram (@lucasnapolipsicanalista) acerca de saúde emocional, desenvolvimento pessoal e Psicanálise.
Se você também quiser ter a chance de ver sua pergunta sendo respondida, fique atento: toda sexta-feira à noite abrirei a caixinha de perguntas nos stories e escolherei três questões para serem abordadas no próximo DIVÃ.
Veja abaixo uma das perguntas respondidas nesta primeira edição. Para ler as outras, clique aqui.
Como seriam o amor e o ódio para Freud? Eles andam juntos?
Resposta: Amor é uma palavra que utilizamos para nomear um tipo de vínculo entre uma pessoa e um objeto (que pode ser outra pessoa, um animal, uma coisa, uma instituição, uma ideia etc.) em que o segundo é fonte de alegria para a primeira. Em outras palavras, amar significa se alegrar em função da ligação com um determinado objeto. O ódio parece ser o oposto do amor porque nele o objeto não funciona para o sujeito como fonte de alegria, mas de tristeza. No entanto, existe um elemento comum entre o amor e o ódio que é o vínculo. Tanto para amar quanto para odiar, eu preciso estar me relacionando com o objeto. Não existe ódio sem destinatário. É por isso que Freud costumava dizer que o contrário do amor é a indiferença e não o ódio. Quando sou indiferente a alguém significa que essa pessoa não me afeta, ou seja, não existe nenhum tipo de ligação entre mim e ela. O ódio, por sua vez, frequentemente é o produto de um amor fracassado: não raro, odiamos o outro quando ele não corresponde às nossas expectativas, ou seja, quando não se apresenta mais como amável. Nesse sentido, por trás do ódio, amiúde podemos encontrar um amor frustrado.
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