Verônica: uma vida dominada pela vontade dos pais

Verônica, uma jovem advogada de 27 anos, decidiu finalmente agendar uma consulta com a psicanalista Andreia depois de meses procrastinando tal decisão.

Naquela tarde chuvosa de agosto, a paciente iniciou seu discurso relatando o motivo que a levara a buscar ajuda terapêutica:

— Eu acho que estou com depressão. Não tenho vontade de fazer nada. Quando chego do trabalho, eu só deito na cama e fico mexendo no Instagram até pegar no sono.

A fim de entender melhor o quadro clínico apresentado por Verônica, Andreia começa a fazer algumas perguntas:

— Você tem se sentido triste?

— Não… — responde a paciente — Isso é que é estranho. Eu não sinto nada. Nem alegria nem tristeza. É como se eu estivesse anestesiada, vivendo no piloto automático.

— Desde quando mais ou menos você acha que tem estado assim, Verônica?

A paciente fica alguns segundos em silêncio, olhando para o chão. Em seguida, com os olhos marejados, responde:

— Acho que desde que eu era criança.

— Então a gente precisa conversar sobre a sua história de vida! — intervém a analista sem hesitação.

Verônica é a primogênita de sua família e tem dois irmãos gêmeos, oito anos mais novos do que ela.

Seus pais, também advogados, estavam no início de carreira quando ela nasceu.

Foi amamentada por um período muito curto, pois a mãe não conseguiu ficar muito tempo longe do escritório em que trabalhava junto com o pai.

Durante praticamente toda a sua infância, a paciente ficava com uma babá um tanto distante e fria e tinha contato com os pais apenas no início da noite, quando voltavam do trabalho.

Apesar de não gostar de dançar, Verônica foi praticamente obrigada pela mãe a fazer balé dos 7 aos 14 anos.

Aos 17, no fim do Ensino Médio, queria ser jornalista por gostar muito de escrever, mas foi convencida pelos pais a fazer Direito: “Jornalismo não dá dinheiro, Verô.”.

Por sempre ter sido muito estudiosa, a moça formou-se com louvor, mas passou os 5 anos de graduação perturbada pelo seguinte pensamento: “O que estou fazendo da minha vida?”.

Após a formatura, já tendo sido aprovada no exame da OAB, Verônica passou a trabalhar no escritório dos pais, onde já estagiava desde o início da faculdade.

Após escutar o relato da paciente sobre sua história de vida, Andreia lembrou-se da concepção de CRIATIVIDADE do psicanalista inglês Donald Winnicott.

Essa ideia ajudou a terapeuta a compreender que o suposto quadro depressivo de Verônica nada mais era que o efeito colateral de uma vida não criativa.

Com efeito, no início da vida, essa moça não teve a chance de criar o próprio mundo. Depois, já adulta, não sabia mais como fazer isso.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá hoje uma aula especial em que comento detalhadamente e com exemplos a concepção winnicottiana de criatividade.

O título da aula é “LENDO WINNICOTT 06 – Criatividade: uma conquista fundamental para a saúde emocional” e ela já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – WINNICOTT.


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Você tem usado seu parceiro como encarnação das suas “capivaras”?

O funcionamento típico de relacionamentos amorosos é sempre um terreno fértil para novas descobertas psicanalíticas.

Hoje eu gostaria de falar com vocês a respeito de uma delas:

Nós podemos utilizar nossos parceiros amorosos como ENCARNAÇÕES de partes de nós mesmos que ainda não conseguimos INTEGRAR — o que eu costumo chamar de nossas “capivaras”.

Ao utilizar a palavra “integrar” não estou me referindo a nada de outra planeta, não, tá, gente?

“Integrar” um determinado aspecto da nossa personalidade significa simplesmente ser capaz de percebê-lo e afirmá-lo como NOSSO.

Quando eu integro uma parte do meu ser, paro de tentar fugir dela, ou seja, paro de utilizar mecanismos de defesa contra ela.

Vou te dar um exemplo:

Há muitas mulheres que, por conta de uma criação excessivamente repressora, foram levadas a DISSOCIAR o impulso s3xu4l do restante de sua personalidade.

Dissociar é o oposto de integrar. Quando você dissocia determinado elemento, passa a tratá-lo COMO SE não fosse seu.

Mas, como isso é mentira, você precisa utilizar mecanismos de defesa para continuar FINGINDO para si mesma que não possui aquilo.

Um desses mecanismos pode ser encontrar um parceiro amoroso que possa servir como uma espécie de encarnação desse elemento que você dissociou.

Assim, uma mulher que não dá conta de integrar seu impulso s3xu4l pode acabar se envolvendo com um cara cujo t3são está sempre à flor da pele.

É menos angustiante para ela ouvir as reclamações de seu marido (“Você nunca tá a fim!”) do que lidar com as reivindicações do SEU próprio desejo — que clama dentro dela por integração.

A mesma lógica vale para aquele típico homem bonzinho, que desde muito cedo foi levado pela vida a dissociar sua agressividade.

Não raro, esse sujeito “escolhe” se relacionar com pessoas que não só conseguiram integrar bem seu impulso agressivo, como o expressam de forma mais intensa e frequente.

Podemos dizer que, nesses casos, é como se o indivíduo utilizasse o relacionamento para fazer “do lado de fora” o difícil processo de integração que ele não consegue fazer “do lado de dentro”.


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O psicanalista precisa ser mais empático do que outros terapeutas

O uso excessivo e descuidado do termo “empatia” acabou desgastando-o e provocando até certa ojeriza em muitas pessoas quando ouvem falar acerca dele.

Todavia, isso não é justificativa suficiente para que o abandonemos, sobretudo quando estamos tratando de questões psicoterapêuticas.

De fato, a empatia, considerada em seu sentido mais forte e preciso, é uma atitude absolutamente indispensável para o exercício da função de terapeuta.

Quando exploramos a origem etimológica do termo, ganhamos acesso a um campo semântico mais amplo do que a velha e batida ideia de “se colocar no lugar do outro”.

Empatia vem da palavra grega “empátheia” que, por sua vez, é formada pela junção dos termos “en”, que significa “dentro” e “pathos” que quer dizer “sentimento, emoção, paixão”.

Portanto, a acepção “raiz” de empatia remete à ideia de um sentimento em relação àquilo que está dentro.

Dentro do outro, no caso.

Nesse sentido, ser empático significa originalmente conseguir sentir aquilo que está no interior do outro, ou seja, emular em si aquilo que se passa afetivamente na outra pessoa.

Paulo de Tarso, na Epístola aos Romanos, parece ter conseguido captar a essência da empatia ao exortar seus leitores a “alegrarem-se com os que se alegram e chorarem com os que choram”.

Todo terapeuta precisa dar conta de conectar-se afetivamente dessa forma com o mundo interior de seus pacientes a fim de compreender de que modo o sujeito conscientemente se percebe.

O psicanalista, no entanto, precisa ir além desse tipo primário e básico de empatia.

Quem pratica o método freudiano deve ser capaz de se conectar não só com as emoções que o paciente SABE que experimenta, mas também com aquelas que ele não consegue reconhecer.

Afinal, um pressuposto básico da Psicanálise é o de que as verdadeiras causas do sofrimento de quem nos procura estão enraizadas no Inconsciente.

Nesse sentido, o analista precisa ser capaz de captar afetivamente também aquilo que está para-além das tristezas, culpas, dores e insatisfações que o paciente lhe apresenta às claras.

É por isso que o psicanalista argentino Juan-David Nasio propôs a tese de que, na Psicanálise, o terapeuta deve exercer uma DUPLA EMPATIA.

Tarefa nada fácil, mas que se torna possível se o analista consegue fazer aquilo que o autor chama de “SILÊNCIO-EM-SI” (que, já adianto, não tem nada a ver com ficar calado).

Mas, na prática, como se exerce essa dupla empatia?

Na AULA ESPECIAL desta sexta, na CONFRARIA ANALÍTICA, eu respondo essa pergunta mostrando exemplos na prática de Freud, em minha própria clínica e num episódio da série “Sessão de Terapia”.

Além disso, explico direitinho o que o Nasio chama de “silêncio-em-si” e apresento exemplos de problemas que acontecem quando não conseguimos alcançar esse estado.

O título da aula é “AULA ESPECIAL – A dupla empatia do analista e o silêncio-em-si” e já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS lá na CONFRARIA.


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Entenda o que é o superego

“Superego” foi o termo escolhido pela tradução inglesa das obras de Freud para designar a função psíquica que o pai da Psicanálise chamou de “Über-Ich” (literalmente: “acima-do-eu”).

Trata-se de um elemento fundamental da nossa personalidade que se forma por meio da internalização da dimensão coercitiva do cuidado parental.

— Lucas, explica em Humanês! 😅

Tá bom! Olha só:

Numa infância mais ou menos “normal”, os pais alimentam, protegem, apoiam, dão carinho, mas também… ameaçam, punem e cobram seus filhos.

Com o passar do tempo, por amor aos seus genitores e por quererem se tornar como eles, as crianças vão trazendo para dentro de si essas ameaças, cobranças e expectativas de punição.

Isso é bom! Ao internalizar a dimensão coercitiva do cuidado dos pais, a criança se torna capaz de colocar limites à expressão de seus impulsos — uma condição básica para a vida em sociedade.

Portanto, o superego é essa função psíquica que, emulando o que faziam nossos pais, se coloca acima (Über) do nosso eu (Ich) para ameaçá-lo, puni-lo e cobrá-lo.

O problema é que, diferentemente dos nossos genitores, o superego não fica do lado de fora, observando apenas aquilo que a gente FAZ.

Como está dentro de nós, o bicho não monitora só nossas ações, mas tem acesso também aos nossos DESEJOS, incluindo aqueles que jamais colocaremos em prática.

Assim, o superego pode nos ameaçar, nos punir e nos cobrar em relação a coisas que nós simplesmente PENSAMOS, muitas vezes até inconscientemente.

Além disso, parte do impulso agressivo natural que, ao longo da infância, fomos incentivados a conter, é “canalizado”, digamos assim, para o superego.

Dessa forma, o movimento superegoico de ameaça, punição e cobrança paradoxalmente nos proporciona SATISFAÇÃO — a mesma que um masoquista sente quando leva umas boas chicotadas.

Há pessoas que tiveram sorte em seu desenvolvimento e possuem um superego mais “de boa”. Elas se limitam, eventualmente se condenam, mas tudo “na medida”.

Outras, porém, estão o tempo todo se sentindo culpadas, gozando masoquisticamente com um excesso de crueldade superegoica.

Qual delas é você?


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Quando o paciente sente inveja do terapeuta

Isadora deu uma rápida olhada na tela do celular antes de entrar no elevador e viu que já eram 19h15.

Ela sabia que, pela terceira vez, estava chegando bastante atrasada para a sessão com Bianca, mas, por alguma razão, não se sentia incomodada por deixar a terapeuta esperando.

Pelo contrário. Caminhando a passos lentos, como se estivesse adiantada, ela entrou tranquilamente na sala de espera e mandou uma mensagem para a analista: “Cheguei”.

Como já era o terceiro atraso seguido, Bianca achou que seria importante estimular a paciente a pensar a respeito:

— Nas últimas sessões você tem sempre chegado atrasada, Isadora. Por que será que uma parte sua não está querendo vir à análise?

A paciente não esperava essa pergunta e ficou bastante ruborizada, como se tivesse sido pega em flagrante fazendo algo errado.

— É que eu precisei lavar a louça antes de vir e acabei demorando muito… Mas deixa eu te contar o sonho que eu tive essa noite! — disse Bianca, ansiosa para mudar de assunto.

— Hum…

— Sonhei que eu estava viajando com uma menina de carro. Mas ela é quem estava dirigindo. Aí o carro parou no meio da estrada e, quando a gente foi ver, os quatro pneus estavam furados.

— Uma criança dirigindo? — perguntou Bianca a fim de encorajar a paciente a explorar esse detalhe do sonho.

— Sim! Estranho, né? E eu nem me importei! Estava super tranquila no banco do carona, só curtindo a viagem.

— Eu me lembro de ter dito a você, na primeira sessão, que o nosso trabalho seria como uma longa viagem de carro na qual você estaria no volante e EU no banco do carona…

Após esse comentário, Isadora começou a trazer alguns associações que, articuladas a apontamentos feitos pela analista, revelaram os pensamentos latentes do sonho.

O que estava sendo expresso de maneira simbólica e disfarçada era a INVEJA que a paciente sentia em relação a Bianca.

No sonho, Isadora transformou sua EXPERIENTE analista em uma criança e inverteu as posições da relação terapêutica: colocou Bianca para dirigir e ocupou o lugar da terapeuta (o banco do carona).

Verificou-se também que os quatro pneus furados remetiam aos quatro meses de análise.

Nesse sentido, Isadora estava expressando no sonho seu desejo inconsciente de ESTRAGAR a terapia (simbolizada pela viagem de carro).

E por que ela queria estragar a análise? Por inveja da analista!

Bianca verificou que a paciente havia transferido para a relação com ela a forte inveja que sentira da mãe, uma renomada professora, sobretudo no início da adolescência.

Isso explicaria tanto os atrasos frequentes quanto a inércia que Isadora apresentava no tratamento.

Com efeito, mesmo após quatro meses de terapia, a paciente não havia apresentado nenhum insight e nem a mais ínfima melhora.

A inveja inconsciente transferida para a relação com o terapeuta é um dos principiais obstáculos que podem surgir no tratamento psicanalítico.

A primeira autora a falar mais abertamente sobre essa questão foi Melanie Klein no ensaio “Inveja e Gratidão”.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá hoje uma aula especial em que comento trechos dessa monografia, nos quais a autora explica como a inveja funciona e se manifesta na análise.

O título da aula é “LENDO KLEIN #05 – A inveja primária e seus impactos no tratamento psicanalítico” e já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – KLEIN.


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Você busca compulsivamente o amor do outro?

Pense junto comigo:

O que acontece com um bebê quando não tem alguém interessado em cuidar dele?

O coitado morre, não é verdade?

Pois é… Este é um dos aspectos da condição humana: no início da vida somos absolutamente dependentes do outro. Nossa sobrevivência DEPENDE do amor alheio.

Por essa razão, podemos deduzir que, ao longo dos milhares de anos de evolução da nossa espécie, a natureza instalou em nós, desde o nascimento, uma ânsia visceral de sermos amados.

Por estarmos inseridos num mundo simbólico, esse anelo de amor não se satisfaz apenas com cuidados físicos, mas exige também gestos e palavras que REPRESENTEM o desejo do outro por nós.

Algumas pessoas recebem esses símbolos de amor em quantidade suficientemente boa na infância e isso confere a elas um estado de segurança básica, de pacificação.

Veja bem: tais indivíduos continuam desejando o amor do outro (essa ânsia é meio insaciável), mas dão conta de suportar a experiência de não serem amados.

Eles não se desesperam com a recusa de amor do outro porque, na infância, receberam uma “injeção” de amor que é suficiente para “consolá-los” na vida adulta.

Por outro lado, há pessoas que não tiveram a mesma sorte.

Elas até foram fisicamente bem cuidadas e, por isso, sobreviveram. Contudo, não foram objeto de muito reconhecimento e atenção quando crianças. Não se sentiam suficientemente desejadas.

Esses sujeitos crescem com um buraco afetivo na alma e se comportam na idade adulta como crianças ávidas por receberem os símbolos de amor do papai e da mamãe.

Estão o tempo todo buscando agradar na busca compulsiva de seduzirem o outro.

Tais pessoas se angustiam absurdamente quando são desprezadas, odiadas ou não reconhecidas.

Como não foram suficientemente “abastecidas” de amor na infância, não suportam perder o pouquinho de amor que julgam ter conquistado a duras penas.

Nos relacionamentos, podem se submeter a toda sorte de humilhações e até de violências.

Afinal, interpretam a simples manutenção do vínculo com outro (ainda que seja um vínculo horroroso) como um símbolo de amor pelo qual tanto anseiam.


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Um exemplo prático de insight na Psicanálise

Fernanda iniciou a sessão como sempre costumava fazer: relatando algum episódio significativo ocorrido desde o último atendimento:

— Na quinta-feira, eu e o Cláudio tivemos mais uma briga feia.

Bruna, a psicanalista, limitou-se a fazer “Hum” de maneira enfática para incentivar a paciente a prosseguir em sua narrativa.

— Ele veio de novo me atacando, dizendo que eu sou ciumenta e que não está mais me suportando.

Gesticulando bastante com as mãos, Fernanda continuou:

— Aí, como sempre, eu mandei ele tomar naquele lugar e fiquei lá na sala assistindo TV. Fiquei com tanta raiva que até arquivei as fotos que eu tenho com ele no Instagram.

— Mas como a briga começou? — perguntou a terapeuta.

— Foi coisa besta, Bruna. Ele estava conversando com uma pessoa no celular, aí eu perguntei quem era e ele falou que era uma cliente nova, que estava se divorciando do marido.

Enquanto a analista acompanhava o relato silenciosamente, Fernanda prosseguia:

— Eu questionei o fato de ele estar conversando com a mulher fora do horário de trabalho e pedi para ver a foto dela. Aí ele se recusou, falando que era um absurdo eu pedir aquilo.

— E como você reagiu? — perguntou Bruna.

— Eu tomei o celular da mão dele e fui ver a foto. Você tinha que ver a cara de piriguete da menina! Aí ele ficou transtornado e começou a me acusar de ciumenta, de possessiva e blábláblá…

— O Cláudio é a primeira pessoa que te chama de “ciumenta” ou mais alguém já te falou isso? — indagou a terapeuta já suspeitando da resposta.

— Meu irmão! Ele sempre falou que eu tinha muito ciúme da nossa mãe.

— E isso é verdade?

— De jeito nenhum! Ele falava isso porque eu nunca gostei dos namorados que ela arrumou depois que separou do meu pai. Mas é que nenhum deles prestava mesmo, Bruna. Você tinha que ver!

— Engraçado… — disse a analista — Você usou a mesma expressão quando estava falando da nova cliente do seu marido: “você tinha que ver”…

Surpresa com a pontuação, Fernanda ficou em silêncio, olhando para baixo, como se estivesse refletindo sobre o que acabara de ouvir.

Após alguns segundos, a paciente levanta o rosto e olha diretamente nos olhos da analista, que resolve lhe perguntar:

— O que está passando pela sua cabeça?

— Que eu impliquei com a cliente do Cláudio do mesmo jeito que eu implicava com os namorados da minha mãe. Nossa… É igualzinho, Bruna. Senti até uma coisa ruim agora…

Essa constatação súbita que provocou na paciente uma reação de perplexidade e mal-estar é o que chamamos na Psicanálise de INSIGHT.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA poderá conferir hoje (sexta-feira) uma AULA ESPECIAL em que explico detalhadamente as características do insight e sua importância na prática clínica.

O título da aula é “CONCEITOS BÁSICOS 21 – Insight” e ela já está disponível no módulo AULAS ESPECIAIS – CONCEITOS BÁSICOS.


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Pessoas que não se sentem bem quando são elogiadas

Como você se sente quando recebe um elogio?

Há pessoas que se sentem muito bem e simplesmente agradecem com tranquilidade a quem as elogiou, sem falsa modéstia.

Via de regra, tais indivíduos vieram de uma infância em que receberam validação e investimento afetivo em quantidades suficientemente boas.

Para eles, o elogio não é visto como algo surpreendente ou injustificado, pois, quando crianças, aprenderam a amar o próprio ego e, portanto, se consideram DIGNAS de serem elogiadas.

Pessoas que não tiveram uma história infantil tão afortunada costumam ficar CONSTRANGIDAS quando recebem elogios.

Uma parte delas anseia desesperadamente por validação, justamente porque não receberam uma quantidade suficiente de investimento afetivo quando crianças.

Essa parte solta fogos de artifício quando o sujeito é elogiado, mas ela é imediatamente calada por uma outra parte do indivíduo que encara qualquer elogio como INDEVIDO.

Essa outra parte nasceu em resposta à falta de validação de que o sujeito foi vítima na infância.

Por não ter sido suficientemente reconhecida e paparicada (como toda criança precisa ser no início da vida), a pessoa se viu obrigada a forjar uma imagem de si mesma como NÃO MERECEDORA.

É por isso que tal sujeito se sente constrangido ao receber um elogio. É como se inconscientemente ele pensasse mais ou menos assim:

“Ai, meu Deus! Essa pessoa acha que eu sou isso, mas não é verdade. Estou passando uma falsa impressão. E quando ela descobrir que é tudo uma farsa? Que vergonha!”.

Como eu disse, NO FUNDO esse indivíduo se sente feliz por ter sido elogiado. Afinal, está recebendo aquilo que não teve na infância.

Todavia, ele não se permite USUFRUIR dessa felicidade; ela fica REPRIMIDA.

É como se a pessoa tivesse interpretado a FALTA de validação na infância como uma PROIBIÇÃO de se sentir validado.

Assim, ela não se sente AUTORIZADA a ficar bem quando recebe elogios.

O resultado é um intenso conflito psíquico:

Uma parte da pessoa está o tempo todo BUSCANDO elogios — para saciar a necessidade de reconhecimento não satisfeita na infância.

Mas a outra não se considera digna, autorizada, merecedora de ser elogiada.

Esse é o seu caso?


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O neurótico morre de medo do próprio desejo

Um dos traços mais característicos de um neurótico é a defesa em relação ao próprio desejo.

O termo “desejo” é uma categoria ampla que engloba os anseios que temos espontaneamente e que, não raro, exigem o rompimento com uma situação já estabelecida.

O neurótico é essencialmente alguém que tende a se conformar às situações já estabelecidas justamente porque tem medo do próprio desejo.

Assim, em vez de realizar aquilo que deseja, ele se frustra deliberadamente (é o que se passa na histeria) ou adia eternamente a satisfação do desejo (como ocorre na neurose obsessiva).

Isso não acontece por acaso.

Se o neurótico tem medo do próprio desejo é porque o enxerga como PERIGOSO.

Essa interpretação equivocada pode ser construída por várias razões:

O sujeito pode ser levado a encarar seu desejo como algo ameaçador porque, na infância, teve sua sexualidade (expressão primária do desejo) explorada por um adulto abus4dor.

O desejo também pode ser visto como perigoso por conta de um contexto familiar excessivamente repressor, que leva o sujeito a olhar para seus anseios espontâneos sempre como “pecaminosos”.

E há também aqueles neuróticos que foram levados, na infância, a ter medo do desejo em função de um ambiente muito invasivo e controlador, que simplesmente não lhes PERMITIA desejar.

Foi isso o que aconteceu com Jonas, um servidor público que não se permite sair do emprego que considera medíocre e nem se separar da esposa, com quem mantém uma relação de dependência.

Como não consegue bancar o próprio desejo, ele sofre com um estado constante de ansiedade ao mesmo tempo em que se queixa de apatia e falta de espontaneidade.

O caso de Jonas foi apresentado por uma de nossas alunas da CONFRARIA ANALÍTICA e foi comentado por mim na AULA ESPECIAL publicada nesta sexta-feira na nossa escola.

Nessa história clínica, podemos enxergar com muita clareza como se manifesta a defesa em relação ao próprio desejo na neurose obsessiva.

O título da aula é “ESTUDOS DE CASOS 04 – Jonas: um obsessivo fugindo do próprio desejo” e já está disponível na CONFRARIA no módulo “ESTUDOS DE CASOS”.


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Autocompaixão sem vitimização

Como você lida consigo mesmo quando comete um grande erro?

Você se condena, considera-se um fracasso e fica remoendo a pisada na bola, querendo voltar no tempo?

Ou reconhece a falha, admite que não é nem nunca será perfeito e se compromete a TENTAR não incorrer mais no mesmo erro?

Se a sua resposta foi a segunda opção, saiba que você conseguiu desenvolver uma das atitudes que mais favorecem a saúde mental: a autocompaixão.

Essa palavra entrou no vocabulário psicológico nas últimas décadas não por acaso.

De fato, no século XX, sobretudo a partir dos anos 1960, a sociedade ocidental passou a relativizar os mandamentos morais de fundo religioso e os substituiu por outros outros imperativos:

“Você tem que ser feliz!”

“Você tem que ser a sua melhor versão!”

“Você precisa bater as metas!”

“Você precisa ter alta performance!”

O resultado? Todo profissional sério de saúde mental conhece muito bem: uma epidemia de autocobrança, depressão, cansaço e sensação de insuficiência.

A noção de autocompaixão vai na contramão desse discurso que trocou o “Não seja um pecador.” pelo “Seja um vencedor!”.

Ser autocompassivo significa entender e aceitar que temos limitações, que podemos, sim, tentar superá-las, mas com a consciência de que sempre estaremos aquém de nossas idealizações.

— Ah, Lucas, mas a autocompaixão não acaba levando à vitimização?

Não. O sujeito autocompassivo não tem pena de si mesmo.

Ele não olha para si como alguém que sofreu uma injustiça e por isso não consegue ser melhor do que é. Essa é a diferença.

O vitimista nutre a fantasia de que, se não fosse pelo que fizeram (ou fazem) consigo, tudo seria perfeito e ele conseguiria, finalmente, ser “a melhor versão” de si mesmo.

O autocompassivo, não.

Quem tem autocompaixão olha para si sem a ilusão de uma perfeição possível.

Ele não fica ruminando os erros cometidos porque já conseguiu aceitar que errar faz parte.

E pensar assim não o torna um cínico irresponsável. Afinal, o autocompassivo não procura o erro deliberadamente nem foge de suas consequências.

Ele só conseguiu perceber que nunca estará imune a falhar e que, se é assim, é melhor aceitar essa dura realidade.

Dói menos.


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Psicanalista pode atender de graça?

Diversos profissionais liberais como dentistas, médicos e advogados realizam, de modo regular ou eventual, a prática tradicionalmente conhecida como “pro bono”.

Trata-se de uma expressão em latim que poderia ser traduzida mais ou menos como “a favor do Bem” e que designa o atendimento gratuito a pessoas que não podem pagar pelo serviço.

Será que o psicanalista também poderia disponibilizar alguns horários “pro bono”?

Bem, o próprio Freud, criador da Psicanálise, fez isso durante uns 10 anos mais ou menos, embora não por razões filantrópicas, mas científicas.

A fim de poder explorar a estrutura das neuroses com o mínimo possível de resistências externas, Freud reservava uma ou duas vagas em sua clínica para atender pessoas gratuitamente.

Ele achava que, por não pagarem, aqueles pacientes não poderiam alegar a falta de condições financeiras como justificativa para saírem do tratamento — tipo clássico de resistência.

No artigo de 1913 “O início do tratamento”, Freud conta que essa experiência não foi muito bem-sucedida.

De fato, os pacientes não tinham como utilizar a questão do dinheiro para resistirem, mas, em contrapartida, o fato de não precisarem pagar intensificou bastante outras formas de resistência.

Freud diz que muitas mulheres jovens, por exemplo, acabavam tomando o atendimento gratuito como sinal de amor do analista por elas, o que reforçava uma eventual transferência erótica.

Homens jovens, por sua vez, sabotavam inconscientemente o avanço da análise para não se sentirem dependentes e em dívida com o terapeuta.

Percebendo, assim, que o atendimento gratuito não raro acaba sendo improdutivo, o médico vienense recomendou aos analistas iniciantes que evitassem oferecê-lo.

Essa orientação aparece no já citado texto “O início do tratamento” juntamente com outras três recomendações muito importantes de Freud acerca dessa dimensão “financeira” da análise.

Eu extraí e comentei detalhadamente essas quatro lições na aula especial “LENDO FREUD 24 – 4 lições sobre a questão do dinheiro na Psicanálise”, publicada nesta sexta na CONFRARIA ANALÍTICA.

A aula já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – FREUD”.


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Qual papel você está encenando?

Imagine a seguinte situação fictícia:

Giovana, uma jovem e inexperiente atriz, é convidada por uma emissora de televisão para encenar a personagem Suelen na próxima novela das 9.

Entusiasmada e, ao mesmo tempo, ansiosa por ser o seu primeiro grande papel, a moça não pensa duas vezes e já sai assinando logo o contrato sem sequer fazer a leitura do documento.

No início, as coisas dão super certo: ela tem uma boa performance, é elogiada pelo diretor da novela e cai nas graças do público.

Após alguns meses, a produção é finalizada e Giovana vai passar férias com o namorado em Portugal.

No avião, a caminho de Lisboa, a atriz recebe a seguinte mensagem de sua assessora: “Gi, você acabou de ser escalada para uma série do Gouveia. Mesma personagem da novela, tá?”.

A moça fica intrigada com a informação de que encenará o mesmo papel numa produção totalmente diferente, mas decide não se preocupar com isso e aproveitar a viagem.

Na volta, Giovana fez uma descoberta assustadora:

Na verdade, ela teria que fazer a mesma personagem da novela não só na série do Gouveia, mas em absolutamente todas as próximas produções da emissora para as quais fosse chamada.

Com efeito, no contrato (de exclusividade, diga-se de passagem) que assinou sem ler, havia uma cláusula que a impedia de encenar outros papeis.

Ela estava condenada a ser a viúva Suelen, sua primeira personagem, por muitos e muitos anos.

Parece um episódio de Black Mirror, né?

Pois é… Mas, infelizmente, não é, não.

Trata-se de uma parábola que expressa o que acontece nas vidas de todos nós.

Quando crianças, somos chamados a ocupar um determinado lugar na dinâmica relacional de nossas famílias.

Ainda carentes de autonomia, atendemos naturalmente a essa convocação e passamos a desempenhar o papel que a vida nos designou.

Débora será a princesinha do papai, sempre em busca de proteção.

Beatriz, a reclamona que se sente injustiçada.

Carlos, o excluído inseguro de quem ninguém espera nada.

O problema é que, assim como aconteceu com Giovana, nos vemos forçados a encenar esse papel inicial pelo resto da vida.

Até que a gente encontra um psicanalista e ganha a possibilidade de rescindir esse “contrato”.


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Por que Lacan disse que o analista deve fazer semblante de objeto a?

No final da década de 1960, o psicanalista francês Jacques Lacan elaborou a teoria dos quatro discursos para pensar alguns tipos de laços sociais cristalizados na sociedade ocidental.

O agente, isto é, o protagonista de cada um desses discursos, se apresentaria, segundo o autor, com um certo semblante, ou seja, com uma aparência específica criada para gerar determinados efeitos.

No caso do discurso do analista, Lacan diz que o agente, ou seja, o próprio analista, se coloca com o semblante de objeto a, um dos quatro elementos que estão presentes em todo discurso.

Os outros três são o S1 (o significante-mestre), o S2 (o conjunto dos demais significantes, isto é, o saber, o conhecimento) e o $ (o sujeito, que, para Lacan, é necessariamente alienado e dividido).

Para compreender por que o analista deve se apresentar com o semblante de objeto a, podemos examinar os motivos pelos quais ele não deveria se colocar como nenhum dos outros 3 elementos.

Comecemos pelo S1. Por que o analista não deveria se apresentar com esse semblante?

Ora, porque se colocando na posição de significante-mestre, ele se apresentaria como uma autoridade inquestionável que determina o que o outro deve fazer.

Nesse caso, o paciente seria obrigado a se situar no lugar de discípulo.

O analista também não deveria, segundo Lacan, se apresentar como S2, ou seja, como o representante do conhecimento, pois isso o levaria a adotar uma posição professoral.

Consequentemente, o paciente precisaria se colocar necessariamente no lugar de um aluno a ser educado e não de um sujeito a ser escutado.

Lacan também diz que o analista, apesar de ser, evidentemente, um sujeito, não deveria se apresentar como tal no tratamento. Por quê?

Porque, do ponto de vista do autor, num discurso só pode haver UM sujeito.

Isso significa que, se o analista se coloca nesse lugar, o paciente necessariamente precisaria sair dele e ser forçado a assumir outra posição (a de S1, no caso).

Então, o único elemento que sobraria como semblante para o analista seria o “objeto a”, ou seja, aquilo que não governa, não ensina, não demanda, mas provoca, perturba, causa o desejo.

Situando-se nessa posição, o analista permite que o paciente possa assumir seu lugar legítimo de sujeito.

Um sujeito que, para se desalienar dos significantes-mestres que determinaram sua vida, precisa justamente ser provocado, perturbado, incitado a desejar.

Para entender melhor o que significa na prática fazer semblante de objeto a, assista à AULA ESPECIAL “Teoria lacaniana dos 4 discursos (parte 02) – o discurso da histérica e o discurso do analista”, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.

Trata-se da segunda parte da explicação que iniciamos na semana passada sobre a teoria dos quatro discursos.

A aula já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – LACAN”.


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Quem não suporta ser odiado é uma vítima perfeita para quem não tem problemas em odiar.

Um dos meus vídeos mais assistidos nas redes sociais é um corte da entrevista que dei ao meu amigo @wallace.studiolut no podcast @ovitruviano_ .

No trecho em questão, eu começo dizendo que, se uma pessoa não suporta ser odiada, ela não deveria ter filhos.

E por que falei isso?

Porque, numa relação saudável entre pais e filhos, é natural que os pais se apresentem como obstáculos para a realização de certos desejos das crianças.

Nesse sentido, é inevitável que os filhos sintam ódio e queiram expressá-lo junto a seus genitores.

Cabe aos pais serem capazes de aguentar essa hostilidade sem ressentimento e sem se vingarem.

Mas essa capacidade de suportar ser odiado não deve estar presente apenas nos pais, mas em qualquer pessoa que almeje ter relações interpessoais saudáveis.

Quem não dá conta de ser odiado é uma vítima perfeita para quem não tem problemas em odiar abertamente.

Veja o exemplo de Tábata.

Ela namora com Fernando.

Como seus pais eram muito controladores e repressores, a moça não tinha “permissão” para odiá-los quando era criança. Por isso, aprendeu a reprimir sua hostilidade.

Resultado: tornou-se aquela pessoa extremamente doce e passiva que se vê e é vista pelos outros como incapaz de fazer mal a uma mosca.

Fernando, por sua vez, encara o ódio como um sentimento normal e, sempre que se incomoda com algum comportamento da namorada, expressa sua hostilidade de modo extremamente natural.

Por não ter “aprendido” a odiar, Tábata também não “sabe” se sentir odiada.

Por isso, sempre que o namorado está chateado com ela, a moça fica desesperada e tenta de todas as formas mudar o estado de humor do rapaz, submetendo-se a todas as vontades dele.

Tábata chega ao ponto de pedir desculpas por coisas que não fez ou que não considera que foram erradas só para que Fernando volte a ficar “de bem” com ela.

Tá vendo? Quando você não suporta saber que o outro está chateado ou irritado consigo, você não consegue colocar limites e acaba se tornando vulnerável a toda sorte de manipulações.

Justamente como os pais que não aguentam a pirraça e a birra de seus filhos.


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Entenda a teoria dos 4 discursos de Lacan

No final da década de 1960, o psicanalista francês Jacques Lacan realizou um brilhante exercício de psicologia social teórica.

Refletindo sobre o funcionamento da sociedade à luz das descobertas psicanalíticas, o autor formulou um modelo interessantíssimo para pensar certos tipos de relações sociais.

Trata-se da teoria dos quatro discursos (discurso do mestre, discurso da universidade/ciência, discurso da histérica e discurso do analista).

Lacan utiliza o termo “discurso” para designar certas formas específicas de vínculos entre pessoas (ou entre pessoas e instituições) que se consolidaram ao longo da história na sociedade ocidental.

Para o autor, os quatro discursos mencionados acima possuem uma estrutura tão estável que é possível até prever o que acontecerá quando um deles é posto em funcionamento.

Veja o caso do discurso do mestre, por exemplo.

Sempre que alguém se coloca como agente desse discurso, já dá para concluir de antemão que, em breve, a posição de poder dessa pessoa estará em risco de ser perdida por conta de alguma revolta.

Utilizei o termo “agente” porque, no modelo proposto por Lacan, cada um dos quatro discursos possui uma estrutura básica composta por quatro lugares:

O AGENTE é a máscara (semblante) com que se apresenta aquele que inicia o discurso. A histérica, por exemplo, faz seu discurso aparentando ter uma falta que PODE ser preenchida pelo outro.

A VERDADE é aquilo que está na base do discurso, mas que o agente precisa esconder para sustentar seu semblante. A ciência, por exemplo, não expõe o seu inegável desejo de controle.

O OUTRO é a imagem que o agente tem daquele a quem se dirige no discurso. O analista, por exemplo, enxerga o paciente como um sujeito necessariamente alienado e dividido.

A PRODUÇÃO é o efeito colateral gerado pelo discurso e que o impede de funcionar com perfeição. No discurso do mestre, por exemplo, algo sempre escapole do controle desejado pelo agente.

Se você quiser entender tudo isso de forma mais aprofundada e em detalhes, assista à aula especial publicada hoje (sexta) na CONFRARIA ANALÍTICA.

O título da aula é “AULA ESPECIAL – Teoria lacaniana dos 4 discursos (parte 01): o discurso do mestre e o discurso da universidade” e já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – LACAN”.


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