A Psicanálise propõe um exame do Inconsciente

Outro dia, depois que eu lhe pedi para me dizer o que achava que poderia ter servido como gatilho para sua crise de ansiedade, uma paciente me respondeu mais ou menos o seguinte:

— Não sei. Eu já fiz o meu exame de consciência e não encontrei nada.

Quero tomar essa fala como ponto de partida para fazer um comentário sobre uma especificidade da Psicanálise.

“Exame de consciência” é um termo proveniente do Catolicismo. Trata-se de um exercício reflexivo que todo fiel católico deveria fazer antes de se confessar ao sacerdote.

Provavelmente, minha paciente não utilizou tal expressão nesse sentido estrito e religioso, mas simplesmente como sinônimo de reflexão consciente.

Todavia, a resposta que ela me deu é interessante porque ilustra uma das diversas ilusões humanas que a Psicanálise busca demolir.

Nesse caso, trata-se da ilusão de que podemos ter acesso consciente a todos os nossos pensamentos e impulsos motivadores.

Quando minha paciente diz que já fez o seu “exame de consciência” e não encontrou nada que pudesse justificar suas crises de ansiedade, o que ela está sugerindo?

Ora, que não haveria nenhum motivo psíquico para sua ansiedade e que, portanto, suas crises devem ter sido causadas por fatores totalmente físicos (ela disse isso explicitamente, inclusive).

Como uma típica paciente obsessiva, ela se recusa a considerar a possibilidade de que existem elementos psíquicos que não podem ser alcançados por seu “exame de consciência”.

Mas, veja: essa tendência obsessiva de supervalorizar a consciência está presente, em alguma medida, em todos nós.

Esta é uma das razões pelas quais a Psicanálise causa tanto incômodo desde que nasceu lá na final do século XIX.

Opondo-se a esse nosso apego narcísico à dimensão consciente do psiquismo, o psicanalista propõe a quem o procura um corajoso “exame do Inconsciente”.

Para fazê-lo, ao invés de meditar conscientemente sobre sua conduta, o paciente deve simplesmente ESCUTAR-SE, como um mero espectador da própria alma.

Só assim ele será capaz de SURPREENDER-SE consigo mesmo e enxergar pensamentos que jamais imaginou que pudessem habitá-lo.


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Gabriela e seu medo paranoico de estar sendo controlada

— … então ele está sempre querendo me controlar, Helena!

Após dizer isso, Gabriela se levanta do divã para pegar um pouco de água.

Helena, a psicanalista com quem Gabriela se encontra semanalmente há um ano, espera a paciente voltar a se deitar e lhe pergunta:

— Mas o que a faz pensar que o seu marido está querendo te controlar, Gabi?

— Uai, eu deixei muito claro que não iria ao aniversário do meu pai, mas ele quer me forçar a ir de qualquer jeito.

— Quando ele disse que você poderia se divertir na festa você sentiu que ele estava querendo te obrigar a comparecer?

— Senti não! Ele estava, sim, querendo me forçar. Daquele jeito dele, manso, sutil, mas estava, sim.

— E depois que você repetiu que não iria de jeito nenhum, ele continuou insistindo?

— Não, claro que não. Ele sabe que não adianta…

— Bem… Para quem estava querendo te controlar, ele parece ter desistido muito rápido, não? — indagou a analista com um tom intencionalmente jocoso.

— Ele sabe como eu sou, Helena. Ninguém me controla. Inclusive, é por isso que eu decidi não ir ao aniversário.

— Como assim?

— Você acredita que ele teve a coragem de mandar uma mensagem no grupo da família dizendo que preferia receber algum valor em dinheiro ao invés de presentes.

— Hum…

— Isso é um absurdo! Quem tem que escolher o que vai dar sou eu!

Helena entendeu que aquele era um momento apropriado para encerrar o atendimento, mas achou necessário oferecer à paciente a seguinte interpretação:

— Parece que toda vez que alguém pede ou sugere alguma coisa que vai na contramão do que você deseja, você sente isso como uma invasão e uma tentativa de controle da parte do outro.

A terapeuta continua:

— O que é bastante compreensível, na verdade. Você tem muito medo de voltar a ser aquela criança lá de trás que, REALMENTE, era controlada o tempo todo pela mãe…

A reatividade paranoica apresentada por essa paciente é um dos efeitos típicos produzidos por um ambiente intrusivo na infância.

Na AULA ESPECIAL de hoje da CONFRARIA ANALÍTICA falo sobre essa e outras consequências desse tipo de ambiente com base no pensamento do psicanalista inglês Donald Winnicott.

O título da aula é “LENDO WINNICOTT 05 – Reatividade e falso self: os efeitos de um ambiente intrusivo” e já está disponível na Confraria no módulo “AULAS ESPECIAIS – WINNICOTT”.


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Ficar arrumada dentro de casa? Era só o que faltava…

Outro dia minha esposa comentou comigo (debochando, obviamente) sobre a opinião que ela ouviu de uma dessas influenciadoras de Instagram que querem ensinar as pessoas a viver.

Segundo a tal moça, as mulheres não deveriam ter “roupa de ficar em casa”, isto é, aquelas peças que já estão meio gastas e com as quais, é claro, elas não iriam numa festa, por exemplo.

O raciocínio que está por trás dessa cag4ção de regra é o seguinte:

Se a mulher só se maquia e usa roupas novas e melhores quando sai de casa, ela estaria dizendo implicitamente para si mesma que somente os outros merecem ter acesso à sua “melhor versão”.

Nesse sentido, a pessoa que gosta de ficar em casa com aquela camisetinha velha, mas extremamente confortável, sofreria de uma “crença de não merecimento”…

Sacou? A influenciadora acha que se você não fica maquiada e “bem vestida” dentro de casa é porque NÃO SE SENTE DIGNA de se ver bonita e bem arrumada.

Se essa senhora tivesse lido um pouquinho de Winnicott, provavelmente não teria proferido tamanha sandice.

Afinal, ela confunde, de forma bastante pueril aliás, RELAXAMENTO com DESCUIDO.

Se a imensa maioria das mulheres não faz maquiagem dentro de casa é simplesmente porque NÃO QUER TER ESSE TRABALHO, ora bolas! Não se trata de desleixo.

Embora todos nós gostemos de apreciar nossas imagens quando estamos arrumados, qualquer pessoa normal sabe que, especialmente para as mulheres, se arrumar é um verdadeiro TRABALHO!

Eu imagino como deve ser desgastante a vida de uma mulher que atua no meio corporativo, por exemplo, e precisa, todo santo dia, acordar bem mais cedo para se maquiar, preparar o cabelo etc.

E a tal influenciadora está dizendo que essa mulher deveria fazer tudo isso também nos fins de semana e feriados!

Se nos permitimos ficar dentro de casa só de cueca, sem camisa, com uma blusinha desgastada ou aquela lingerie velha é justamente porque estamos num ambiente no qual podemos RELAXAR.

Um ambiente que não impõe sobre nós a obrigação de usar determinados trajes e exibir uma imagem pré-determinada.

Um ambiente onde… ufa! Podemos simplesmente ser. Sem precisar PARECER.


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Um jovem obsessivo carente de pai

Antônio está no início da vida adulta e procura terapia queixando-se de estar infeliz no trabalho, de se m4sturb4r em excesso e, principalmente, da posição que ocupa em seu núcleo familiar.

Com efeito, desde o fim da adolescência, o rapaz assumiu a responsabilidade de dividir as contas de casa com a mãe e hoje sofre imaginando que terá que cuidar da genitora pelo resto da vida.

O mal-estar que Antônio vivencia no trabalho decorre das brincadeiras que colegas mais velhos fazem com ele, que o levam se sentir humilhado.

De fato, o jovem não possui autoestima e autoconfiança suficientes para se contrapor aos companheiros ou encarar as piadas deles com bom humor.

Antônio não se percebe como um homem atraente e teme não conseguir arrumar uma namorada. Por isso, cogita a possibilidade de contratar acompanhantes para se satisfazer s3xu4lmente.

Quando ainda era bebê, o pai e a mãe se separaram e, posteriormente, o jovem só visitou o genitor pouquíssimas vezes, de modo que a relação entre eles praticamente nunca existiu.

Por outro lado, Antônio guarda na memória certos traços da figura paterna que formam a imagem de um pai fraco, imaturo e emocionalmente instável.

Imaturidade e fragilidade emocional também são características marcantes de sua mãe…

Inseguro, pessimista em relação ao próprio futuro e perdido no labirinto de sua neurose, o rapaz frequentemente demanda orientações e, sobretudo, AUTORIZAÇÕES a sua terapeuta.

Como compreender a gênese da postura autodepreciativa e derrotista de Antônio?

O que está em jogo na relação de dependência que parece existir entre ele e a mãe?

Por que esse jovem parece se apresentar a sua analista como uma criança carente de orientação e permissão para desejar?

Essas e outras questões são discutidas por mim na AULA ESPECIAL “Um jovem obsessivo carente de pai”, já disponível para quem está na CONFRARIA ANALÍTICA.

Esta é a primeira aula do nosso novo módulo de aulas especiais “Estudos de Casos”, em que comento casos clínicos reais como o de Antônio, relatados por alunos da nossa escola.


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A criança magoada que você foi ainda está chorando?

Por que minha mãe não me tratou com carinho?

Por que meu pai não me deu o apoio de que eu precisava?

Por que minha mãe era tão dura e insensível?

Por que meu pai saiu de casa?

Todas essas perguntas são compreensíveis e é natural que elas brotem na alma de uma criança que, infelizmente, não teve uma infância ideal.

Sim, o ideal seria que todas as mães fossem carinhosas com seus filhos.

O ideal seria que todos os pais oferecessem o suporte necessário para o desenvolvimento de seus filhos.

O ideal seria que todas as mães conseguissem ser suficientemente empáticas e maleáveis.

O ideal seria que nenhuma criança precisasse passar pela dolorosa ruptura do vínculo conjugal entre os seus pais.

Todas essas coisas DEVERIAM acontecer.

Mas, infelizmente, elas nem sempre acontecem. Aliás, com muita frequência não acontecem.

E, se é assim, o que fazer, então?

Gastar boa parte da nossa preciosa e limitada energia psíquica com perguntas do tipo que eu apresentei no início deste texto?

Ou seguir em frente, renunciando ao inútil desejo de alterar o passado, sem deixar de reconhecer que nossa infância de fato não foi como DEVERIA ter sido?

Veja: o anseio de querer voltar no tempo e mudar o comportamento dos nossos pais é totalmente compreensível, mas não deixa de ser tolo.

Ele é proveniente da criança frustrada, ressentida, machucada ou desamparada que ainda sobrevive no psiquismo adulto.

Na terapia psicanalítica, nós acolhemos essa dimensão infantil e encorajamos nossos pacientes a pensar sobre ela.

Todavia, o que buscamos, no fim das contas, é ajudar o sujeito a se EMANCIPAR dessa criança magoada (com razão, na maioria das vezes) que ele um dia foi.

Para isso, estimulamos nossos pacientes a utilizarem seu tempo e sua energia para CRIAREM e CONSTRUÍREM ao invés de gastarem esses recursos valiosíssimos com inúteis lamentações.

Não é nada fácil dar conta de fazer isso. Ainda mais sozinho, sem o apoio de um bom terapeuta.

A criança magoada que fomos chora muito. E chora alto.

Mas é preciso mostrar a ela que, embora aqueles primeiros jogos tenham sido perdidos, ainda há muitas outras partidas por disputar…


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O homem que via sua esposa como um negócio

— Então você tá pensando em se separar? — pergunta Fernanda, a psicóloga com quem Márcio faz terapia há cerca de um ano.

— Sim, mas eu sempre penso nisso quando acontecem essas situações e acabo desistindo. — responde o advogado.

— Por que será, hein? — provoca a terapeuta em tom bem-humorado.

— Eu não gosto de mudança, Fernanda. Me dá uma aflição só de pensar que eu vou ter que sair de casa, alugar um apartamento, alterar toda a minha rotina…

— “Aflição”… Agora há pouco você disse que também fica aflito quando a sua esposa não quer tr4nsar…

— É que eu não consigo entender, Fernanda. Eu a trato com carinho desde o começo do dia, do jeito que ela me pede e aí, à noite, ela simplesmente diz que não tá a fim.

— Você fala como se fosse uma questão quase matemática, mas, no fim do dia, a conta não fecha, né?

— Exatamente. É por isso que eu fico aflito. Na minha cabeça não faz sentido a recusa dela.

— E você pergunta por que ela não quer?

— Claro! Ela só responde que não tá a fim, que não é porque eu tô com vontade que ela tem obrigação de fazer.

— E o que você acha disso?

— Racionalmente, eu concordo com ela. Mas, mesmo assim, eu acho injusto. Eu não sou esses caras babacas que só procuram a mulher para fazer s3xo.

— Hum…

— Eu sou um cara prestativo, estou sempre perguntando se ela está precisando de alguma coisa, elogio… Então, quando ela se nega a tr4ns4r comigo sem motivo, eu me sinto um completo idiota.

— Parece que você encara o s3xo como uma espécie de retorno do investimento que faz na sua esposa.

— Isso, Fernanda! Você traduziu o que tá na minha cabeça! Se eu invisto num negócio é porque eu espero que ele me dê lucro, né? Se não, não vale a pena o investimento, ué!

— É verdade, meu caro. O problema é que a sua esposa não é um… negócio, né? — intervém a psicóloga encerrando a sessão.

A visão desse paciente sobre sua esposa e a recusa dela em fazer s3xo apesar de todo o “investimento” que ele faz ilustram o relacionamento típico entre o obsessivo e a histérica.

Falo mais detalhadamente sobre o enlace tão comum entre essas duas estruturas na AULA ESPECIAL “O obsessivo e a histérica: casal (im)perfeito”, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.


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Você tem engolido seu parceiro?

Nas últimas aulas ao vivo da CONFRARIA ANALÍTICA tenho conversado com os alunos sobre as formas maduras e imaturas de relacionamento amoroso.

Para você que ainda não faz parte da nossa escola, vou explicar o contexto:

Estamos estudando minuciosamente um artigo de Freud chamado “Luto e Melancolia”.

A certa altura do texto, o autor desenvolve a ideia de que haveria na melancolia (depressão grave) uma regressão inconsciente à fase oral do desenvolvimento.

Freud faz essa inferência ao constatar que o sujeito melancólico simbolicamente “engole” a pessoa que provocou sua depressão, identificando-se com ela.

Essa curiosa forma de amar é característica da fase oral.

Nessa etapa do desenvolvimento (0 a 2 anos aproximadamente), o bebê se relaciona com seus objetos de amor querendo comê-los, devorá-los, engoli-los.

O problema é que esse tipo de vínculo implica necessariamente no APAGAMENTO do outro.

De fato, na cabecinha do recém-nascido, ele interage com a versão IMAGINÁRIA do seio materno que devorou e engoliu e não com o seio REAL que permanece do lado de fora.

O bebê só consegue se relacionar dessa forma porque se encontra numa condição ainda muito vulnerável, em que depende integralmente do outro que dele cuida.

Por isso, com medo de ficar sozinho, ele fantasia com a possibilidade de trazer esse outro para dentro de si a fim de eternizar a ligação com ele.

Muitas pessoas adultas, sem perceberem, continuam se relacionando dessa forma tipicamente infantil com seus parceiros amorosos.

Inconscientemente elas ainda estão presas lá na fase oral, enxergando-se como bebês e colocando o parceiro numa posição materna.

Tal como uma criança recém-nascida, encaram a possibilidade de perderem o outro como uma catástrofe insuportável e, por isso, se esforçam para ENGOLI-LO a qualquer custo.

Muitas relações abusivas, inclusive, só se mantêm porque o “abusado” está preso a essa forma imatura de amar.

Fixado à fase oral, o sujeito acha que não dará conta de viver sem o outro e, assim, acaba engolindo o parceiro e seus abusos ao invés de colocar um ponto final naquele vínculo tóxico.


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O analista não deixa nada passar batido

Larissa entrou em contato com a psicanalista Paula por conta da dificuldade que estava tendo para se desvincular de Bruno, seu ex-namorado.

Quando começou a análise, a moça não conseguia resistir às investidas do rapaz, que vivia chamando-a para uns “flashbacks”, como ele dizia.

Larissa sabia que Bruno não tinha o menor interesse em voltar, mas não conseguia recusar.

A vã esperança de reatar o relacionamento a impedia de dizer não.

Agora, com a terapia, a jovem tem dado conta de evitar tais encontros, mas ainda fantasia com a vida que poderiam ter se tivessem permanecido juntos.

Na última sessão, comentando que o ex havia reagido com um emoji de foguinho a um de seus stories, a paciente disse:

— Tá vendo, Paula? O cara tá namorando, a menina é super gente boa (eu a conheço) e ele fica mandando foguinho pra mim? É um… (silêncio). Sei lá, eu preciso bloqueá-lo!

— “É um…” o quê, Larissa?

— Como assim?

—  Você começou a frase, mas não terminou. Parece que você ia dizer que o Bruno é um… alguma coisa.

— Ah, tá! Acho que eu ia dizer que ele é um cafajeste. (risos)

— E por que será que você não falou?

— Uai, não sei… Acho que a raiva é tanta que eu nem consigo falar direito.

— Mas por que será que você parou logo na hora em que iria falar a palavra “cafajeste”? —  insiste a terapeuta.

— Não faço a menor ideia… Mas “cafajeste” era uma palavra que eu ouvia muito lá em casa. Direto minha mãe a utilizava para falar do meu pai: “Aquele cafajeste do seu pai fez isso, fez aquilo”.

— Hum… Então será que o Bruno e o seu pai têm algo em comum?

Larissa passou, então, a explorar a relação entre a dificuldade de se afastar do ex-namorado, o vínculo com o pai e a identificação com a figura materna.

Isso só foi possível porque Paula não deixou passar batida a forma sutil de resistência que se manifestou na fala da paciente quando ela não concluiu a frase “É um…”.

Na AULA ESPECIAL de hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, falo sobre essa e mais 11 outras manifestações sutis de resistência que costumam aparecer na terapia psicanalítica.

A aula estará disponível ainda hoje (sexta) no módulo “AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS”, exclusivamente para quem está na Confraria.


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Relaxa… odiar é normal!

Uma das coisas que eu mais gosto na Psicanálise é o fato de que ela retira os “fardos pesados” que a farisaísmo social insiste em colocar sobre nós.

Se você postar nos seus stories ou em qualquer outra rede social a frase “Gente, eu tô com um ódio do meu marido!”, muita gente achará que há um problema grave no seu relacionamento.

É provável até que algum Ricardão se sinta encorajado a lhe mandar um direct com o clássico “Oi, sumida…”. 😏

Poucas pessoas vão olhar para a sua postagem e simplesmente pensar: “É, faz parte. De vez em quando a gente odeia a quem ama mesmo.”.

Infelizmente, prevalece no senso comum uma visão completamente falsa e idealizada das relações amorosas na qual a presença do ódio é vista necessariamente como um erro.

Ora, é absolutamente impossível amar uma pessoa sem odiá-la AO MESMO TEMPO.

Qualquer pessoa minimamente honesta consigo mesma jamais negaria a veracidade dessa afirmação.

Eugen Bleuler chamou de AMBIVALÊNCIA essa mistura inevitável de sentimentos que ocorre não só nas relações amorosas mas em praticamente todo relacionamento interpessoal.

Nas últimas aulas ao vivo da CONFRARIA ANALÍTICA tenho estudado com os alunos como a dificuldade de assumir a ambivalência pode levar ao adoecimento emocional.

Muitas pessoas entram em depressão, por exemplo, porque não se permitem odiar abertamente seus parceiros. Elas descarregam em si o ódio que era direcionado ao outro.

Sem falar nos obsessivos que morrem de culpa por sentirem essa hostilidade impossível de conter.

Parte dessa dificuldade de admitir o ódio está relacionada à visão idealizada e hipócrita das relações humanas que eu mencionei anteriormente.

Muitas pessoas se martirizam quando experimentam esse afeto porque aprenderam desde cedo que não se deve odiar JAMAIS sob pena de serem… ODIADAS por Deus! 🤡

A Psicanálise, em contrapartida, nos mostra que odiar, inclusive aqueles que amamos, é não só normal como inevitável.

Como seres naturalmente dotados de inclinações agressivas e apaixonados por nosso próprio ego, jamais conseguiríamos nos relacionar uns com os outros na base do “só love, só love”…


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Fibromialgia e Psicanálise: um exemplo clínico

— Você se lembra quando começou? — pergunta Flávia, a psicóloga que Bruna procurou por indicação de sua médica.

— Eu não tenho certeza, mas acho que foi depois da morte do Léo.

— Vocês estavam casados há quanto tempo?

Bruna abaixou a cabeça e a terapeuta pôde notar algumas lágrimas despencando no jeans que a paciente trajava.

— Quatro meses — respondeu a advogada depois de alguns segundos em silêncio.

Com um semblante empático, a psicóloga mirou os olhos de Bruna, levando a paciente a sentir suficientemente acolhida para continuar a falar.

— Eu lembro que na hora em que me ligaram para contar da batida, senti uma dor tão grande, Flávia, que parecia que estavam me dando uma facada bem aqui no peito.

— Uma dor que ainda não passou, né Bruna? — pontuou a terapeuta.

— Nossa, mas era diferente… Eu acho que essas dores da fibromialgia nem se comparam com o que eu senti nesse dia. O Léo era o amor da minha vida, Flávia!

Após dizer isso, a paciente começou a chorar convulsivamente. A psicóloga se levantou e pegou um copo com água.

Depois de alguns minutos, Bruna se recompôs e voltou a falar:

— Às vezes eu acho que tem uma maldição em cima de mim, sabe? Os quatro meses que passei casada com o Léo foram o único momento realmente feliz que eu tive na vida.

— Por que você diz isso?

— Por que lá em casa sempre foi um inferno, Flávia. Lembra daquela surra que eu te contei que a minha mãe levou do meu pai? Eu via aquilo direto… Não gosto nem de lembrar…

— A fibromialgia não te deixa esquecer…

— Como assim?

Flávia cogitou encerrar a sessão naquele momento, mas, considerando o estado vulnerável que a paciente apresentava, decidiu que era importante oferecer alguma explicação:

— Essas dores que passeiam pelo seu CORPO, Bruna, talvez simbolizem todas as OUTRAS dores, muito mais intensas, que você tem carregado na ALMA…

A hipótese com a qual Flávia está trabalhando é a de que a fibromialgia da qual padece a paciente é produto da conversão de suas dores psíquicas para o corpo.

Falo detalhadamente sobre essa forma de abordar o sofrimento fibromiálgico na AULA ESPECIAL “Fibromialgia: considerações psicanalíticas”, já disponível na CONFRARIA ANALÍTICA.


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Sentido: a maquiagem da vida

Por que as mulheres usam maquiagem?

A resposta é simples: para ficarem mais bonitas.

Elas querem esconder manchas, marcas, rugas; realçar os lábios, os cílios, as maçãs do rosto.

Enfim… Querem PRODUZIR uma imagem de si que lhes pareça mais bela.

Não por acaso as mulheres dizem que vão “SE PRODUZIR” ao se referirem ao ato de fazer maquiagem.

Nossos propósitos, projetos, sentidos constituem a maquiagem da vida.

O rosto que uma mulher tem diante de si no espelho depois de ter se maquiado não é o seu rosto REAL.

Trata-se de uma imagem PRODUZIDA que será desfeita ao fim da noite com creme demaquilante.

Todavia, nenhuma mulher se sente falsa ao sair de casa maquiada. Ela sabe que aquele não é o seu rosto real, mas é a face que ela DESEJA ter e mostrar ao mundo.

A ilusão CONSCIENTE de ter aquele rosto por algumas horas é suficiente para que ela se sinta bem consigo mesma.

Podemos encarar nossos propósitos também como ilusões conscientes cuja finalidade, tal como a maquiagem feminina, é simplesmente tornar a existência mais bela e interessante.

Quando algum paciente deprimido me diz que não consegue ver sentido na vida, eu lhe respondo:

“Você está vendo a existência tal como ela é. Na depressão, a gente enxerga a vida nua e crua. Ela não tem sentido mesmo.”

O problema do deprimido não é que ele não consegue mais VER sentido na vida. O que ele, de fato, perdeu é a capacidade de INVENTAR sentidos para sua existência.

Frequentemente, a gente se engana achando que um dia ENCONTRAREMOS um sentido existencial já pronto.

Na verdade, “casar-se”, “constituir família”, “ganhar dinheiro”, “ter realização profissional” etc. não são projetos inerentes à vida.

Não há nenhuma razão NATURAL que justifique a existência deles. Podemos tê-los ou não tê-los. No Real, tanto faz…

Na verdade, trata-se de propósitos que a gente INVENTA para MAQUIAR a falta real de sentido da vida.

E tá tudo bem!

Ninguém em sã consciência condenará uma mulher que se maquia por supostamente apresentar uma imagem de si que não corresponde à realidade.

Da mesma forma, podemos reconhecer que, NO REAL, a vida não tem sentido mesmo, mas saber que é muito mais belo e interessante viver COMO SE ela tivesse.


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Problemas com autoridade e complexo de Édipo

— … e agora, não sei por que, passei a me sentir meio intimidado para conversar com ele, sabe?

Quem está falando é Geovane, um administrador de 26 anos que está há 4 meses em análise com a psicóloga Lavínia.

Recentemente, um de seus colegas de serviço aceitou o convite para se tornar gerente do setor em que Geovane trabalha.

É sobre a relação com esse colega que o rapaz está falando com Lavínia.

— Antes de ele virar gerente, você tinha que ver: a gente se zoava, brincava, eu conversava com ele de boa. Agora mudou tudo!

— Foi só você quem mudou ou ele também? — pergunta a psicóloga.

— Bem… Eu acho que fui mais eu mesmo. Ele até continua tentando brincar comigo, me chama para ir nos churrascos na casa dele, mas eu acabo ficando meio acanhado, sei lá…

— “Acanhado”?

Geovane continua, num tom bem-humorado:

— É…Agora, quando a gente vai conversar, parece que eu tô falando com o meu pai…

— Hum… Continue… — diz a terapeuta — essa história tá ficando interessante…

— Eu sempre me senti intimidado para conversar com meu pai. Ele é daqueles caras muito sérios, sabe? Bravo, de poucas palavras…

— E como era a relação entre ele e a sua mãe?

— Eles não eram muito de brigar, mas era cada um no seu canto. Meu pai com os jornais que ele adorava ler e minha mãe se divertindo comigo.

— “Se divertindo com VOCÊ?” — indagou a terapeuta enfatizando a última palavra.

— Isso. Até hoje tenho a impressão de que eu era a alegria da vida da minha mãe. Se eu não tivesse nascido, acho que ela não teria suportado ficar casada com um cara tão chato como o meu pai.

— Mas hoje você não mora mais com ela e eles continuam juntos…

— Pois é… Não consigo entender isso. Minha mãe merecia um cara muito melhor do lado dela.

— Tipo você, assim? — brincou Lavínia, encerrando a sessão.

Como você pôde perceber, Geovane transferiu a rivalidade inconsciente com o pai para a relação com seu colega de trabalho, pois esse passou a exercer um papel de autoridade junto ao rapaz.

Dificuldade de se relacionar com autoridades é um dos sinais que podem indicar a existência de um complexo de Édipo mal resolvido — tema da AULA ESPECIAL de hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.

A aula estará disponível ainda hoje no módulo “AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS”. Para assinar a Confraria, é só clicar aqui.


Participe, por apenas R$49,99 por mês ou 497,00 por ano, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.

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“Levante-se, pegue o seu leito e ande”: um Jesus lacaniano

Outro dia eu abri uma caixinha de perguntas lá no Instagram e uma moça me enviou o seguinte questionamento:

“Tenho depressão, faço análise há 17 anos e não melhoro. O que pode ser?”.

Eu respondi com o trecho do Evangelho de São João que narra o encontro de Jesus com um doente em “Betesda”, uma piscina pública de Jerusalém.

A passagem termina com o homem curado de sua paralisia após ter ouvido do rabino a seguinte exortação:

“Levante-se, pegue o seu leito e ande.”.

Alguns seguidores interpretaram erroneamente que eu estaria sugerindo à pessoa que a depressão dela só seria curada pela fé. 🤦‍♂️

Nada a ver!

Do meu ponto de vista, a referida passagem pode ser interpretada sem qualquer referência a aspectos religiosos.

Não precisamos encarar a cura obtida pelo paralítico necessariamente como um milagre.

Podemos pensá-la tão-somente como o efeito da astuta intervenção psicanalítica feita por Jesus. Senão, vejamos:

Quando o rabino pergunta ao doente se ele não queria ficar curado, a resposta do sujeito revela, nas entrelinhas, o GOZO que, de fato, sustenta sua enfermidade.

O cara sequer diz que quer, sim, ser curado. Em vez disso, ele JUSTIFICA por que está há anos ali, à beira da piscina:

“Não tenho ninguém para me colocar no tanque na hora em que o anjo passa. Aí, enquanto eu me arrasto para entrar na água, outra pessoa desce antes de mim.”.

Perceba: esse sujeito está preso à ideia fixa de que ele só será curado MIRACULOSAMENTE pela SUPOSTA passagem do anjo.

E o pior é que, mesmo sabendo que dificilmente conseguirá ser o primeiro a entrar na piscina, o infeliz continua ali, nutrindo a expectativa completamente ilusória de um dia conseguir.

É por isso que Jesus pergunta para ele:

“Uai, cê não quer ficar curado, não?”.

Esse questionamento pode ser lido como uma espécie de interpretação à moda lacaniana na medida em que faz alusão à SATISFAÇÃO com a doença que o paralítico não é capaz de reconhecer.

Ora, se ele SABE que é quase impossível ser o primeiro a entrar na água, por que continua inerte ali, à beira da piscina?

Por que não vai em busca de uma alternativa?

Por que não EXPERIMENTA simplesmente… levantar, pegar o seu leito e andar? 😉


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Às vezes a gente até enxerga a verdade, mas não consegue aceitá-la…

— Mais uma vez eu não consegui me segurar, Marcela.

Foi com essa fala que Arthur iniciou sua 53ª sessão de terapia com aquela analista.

Sim, ele havia contado.

— Hum… — respondeu Marcela incentivando o paciente a continuar.

— Foi igualzinho como daquela outra vez lá no restaurante: o telefone dela tocou, ela olhou e não quis atender dizendo que devia ser a operadora do celular querendo enfiar alguma promoção.

— E aí?

— Aí o de sempre, né? Eu não consigo acreditar, não sei por que… Falei para ela me dar o telefone que eu queria ver o número.

— E ela te deu?

— Dessa vez, não. Ela falou que não aceitaria mais aquilo, que ou eu confiava nela ou a gente não ficaria junto. Aí eu comecei a falar mais alto, pedindo o celular e tentando tirar da mão dela.

— Onde vocês estavam?

— Na fila do cinema… As pessoas começaram a olhar, mas mesmo assim ela não queria me dar o telefone de jeito nenhum. Aí eu fiquei tão nervoso que saí da fila e deixei ela lá sozinha.

— Do mesmo jeito que a sua mãe fazia com o seu pai, né? — lembrou a analista.

— Exatamente… Mas como é que muda isso, Marcela? Eu já entendi que, de certa forma, eu tô reproduzindo o mesmo ciúme doentio da minha mãe, mas e aí?

— É curioso que você só tenha percebido isso aqui em análise, não acha?

— É… Eu sempre fui ciumento e desde criança vejo as loucuras de ciúme da minha mãe, mas foi só conversando com você que liguei uma coisa com a outra.

— Por que será que você passou anos sem conseguir fazer essa conexão?

— Não faço a menor ideia…

— Talvez essa resistência a se perceber parecido com sua mãe ainda não tenha sido vencida. Uma coisa é enxergar a verdade, outra é aceitá-la…

Com essa intervenção, a terapeuta Marcela pretende mostrar ao paciente que a mera tomada de consciência não é suficiente para produzir a melhora clínica desejada.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá hoje uma aula especial que trata justamente desse assunto.

O título dela é “LENDO FERENCZI 06 – Reconhecer o recalcado não é suficiente” e está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – FERENCZI”.


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De boas intenções o inferno está cheio

Tenho certeza de que foi o encantamento transferencial por certos professores o que fez com que eu me apaixonasse pela Psicanálise.

No entanto, acho que outros fatores podem ter dado uma forcinha.

Um deles é a oposição que a Psicanálise faz a qualquer forma de HIPOCRISIA.

Desde a adolescência, formou-se em mim a suspeita de que, por trás de muitos atos supostamente feitos em nome de “boas intenções” haveria motivações nada “nobres”.

Quando encontrei a Psicanálise, tal desconfiança converteu-se em certeza.

Afinal, as descobertas psicanalíticas mostram que os mesmos impulsos que suscitam comportamentos considerados “perversos” ou criminosos estão presentes em TODAS as pessoas.

O mesmo gozo sádico de alguém que pratica a tortura pode estar presente, de modo disfarçado, no benévolo exercício de uma função como a liderança, por exemplo.

Em outras palavras, um torturador sanguinário e o gerente de uma empresa cheio de boas intenções podem estar sendo motivados pelos mesmos impulsos sádicos.

O próprio torturador pode se enganar achando que atua em nome do bem da sociedade, quando, na verdade, o que de fato o estimula é simplesmente o desejo de machucar outras pessoas.

Num artigo chamado “Importância da Psicanálise na Justiça e na Sociedade”, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi diz o seguinte:

“Indiscutivelmente, a punição legal não é apenas uma instituição prática a serviço da defesa da sociedade, uma medida visando corrigir o culpado e destinada a ter um valor exemplar, mas satisfaz igualmente o nosso desejo de vingança.”

Mais à frente, ele continua:

“Quando procuramos entender […] o que provoca esse desejo de vingança, constatamos que é a nossa revolta inconsciente diante do culpado que ousa traduzir em atos o que existe em nós próprios em estado latente e que temos tanta dificuldade em controlar; evitamos o culpado com horror, pelo receio inconsciente de ceder a um contágio fácil.”

À luz da Psicanálise, não existem, a rigor, “pessoas de bem” ou “pessoas do bem”.

O máximo que podemos dizer é que tem gente que consegue controlar e canalizar seus impulsos para objetivos socialmente benéficos e tem gente que não dá conta de fazer isso.


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