Winnicott e o cristianismo VII – Da maturidade da fé cristã face à puerilidade do paganismo

À guisa de introdução a este ensaio, abordarei alguns pressupostos da teoria winnicottiana  já descritos nos outros textos, mas que aqui em especial terão uma relevância maior. O núcleo das teses inovadoras de Winnicott para a psicanálise pode ser definido como sendo a dialética entre dois pólos: de um lado a tendência inata ao amadurecimento, à saúde, ao desenvolvimento e de outro o ambiente que, em sendo suficientemente bom permitirá a atualização daquela tendência ou, em sendo insuficiente e invasivo, colocará obstáculos à potência inata, fazendo com que o sujeito tenha que criar formas reativas de adaptação ao ambiente, o que, em outras palavras, redundará em imaturidade.

O conceito de amadurecimento não tem absolutamente nada a ver com o sentido que essa palavra adquiriu no senso comum. O amadurecimento winnicottiano expressa exatamente o contrário de um controle dos impulsos e uma adaptação eficaz ao meio social, o que subjaz à idéia de maturidade no blábláblá cotidiano. Em outros termos, o indivíduo maduro para Winnicott não é o indivíduo careta, mas sim o sujeito que consegue ver sentido na vida e sentir-se criativo. Para alcançar essa maturidade, é preciso que a pessoa tenha experimentado suas tendências inatas dentro de um ambiente suficientemente bom que, como dissemos antes, possibilita a colocação dessas tendências em ato. Essas visam à realizam de tarefas básicas da existência que, se realizadas, terão como conseqüência a formação de um indivíduo maduro. Correndo o risco da simplificação, poderíamos sintetizar essas tarefas da seguinte forma:

 

1. Integração: capacidade que o bebê adquire de conjugar as diversas experiências pelas quais passa num mesmo contínuo, percebendo a si mesmo como uma mesma pessoa que experimentou diversos momentos e não como várias pessoas experimentando cada uma um momento diferente.

2. Personalização: capacidade de integrar suas vivências subjetivas à experiência do corpo, percebendo-se como estando inserido no corpo, o qual é limitado pela pele.

3. Experiência criativa do mundo: ao fornecer um cuidado suficientemente bom, a mãe atende satisfatoriamente as necessidades do bebê, fazendo com que ele tenha a ilusão de ter sido ele próprio a criar os objetos que lhes satisfazem as necessidades. O bebê adquire, portanto, o sentimento de que é possível criar um mundo.

4. Sentimento ético espontâneo: quando ainda não realizou a tarefa da integração, o bebê ainda não consegue reconhecer-se como a mesma pessoa nas diferentes situações. Por conseguinte, também não consegue perceber que não obstante as experiências mudem, o mundo permanece o mesmo. O mundo, no caso, para o lactente, ainda é apenas a mãe. Logo, o bebê que mama com uma voracidade agressiva não é o mesmo bebê que, saciado, desfruta do aconchego materno. Assim também a mãe que é “atacada” por aquela voracidade toda e que, por conta disso, acaba sendo “machucada” não é a mesma mãe que cuida, que lhe dá segurança. Essas duas realidades do bebê e essas duas realidades do mundo que é a mãe só serão integradas e vistas como duas facetas de uma mesma realidade após a conquista do estágio de integração. Quando isso ocorre, acontece uma espécie de insight na cabeça do bebê e ele então se dá conta não só da agressividade que o habita como também do uso que fez dessa agressividade contra a mãe que lhe aconchegava e lhe sustentava. Ocorre então a emergência do sentimento que Winnicott chama de concern, isto é, um sentimento de preocupação, de concernimento, de compaixão pelo outro que, no caso, é a mãe. Se essa mãe for suficientemente boa ela aceitará um ato de reparação que o bebê fará como forma de se desculpar pelos danos causados a ela nos momentos de voracidade.

 

Essa última tarefa é a mais complexa das quatro, mas também a mais instrutiva. Ela contextualiza de que modo o outro emerge na realidade da criança e evidencia a necessidade da separação entre esse outro e o bebê para a existência de uma relação de amor entre eles. É justamente em torno dessa separação que gira nossa analogia nesse momento.

A maior parte dos leitores e estudiosos de Winnicott tenta extrair de sua obra algumas conseqüências para o entendimento do sentimento religioso. E essa maioria é unânime em dizer que Winnicott propõe uma concepção imanentista da divindade, bastante comum nas religiões orientais. Deus não seria transcendente a nós, mas seria uma espécie de Alma Universal da qual somos partes, de modo que o verdadeiro exercício religioso seria uma conexão entre nós (partes) e Deus (todo). Para isso fazem uso de uma origem etimológica suspeita do vocábulo religião, que seria a palavra latina religare (religar). A verdadeira religião seria um religare com o cosmos, pois Deus seria o cosmos.

De que forma usam a teoria de Winnicott para justificar essa idéia? Simples: Winnicott não diz que nós só nos constituímos como pessoas em meio a um ambiente suficientemente bom? Portanto, há uma continuidade entre nós e o ambiente, de modo que nós não podemos ser vistos como separados dele. Logo, se quisermos pensar no tema da religião a partir dessas teses, Deus seria identificado com o ambiente e o homem com o bebê. Nada mais óbvio. É essa analogia que nos próprios estamos utilizando desde o primeiro ensaio dessa série. Deus é a mãe suficientemente boa. O problema desses intérpretes da obra de Winnicott é de identificar Deus à mãe anterior ao alcance da integração, ou seja, à mãe na fase de dependência absoluta, em que o bebê não consegue distinguir a si mesmo da mãe. É por isso que para esses intérpretes há uma semelhança entre a teoria winnicottiana e as religiões orientais. Se nessas o objetivo da existência é um religare ao Todo, analogamente em Winnicott isso se converteria num retorno à fase de dependência absoluta em que a individualidade do bebê não existe. É exatamente o apagamento da individualidade o que pretendem as religiões orientais.

O problema é que na teoria de Winnicott isso corresponde ao sentido diametralmente oposto ao da tendência inata ao amadurecimento. Amadurecer, na perspectiva winnicottiana, significa justamente tornar-se cada vez mais independente, singular, distinto do ambiente, ou seja, trata-se de um processo de individuação, para utilizar um termo de Jung, e não de uma desconstrução de uma individualidade para a integração no Todo. Portanto, associar as teses de Winnicott às religiões orientais é um procedimento radicalmente equivocado, a não ser que, à revelia dos textos do pediatra inglês, se diga que o sentido da vida é caminhar rumo à imaturidade, ao retorno à dependência absoluta.

Contrariamente a essa perspectiva, o Cristianismo não pressupõe um Deus imanente identificado a uma suposta Alma do Mundo. Na perspectiva cristã, Deus é uma pessoa, distinta de nós. Tudo está em Deus, mas Deus não pode ser reduzido ao Todo. Ele intervém no mundo, não é o Mundo. E é justamente por ser distinto de nós é que nós podemos amá-Lo e Ele pode nos amar, da mesma forma que o bebê só pode sentir compaixão da mãe e, portanto, amar a mãe, ao perceber-se distinto dela. O Cristianismo não postula a necessidade de integração com o Cosmos. Ao converter-se, isto é, ao adquirir a consciência do Reino de Deus, o homem passa a ter um relacionamento pessoal com Deus, um relacionamento de amor, em que Deus, tal como a mãe suficientemente boa que aceita o gesto de reparação do bebê e não se vinga da agressividade a ela dirigida outrora, perdoa o homem de seus pecados. No Cristianismo, contrariamente às religiões orientais, o sujeito é convidado a cada vez ser mais si mesmo no sentido de tornar-se cada vez mais impermeável aos condicionamentos externos, pois a Rocha que o sustenta (que é Deus) está dentro dele mesmo, de modo que, em sendo construída sobre essa Rocha, a casa do seu Eu não desabará mesmo que venha a enchente e a tempestade.

Isso não significa que para o cristão existe uma separação radical entre ele e Deus, do mesmo modo que não se pode dizer que o bebê após o reconhecimento da mãe como outro poderá viver sem seus cuidados. Jesus, ao subir aos Céus, disse que estaria conosco até o fim dos tempos. E ele está com o cristão o tempo todo através do Espírito Santo que é Jesus em nós e que faz com que nós sejamos Nele. O bebê também, para Winnicott, não se torna independente dos cuidados maternos mesmo quando já não é mais bebê e sim um adulto com seus 30, 40, 50 anos. Esse cuidado sofre um processo de incorporação pelo sujeito de modo que, mesmo não existindo como realidade exterior, ele funciona no mundo interior como fonte de segurança e de sustentação. Trabalharemos um pouco mais essa analogia no próximo ensaio.

Por ora, podemos concluir que, se para Winnicott a tendência ao amadurecimento caminha numa via que vai da dependência absoluta à independência, ou seja, é um processo de individuação, em absoluto se pode dizer que uma perspectiva winnicottiana para a religiosidade desembocaria nas religiões orientais para as quais o verdadeiro sentido da existência é precisamente o oposto, ou seja, a “desindividuação”, isto é, o apagamento de si mesmo para a integração no Deus-Cosmos. Se há uma fé cujos princípios são análogos ao processo de maturação winnicottiano, é a fé cristã. Pois se o bebê está amadurecendo quando se dá conta de que a mãe, outrora todo o seu mundo, é uma pessoa distinta dele, ao reconhecer a Deus como transcendente ao homem e distinto da Natureza, o cristão demonstra a maturidade da fé cristã face às religiões orientais. Um taoísta ou um budista é como o bebê de Winnicott na fase de dependência relativa (em que a mãe começa a falhar e o bebê começa a se integrar e se dar conta da realidade externa) que assustado e com medo de ser aniquilado deseja com todas as forças o retorno à fase de dependência absoluta em que ele e a mãe eram Um, ou seja, busca voltar a um estágio anterior do processo de maturação por não conseguir lidar com a angústia de ser si mesmo. O cristão, pelo contrário, é como o bebê que, ao contar com uma mãe suficientemente boa (figura da Graça de Deus) consegue enfrentar a angústia de ter que lidar com suas próprias carências e com a realidade externa. E só consegue isso porque não quer ser Um com Deus, mas por que tem Deus dentro de si.

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Winnicott e o cristianismo VI – a gênese da moralidade e a ética cristã

Por que não fazemos tudo o que queremos? Essa questão, aparentemente banal e de fácil resolução, não obstante está no cerne das discussões concernentes aos domínios da moral e da ética. Poderíamos formulá-la em outros termos tais como: “Por que muitas vezes sentimos o desejo de agredir e até matar determinadas pessoas e não o fazemos?” Uma resposta que saltaria da boca de muitos seria a de que não realizamos tais atos porque em condições normais seríamos punidos, oficialmente pela polícia e/ou extra-oficialmente pela própria pessoa, por seus amigos ou familiares. Em suma, o que limitaria nossa ação seria tão-somente o medo da punição.

Essa é uma solução de fato plenamente plausível para o problema e ela era compartilhada por ninguém menos que o doutor Sigmund Freud. Com efeito, para o médico vienense, o conflito entre o que desejamos e o que devemos fazer estava na raiz de nossa estrutura enquanto pessoas; era, por assim dizer, o núcleo de nossa existência. Para Freud, o ser humano na origem é potencialmente capaz de realizar e fruir de todas as perversões existentes, das que já existiram e das que virão a existir no futuro. Essa é a tese que levou Freud a dizer que a criança é um “perverso polimorfo”. Isso significa que, sob a ótica do pai da Psicanálise, a moralidade e os princípios éticos teriam se desenvolvido como uma reação, uma defesa, uma tentativa de regular tanto nossa sexualidade quanto nossa agressividade. Em outras palavras, o homem inicialmente seria um monstro capaz de todas as atrocidades imagináveis, que posteriormente seria “amansado” e “controlado” pela instância moral. Mas não só por ela. Freud dá relevância também ao papel da própria realidade na regulação de nossas ações, visto que por vezes embora não estejamos sob a ameaça de uma punição moral, a realidade não nos fornece condições de realização de nossos desejos, como no caso de alguém que se encontra destituído de liberdade.

Para Freud, a primeira regulação que sofremos, isto é, a primeira concessão que fazemos à moral, abdicando de nosso desejo é a proibição de gozarmos plenamente, no sentido erótico, do corpo de nossa mãe. Como se sabe, o bebê não apenas se alimenta ao engolir o leite materno. Ele também se satisfaz com o prazer gerado a partir de seus lábios pela sucção dos seios da mãe, o que faz com que uma das facetas da mãe, para o bebê, seja a de um objeto sexual. Com o tempo, o bebê, ao explorar seu corpo, descobre que seu órgão genital também lhe proporciona prazeres análogos aos da sucção do seio. Logo, quem surgirá na mente da criança associado a esse prazer genital? Óbvio: a mãe. Não obstante, o bebê logo, logo, terá que se esquecer da mamãe e pensar na priminha ou na coleguinha da escola, porque no mundo dos adultos, ninguém pode desejar a própria mãe, pois a mamãe é do papai.

Da mesma forma se passa com a questão da agressividade. “Já que não posso ficar com a mamãe porque ela é do papai, então é simples resolver a questão: eu mato papai! Não, não posso? Por que não? Ah sim, porque no mundo dos adultos é proibido matar. Poxa, mas tudo o que eu quero é proibido!” Tanto a sexualidade quanto a agressividade são regulados, do ponto de vista de Freud, não por uma compreensão da própria natureza dos atos, mas por sanções que vêm de fora e que não explicam as razões das proibições, apenas apresentam as negativas “Não farás isso, não farás aquilo”.

Jacques Lacan, vendo o perigo que tal entendimento de Freud sobre a moralidade poderia gerar visto que se poderia pensar, como de fato se pensou, que já que é a moralidade que faz com que as pessoas não possam dar livre vazão a seus desejos, é só eliminar boa parte dos princípios morais que as neuroses serão bem menos freqüentes. Foi com base nesse tipo de pensamento que, principalmente nos anos 60, iniciou-se um movimento de liberalização sexual que, no entanto, não extinguiu as neuroses. Pelo contrário, foram gerados novos problemas como compulsões sexuais, promiscuidade e a conseqüente proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, entre as quais a AIDS.

Com vistas a impedir que movimentos como esse se dissessem baseados nas teorias da Psicanálise, Jacques Lacan foi obrigado a radicalizar os enunciados freudianos e dizer: “Olha, pessoal, Freud efetivamente disse que a moral limitava o exercício de toda a nossa potencialidade sexual e que muita gente que não dava conta de reprimir seus desejos acabava dando vazão a eles na forma de doença psicológica. No entanto, o que Freud realmente queria dizer é que nem se a gente acabasse com todos os princípios morais, nossa vida seria melhor porque a realização plena de nossa sexualidade é impossível. Sabem por quê? Por que nós somos seres que falam e vivemos num mundo onde tudo está sob o domínio da linguagem. Tudo tem nome e só sabemos o que uma coisa significa tendo em mente todas as outras palavras do mundo que se distinguem do nome da coisa em questão. Enfim, estamos todos alienados na linguagem. Logo, não temos como ter acesso à Coisa da sexualidade, só à sua representação. É por isso que mesmo não estando sujeitos a estatutos morais, nunca estaremos satisfeitos, pois estaremos sempre sujeitos à linguagem que, por sua vez, limita nossa percepção de nós mesmos. Assim, não é a moral que nos divide, fazendo que uma parte de nós deseje uma coisa e outra deseje atingir um ideal de moralidade. É a própria linguagem que, pelo próprio fato de termos um nome, faz com que nos distanciemos de nós mesmos.”

O que Lacan fez, portanto, foi dar um estatuto ontológico, estrutural, necessário às teses contingentes de Freud, pois podemos conceber uma sociedade sem o mínimo de estruturação moral como Sodoma, mas não há sociedade sem linguagem. É por isso que Lacan vai dizer que os dez mandamentos são as próprias leis da linguagem. Assim, não se trata de uma impossibilidade relativa, mas de uma impossibilidade lógica de satisfação plena. É por isso também que Lacan terá que conjugar o conceito de libido de Freud que, na obra desse último, fazia referência à sexualidade entendida não apenas como sexualidade genital e o conceito de pulsão de morte, a explicação freudiana para a agressividade humana, unindo os dois conceitos em um só: o conceito de gozo. Destarte, em Freud a moral regularia e limitaria a libido e a pulsão de morte; em Lacan, a linguagem limitaria o gozo. Daí a idéia de Lacan de que o sujeito se constitui no próprio ato de representar-se na linguagem o que demanda uma escamoteação da dimensão do gozo, o que em Freud equivaleria ao recalque.

Bem, será que as teses freudo-lacanianas seriam os únicos meios para se pensar as relações entre o homem e a moralidade? A meu ver não. Elas não são sequer eficazes. Basta observar que a conclusão a que se chega ao final da apreciação crítica dessas teses é de que, de fato, é impossível ao sujeito humano ser saudável visto que Lacan, ao dar um estatuto estrutural à teoria freudiana, encampando a moral à linguagem, acabou por dizer que o ser humano é natural e eternamente dividido, ou seja, é neurótico por natureza e não por contingência. Assim, o mundo seria dividido entre os mais e os menos neuróticos.

E ainda há outro inconveniente nessa concepção. Tanto Freud quanto Lacan nem chegam a discutir se os princípios éticos e a moralidade, exemplificados nos dez mandamentos, são úteis para nossa vida. Para ambos, eles não possuem significação em si mesmos, servem apenas para impedir que os indivíduos ajam de determinada forma. O que significa dizer que, para eles, não há uma tentativa nos princípios morais de modificar os anseios das pessoas, mas tão-somente limitar suas ações. Portanto, cabe aos indivíduos unicamente a tarefa de submeter-se aos princípios e não compreender a importância deles.

Ora, será que Lacan foi tomar o exemplo dos dez mandamentos por acaso? Por que ele não usou, por exemplo, a orientação de Cristo para não revidar ofensas? Justamente porque os primeiros de fato são dados por Deus via Moisés sem nenhuma explicação aos israelitas sobre o porquê de segui-los. A razão era unicamente a de obedecer a Javé. Tanto é que se você não obedecesse a Lei, ou seja, se pecasse, era obrigado a realizar um determinado ato reparador, como oferendas, sacrifícios etc. Ou seja, a resposta para a pergunta: “Por que não posso matar?” era “Por que Deus disse que não.” Ora, em Jesus vemos uma dinâmica completamente distinta. Cristo não deixou nenhum princípio ético sem explicar as razões pelas quais as pessoas deveriam segui-los. Por exemplo, quanto ao princípio de não revidar ofensas, o Nazareno é enfático em dizer que se deve agir assim porque Deus não se vinga. Ele não dá chuva, sol, alimento só para aqueles que o agradam, mas também para os que o ofendem.

Os mandamentos de Cristo são todos inteligíveis, o que faz com que a pessoa que os segue, faça-o de coração e não como mera obrigação como acontecia com a Lei de Moisés. Os judeus não sentiam e não sentem a Lei como um conjunto de prescrições que lhes possibilita ter uma vida melhor. Pelo contrário, sentem-nas como um peso nas costas. Justamente porque essa Lei me diz para eu não matar aquele pagão miserável que adora Baal e pelo qual eu nutro dia após dia um ódio imenso; que eu não posso pegar a mulher do meu próximo pela qual eu nutro intenso desejo; que eu não posso deixar meu pai na miséria, o mesmo pai que violentou minha irmã quando criança. Ou seja, a Lei de Moisés vai na direção oposta à da natureza humana! Ela impede justamente aquilo que eu tenho mais vontade! Por quê? Porque ela não muda o entendimento, exatamente porque não há justificativas para segui-las a não ser obedecer ao temível Deus Javé.

Os mandamentos de Cristo não pressupõem que o sujeito a eles se submeta sem pensar. Pelo contrário, é por entender que ao segui-los, se terá vida e vida em abundância é que o sujeito os cumpre. E vejam só: não é que Winnicott nos apresenta uma concepção sobre o desenvolvimento da moralidade no indivíduo que vai de encontro justamente à ética cristã?

Muitos analistas de orientação estritamente freudiana ou lacaniana volta e meia questionam à ala winnicottiana do ringue psicanalítico o fato de na teoria de Winnicott a figura do pai ficar um tanto quanto apagada. Até nos textos em que Winnicott aborda a função do pai, ele o faz associando-a a um papel maternal. Essa aparente elisão do pai no discurso winnicottiano não se deu por acaso. Também não se trata de um possível descuido de Winnicott em enfatizar demasiadamente a mãe e subvalorizar o papel do pai no desenvolvimento da criança. É que Winnicott não opera com a diferença clássica que Lacan herdou de Freud entre uma suposta função da mãe como objeto primordial do sujeito e uma também suposta função do pai como responsável pela incidência da Lei, da castração na economia subjetiva da pessoa. Winnicott não trabalha com conceitos como Nome-do-Pai, essa pequena massa lingüística que, segundo Lacan, seria o eixo organizador de nossa dimensão simbólica.

Para Winnicott mãe e pai são elementos que devem exercer uma função que está para-além deles, qual seja, a de proporcionar um ambiente bom o suficiente para que a criança possa desenvolver suas potencialidades. Às vezes a figura da mãe aparece supervalorizada no pensamento de Winnicott não porque é apenas ela quem pode fazer o papel de um ambiente suficientemente bom, mas sim porque no contexto cultural ocidental contemporâneo herdeiro da família tradicional burguesa o pai tende a assumir um lugar de distância dos cuidados e do processo de desenvolvimento da criança, exercendo o papel apenas de provedor e do último recurso reivindicado pela mãe para a correção dos filhos, o famoso: “Vou contar para o seu pai quando ele chegar”. Nesse contexto, é natural que imaginariamente o pai seja tomado como o veículo da Lei, afinal ele funciona nesse regime familiar como o “supremo tribunal federal” para a mãe. Essa por sua vez, fica a cargo sozinha da tarefa de facilitar o desenvolvimento dos filhos. Obviamente essa situação vem se modificando há algumas décadas – e é ótimo que se modifique; os filhos agradecem! Cada vez mais, os pais vêm se conscientizando do seu papel por assim dizer “maternante”. No entanto, ainda vigora lado a lado com essa versão pós-moderna o modelo tradicional em que o pai surge unicamente “para botar as coisas nos eixos”, do jeitinho que Freud e Lacan pensavam…

Por que fiz toda essa digressão quando na verdade deveria estar falando da moralidade em Winnicott? Justamente porque essa concepção do analista inglês sobre as funções de pai e mãe faz toda a diferença quando vamos investigar como Winnicott entende o nascimento da moralidade no indivíduo. Se não há de um lado uma mãe afetuosa cuja função é apenas a de gerar fantasias edípicas e do outro um pai castrador, cuja função é apenas a de “botar ordem na casa”, temos que, para Winnicott, a moralidade não nasce a partir de uma intervenção regulatória de uma Lei transgeracional. Para o pediatra, quanto a isso a Lei é supérflua. Dá quase para colocar as palavras do apóstolo Paulo na carta aos Gálatas na boca de Winnicott: “Olha, essa coisa de Lei é para imaturos. Imaturos é quem precisam de um tutor para dizer a eles tudo o que elas devem fazer. Nós cristãos, amadurecemos. A fé em Deus nos basta para que não façamos o mal.”

Winnicott vai dizer, com outras palavras, o mesmo conteúdo só que ao falar de teoria do desenvolvimento individual e não de cristianismo. Mas a idéia é a mesma: a Lei só é necessária para quem não contou com um ambiente suficientemente bom! E mesmo assim a Lei não resolve as coisas. Pelo contrário: ela piora (e os exemplos que Winnicott dá são ótimos: crianças “agressivas, “rebeldes” etc. A punição, ou seja, o exercício da Lei, não funciona para elas; o que elas precisam é de um ambiente que as acolha, que as entenda e que ajudem a elas próprias a renunciar à agressividade.). A graça cristã pode ser compreendida, assim, por analogia, através do conceito de “ambiente suficientemente bom”.

Para Winnicott, herdeiro do pensamento de Melanie Klein, no início da vida todos nós convivemos imaginariamente com duas mães. Sim, DUAS mães: uma que nos faz muito feliz ao nos amamentar na hora em que sentimos fome, aquela que nos dá carinho, aconchego quando sentimos que as coisas vão mal, que nos dá calor quando a temperatura começa a cair, enfim, aquela mãe que está na hora certa no lugar certo fazendo a gente se sentir plenamente satisfeito – essa é a mãe boa. Mas também há a mãe má, protótipo das bruxas e madrastas dos contos de fada: é a mãe que não vem quando a gente chora de fome, aquela que às vezes não nos dá toda a segurança de que necessitamos no momento, a que nos deixa assando ao demorar em trocar as fraldas, enfim, é a mãe que falha, que não aparece na hora certa, que demora, que mete os pés pelas mãos às vezes. Obviamente, trata-se de DUAS mães apenas na cabecinha maniqueísta da criança. Na realidade, as duas mães são de fato dois aspectos de uma mesma mãe, justamente porque é existencialmente impossível que se possa ser uma mãe totalmente presente e satisfatória o tempo todo. Mas o bebê ainda não entende isso e a forma dele lidar com essa angústia é cindindo a mãe em duas: uma boa e outra má, da mesma forma como nós, às vezes, imaturamente pensamos que as coisas não estão indo bem porque Deus está nos castigando e que quando as coisas vão bem é porque estamos fazendo tudo o que Deus quer. O modelo dessa cisão entre um Deus que pune e um Deus que agracia está aí no precoce maniqueísmo infantil.

Acontece que há ainda outro complicador. Pelo fato de mãe e criança estarem, nos primeiros momentos da vida do bebê, em um estado que poderíamos descrever como de contigüidade psíquica, a famosa “simbiose” ou díade de Françoise Dolto, o bebê não consegue se reconhecer como constituindo uma existência separada e distinta da existência da mãe, de tal modo que o que ocorre do lado da mãe é imediatamente repercutido do lado da criança. Portanto, se o bebê imagina existirem uma mãe boa e outra má, logo existirão um eu bom e outro mau. Essa correspondência entre os campos da mãe e do bebê se dá através dos mecanismos psíquicos que Melanie Klein tão brilhantemente descreveu, a saber a introjeção e projeção: a criança, ao mesmo tempo em que se reconhece a partir de características extraídas da mãe/ambiente, também expele para fora de si determinados atributos passando a reconhecê-los como sendo próprios da mãe. Há, portanto, um intercâmbio de representações e sentimentos contínuo entre mãe e bebê sem que as fronteiras entre um lado e outro sejam delimitáveis.

Ocorre, no entanto, que todos nós possuímos uma tendência inata para a integração, isto é, uma potencialidade a reconhecermos nossa identidade como algo inteiro, total, ainda que apresentando aspectos conflitantes. É a realização dessa tendência que faz com que possamos nos reconhecer como uma mesma pessoa ao longo do tempo. Quando as condições ambientais não são favoráveis a que tal potencialidade se efetive, surgem problemas da ordem da identidade como os famosos casos de psicose em que o sujeito possui o que se chama de “múltiplas personalidades” sem um eixo que as organize.

Para que a tendência à integração se torne ato, como já dissemos, faz-se necessário um ambiente suficientemente bom, o que, em termos práticos significa um ambiente que proporcione um mínimo de estabilidade de maneira a partir que o bebê reconheça que o “eu bom” e o “eu mau” são de fato um único eu. O que resulta dessa síntese operada dentro de um ambiente minimamente bom é o sentimento de responsabilidade que descrevemos no último post dessa série associando-o ao arrependimento cristão. O bebê percebe que as “más ações” vêm dele mesmo e não de outro eu.

Não obstante, como já vimos, nessa fase em que o bebê depende quase que absolutamente da presença da mãe, tudo o que ocorre do lado do bebê, apresenta uma correspondência, na vida imaginativa da criança, do lado da mãe. Assim, se há uma síntese do eu bom e do eu mau do bebê, haverá também, para a criança, uma síntese entre a mãe boa e a mãe má! E, vejam é justamente essa última síntese que, para Winnicott, marca o nascimento da moralidade no ser humano. Por quê? Porque a partir do momento em que a criança começa a reconhecer que a mãe má é a mesma pessoa que a mãe boa, ela se conscientiza de que todos os pensamentos, fantasias e ações agressivas dirigidas contra a mãe má, que frustra, que falha, eram também dirigidas contra a mãe boa, que gratifica, que alimenta, que dá carinho! Essa consciência, esse insight é um acontecimento de grandes proporções no psiquismo da criança, pois o primeiro sentimento que ele gera é o de culpa, afinal o bebê começa a perceber que estava agindo e desejando mal para aquele ser que ele mais amava! Melanie Klein, ao reconhecer a força do impacto dessa consciência na mente da criança, chamou a fase em que a criança tem essa constatação de “posição depressiva”, pois para a psicanalista o sentimento de culpa geraria um estado deprimido perene que, nos casos de melancolia (depressão) estaria exacerbado, mas que em todas as pessoas persistiria em maior ou menor grau em estado latente. Ou seja, para Melanie Klein, seguindo Freud, todos nós estaríamos condenados ao fado de carregar uma culpa latente que, por sua vez, geraria uma constante depressão também latente!

Winnicott não pensava assim. Para ele havia solução para o sentimento de culpa e a posição depressiva. E essa solução não passava, como queriam Freud e Lacan, pela incidência da Lei na subjetividade. Para o psicanalista inglês, nós nos livramos da culpa por termos ultrajado nosso maior objeto de amor, apenas pela consciência de termos feito mal a quem amamos. Parece tautológico, redundante, mas não é, pois a compreensão desse processo muda todo nosso entendimento da moralidade. No esquema tradicional freudiano, nós abdicaríamos de fazer o mal apenas para não sermos punidos pela Lei. Já em Winnicott, nós deixaríamos de fazer o mal por termos nos conscientizado de que, em primeiro lugar, ao fazermos o mal estamos agredindo a quem amamos e, em segundo lugar, que nós também temos o mal em nós (síntese entre o “eu bom” e o “eu mau”).

Ora, não é exatamente essa compreensão ética que Jesus nos traz em oposição à Lei judaica? Ele diz: “Olha, você não devem fazer o mau a seu irmão não porque a Lei proíbe mas porque seu irmão também é filho de Deus e Deus não deixa de fazer o bem a ele em nenhum momento não obstante ele aja mau.” E também através do mandamento “Faça aos outros o que você quer que façam a você”. Ao reconhecer que o “eu bom” e o “eu mau” são uma mesma pessoa, o bebê percebe que também é capaz de fazer o mal. Obviamente, ele não vai querer que lhe revidem o mal que fez. Assim, do mesmo modo, não irá retribuir ao ambiente o mal que esse possa ter feito. Além disso, ao reconhecer que a mãe boa e a má são uma única e mesma mãe, o bebê não mais a agredirá, não por obediência ao mandamento “Não matarás”, mas por compreender que ao agredir a mãe má ele está agredindo também a mãe boa. Assim também, o cristão não faz mau ao próximo por reconhecer que o próximo por pior que seja é tanto quanto ele próprio amado por Deus, de tal modo que se ele agride o próximo, por tabela ele está agredindo a Deus, justamente Aquele a quem mais ama. Da mesma forma, o cristão não julga o próximo pelo fato de reconhecer que ele próprio não é inimputável, por reconhecer que traz as potencialidades do pecado do próximo em si.

Winnicott nos fornece, portanto, com sua teoria do desenvolvimento da moralidade no homem a partir do relacionamento da criança com a mãe/ambiente, um modelo teórico que nos auxilia a compreender a ética cristã, o modo como o cristão lida com dilemas morais. Jesus bate o martelo e diz: “Olha, não importa o que dizem os outros mandamentos. Se vocês observar apenas esse: ‘Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’ você não precisam mais observar nenhuma regra”. Agora substitua o termo Deus por mãe e você terá nesse único mandamento de Cristo toda a teoria do desenvolvimento da moralidade de Winnicott. O bebê, no estado de dependência absoluta, não só ama como tem a necessidade de amar a mãe sobre todas as coisas pela simples razão de que, naquele momento, a mãe é, de fato, TODAS AS COISAS para o bebê. Quem dera se nós agíssemos para com Deus como o bebê age para com a mãe, tendo-a como essencial para sua sobrevivência, sabendo que vive nela, com ela e para ela. Além disso, o bebê, como no mandamento, ama à mãe como ele mesmo justamente por reconhecer que não há diferença entre ele e a mãe. A partir do momento em que reconhecemos que entre nós e o próximo não há nenhuma diferença aos olhos de Deus, que independente do que ele ou nós façamos, todos estão marcados pela potencialidade do mal, do pecado e que todos são alvo da graça de Deus, que faz a chuva cair “sobre justos e injustos”, nós não fazemos o mal ao próximo, pois, com efeito, “com a mesma medida que julgardes sereis julgados e aqueles que tiverem misericórdia, alcançarão misericórdia”.

Certamente, muitos de vocês podem se perguntar “Mas por que Freud não pensava assim? Por que ele insistia na necessidade do superego e da lei (interpretação lacaniana)?”. Eu tenho uma hipótese: Freud não pensava assim porque era judeu, e porque como judeu, mesmo renegando a fé, ele não conseguia entender a novidade cristã. Por isso, ele não concebia que a moralidade pudesse advir desse processo de metanóia, de renovação do entendimento que o bebê experimenta no desenvolvimento e o cristão na conversão. Freud, como judeu, pensava como judeu, ou seja, que para que façamos o bem se faz necessária uma Lei que nos diga o que é o bem e como fazê-lo. Ora, não é exatamente isso o que fez Moisés ao proclamar para o povo a Lei?

O que faremos então? Ignoraremos Freud, reconhecendo-o como tendo uma concepção de moralidade caduca? De forma alguma! A concepção de Freud será sempre atual – e para a grande maioria das pessoas. Ela só não explica a ética cristã, o modo como os cristãos lidam com o problema da ética. No entanto, ela explica como todo o resto do mundo lida. Por que todo o resto do mundo só não faz o mal por obediência a leis. E não estou falando apenas da lei judaica ou das leis e códigos civis de direito. Estou falando também de leis filosóficas, sociológicas, políticas, religiosas. Tem gente que não faz o mal porque segue a ética de Aristóteles ou de Kant. Isso significa que a ética dessa pessoa está apartada da Lei? De maneira nenhuma. Ele só está seguindo uma lei diferente: a lei de Kant ou Aristóteles. É só a ética de Jesus de Nazaré a que traz uma libertação de fato de qualquer tipo de Lei. E a minha tese é de que a teoria winnicottiana nos oferece um modelo teórico de entendimento, uma analogia bastante útil para compreendermos essa libertação.

Mas Freud continua valendo para todos os não-cristãos. E é por isso que a psicanálise ainda faz sucesso e nunca será extinta. E é também por isso que a análise não funciona e é completamente desnecessária para um cristão efetivamente convertido. Mas quantos há que ainda não o são…

Winnicott e o cristianismo V – o arrependimento e a capacidade de se preocupar

Em algum post anterior havíamos dito que Winnicott assinala uma distinção entre dois aspectos da mãe na relação com o bebê. O analista inglês diferencia uma mãe-objeto de uma mãe-ambiente. A primeira seria a mãe que é vista pelo bebê como aquela que é ou possui o objeto de satisfação de suas necessidades. Freud considerava que esse era o único papel da mãe na relação com a criança, isto é, servir como um protótipo dos objetos de satisfação que o sujeito buscará posteriormente ao longo da vida. Já Winnicott vislumbrava outro atributo materno que é justamente o que ele denomina de mãe-ambiente, que visa dar conta do trabalho de sustentação e manejo que a mãe realiza para com a criança com o objetivo de facilitar o desenvolvimento de suas tendências inatas para a integração. Assim, temos que a mãe, ao mesmo tempo em que é o primeiro objeto de satisfação do bebê, é também o ambiente primordial que lhe permitirá sentir ou não confiança em si e no mundo ao longo da vida.

Winnicott estabelece essa diferenciação entre os dois aspectos da mãe em um texto, de 1963, chamado “O desenvolvimento da capacidade de se preocupar”. A palavra “preocupação” foi o melhor termo encontrado pelos tradutores brasileiros para expressar o que, em inglês, Winnicott denomina de “concern”. O problema é que “preocupação” possui uma conotação ruim, pois na raiz do termo está a idéia de se ocupar previamente de algo, amiúde em função de uma ansiedade, o que não tem absolutamente nada a ver com o uso da palavra concern por Winnicott. Talvez a melhor tradução para o vocábulo fosse “responsabilidade”, pois o analista inglês usa o termo para descrever o sentimento saudável que temos quando magoamos uma pessoa que gostamos ou quando cometemos algum tipo de má ação. Não, Winnicott não está pensando aqui em culpa, pois culpa seria justamente a faceta doentia do concern. Esse se expressa numa capacidade de se importar com o que aconteceu à pessoa a quem magoamos ou nos sentirmos responsáveis pelo nosso erro. A culpa, por outro lado, impede que nos responsabilizemos, pois dá origem a um martírio que faz com que o sujeito não se sinta capaz de reparar o mal cometido. A culpa sequer gera arrependimento.

Pois bem. Winnicott pretende, com o artigo de 1963, investigar como se forma essa capacidade de se responsabilizar, de se importar com as pessoas. Quem está acostumado com as obras de Freud e Lacan provavelmente teria a resposta para o questionamento de Winnicott na ponta da língua: “ah, é óbvio que o que gera a capacidade de se importar com o outro é a Lei ou, em termos da segunda tópica de Freud, o superego”. Responderiam assim justamente por considerarem como sinônimos responsabilidade e culpa e conceberem um modelo de relacionamento social em que a base é o sentimento de culpa. Basta verem meu texto explicativo sobre o superego. Lá eu demonstro explicitamente como o superego está na raiz do sentimento de culpa.

Winnicott, destituído dessa visão essencialmente judaica da existência, não está interessado em investigar como nos tornamos doentiamente culpados, mas, sim, como desenvolvemos nossa capacidade saudável de se preocupar com o outro. Sua pesquisa levará à relação da criança com os dois aspectos da mãe. Para compreender o que será dito a seguir, é preciso abordar um pressuposto de Winnicott a respeito do aspecto pulsional da criança. Para o analista inglês, ao contrário do que pensava Freud e Melanie Klein, o bebê não vem ao mundo dotado de uma pulsão de morte que, dirigida para o mundo externo, resulta em comportamentos agressivos. Para Winnicott, chamar de “agressivo” o comportamento da criança para com a mãe é uma imposição de fora baseada em comparações com atos intencionalmente destrutivos. Na verdade, a criança não tem o desejo de destruir. Ela nasce com uma potência, uma força de viver que se expressa numa voracidade na utilização do objeto de satisfação. Obviamente que quando se age com voracidade corre-se o risco de destruir o objeto. É como um jovem que há meses não vê a namorada. Quando a vê, quer beijar-lhe tanto e com tamanha força que acaba por machucá-la. É isso o que acontece com a criança em relação à mãe que funciona para ela como objeto ou como portadora do objeto que lhe traz satisfação (seio): o bebê quer tanto que acaba devorando-a, destruindo-a. Por outro lado, ele experimenta outro tipo de relação com a mãe, a mãe-ambiente, que é a mãe que oferece proteção e cuidado e é lembrada nos momentos em que a criança está satisfeita.

Gradualmente, à medida que a criança vai se desenvolvendo, ela começa a perceber que não são duas mães, uma que ela destrói e outra que cuida dela. Ambas são a mesma. É nesse momento em que “cai a ficha” da criança é que brota esse sentimento terrível chamado culpa. Ela começa a perceber que machucou justamente a mesma pessoa que lhe sustentou e que cuidou dela. Mas é nesse momento que a mãe vai exercer um papel fundamental para que a criança possa se libertar do sentimento de culpa: é o que Winnicott vai chamar de “sobrevivência da mãe”, isto é, a capacidade da mãe de mesmo agredida e machucada pelo bebê, sobreviver a esses ataques não limitando, por causa deles, o cuidado à criança. Essa capacidade de sobreviver sinaliza para o infante que a mãe nunca irá abandoná-lo. E é justamente isso que dá força e confiança para que a criança possa fazer o que Winnicott chama de “reparação”, isto é, uma tentativa imaginária de consertar o estrago feito na mãe. É nesse momento que a culpa se transforma no concern, na responsabilidade, na capacidade da criança de reconhecer o erro e se arrepender dele.

É impressionante a capacidade que Winnicott tem de descrever na relação do bebê com a mãe suficientemente boa a relação do homem com Deus. Vamos pensar por analogias. Como não se cansa de afirmar o apóstolo Paulo, para o cristão verdadeiro não há mais Lei, ou seja, não temos mais um tutor para nos dizer o que devemos e o que não devemos fazer. O amor de Deus que se desdobrou a ponto de morrer na Cruz em nosso lugar é suficiente para nos indicar como devemos agir no mundo. No entanto, toda essa liberdade, essa ausência de Lei, acaba sendo, para muitos, ocasião de sedução e é nesse momento em que aparece o abuso da graça de Deus. Já que não há mais Lei, “tudo me é permitido” como dizia o célebre ditado coríntio. Assim, o cristão vai e experimenta de tudo, confiando nessa falsa liberdade supostamente assegurada pela graça de Deus. Age, assim, como o bebê winnicottiano que, diante de um volumoso seio cheinho de leite, não consegue frear a vontade e acaba despedaçando-o, afinal o seio está ali só para ele, é a mãe quem o fornece – pensamento bastante parecido com aqueles que dizem que tudo é permitido, pois foi Deus quem fez…

Todavia, após algum tempo usando e abusando do mundo, assim como o bebê vorazmente destrói o seio, o cristão começa a se cansar do mundo e aí ele se volta para Deus, para o Deus “bonzinho” do Novo Testamento, que perdoa os pecados, que não se vinga, que estará conosco até o fim dos tempos. Assim também o bebê se conforta no colo da “outra” mãe, a mãe-ambiente que cuida e acolhe. E, assim como o bebê não percebe ainda que as duas mães são, de fato, apenas uma, o cristão não percebe que o uso e o abuso do mundo não prejudicam só a ele como indivíduo mas magoam a Deus pois aquela não é sua vontade.

Entretanto, assim como paulatinamente o bebê vai se dando conta de que machucou a mesma mãe que lhe conforta, o cristão começa a perceber que suas experimentações mundanas desagradam a Deus, ou seja, constituem pecado. A imagem mais ilustrativa desse momento de constatação é a do Rei Davi quando o profeta Natã, com uma história, lhe mostra seus pecados. Quando Davi se dá conta do quanto desagradou a Deus, desespera, se deprime, vai se sentar nas cinzas, usa pano de saco como roupa, ou seja, sente-se plenamente culpado, como o bebê que percebe que estava destruindo a mãe que lhe presta cuidado.

É nesse momento que a graça se mostra em toda a sua plenitude, pois, da mesma forma que a mãe sobrevive aos ataques do bebê, Deus não nos abandona, assim como não abandonou Davi fazendo com que de sua descendência viesse o próprio Jesus, assim como o pai do filho pródigo o acolhe com todo o amor, assim como Cristo não abandonou Pedro mesmo tendo esse o negado três vezes. E é justamente esse amor que sobrevive e não abandona que faz com que o cristão se arrependa e não queira mais pecar, da mesma forma que a criança se sente confiante pela sobrevivência da mãe para realizar um ato de reparação. O ato cristão de reparação é o arrependimento e a decisão de não querer mais pecar: é tudo o que podemos fazer e tudo o que Deus quer que façamos.

Winnicott ainda fornece um bom instrumento para identificarmos o cristão verdadeiro e o falso com sua distinção entre culpa e responsabilidade. Como vimos, a culpa antecede e, com a sobrevivência da mãe, se transforma em responsabilidade (concern). Essa transformação, porém, pode não ocorrer caso a mãe não sobreviva. Uma mãe insuficiente é assim: em vez de entender a voracidade da criança, ela reage, se vingando. Assim, a culpa permanece, pois a criança não se sente confiante para fazer o ato de reparação. O falso cristão, aquele que apenas usa essa alcunha, mas não nasceu de novo, não consegue ter fé na graça de Deus. Assim, permanece na culpa, pois julga que o arrependimento (reparação) é inútil, pois Deus não irá perdoá-lo. Como diria Kierkegaard, ele se acha singular a tal ponto que, com essa vaidade, não se atenta para o fato de que para Deus tudo é possível, ou seja, considera que seu pecado limita a potência de Deus – não há nada mais herético. O cristão verdadeiro, por outro lado, pela fé, confia na graça e na misericórdia de Deus e, por isso, se arrepende e decide romper com o pecado, justamente porque confia em um Deus que não o abandona. Conclusão: assim como a sobrevivência da mãe dá confiança para que o bebê faça o ato de reparação, assim também o amor de Deus constrange-nos ao arrependimento.

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Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia

A maior parte das considerações que farei na parte inicial deste post eu já a as fizera num texto anterior chamado “A mente em Winnicott” cujas duas partes podem ser acessadas nos arquivos do blog. Winnicott, ao contrário de toda uma tradição em que talvez Freud pudesse ser incluído, não concebe a mente como um espaço imaginário ou real que venha a ser preenchido com seus respectivos conteúdos, a saber: as idéias. Para Winnicott, a mente constitui-se como uma função, função intelectiva. Logo, sendo uma função, a mente não possui um estatuto ontológico, dado, como o corpo. Ela existe devido a necessidades advindas da relação do sujeito com o ambiente.

Também é preciso lembrar que Winnicott faz uma distinção entre mente e psique que, também na tradição psicológica, são tomados como sinônimos. Para o analista inglês, a psique consiste numa “elaboração imaginativa de partes e funções corporais”, ou seja, é um precipitado constituído de imagens derivadas da própria experiência do sujeito com o corpo. Na medida em que tal experiência se inicia primordialmente a partir de seu contato com a mãe, são justamente os cuidados maternos, concretizados em tarefas normais como o banho e a higiene do bebê que o auxiliam a entrar em contato com seu próprio corpo, conjugando a experiência sensório-motora com a realidade imagética dela proveniente.

Percebe-se, portanto, que a psique não está relacionada ao conhecimento no sentido estrito do termo. Em sentido lato, sim, pois se pode dizer que as imagens derivadas da experiência corporal constituem o próprio conhecimento imediato da realidade do corpo pelo bebê. Todavia, o conhecimento no sentido intelectual do termo compete à mente. A função mental, diferentemente da psique, não brota da vivência física, mas aparece, primariamente, em função da relação entre o bebê e o ambiente (mãe). Como vimos nos posts anteriores, em um primeiro momento, devido à satisfação plena das necessidades da criança pela mãe, o bebê não se percebe portando uma existência individual separada de um mundo externo. Naquele momento, tudo é sonho, todos os seus desejos são atendidos. Ora, num mundo como esse, que utilidade teria uma função mental que servisse ao bebê para conhecer e entender o mundo? Nós só buscamos conhecer e compreender a realidade quando ela não corresponde às nossas expectativas, justamente para que, compreendendo-a, possamos saber como agir para saciar nossas necessidades ou para que renunciemos de vez à esperança de fazê-lo. Portanto, num mundo em que todas as necessidades são satisfeitas, não há por que se esforçar por conhecer.

É exatamente por isso que a função mental nasce no momento em que a mãe começa a sair de seu estado de completa devoção ao bebê e esse começa a enfrentar pequenas – e necessárias – frustrações. Por conseguinte, é como se o bebê acordasse do sonho e tomasse contato com o real que ora é maleável ora não com suas expectativas. A saída encontrada pela criança é justamente a de tentar compreender por que o ambiente não mais lhe sacia exatamente na hora em que ela sente a necessidade. E essa compreensão passa pela identificação de possíveis comportamentos que podem fazer com que a mãe vem até ela, como o choro, por exemplo. Essa é a descrição de um uso saudável da função mental, ou seja, como um instrumento de compreensão do real.

Acontece que nem todos os bebês experimentam um ambiente suficientemente bom, regular o bastante para que ele consiga compreender seu fluxo e confiar na sua eficácia. Por exemplo, muitas mães são inábeis na identificação das necessidades da criança, não sabendo interpretar, por exemplo, quando a criança chora porque está sentindo cólica e quando chora porque está com fome. Assim, ao não se ajustar à necessidade da criança, a mãe torna-se invasiva e faz com que o infante não consiga compreender o ambiente. No entanto, ela (a criança) insiste em tentar entender e, como não consegue, faz uso de recurso bastante encontrado no meio universitário: inventa uma explicação. Sua tentativa de compreensão sai da imanência de sua relação com o ambiente e se converte numa forma de explicar o ambiente caótico gerado pelo comportamento imprevisível da mãe. O bebê, então, inventa razões. Talvez haja dias certos para chorar, dias em que a mãe ouve e dias em que a mãe não ouve – claro que essa é apenas uma hipótese, dada a impossibilidade de ter acesso ao pensamento da criança. Mas o importante a ser retido é que, reagindo ao ambiente desse modo, isto é, inventando explicações ao invés de compreendendo-o, a criança vai criando um padrão doentio de interação com o mundo, marcado por uma espécie de intelectualismo que, é claro, gerará excelentes ganhos secundários caso o sujeito se enverede pela carreira acadêmica. No entanto, para-além da academia, tal sujeito sofrerá imensamente, pois terá dificuldades para compreender sua interação com as outras pessoas e com a própria realidade, justamente por estar acostumado a uma vida teorizada e não vivida.

De que forma tudo isso está relacionado ao cristianismo? Vejamos: será que os fundamentos da fé cristã poderiam ser tomados como um ambiente suficientemente bom? Não entenderam? Vou explicar melhor: o ambiente suficientemente bom atende suficientemente bem as necessidades humanas de tal modo que permite ao bebê compreender quando e por que ele (o ambiente) falha. Sendo assim, será que poderíamos considerar a graça divina, o amor incondicional de Deus pelos homens, a morte de Deus na cruz para salvar o homem dos pecados como fatos facilmente palatáveis para o ser humano, ou seja, facilmente compreensíveis como o ambiente suficientemente bom?

É óbvio que não! Naturalmente tendemos a pensar Deus como um rei poderoso, onipotente, que não se curva a seus súditos, que, pelo contrário, exige que eles se curvem. Ora, como então poderíamos conceber facilmente que o rei, por amor a seus súditos, por querer fazê-los compartilhar de sua majestade, se transformasse por um tempo num deles e morresse da pior forma possível para salvá-los da perdição? É um paradoxo terrível, como dissera Kierkegaard. E, como também disse o pensador dinamarquês, o paradoxo aparece à razão como uma doença (pathos), como algo que deve ser extirpado.

É justamente nesse ponto que se inicia nossa analogia. Por que o bebê consegue compreender as falhas do ambiente? Será que é porque ele consegue descrever racionalmente para si mesmo o padrão de funcionamento das idas e vindas da mãe? Claro que não! O bebê compreende porque confia que a mãe não lhe desamparará. Trata-se, portanto, mais de fé do que de racionalidade. Da mesma forma, a único modo de o cristão compreender os paradoxos da relação do homem com o Deus e também da própria constituição divina (um único Deus que é pai, filho e espírito) só se dá mediante a fé – o que Kierkegaard também dizia.

O que acontece é que há uma classe especial de pessoas que se diz cristã ou pretende sê-lo e que, diante do paradoxo, não fazem uso da fé (pois não a tem), mas tentam utilizar a razão. Agindo assim, evidenciam que o paradoxo transformou-se para eles em escândalo. Todavia, ao contrário de outros que, escandalizados, abandonam de vez qualquer pretensão a compreender, essas pessoas, que vocês já devem ter percebido tratar-se dos teólogos, pretendem extirpar o escândalo, inventando explicações que não explicam. Por exemplo, por que simplesmente não crer que Jesus, o Pai e o Espírito Santo são um único e mesmo Deus, simples assim? Por que, em vez disso, postular que são três pessoas de uma substância que é a divindade e que, portanto, há uma homoousia (esse conceito arrogante) entre eles. Por que não considerar com simplicidade que, não obstante Deus seja onisciente, o homem possui liberdade para escolher e, em vez disso, perder tempo com querelas estéreis sobre determinismo e livre-arbítrio?

Poderíamos dar aqui inúmeros outros exemplos de “intelectualização” como forma de tentar apreender os paradoxos cristãos na teologia. Tomás de Aquino e todos os teólogos sistemáticos foram exemplares nesse quesito. Aquele, por exemplo, foi recorrer à filosofia aristotélica para explicar inexplicáveis, como a existência de Deus, a criação, etc. Ele próprio, no fim de sua vida, após uma experiência mística, reconheceu a inutilidade de suas teorias.

Portanto, assim como o bebê que diante de um ambiente insuficiente – que falha mais do que devia – inventa explicações que não explicam por uma dificuldade de compreender, assim também os teólogos que, como bem disse Lacan, junto com os psicóticos são os únicos verdadeiramente ateus, por não conseguirem, pela fé, ter acesso a um conhecimento imediato, intuitivo, não racionalizável, inventam teorias, sistemas e conceitos que não passam de masturbações intelectuais que agradam muitíssimo ao espírito, mas não explicam. E não explicam pelo simples fato de que não há explicação pela via da razão.

Vemos assim que Winnicott não só fornece um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro – o que não significa que tal modelo explique os paradoxos cristãos, mas que, como a função mental saudável, apenas ajuda a pensar sobre eles – mas possibilita pensar em questões periféricas ao cristianismo. Talvez não se trate de uma mera coincidência.

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Winnicott e o cristianismo III – a confiança no ambiente e a fé

De acordo com Winnicott, uma das condições básicas para um desenvolvimento psíquico saudável é a capacidade do sujeito de sentir confiança no ambiente. Por ambiente entenda-se o mundo e suas peculiaridades, ou seja, tanto o relacionamento com outras pessoas quanto com as coisas. Faz parte do ambiente também o que concebemos como nosso passado e nossas expectativas quanto ao futuro. Enfim, pode-se considerar o ambiente como a própria experiência de existir no mundo. E, para Winnicott, tal experiência tem que estar fundada numa confiança fundamental. Por quê? Ora, porque só estando dotado de uma confiabilidade na existência (ambiente) é que o sujeito poderá ser capaz de experimentar acontecimentos que lhe causam desprazer e apreensão, ou seja, acontecimentos que não correspondem a suas expectativas sem considerar que sua própria existência está em perigo. Em outras palavras, a confiabilidade dá condições para que o sujeito, diante das vicissitudes desagradáveis da vida, não se desespere. Por outro lado, é também essa confiança que permite ao sujeito se sentir relativamente feliz sem a necessidade de objetos e estímulos externos que lhe dêem prazer. Com efeito, a busca constante e compulsiva de coisas externas que nos proporcionem alegria, só revela o quanto estamos na dependência do mundo externo e não somos capazes de fruir felicidade a partir de nós próprios. Portanto, podemos dizer que a confiança no ambiente possibilita não só conseguir enfrentar as decepções sem desesperar quanto não ficar submetido às flutuações do mundo para se sentir feliz.

Vejamos agora como se produz essa confiança básica no sujeito. Como bem sabemos pelos posts anteriores, o foco maior de Winnicott é o bebê recém-nascido e é justamente nesses primeiros momentos após o nascimento que o analista inglês encontra as raízes da confiabilidade. Segundo Winnicott, a confiança (trust) é resultante da criação de um objeto bom na realidade psíquica do bebê. Caros leitores, prestem bastante atenção no que vou dizer sobre o “objeto interno bom”, pois será essencial na nossa analogia com o cristianismo.

Esse objeto bom que precisa existir no psiquismo do bebê é uma espécie de construção imaginária baseada nas experiências da criança com uma mãe suficientemente boa. Como vimos, essa mãe (que, repito, é a mais comum) é aquela que consegue atender às necessidades do bebê, ou seja, é aquela que fornece a contrapartida ambiental necessária para o desenvolvimento das tendências inatas do bebê.

Logo no início da vida, até por volta dos seis meses de vida, a mãe boa o bastante fornece um tipo de configuração ambiental para a criança na qual essa ainda não consegue reconhecer um mundo para-além dela. É como se o bebê, nesse momento, vivesse num mundo de faz-de-conta onde todos os seus desejos são atendidos. E isso acontece justamente porque quando a criança sente fome ou sede a mãe já aparece com o seio para lhe dar leite. É justamente por isso que a criança não tem consciência de que existe um mundo externo a ela, pois basta que ela sinta a necessidade de algo que esse algo aparece. Ela tem a impressão de que foi ela própria quem criou o objeto que a satisfaz. O que acontece com quem acredita que é onipotente, que pode criar coisas pela força de seu pensamento? Óbvio: sente-se confiante.

Gradualmente, o bebê sai desse estado e vai tomando consciência do mundo externo. Isso acontece justamente em função das pequenas falhas da mãe – como a demora ao fornecer alimento – que sinalizam pra criança que não é ela quem cria o objeto, mas que é o ambiente que lhe fornece. Todavia, o bebê só vai ser capaz de lidar com essas pequenas – e necessárias – falhas maternas sem se desesperar se tiver passado por aquela fase inicial em que tudo era sonho. Assim, é como se o bebê pensasse: “Ah, naquela época era só eu pensar que a coisa aparecia, agora não vai ser diferente. Pode até demorar um pouco, mas virá.”. Ela confia, portanto, na eficácia do ambiente.

Se a mãe for boa o suficiente, suas falhas não serão tão freqüentes ou tão intensas ao ponto de fazer com que o bebê ponha em questão a capacidade dela de fornecer o objeto de satisfação e, aí sim, considere que sua existência está ameaçada. Pelo contrário, ela falhará apenas o suficiente para que o bebê não se considere como onipotente e reconheça a realidade de um mundo para-além dele. Todavia, continuará gratificando o bebê. E é justamente essa repetição de gratificações o que fará com que o bebê construa em sua realidade psíquica a idéia de um objeto bom para onde se refugiar caso as coisas fiquem ruins. A partir de então, é como se o sujeito nunca mais se visse sozinho, pois “ainda se vier noites traiçoeiras e se a cruz pesada for” (como diz o poeta) ele sabe que poderá contar com esse objeto interno dentro de si, o que nada mais é, que a fé num ambiente que um dia não lhe desamparou.

Creio eu que os leitores mais perspicazes já perceberam as analogias com a fé cristã. Não lhes parece bem semelhante à fase de dependência absoluta do bebê, em que tudo parecia o sonho, em que seus desejos eram todos atendidos, o período da existência de Jesus na Terra? A própria descrição de Jesus a João batista deixa clara a analogia: “[…] os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres.” (Cf. Lc 7, 22). Da mesma forma como as necessidades do bebê eram plenamente satisfeitas pela mãe, assim também as doenças do povo judeu eram curadas por Jesus, o que, num sentido mais profundo, corresponde ao atendimento feito pelo Cristo de uma verdadeira necessidade daquele povo (e de toda a humanidade) que era a libertação do pecado.

Vocês se lembram de que nesse momento de sonho da vida do bebê, ele se sentia onipotente porque tinha a impressão de que era ele próprio quem criava o seio que o alimentava. Na verdade, era a mãe que lhe dava o seio no exato momento em que ele o queria. Jesus, em alguns momentos, faz um papel bastante análogo ao da mãe que permite ao bebê se sentir onipotente. Para muitas pessoas que curou ele dizia: “A sua fé te curou”. Com isso Jesus estava dando um ensinamento importantíssimo que, infelizmente, a cristandade esqueceu. O Filho de Deus estava dizendo que a única coisa necessária para ser salvo (salvação que ali era personificada na cura da doença) era ter fé de que Deus era capaz de fazer aquilo. Nos termos de Winnicott, seria dizer que o essencial para que a criança recebesse o seio pelo qual ansiava não era o comportamento da criança, não era o fato de ela ser uma criança boazinha. Pois a mãe suficientemente boa não fornece a sustentação em função de como a criança se comporta. Pouco importa se a criança é chata ou educadinha. A maior preocupação (que nem chega a ser uma preocupação de fato, pois que é algo natural) dessa mãe é fornecer um ambiente suficiente para que o bebê possa se constituir como um indivíduo. Ela se interessa pela vida da criança.

Assim também Deus não nos exige que sejamos perfeitos para sermos dignos da salvação operada em Jesus. Ele, como uma mãe suficientemente boa, está interessado na nossa vida. Ele quer resgatar o máximo de vidas que puder da prisão do pecado. E essa salvação, como bem elaborou o apóstolo Paulo, é graça. Ganhar algo de graça é o mesmo que dizer que não se fez nada para ganhá-lo que foi puro dom de quem deu. Ora, não é assim também que faz a mãe com seu bebê? Ela vem de encontro no exato momento e espaço em que o bebê demanda o seio. Assim também Deus nos entregou seu Filho no momento certo para atender a nossa demanda de sermos libertos da prisão do pecado. E assim como a mãe faz o que faz naturalmente, por amor a seu filho, assim também Deus nos salvou gratuitamente, por amor.

E a fé? Pois bem, acabei falando mais da graça do que da fé, talvez porque tais coisas sejam indissociáveis. Pois, assim como o bebê só consegue ter confiança na existência e enfrentar as intempéries do mundo sem se abalar, sem desespero, se tiver experimentado um ambiente suficientemente bom, cujas falhas só o tornaram mais maduro, mas não foram capazes de fazê-lo se sentir em perigo, assim também o cristão só terá fé ao entregar-se à graça de Deus. Com efeito, ao entregar-se assim, o cristão é capaz de experimentar retroativamente o que sentiram os contemporâneos de Jesus, ou seja, a chegada do Reino de Deus e o perdão dos pecados.

Na entrega de si à graça, o cristão experimenta-se imerso numa plenitude tamanha que todos os acontecimentos externos, sejam alegres ou tristes, se apequenam. Ele não é mais submisso ao fluxo da vida visto que a casa de sua existência está fundada sobre a rocha que é o Cristo. Nesse sentido, podemos compreender o objeto interno bom de Winnicott como tendo um sentido análogo ao de Cristo para o cristão, pois o objeto bom é o porto seguro do qual o bebê se lembra quando o ambiente não corresponde a suas expectativas. Da mesma forma, Cristo é o fundamento que permite ao cristão caminhar ainda que “pelo vale tenebroso” e “não temer mal algum”. E, da mesma que é objeto interno bom que permite que o bebê se sinta contente mesmo na ausência de estímulos externos, é Cristo a fonte da felicidade do cristão, que faz com que ele não precise recorrer a prazeres efêmeros para se sentir alegre.

Tudo isso só evidencia que Winnicott, ao contrário de Freud, concebeu um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro, visto que, assim como para Winnicott o sujeito não se constitui de forma saudável sem a presença de um ambiente suficientemente bom que lhe faz sentir segurança e confiança na existência, também o cristianismo não concebe que o homem possa ser salvo por si só, sem a graça de Deus – fonte da fé.

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Winnicott e o cristianismo II – o sentimento de continuidade do ser e a Redenção

Um dos critérios que definem um bom texto é a preocupação do autor em fornecer ao leitor todos os pressupostos e postulados que fundamentam a argumentação que será desenvolvida ao longo de seu escrito. É exatamente isso o que vou procurar fazer nesses primeiros parágrafos para que você, caro leitor deste blog, possa saber o ponto de partida de minhas demonstrações.

Por exemplo, falarei aqui de aspectos essenciais do pensamento essenciais do pensamento de D. W. Winnicott. Todavia, para que eles sejam apreciados em toda a sua amplitude e você possa compreender as analogias que farei com o cristianismo, é preciso explicitar o que os postulados de Winnicott significaram para o todo da teoria psicanalítica.

Winnicott, em seu humilde respeito ao pioneirismo de Freud, inicialmente pretendia apenas preencher algumas lacunas do saber psicanalítico com alguns dos conhecimentos que ele extraiu da sua experiência de pediatra com bebês. De fato, nem Freud nem a maior parte dos analistas daquela época possuía tal experiência. Assim, Winnicott dizia que o cerne da teoria de Freud estava na idéia de conflitos intrapsíquicos derivados do relacionamento do sujeito com seus objetos (pessoas), sendo o complexo de Édipo a matriz desse relacionamento. No entanto, para Winnicott, Freud já tomava como dado que o sujeito existia. Nas suas análises de neuroses infantis a partir de neuroses adultas, como no caso do Homem dos Lobos, Freud já dava como pressuposto que a criança se reconhecia como pessoa, sabia diferenciar seu mundo interno do mundo externo e se relacionar com pessoas vistas como pessoas inteiras (não-fragmentadas).

A tarefa da qual Winnicott vai se encarregar é justamente a de mostrar que até chegar a esse estágio (que Freud já dava como estabelecido) houve todo um processo; e que esse processo, para ser bem sucedido, dependia de condições externas, mais especificamente de um ambiente que fosse bom o bastante para facilitá-lo. Assim, Winnicott vai desenvolver suas teses no sentido de evidenciar a trajetória trilhada pelo bebê (com sua mãe) até reconhecer-se como uma pessoa. É aí que a teoria de Winnicott perderá o mero estatuto de complemento da teoria psicanalítica e passará a constituir uma verdadeira revolução paradigmática no interior da Psicanálise. É que Winnicott dirá que a maior tarefa da mãe/ambiente durante os momentos iniciais da vida da criança, é auxiliá-la a manter o sentimento de continuidade do ser. É difícil para nós, adultos, compreendermos tal sentimento, porque nós não nos lembramos mais da extrema confusão em que estávamos imersos no início de nossa vida. Hoje não temos dúvida, ao acordarmos, de que somos a mesma pessoa que dormiu. O bebê não. Ele ainda não conta com esse eixo que agrupa e organiza as sensações. É aí que entra o ambiente. Se o ambiente for bom o suficiente, ele permitirá ao bebê reconhecer-se como uma única pessoa, embora experimente diferentes sensações e aja diferencialmente. Além disso, o sentimento de continuidade do ser tem um aspecto mais profundo que foi justamente o ponto de partida da mudança paradigmática de Winnicott: é o problema da identidade. Quando o ambiente não auxilia o bebê a sentir-se como existindo em meio ao fluxo da vida, isto é, quando o ambiente permite que o fluxo da vida, isto é, a fome, as idas e vindas da mãe, etc. sejam tão fortes ao ponto de fazer com que o bebê se sinta a ponto de ser aniquilado, esse, não vendo saída, passa a se identificar com o próprio fluxo da vida com vistas a permanecer existindo (“Se não pode com eles, junte-se a eles”). Assim, ele tenta manter o sentimento de continuidade do ser à custa de seu próprio ser, na medida em que deixa de ser si próprio para se identificar com o fluxo da vida.

Por que isso significou uma mudança paradigmática na psicanálise? Porque até então, os analistas trabalhavam tendo como paradigma interpretativo do sujeito o modelo freudiano de aparelho psíquico. Ora, Freud considerava que a principal função do psiquismo era o tratamento das excitações vindas do mundo externo e interno. Tal tratamento era feito através dos mecanismos de defesa: recalque, projeção, formação reativa, sublimação, etc. Ou seja, para Freud, a tarefa humana par excellence era lidar com as excitações, mais especificamente com a pulsão, visto que há meios não-psicológicos de combater as excitações externas. É evidente que há uma herança judia nessa formulação freudiana. Afinal, não são os judeus que, não querendo contar com a graça de Cristo, ainda vivem sob a Lei, a qual não faz nada mais que detectar, prevenir e expiar os pecados? O mesmo que faz o aparelho psíquico com a pulsão?

Para Winnicott, no entanto, a principal tarefa do ser humano é conseguir manter o sentimento de continuidade da existência. E é só com a elaboração desse sentimento em um ambiente suficientemente bom que o sujeito poderá vivenciar de forma saudável os conflitos interpessoais e lidar com a pulsão não como algo perigoso, ameaçador, pecaminoso, mas como uma fonte de vida, como algo que o impulsiona.

Será que não é algo análogo o que a graça de Cristo opera no cristão? Pois, ao experimentar o perdão dos pecados, o crente passa a não mais temer o pecado, como o judeu, pois o pecado, em Cristo, perdeu o seu poder destrutivo, qual seja, o poder de envenenar a alma e fazer com que o sujeito não mais se reconheça como alguém criado à imagem e semelhança de Deus. Ou seja, tal como a pulsão não é vista como algo potencialmente aniquilador para quem elaborou seu sentimento de continuidade do ser num ambiente suficientemente bom, assim também o pecado não é mais visto pelo cristão como um monstro, pois o seu ser foi resgatado por Cristo. O grande dilema de quem não aceita a graça de Cristo é que ele não conta com um Redentor. Assim, todo pecado permanece fonte de morte, pois, como diz o apóstolo Paulo, “o salário do pecado é a morte”. O cristão, pelo contrário, caminha seguro, pois sabe que se cair terá Quem o levante. Em outras palavras, se pecar terá Quem o perdoe. Não que ele queira pecar ou tenha deleite nisso. Mas ele pode pecar, pois não se desesperará por isso. Afinal, esperança é o que não lhe falta…

Assim, a energia do pecado que escravizava o homem, passa a servir como força propulsora de amor a Deus. Na carta aos Romanos, Paulo diz: “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.”

Compreendemos, portanto, que, assim como para Winnicott, para o cristão a questão primordial da vida é o ser. E é só quando o meu ser foi roubado de mim, pelo ambiente insuficiente ou pelo diabo, é que eu encaro a pulsão ou o pecado como potencialmente aniquiladores. No entanto, quando há um Redentor que resgata meu ser e me faz sentir seguro tal como a mãe suficientemente boa com seu bebê, eu posso lidar com o pecado sem medo, convertendo a força que outrora me prendia a ele, em energia que me leva a viver plenamente (cf. “Eu lhes darei vida, e vida em abundância”).

Agora vem a pergunta: como é que posso ter a certeza de que meu ser foi resgatado? Ou: o que faz com que esse sentimento de continuidade do ser não seja abalado pelas vicissitudes da vida? No próximo post veremos finalmente as analogias entre a fé e a confiança no ambiente.

Winnicott e o cristianismo I – A kénosis e o devotamento materno

Este post é o primeiro de uma série que resolvi intitular como “Winnicott e o cristianismo”, pois pretendo através dela defender a idéia de que as postulações do analista inglês são preciosamente úteis para compreender o Deus cristão e a dinâmica da fé no cristianismo verdadeiro. Além disso, as diversas analogias que podem ser feitas entre conceitos e teses winnicottianas e aspectos do cristianismo possibilitam também um auxílio para o discernimento entre o falso e o verdadeiro cristão.

Para dar início à série, escolhi um dos aspectos da teoria de Winnicott que, por uma coincidência feliz (Jung diria: por sincronicidade), fora levantado pelo colega blogueiro Vladimir Melo no seu comentário do post final sobre o amor como afeto e o amor como ação. Estou me referindo a essa condição psíquica assaz peculiar que atinge a grande maioria das mães quando do nascimento de seu filho. Winnicott fica tão aturdido com a singularidade desse estado que só consegue compará-lo com um delírio psicótico, pois é como se a mãe deixasse de ser ela mesma e passasse a ser o próprio bebê. Ora, casos em que uma pessoa se identifica a tal ponto com outra que abdica de sua individualidade, só são encontrados nas psicoses.

No entanto, no caso das mães, não se trata de uma doença, pois essa “preocupação materna primária”, como Winnicott a denomina, é uma condição necessária, sem a qual o bebê não conseguiria desenvolver suas potencialidades. Isso porque muitas das condições psíquicas básicas que nós, adultos, consideramos como inatas, não o são. Por exemplo, tendemos a achar que a certeza que temos de existir em nosso próprio corpo é uma constatação dada pela própria natureza. Hílare engano! Afinal, os CERSAMS da vida estão abarrotados de pessoas que dizem estarem presas em seu corpo atual, mas que sua verdadeira estrutura corporal está alhures, habitada pela pessoa do irmão. A própria doutrina espírita só foi possível ser formulada pelo saber implícito de que a ligação entre corpo e psiquismo não é natural (daí a dizer que a alma renasce em outros corpos é outra história…).

Temos, para Winnicott, uma tendência inata para a integração. Todavia, essa tendência só vai ser concretizada mediante a presença de um ambiente que reconheça, compreenda e se identifique conosco. Afinal, para que esse ambiente possa facilitar o desenvolvimento do processo de integração e das outras tendências, é preciso que ele não apenas reconheça a necessidade do bebê, mas sinta na pele a confusão que aflige a criança. Assim, de acordo com Winnicott, para que a mãe possa ser boa o suficiente para facilitar o desenvolvimento da criança, é preciso que ela possa se sentir no lugar do bebê, identificando-se com ele. É só após o infante ter conseguido realizar as tarefas básicas de seu desenvolvimento, que a mãe sai desse estado de completa identificação com bebê, permitindo que ele possa caminhar cada vez mais independentemente. Todavia, esse caminhar autônomo só se dará de forma saudável se a mãe tiver, de fato, passado pela preocupação materna primária, o que permitirá ao bebê sentir confiança no ambiente e, a partir daí, lidar com ele de forma criativa, não o considerando como ameaçador.

Ora, não seria análogo a essa identificação materna com o bebê o que o Deus cristão fez para com os homens ao enviar seu Filho Unigênito Jesus ao mundo? Essa vinda de Deus à imanência humana na pele do homem Jesus de Nazaré, o que o apóstolo Paulo chama de kénosis divina, isto é, o rebaixamento de Deus à condição de homem, não seria justamente a vontade de divina de identificar-se com os homens, partilhando, assim, de suas necessidades, agruras e sofrimentos?

A analogia fica ainda mais pertinente se pensarmos que da mesma forma que a mãe abdica de sua individualidade para se identificar com o bebê, Deus se despe de sua majestade celestial e morre! A morte, meus caros, é o superlativo do humano, pois é justamente o “prêmio” que o homem ganhou ao ter sido expulso do Éden. Assim, Deus se identifica de forma tão “doentia” (com muitas aspas e no sentido de “doente de amor”) com os homens, que assume a maior das aflições humanas que é a morte.

A prova de que o que Jesus realiza ao morrer na cruz não tem nada de um heroísmo hercúleo, mas constitui “apenas” um ato de amor supremo de um Deus que quis identificar-se maternalmente com a criatura exatamente para redimi-la, é que, em determinado momento, Jesus diz para os apóstolos que a partir de então eles não eram mais seus servos, mas seus amigos. Ora, amigo é aquele com quem me identifico, com quem posso partilhar das minhas dores. O que Jesus está colocando em evidência é a faceta do Deus Amor que os judeus não conseguiram entender (até hoje).

Assim, da mesma forma que a mãe suficientemente boa se identifica com o bebê para facilitar o desenvolvimento de suas tendências inatas, assim também Deus se fez homem em Jesus para que, compartilhando com os homens o fardo de ser humano, pudesse redimi-los, isto é, resgatar e, por que não, facilitar o desenvolvimento de nossa mais primária inviolável tendência que é a de amar a Deus.

E da mesma forma que a mãe vai gradualmente se desidentificando com o bebê para permitir que ele caminhe com as próprias pernas, assim também Jesus ressuscitou, voltando para sua majestade divina. Todavia, tal como a herança deixada pela identificação da mãe com o bebê é a confiança no ambiente e a capacidade de lidar com ele sem considerá-lo como potencialmente aniquilador, assim também Cristo nos deixou a fé no perdão de Deus e na vida eterna, o que nos permite enfrentar as tentações e o pecado sem o temor da morte.

Em um próximo post, desenvolverei melhor as relações entre a “confiança no ambiente” de Winnicott e a fé cristã.