Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia

A maior parte das considerações que farei na parte inicial deste post eu já a as fizera num texto anterior chamado “A mente em Winnicott” cujas duas partes podem ser acessadas nos arquivos do blog. Winnicott, ao contrário de toda uma tradição em que talvez Freud pudesse ser incluído, não concebe a mente como um espaço imaginário ou real que venha a ser preenchido com seus respectivos conteúdos, a saber: as idéias. Para Winnicott, a mente constitui-se como uma função, função intelectiva. Logo, sendo uma função, a mente não possui um estatuto ontológico, dado, como o corpo. Ela existe devido a necessidades advindas da relação do sujeito com o ambiente.

Também é preciso lembrar que Winnicott faz uma distinção entre mente e psique que, também na tradição psicológica, são tomados como sinônimos. Para o analista inglês, a psique consiste numa “elaboração imaginativa de partes e funções corporais”, ou seja, é um precipitado constituído de imagens derivadas da própria experiência do sujeito com o corpo. Na medida em que tal experiência se inicia primordialmente a partir de seu contato com a mãe, são justamente os cuidados maternos, concretizados em tarefas normais como o banho e a higiene do bebê que o auxiliam a entrar em contato com seu próprio corpo, conjugando a experiência sensório-motora com a realidade imagética dela proveniente.

Percebe-se, portanto, que a psique não está relacionada ao conhecimento no sentido estrito do termo. Em sentido lato, sim, pois se pode dizer que as imagens derivadas da experiência corporal constituem o próprio conhecimento imediato da realidade do corpo pelo bebê. Todavia, o conhecimento no sentido intelectual do termo compete à mente. A função mental, diferentemente da psique, não brota da vivência física, mas aparece, primariamente, em função da relação entre o bebê e o ambiente (mãe). Como vimos nos posts anteriores, em um primeiro momento, devido à satisfação plena das necessidades da criança pela mãe, o bebê não se percebe portando uma existência individual separada de um mundo externo. Naquele momento, tudo é sonho, todos os seus desejos são atendidos. Ora, num mundo como esse, que utilidade teria uma função mental que servisse ao bebê para conhecer e entender o mundo? Nós só buscamos conhecer e compreender a realidade quando ela não corresponde às nossas expectativas, justamente para que, compreendendo-a, possamos saber como agir para saciar nossas necessidades ou para que renunciemos de vez à esperança de fazê-lo. Portanto, num mundo em que todas as necessidades são satisfeitas, não há por que se esforçar por conhecer.

É exatamente por isso que a função mental nasce no momento em que a mãe começa a sair de seu estado de completa devoção ao bebê e esse começa a enfrentar pequenas – e necessárias – frustrações. Por conseguinte, é como se o bebê acordasse do sonho e tomasse contato com o real que ora é maleável ora não com suas expectativas. A saída encontrada pela criança é justamente a de tentar compreender por que o ambiente não mais lhe sacia exatamente na hora em que ela sente a necessidade. E essa compreensão passa pela identificação de possíveis comportamentos que podem fazer com que a mãe vem até ela, como o choro, por exemplo. Essa é a descrição de um uso saudável da função mental, ou seja, como um instrumento de compreensão do real.

Acontece que nem todos os bebês experimentam um ambiente suficientemente bom, regular o bastante para que ele consiga compreender seu fluxo e confiar na sua eficácia. Por exemplo, muitas mães são inábeis na identificação das necessidades da criança, não sabendo interpretar, por exemplo, quando a criança chora porque está sentindo cólica e quando chora porque está com fome. Assim, ao não se ajustar à necessidade da criança, a mãe torna-se invasiva e faz com que o infante não consiga compreender o ambiente. No entanto, ela (a criança) insiste em tentar entender e, como não consegue, faz uso de recurso bastante encontrado no meio universitário: inventa uma explicação. Sua tentativa de compreensão sai da imanência de sua relação com o ambiente e se converte numa forma de explicar o ambiente caótico gerado pelo comportamento imprevisível da mãe. O bebê, então, inventa razões. Talvez haja dias certos para chorar, dias em que a mãe ouve e dias em que a mãe não ouve – claro que essa é apenas uma hipótese, dada a impossibilidade de ter acesso ao pensamento da criança. Mas o importante a ser retido é que, reagindo ao ambiente desse modo, isto é, inventando explicações ao invés de compreendendo-o, a criança vai criando um padrão doentio de interação com o mundo, marcado por uma espécie de intelectualismo que, é claro, gerará excelentes ganhos secundários caso o sujeito se enverede pela carreira acadêmica. No entanto, para-além da academia, tal sujeito sofrerá imensamente, pois terá dificuldades para compreender sua interação com as outras pessoas e com a própria realidade, justamente por estar acostumado a uma vida teorizada e não vivida.

De que forma tudo isso está relacionado ao cristianismo? Vejamos: será que os fundamentos da fé cristã poderiam ser tomados como um ambiente suficientemente bom? Não entenderam? Vou explicar melhor: o ambiente suficientemente bom atende suficientemente bem as necessidades humanas de tal modo que permite ao bebê compreender quando e por que ele (o ambiente) falha. Sendo assim, será que poderíamos considerar a graça divina, o amor incondicional de Deus pelos homens, a morte de Deus na cruz para salvar o homem dos pecados como fatos facilmente palatáveis para o ser humano, ou seja, facilmente compreensíveis como o ambiente suficientemente bom?

É óbvio que não! Naturalmente tendemos a pensar Deus como um rei poderoso, onipotente, que não se curva a seus súditos, que, pelo contrário, exige que eles se curvem. Ora, como então poderíamos conceber facilmente que o rei, por amor a seus súditos, por querer fazê-los compartilhar de sua majestade, se transformasse por um tempo num deles e morresse da pior forma possível para salvá-los da perdição? É um paradoxo terrível, como dissera Kierkegaard. E, como também disse o pensador dinamarquês, o paradoxo aparece à razão como uma doença (pathos), como algo que deve ser extirpado.

É justamente nesse ponto que se inicia nossa analogia. Por que o bebê consegue compreender as falhas do ambiente? Será que é porque ele consegue descrever racionalmente para si mesmo o padrão de funcionamento das idas e vindas da mãe? Claro que não! O bebê compreende porque confia que a mãe não lhe desamparará. Trata-se, portanto, mais de fé do que de racionalidade. Da mesma forma, a único modo de o cristão compreender os paradoxos da relação do homem com o Deus e também da própria constituição divina (um único Deus que é pai, filho e espírito) só se dá mediante a fé – o que Kierkegaard também dizia.

O que acontece é que há uma classe especial de pessoas que se diz cristã ou pretende sê-lo e que, diante do paradoxo, não fazem uso da fé (pois não a tem), mas tentam utilizar a razão. Agindo assim, evidenciam que o paradoxo transformou-se para eles em escândalo. Todavia, ao contrário de outros que, escandalizados, abandonam de vez qualquer pretensão a compreender, essas pessoas, que vocês já devem ter percebido tratar-se dos teólogos, pretendem extirpar o escândalo, inventando explicações que não explicam. Por exemplo, por que simplesmente não crer que Jesus, o Pai e o Espírito Santo são um único e mesmo Deus, simples assim? Por que, em vez disso, postular que são três pessoas de uma substância que é a divindade e que, portanto, há uma homoousia (esse conceito arrogante) entre eles. Por que não considerar com simplicidade que, não obstante Deus seja onisciente, o homem possui liberdade para escolher e, em vez disso, perder tempo com querelas estéreis sobre determinismo e livre-arbítrio?

Poderíamos dar aqui inúmeros outros exemplos de “intelectualização” como forma de tentar apreender os paradoxos cristãos na teologia. Tomás de Aquino e todos os teólogos sistemáticos foram exemplares nesse quesito. Aquele, por exemplo, foi recorrer à filosofia aristotélica para explicar inexplicáveis, como a existência de Deus, a criação, etc. Ele próprio, no fim de sua vida, após uma experiência mística, reconheceu a inutilidade de suas teorias.

Portanto, assim como o bebê que diante de um ambiente insuficiente – que falha mais do que devia – inventa explicações que não explicam por uma dificuldade de compreender, assim também os teólogos que, como bem disse Lacan, junto com os psicóticos são os únicos verdadeiramente ateus, por não conseguirem, pela fé, ter acesso a um conhecimento imediato, intuitivo, não racionalizável, inventam teorias, sistemas e conceitos que não passam de masturbações intelectuais que agradam muitíssimo ao espírito, mas não explicam. E não explicam pelo simples fato de que não há explicação pela via da razão.

Vemos assim que Winnicott não só fornece um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro – o que não significa que tal modelo explique os paradoxos cristãos, mas que, como a função mental saudável, apenas ajuda a pensar sobre eles – mas possibilita pensar em questões periféricas ao cristianismo. Talvez não se trate de uma mera coincidência.

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3 comentários sobre “Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia

  1. Oi Lucas,

    trabalho no Centro de Letras e Artes da UFRJ, prédio da Reitoria, além disso, sou acadêmica de Psicanálise Clínica. Navegando, encontrei os textos postados por ti sobre Winnicott e o Cristianismo. Parabéns! É Luz. Um abraço, Alice

  2. Olá Alice! Muito obrigado pela visita! A série “Winnicott e o cristianismo” continuará. Na semana que vem inicio o mestrado em Saúde Coletiva, no Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, no Fundão.

    Textos como esse são os primeiros passos na caminhada de um neófito – minhas primeiras contribuições à Iluminação.

    Um abraço!

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