O que são espaço e objetos transicionais? (parte 1)

Unidade mãe-bebêA maioria de nós está consciente de que é uma coisa distinta do restante do mundo. Com exceção de alguns psicóticos e de viciados em smartphones que consideram o dispositivo como mais um órgão do corpo, a maior parte das pessoas acredita saber diferenciar muito bem a realidade externa da realidade interna. Tal discernimento, contudo, não nos vem de fábrica, isto é, não se trata de um saber inato.

Através da observação de bebês, como pediatra, e da escuta de pacientes, como psicanalista, Donald Winnicott demonstrou que até aproximadamente os seis meses de vida nenhum de nós sequer suspeitava que exista uma separação entre nós mesmos e o mundo externo. E isso não ocorre porque nessa época ainda não possuíamos uma estrutura cerebral suficiente, mas sim porque até os seis meses a maioria de nós vivia em um mundo mágico que Winnicott chamou de “dependência absoluta”.

Trata-se da fase imediatamente posterior ao nascimento em que o bebê depende absoluta e integralmente dos cuidados da mãe (ou de alguém que a substitua) para que consiga sobreviver não só física como também psicologicamente. Winnicott costumava dizer que nessa fase o bebê enquanto tal não existe posto que, caso exista, estará sempre junto a uma mãe. Portanto, pode-se dizer que até os seis meses o que existe de fato é uma unidade mãe-bebê.

Pois bem, em contrapartida às necessidades do bebê que lhe colocam em uma condição de dependência absoluta do outro, a maioria das mães, após o nascimento da criança, experimenta um estado subjetivo totalmente peculiar que Winnicott denominou de “preocupação materna primária”. A mãe passa a ter olhos só para o bebê e se identifica de maneira tão visceral a ele que se torna capaz de compreender suas experiências mais sutis. É impressionante, por exemplo, a capacidade que as mães nesse estado possuem de discernir acertadamente as causas das cólicas de seus filhos como se estivessem na pele deles. Winnicott considerava essa condição psicológica tão extravagante que dizia que, se ela fosse avaliada fora do contexto, poderia muito bem ser vista como uma doença psíquica!

Agora tente imaginar a situação de um bebê nos primeiros seis meses de vida: cheio de necessidades, mas inserido em um ambiente tão intensamente identificado a ele que é capaz até mesmo de adivinhar o exato momento em que surgem suas necessidades. Logo, se o bebê sente fome não precisará esperar muito tempo ou chamar a atenção do ambiente para se alimentar. Uma mãe em estado de preocupação materna primária conseguirá detectar que o bebê está com fome de modo quase imediato e irá amamentá-lo antes mesmo que a criança possa sequer pensar. Convenhamos: um ambiente como esse deve parecer um tanto mágico, afinal nele os objetos que queremos aparecem instantaneamente conforme o advento de nossas necessidades. O bebê sente fome e quase no mesmo instante um suculento seio cheinho de leite lhe aparece à frente! A conclusão óbvia à qual todo bebê chega nesse período pode ser descrita mais ou menos como “Uau! Não há nada para-além de mim! Tudo o que eu desejo se concretiza!”. A criança se vê, portanto, como onipotente, como um pequeno deus sem limites.

Trata-se, contudo, de um engodo provocado por um fator que todo ilusionista conhece e utiliza muito bem: o tempo. Com efeito, em função do estado peculiar de identificação com o bebê vivenciado pela mãe, ainda não há um intervalo temporal suficiente entre o surgimento da necessidade e o aparecimento do objeto para que o infante se dê conta de o objeto não é produzido pelo seu próprio desejo. No entanto, aproximadamente após os seis meses, a mãe começa gradualmente a sair da condição de preocupação materna primária, de modo que já não conseguirá adivinhar de maneira tão imediata as necessidades do bebê. Assim, o mundo mágico da onipotência infantil começa a desmoronar, pois, a partir de então, o bebê passará a ter necessidades e eventualmente precisará esperar um tempo considerável até que a mãe ou outra pessoa se aperceba. Esse é o início do processo de descoberta da realidade externa.

Ao perceber que o objeto não aparece mais imediatamente após desejá-lo, o bebê acaba discernindo que entre ele e o mundo há um descompasso, uma separação, um limite. Esses primeiros pensamentos a respeito das razões pelas quais o objeto não apareceu tão logo o desejara constituem os primórdios do que Winnicott chama de “mente” (conceito que o psicanalista inglês diferencia de “psique”).

Para que esse processo de descoberta da realidade externa não seja traumático, ou seja, para que o bebê não precise reagir artificialmente a ele e perca o rumo espontâneo do seu desenvolvimento emocional, é preciso que a mãe vá apresentando ao infante porções graduais do mundo externo a fim de que o bebê não perca a ilusão de onipotência de maneira abrupta. Em outras palavras, o ambiente precisa ser capaz de levar o bebê à consciência de que não basta desejar para que as coisas aconteçam, mas, ao mesmo tempo, deve fazê-lo perceber que isso não significa que deva abandonar seus desejos ou deixar de expressá-los. O fato de que o objeto não mais aparece imediatamente após a necessidade não significa que ele tornou-se a partir de então inalcançável.

De fato, o bebê só será capaz de realizar isso se o ambiente lhe permitir constituir um espaço de transição entre a realidade interna (onde estão os desejos e as memórias dos objetos do mundo mágico) e a realidade externa (onde estão os novos objetos concretos).

CONTINUA

Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 2)

Como disse na introdução da primeira parte do texto, meu objetivo aqui é, sobretudo, o de desfazer alguns mal-entendidos que com muita frequência se fazem presentes na leitura que o senso comum e a psicologia geral fazem dos conceitos de id, ego e superego.

Nesta segunda parte, ainda não abordarei diretamente a tríade, pois, como eu também disse anteriormente, é preciso compreender o que levou Freud a introduzir a segunda tópica. E é justamente isso o que verá no texto abaixo. Em termos mais específicos, você aprenderá:

(1) Que Freud, conquanto fosse um terapeuta, nunca deixou de formular hipóteses acerca da organização do psiquismo;

(2) Que a chamada “primeira tópica” (Consciente, Pré-consciente, Inconsciente) foi uma hipótese desse tipo;

(3) Que a clínica acabou revelando que a primeira tópica era insuficiente, principalmente o termo “Inconsciente”.

Vejamos agora, tudo isso, detalhadamente:

Sabe-se que Freud, embora tenha inventado um método de tratamento das neuroses, a psicanálise, jamais deixou de lado o seu desejo de ser um cientista. É por isso que desde o início de sua obra encontramos não apenas descrições e análises de experiências da clínica, mas também tentativas de sistematizar a estrutura e o funcionamento do psiquismo.

O primeiro esboço de uma formulação teórica dessa natureza se encontra no chamado “Projeto para uma Psicologia Científica”, um livrinho escrito em 1895, que Freud deixou engavetado e só foi descoberto mais de uma década depois de sua morte. Naquele texto, Freud propunha a ideia de que o aparelho psíquico estruturava-se segundo uma divisão entre tipos específicos de neurônios e funcionava a partir da tendência geral a descarregar a energia produzida pelos estímulos externos e internos. Não nos deteremos nessa primeira concepção, pois ela não está diretamente associada ao surgimento dos conceitos de id e superego, embora no “Projeto” o termo ego já apareça. De todo modo, o sentido que Freud dera ao conceito naquele texto é consideravelmente distinto do postulado em “O Ego e o Id”.

A segunda tentativa de Freud de descrever a estrutura e o funcionamento mentais remonta aos seus primeiros estudos sobre a histeria ainda contando com a companhia de Breuer. Nesse segundo momento, Freud utiliza a capacidade de uma representação mental tornar-se consciente como critério para a divisão do aparelho psíquico. O psiquismo comportaria, então, três “territórios” os quais, é preciso que se diga, não possuem correspondência com a anatomia do cérebro, ou seja, são conceitos metapsicológicos, como dizia Freud.

A primeira tópica

Os três “reinos” da mente seriam: o consciente (Cs.), o pré-consciente (Pcs.) e o inconsciente (Ics.). No Cs. estariam as representações mentais das quais estamos plenamente conscientes no momento, o que faz dessa instância psíquica uma dimensão em permanente metamorfose, pois a todo momento novas representações mentais estão se tornando conscientes e deixando de sê-lo. No Pcs. se localizariam aquelas representações que podem vir a ser conscientes, mas que no momento não estão em nossa consciência. Já no Ics. estariam as representações que já estiveram no consciente e/ou no pré-consciente, mas que de lá foram expulsas por causarem muita angústia. Por conta disso, não podem mais tornar-se conscientes sem que se aplique uma considerável dose de trabalho, sendo que algumas jamais poderão novamente ser conscientizadas em função da alta carga de angústia que produzem.

Essa divisão do aparelho psíquico ficou conhecida na teoria psicanalítica como primeira tópica, pois se trata da primeira tentativa freudiana de descrever quais seriam, por assim dizer, os diferentes “lugares” (topos) do psiquismo.

Por que Freud não ficou satisfeito com a primeira tópica?

A primeira tópica se mostrou bastante útil para Freud quando a psicanálise estava direcionada primordialmente à compreensão das formações do inconsciente e da natureza das representações mentais que causavam angústia e eram recalcadas. Todavia, quando o foco da pesquisa psicanalítica começou a ser orientado para o ego – a instância do psiquismo que, por não suportar a angústia gerada por determinadas representações mentais, as mandava para o inconsciente – essa divisão do aparelho psíquico em consciente, pré-consciente e inconsciente começou a se mostrar insuficiente. Vejamos por que.

Até então, Freud achava que o ego estava totalmente situado no consciente e no pré-consciente, afinal no inconsciente estariam apenas aquelas representações mentais que o ego teria recalcado. Em outras palavras, naquele momento Freud considerava que o conflito psíquico que levaria ao adoecimento psicológico seria travado entre um ego consciente que não quer admitir determinados pensamentos e o conjunto inconsciente desses pensamentos recalcados, ou seja, um conflito ego versus inconsciente.

No entanto, a experiência clínica foi mostrando a Freud que uma parte considerável do ego também era inconsciente. Como Freud descobriu isso?

Ora, durante uma análise, o sinal clínico que evidencia que determinados pensamentos e recordações estão no inconsciente, ou seja, de que foram recalcados, é a dificuldade do paciente de se lembrar deles ou de falar sobre o assunto. Freud compreendia essa situação considerando que haveria uma resistência do ego bloqueando o acesso das representações mentais recalcadas e/ou de seus substitutos. O curioso, contudo, é que o próprio paciente não teria consciência de que estava empregando essa resistência! Logo, a resistência não seria um fenômeno consciente, embora fosse uma função do ego. Conclusão: o ego não é totalmente consciente. Além disso, as resistências se comportariam de modo semelhante às representações recalcadas, isto é, demandariam certa dose de trabalho para que fossem tornadas conscientes.

Essa descoberta jogou por terra a hipótese de que o conflito psíquico se fundamentaria numa oposição entre ego e inconsciente. No entanto, isso não significaria admitir que o ego não fosse um dos polos do conflito psíquico. De fato, mesmo sendo inconsciente, a resistência continuava a ser um fenômeno produzido pelo ego. O problema estava em sustentar que o outro polo do conflito seria o inconsciente, afinal descobrira-se que uma parte do ego também era inconsciente. E agora, o que fazer?

Sugestões de leitura:

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Megamente e as conseqüências de um ambiente falho (final)

Decepcionado por não ter conseguido conquistar Rosana, o herói artificial Titã resolve fazer exatamente o contrário do que lhe havia sido proposto por Megamente. Começa a aterrorizar Metrocity com uma crueldade que nem mesmo Megamente seria capaz de empregar.

A gênese da destrutividade em Titã

Essa mudança no comportamento de Titã evidencia mais uma vez o caráter reativo do mal e da agressividade, cuja intensidade é diretamente proporcional ao impacto das decepções vivenciadas pelo sujeito. Titã não age movido pela força de uma pulsão de morte exteriorizada, mas sim por uma dinâmica afetiva marcada pelos sentimentos de humilhação e desilusão decorrentes da interação com um ambiente que o frustrou. Ele poderia ter reagido de modo diferente, até mesmo não agressivo, caso não tivesse se sentido tão onipotente como se sentira ao saber dos poderes que havia adquirido. Ao se julgar capaz de conseguir tudo o que queria no momento em que se tornara um herói, o jovem Hal refugiou-se numa fantasia de onipotência que não o permitiu reconhecer a resistência que a realidade estabelece à realização de todo desejo.

Titã acreditara que se havia se tornado irresistível à repórter e ao ter seu desejo frustrado, o anti-herói acabou se dando conta do caráter fantasioso do seu sentimento de onipotência, constatação que o fez se sentir ameaçado. Afinal, se mesmo se tornando um herói, ele não era capaz de conquistar seu objeto de amor, isso significava que ele era essencialmente um incompetente, um fraco, enfim, todos os adjetivos com os quais seu supereu lhe caracterizara. Sentindo-se, portanto, humilhado e ameaçado pelas críticas superegóicas que, nesse momento, devem ter grassado, Titã percebe que a única forma de recuperar sua potência e repelir esse sentimento de humilhação é tornando-se agressivo, cruel e utilizando seus poderes para o mal.

Um herói artificial

Na outra ponta da história temos uma situação radicalmente diferente. Megamente, cuja vida afetiva outrora era bastante semelhante à atualmente experimentada por Titã, vivencia agora outra modalidade de relação com o mundo, um tipo de interação espontânea, não-agressiva, benevolente. Como vimos, essa transformação foi produzida pelo encontro com o amor e a acolhida sincera da repórter Rosana Rocha que, não obstante, ainda cria que se relacionava com o bibliotecário Bernard. Num dos encontros entre Megamente e a repórter, o ex-vilão deixa, sem querer, que Rosana o veja tal como é, ou seja, como um ET azul de cabeça grande. É mais um momento de decepção no filme, que faz com que a repórter encerre o encontro e vá para casa.

Megamente, no entanto, volta a procurar Rosana a fim de ir com ela até a antiga casa de Metroman com vistas a encontrar uma forma de parar Titã, o qual vinha fazendo da cidade um caos. A repórter concorda em ir com o ex-vilão e, na residência de Metroman, acabam se encontrando com o próprio de roupão e barba por fazer. O herói não havia morrido, mas apenas saído de cena e é a explicação sobre o que o levara a fazer isso que nos interessa aqui.

Metroman disse que estava se sentindo cansado de ter que enfrentar cotidianamente aquelas batalhas com Megamente e ter que sustentar aquele papel de “o salvador de Metrocity”. Tudo aquilo parecia não fazer mais sentido pra ele. Na verdade, o que fica claro é que, de fato, jamais fizera sentido, pois o que motivava as atitudes heróicas de Metroman não era o seu desejo de fazer o bem, mas as demandas do Outro que lhe reivindicaram desde a infância a assunção da identidade de herói. Nunca lhe perguntaram o que ele de fato gostaria de fazer da vida. O ambiente à sua volta escolheu seu destino à sua revelia, pressupondo que, pelo fato de apresentar superpoderes, ele devesse necessariamente tornar-se um herói.

É nessa parte do filme que nos damos conta de que tanto Megamente quanto o Sr. Perfeitinho foram formados em um ambiente falho, insuficientemente bom. No caso de Megamente, as falhas se manifestaram como hostilidade e ausência de acolhimento às suas potencialidades. Já no caso do Sr. Perfeitinho, a expressão da insuficiência do ambiente foi bem mais sutil. Com efeito, o garoto só recebia elogios, era adorado por todos à sua volta, não experimentando um minuto sequer de hostilidade. Por que, então, o ambiente foi falho?

As duas modalidades de falha ambiental

Tragamos Winnicott novamente à baila para nos ajudar a pensar acerca disso. Para Winnicott, o ambiente pode falhar na adaptação ao bebê de duas maneiras. Uma delas (é a que ocorreu no caso de Megamente) acontece quando o ambiente frustra precocemente as expectativas do bebê, não permitindo a ele estabelecer uma relação de confiabilidade com o mundo. O protótipo dessa interação é a mãe que só fornece o seio ao bebê após o momento em que o infans alucina a presença do seio à sua frente, ou seja, ocorre um desencontro entre a necessidade do bebê e a presença do objeto que satisfaria essa necessidade. Nesse estágio da vida da criança, tal desencontro não pode ocorrer, pois, para estabelecer uma relação de confiança com o ambiente, o bebê precisa experimentar a ilusão de que foi ele próprio quem criou o seio, ilusão que só pode ser vivenciada se o seio aparece no exato momento em que o bebê o deseja.

O outro ripo de falha ambiental possível ocorre quando o ambiente não deixa espaço para a manifestação espontânea do desejo do sujeito. Naquela situação modelar a que fizemos referência, essa falha se manifestaria pela apresentação do seio antes que o bebê sentisse a necessidade de mamar. Essa condição impossibilita a ilusão de onipotência da criança da mesma forma que a anterior. Se naquela o seio veio atrasado, nessa veio adiantado. De todo modo, não veio no tempo do bebê, ou seja, o ambiente não agiu de acordo com a espontaneidade da criança, mas sim de acordo com suas próprias demandas.

A conseqüência desse segundo tipo de falha ambiental é, como no primeiro, a criação de um falso-self. Todavia, enquanto no primeiro caso o falso-self é criado marcado pela reação agressiva à frustração perpetrada pelo ambiente e após uma cogitação prévia acerca do que ele espera do sujeito, no segundo caso as coisas se passam de forma um pouco diferente. As demandas ambientais já se presentificam no momento mesmo da falha. De fato, ao apresentar o seio antes que o bebê tivesse necessidade dele, o ambiente já está obrigando a criança se sujeitar a seu ritmo, isto é, à suas demandas. O bebê é forçado a trocar seu desejo espontâneo pelo desejo do ambiente e, em decorrência, adotar uma identidade artificial que agrade a esse ambiente. Junto com a espontaneidade, vai-se embora também a agressividade que não tem sequer ocasião de manifestar-se naturalmente, pois o ambiente não permite que o bebê apresente frustrações. Ao invadir a existência do bebê com um seio inesperado, é como se o ambiente dissesse à criança: “Não se preocupe, você não precisará nem mesmo sentir a necessidade do seio. Ele estará aqui o tempo todo. Mame-o”.

Ora, a infância do Sr. Perfeitinho não fora basicamente assim? Empanturrado com as demandas à sua volta que o solicitavam a demonstrar seus incríveis superpoderes e, posteriormente, a utilizá-los no combate ao mal, Metroman jamais teve a oportunidade de expressar-se espontaneamente, de fazer o que verdadeiramente desejava. Aquele que todos aclamavam como herói, possuía, na verdade, pretensões muito mais modestas. Queria fazer o que todo cidadão comum faz e, além disso, tornar-se cantor de rock, mesmo que não tivesse lá muito talento para isso…

O herói Megamente

Conquanto tenham ouvido Metroman dizer isso com toda a clareza, Megamente e Rosana continuam fazendo o papel de ambiente falho para o agora ex-herói, pedindo insistentemente a ele que vá até a cidade para vencer o Titã. Felizmente, para sua saúde, Metroman recusa-se a submeter-se novamente às demandas do Outro, atitude que tem um efeito terapêutico duplo, pois leva Megamente a encontrar-se com sua verdadeira vocação, que é a de herói! É nesse momento que o ET azul abandona de vez a identidade de vilão, indo combater Titã. Após algumas reviravoltas, Megamente finalmente consegue recuperar o aparelho capaz de retirar daquele a essência de herói, transformando-o novamente no tímido câmera Hal. Megamente é, então, aclamado por toda Metrocity como o novo herói da cidade e recebe, por tabela, o amor de Rosana.

Concluindo

“Megamente” se apresenta como uma ilustração riquíssima dos modos singulares de manifestação de um espectro psicopatológico que afeta essa dimensão essencial da experiência humana à qual denominamos de identidade. No centro do palco temos um sujeito cuja experiência de ser de modo autêntico é perturbada pela hostilidade e rejeição que recebe quando criança e que se reage a essa frustração ambiental tornando-se destrutivo. Do outro lado, temos um herói artificialmente construído pelas demandas à sua volta e que, de fato, nunca quis ocupar essa função, mas tivera que fazê-lo à força, pois não fora respeitado em sua espontaneidade.

Ao final do filme ambos encontram seu verdadeiro destino e exibem aquela alegria que brota naturalmente no corpo daquele que sente que a vida faz sentido e que sentem aquela experiência que Winnicott descobriu ser a mais fundamental e imprescindível na vida de qualquer indivíduo, que é a experiência de continuidade do ser. De fato, Megamente e Metroman só conseguem resgatar essa experiência que neles sofrera interrupção na infância quando o falso-self de ambos perde a consistência e dá lugar ao verdadeiro self. Em Megamente isso aconteceu a partir da interação com um ambiente acolhedor, espontâneo e interessado representado pela repórter. Já com Metroman, a transformação ocorreu como o fruto de uma decisão corajosa, motivada pelo cansaço da identidade artificial.

Megamente e as conseqüências de um ambiente falho (parte 2)

Após assumir definitivamente a identidade de vilão, a única possível de adotar dentro do contexto hostil em que vivia, Megamente passa a travar grandiosas batalhas com o outrora Sr. Perfeitinho e agora herói da cidade, Metroman. O vilão cresce tendo tais lutas como sua principal ocupação.

Fama de mau

O acontecimento principal do filme, que deflagrará as condições em que se dará o desfecho da narrativa, é o último combate entre Megamente e Metroman. Nessa ocasião, fica evidente aos olhos do espectador que a identidade de vilão em Megamente é uma construção fundamentalmente artificial (falso-self) que não corresponde àquilo que o personagem de fato é em sua dimensão mais íntima. Com efeito, é impossível não notar o modo afetado com o qual Megamente expressa sua suposta maldade. Age como se de fato estivesse encarnando um personagem. Fica notório o fato de que, metaforicamente, está trajando uma vestimenta prêt-à-porter. Além disso, volta e meia Megamente mostra sinais de fragilidade e surtos de infantilismos (como os freqüentes erros nas pronúncias das palavras) que deixam bastante claro sua condição de imaturidade e do uso da identidade de vilão como defesa.

Em outras palavras, Megamente aí se apresenta como um ser que se sente permanentemente ameaçado e que precisa fazer uso da “fama de mau” para conseguir suprimir essa sensação de desamparo e medo. Demonstrei anteriormente que são justamente esses os sentimentos que, despertados precocemente no sujeito pelas falhas ambientais, suscitam a formação de um falso-self, na medida em que o self verdadeiro não foi suficientemente fortalecido para lidar com eles.

Sem Metroman, sem Megamente

Dissemos que se trata da última batalha entre Megamente e Metroman porque esse último morre no combate, ou melhor, finge que morre, como veremos adiante. Por ora, sigamos a sequência do filme e nos coloquemos na posição do espectador incauto que ainda não sabe os acontecimentos posteriores da história. Pois bem, a princípio, Metroman é considerado como morto, o que faz de Megamente o novo “dono” de Metrocity já que não haveria outra pessoa além do herói capaz de lutar contra ele.

Logo que se dá conta da suposta vitória, Megamente comemora o “feito” e passa a gozar a nova vida de “manda-chuva” da cidade. No entanto, gradualmente vai-se abatendo sofre ele uma profunda melancolia, cujas razões o próprio vilão explica a seu fiel companheiro, o peixe “Criado”, que não conseguia entender o porquê daquele estado. Megamente queixa-se de que sua vida perdera o sentido depois que ele havia “vencido” a batalha. Não havia mais ninguém com quem lutar e lutar contra Metroman era a única coisa que ele vinha fazendo ao longo de toda a sua vida.

Temos aqui a ilustração perfeita do momento em que o falso-self é colocado em xeque. Com efeito, a identidade falsificada é criada com a função doentia de servir como a máscara que o sujeito utiliza para se adaptar a mundo hostil, caótico e falho. Quando o mundo em questão, ou seja, o mundo que demandou do sujeito o forjamento de um falso-self, desaparece, esse perde a sua consistência, pois não fora uma identidade criada espontaneamente, baseada na experiência psicossomática autêntica do sujeito, mas sim por oposição a algo. Nesse sentido, para existir, o falso-self precisa de um ambiente ameaçador e desfavorável, o que coloca o sujeito na situação de só saber reconhecer quem é por oposição a outrem. É essa a problemática de Megamente.

Não obstante, diferentemente do que poderíamos pensar à primeira vista, a vacilação, isto é, a perda de consistência do falso-self, expressa frequentemente através de estados depressivos, como o que viveu Megamente, não é ruim para o sujeito. Pelo contrário: a tristeza que se abate sobre o personagem é justamente o elemento que propiciará uma mudança em sua existência e o reencontro com sua espontaneidade perdida na infância.

O último suspiro do falso-self

Isso, todavia, não acontece de imediato. O falso-self de vilão é tão forte e necessário para Megamente que, a princípio, o personagem tenta mantê-lo através da criação artificial de um novo herói para a cidade. Com esse intuito, Megamente extrai das caspas recolhidas de Metroman uma espécie de “essência do herói” com vistas a inoculá-la em algum homem a fim de fazer do sujeito escolhido o novo herói, contra o qual o vilão pudesse duelar. Entretanto, a essência acaba sendo introduzida por acaso no assistente da repórter Rosana Rocha que Megamente geralmente seqüestrava para atrair a atenção de Metroman.

O sujeito em questão trata-se de Hal, um jovem gordo, tímido e imaturo que nutre uma paixão secreta pela repórter. Ao se aperceber forte e com superpoderes devido à injeção da essência de Metroman, o jovem coloca para fora os traços de personalidade que se lhe encontravam latentes e transforma-se curiosamente na antítese de um herói: egoísta, irresponsável e narcisista. Descobre-se, então, que Hal alimentava forte inveja de Metroman, julgando que sua colega estava interessada no herói. Por conta disso, supõe que, por tornar-se herói, adquirira os requisitos suficientes para conquistar Rosana – o que não acontece. Essa é sua primeira decepção. A segunda é relacionada a Megamente. Quando o vilão descobrira que a essência do herói havia sido inoculada no assistente da repórter, Megamente se transformara em um velho sábio e dissera ser o “pai espacial” do novo herói, ao qual dá o “criativo” nome de Titã. Quando Hal descobre que, na verdade, o suposto “pai espacial” era Megamente, sente-se novamente decepcionado. Essa decepção aliada à primeira concernente ao amor da repórter leva Titã a tornar-se mau. A cidade passa, então, a ter dois vilões: Megamente e Titã.

Múltiplas personalidades

Antes de prosseguir com os acontecimentos que levarão ao desfecho da história, gostaria de comentar essa capacidade de Megamente de assumir a identidade de quem quisesse de maneira mágica. Trata-se de um traço colocado no personagem que revela mais uma vez o significativo conhecimento psicológico do autor da película. De fato, essa habilidade de se transformar em qualquer pessoa aponta mais uma vez para a problemática central de Megamente e que diz respeito à sua identidade. A facilidade em se comportar de acordo com as exigências do ambiente ou, em outras palavras, em trocar o agir espontâneo pelas respostas às demandas do Outro é uma característica particularmente interessante do falso-self. Por não construir sua identidade sobre a rocha da espontaneidade, o indivíduo que forja um falso-self passa a assumir diferentes identidades de acordo com o ambiente em que se encontra. Trata-se de um verdadeiro camaleão que existe unicamente para se adaptar às cores dos ambientes pelos quais passeia, sem um eixo irredutível que expresse sua singularidade, que o diferencie da massa. Na experiência analítica, é preciso que o analista tome cuidado para não contribuir para o reforço de um falso-self, pois pacientes nessa condição frequentemente adotam uma postura de submissão que pode ser aparentemente agradável ao terapeuta e acabar sendo confundida com a velha “transferência positiva”.

O advento do verdadeiro self     

Numa dessas várias transformações, Megamente acaba assumindo a identidade de um funcionário do museu dedicado a Metroman chamado Bernard, um jovem intelectual. Aos poucos, Rosana começa a se apaixonar por Bernard, isto é, por Megamente se passando por Bernard, de modo que o vilão passa a experimentar pela primeira vez na vida o amor sincero de alguém por ele. Megamente sente, então, o primeiro contato com um ambiente acolhedor, afetuoso, não-hostil, representado pela figura da repórter. Nessa passagem do filme, podemos observar com nitidez a proposta winnicottiana de que nós nos constituímos a partir da interação entre nossas potencialidades inatas e o ambiente. O ambiente acolhedor proporcionado pela repórter extrai de Megamente (ainda disfarçado na imagem de Bernard) toda a espontaneidade que o vilão teve que “recalcar” em função da hostilidade do ambiente se sua infância. Na pele de Bernard, Megamente não é reativamente desagradável nem manifesta qualquer tipo de comportamento afetado, como anteriormente. Pelo contrário, conversa com naturalidade, sente-se bem e até provoca alegria em Rosana.

Poderíamos fazer uma analogia entre a atitude da repórter em relação a Megamente e a postura adotado pelo analista diante de um paciente massacrado por um falso-self. Conquanto a repórter estivesse enganada quanto à pessoa com quem de fato estava se relacionando, sua atitude de acolhimento em relação a Megamente foi o elemento que permitiu ao personagem prescindir da sua identidade de vilão e passar a agir com espontaneidade. Em outras palavras, Megamente tornou-se “do bem” quando encontrou um ambiente que o permitiu ser assim, que não o obrigou a adotar uma máscara “do mal” para sobreviver. Essa dinâmica é semelhante àquela que acontece na relação entre o analista e uma analisando encarcerado nas jaulas do falso-self. É óbvio que o terapeuta não tem que se apaixonar pelo paciente para permitir a ele ser espontâneo. A função do analista é produzir um ambiente de acolhimento autêntico e adaptado às necessidades do paciente. Num ambiente dessa natureza, o falso-self perde sua função, pois o paciente não será obrigado a reagir nem a criar uma personalidade alienígena para se adaptar, pois é o ambiente quem se adaptará a ele. Winnicott dizia que o falso-self era uma crosta criada pelo sujeito para proteger seu fragilizado verdadeiro self que não pôde se atualizar pela hostilidade do ambiente. Numa análise bem feita, essa função se torna supérflua.

No próximo post, o último desta série, abordarei o destino e a personalidade de Metroman, personagem que, como veremos não era tão diferente de seu adversário, Megamente. Será a ocasião propícia para apresentarmos as conclusões gerais a que o filme nos leva do ponto de vista da psicanálise.

Megamente e as conseqüências de um ambiente falho (parte 1)

Muitas produções cinematográficas dirigidas ao público infantil buscam proporcionar às crianças o acesso a algum ensinamento ético mais do que meramente entretê-las com animações coloridas e engraçadas. Inspiram-se, para tanto, nos tradicionais contos de fada que sempre traziam de maneira mais ou menos explícita a chamada “moral da história”. Esse é o caso da animação “Megamente” produzida pela Dreamworks. No entanto, não pretendo abordar neste texto a sabedoria subjacente ao filme – ainda que eu o pudesse, pois o filme é, de fato, prenhe em ensinamentos – mas a riqueza psicológica que nele se faz presente. Farei, portanto, uma análise psicanalítica da película à moda das que proliferavam fartamente nas primeiras décadas de existência da psicanálise.

O ideal seria que todos os leitores assistissem ao filme antes de lerem este texto. Todavia, como sei que isso não acontecerá, procurarei fazer minhas considerações teóricas ao mesmo tempo em que conto o desenrolar da animação.

Megamente e Sr. Perfeitinho

A história se inicia com Megamente, um extraterrestre azul, sendo enviado por seus pais, ainda bebê, para fora de seu planeta de origem, o qual estaria em risco. No trajeto, Megamente encontra outro bebê, que ele chama de Sr. Perfeitinho. Ambos aterrissam na Terra. O Sr. Perfeitinho será criado por uma família normal do interior e Megamente por presidiários, pois acabara indo parar numa prisão. Numa leitura psicanalítica apressada, poderíamos pensar aqui que Megamente havia sido colocado em um ambiente falho ao passo que Sr. Perfeitinho havia ido parar num ambiente suficientemente bom. Adiante veremos porque essa interpretação não é adequada.

Megamente e Sr. Perfeitinho estudam numa mesma escola, mas experimentam dois tipos distintos de relação com o ambiente. Enquanto Sr. Perfeitinho recebe elogios pela exibição de seus superpoderes como a capacidade de voar, Megamente é desprezado e rejeitado por seus professores e colegas por ser desajeitado e não conseguir realizar adequadamente tarefas que demandam habilidades físicas. Não obstante, Megamente possui uma aptidão intelectual muito acima da média de seus colegas (o que é indicado pelo seu nome-próprio e por sua enorme cabeça). Com tamanha inteligência, o jovem ET azul era capaz de bolar os mais mirabolantes planos para se vingar dos que o haviam repudiado. Ao se dar de seu potencial e do uso que faz dele, Megamente chega a uma surpreendente conclusão sofística: se ele possui aquela incrível capacidade para pensar e se o que ele só consegue pensar é em modos pelos quais pode retaliar seu ambiente, logo aquilo para o qual ele tem mais talento é… ser mau! A partir daí, Megamente se tornará o grande vilão da cidade (Metrocity) e terá como opositor justamente o Sr. Perfeitinho que se tornará o herói Metroman.

O vilão Megamente como falso-self

Como eu já disse em outro texto, do ponto de vista winnicottiano, ninguém é mal espontaneamente, em virtude da atuação de uma suposta pulsão de morte. Para Winnicott, o mal é sempre reativo e se apresenta como a única saída encontrada pelo sujeito para defender-se contra uma ameaça à sua continuidade do ser perpetrada por uma falha ambiental. No caso de Megamente essa tese é confirmada com clareza. Ele se torna vilão como uma reação a um ambiente que não o acolheu, que o rejeitou.

O fato de o personagem ser intelectualmente superdotado é uma daquelas coincidências que costumam levar nós, psicanalistas, a supor que os artistas possuem um conhecimento intuitivo das realidades psíquicas. Com efeito, ao conceber Megamente como um indivíduo altamente inteligente, mas pouco habilidoso em tarefas que exigem desempenho corporal, o autor do filme retratou com exímia fidelidade algumas descobertas winnicottianas. Com efeito, Winnicott notou a partir de sua experiência com adultos e bebês que quando o ambiente no qual a criança está se constituindo falha tanto a ponto de impedir que o sujeito faça as pequenas correções naturais que o permitem continuar tendo um desenvolvimento saudável, o bebê é obrigado a substituir sua espontaneidade por uma atitude artificial criada unicamente para se adaptar ao ambiente caótico em que se encontra. Nesse sentido, a lógica natural é invertida: em vez do ambiente se adaptar ao bebê, é o bebê quem tem que se adaptar ao ambiente. A essa atitude artificial, Winnicott chamou de “falso-self”. No caso de Megamente, o falso-self é ilustrado por sua identidade de vilão, que é criada por ele não espontaneamente, mas com a finalidade de se adaptar àquele ambiente que não o amava como ele naturalmente era.

Mega-mente sem vida

Winnicott diz que, em muitos casos, a criação do falso-self vem acompanhada de uma exacerbação da atividade mental. O leitor que já leu meus textos sobre Winnicott aqui no blog sabe que o psicanalista inglês faz uma diferenciação entre psique e mente. Psique é a elaboração imaginativa que nós fazemos da nossa experiência corporal. Mente é a função que utilizamos para entender o mundo. E só precisamos entender o mundo porque ele nem sempre está de acordo com nossas expectativas, ou seja, porque o mundo falha em se adaptar a nós. Não obstante, no início da vida, o nosso mundo é bastante reduzido, trata-se apenas da mãe ou de quem quer que esteja cuidando de nós. Porém, nesse período inicial nós precisaríamos que esse mundo não falhasse ou falhasse pouquíssimo, pois assim poderíamos utilizar a função mental apenas quando fosse estritamente necessário e essa função estaria conectada com o todo de nossa experiência psicossomática. Se o ambiente falhar muito, o que acontecerá? Nós teremos que utilizar a mente muito mais do que deveríamos naquele momento para entender aquele excesso de falhas. Isso fará com que a mente adquira um funcionamento independente do restante da nossa experiência com o mundo. Ficaremos mais inteligentes, intelectualizados, mas a função mental não estará integrada à nossa vida como um todo.

Em Megamente, essa dinâmica fica bastante explícita: o personagem, apesar de ser bastante inteligente, é um desastre em habilidades que demandem o engajamento do corpo. Esse desajeitamento evidencia a fragilidade do vínculo entre psique e soma, fragilidade que, para Winnicott, caracteriza a falha do ambiente em sustentar a tarefa de personalização. Nesses casos, é bastante comum o indivíduo tentar escapar à angústia gerada por essa falha ambiental se refugiando na função mental. No filme, isso também aparece de maneira clara quando Megamente aparece fazendo invenções e criando pequenas máquinas, enquanto as outras crianças estão simplesmente brincando, vivendo e experimentando o ambiente de modo natural. Temos, portanto, nesse personagem, uma precisa ilustração de um falso-self com a função mental artificial e exageradamente desenvolvida bem como desvinculada da experiência efetiva com o mundo.

Como ainda resta uma série de outros aspectos relevantes do filme para serem analisados e eu não quero cansar o leitor com uma exposição muito longa, continuarei o texto na semana que vem.

Psicossomática e Psicanálise II: Donald Winnicott

Via de regra, tendemos a ver no sintoma psicossomático, como em qualquer outra afecção que nos cause sofrimento, algo a ser extirpado, combatido, eliminado de nosso ser. No entanto, poderíamos nos perguntar: o que nos garante que sem a afecção psicossomática estaríamos melhores? Essa indagação foi feita por Donald Woods Winnicott e a resposta que encontrou para ela foi o reconhecimento da função positiva que o sintoma psicossomático tem para aquele que o apresenta. Vejamos como o psicanalista inglês chegou a tal conclusão.

Quem foi D. W. Winnicott?

Para aqueles que não conhecem Winnicott, os quais imagino não serem legião, é suficiente saber que esse senhor viveu entre 1896 e 1971, atuando como pediatra e psicanalista na Inglaterra. Winnicott elaborou contribuições tão significativas para a psicanálise que alguns autores acreditam que ele tenha dado origem a um novo paradigma psicanalítico, superando anomalias do modelo freudiano. Quem quiser se aprofundar um pouco mais nas inovadoras proposições teóricas do autor encontrará no final deste post uma lista de textos aqui do blog em que eu as abordo. Por ora, vejamos o que Winnicott diz acerca do transtorno psicossomático.

Entre vômitos e loucos

É de sua experiência como pediatra que Winnicott retira suas primeiras observações sobre a dinâmica imanente à constituição do sintoma psicossomático. Ele nota que amiúde os bebês fazem uso de problemas de ordem orgânica para se expressarem e agem assim com uma frequência que aparentemente é muito maior do que nos adultos. Trata-se de crianças que ficam com febre em função de uma ausência longa da mãe, de bebês que vomitam quando querem expulsar de si conteúdos psíquicos atemorizantes, etc.

Dessa experiência com bebês Winnicott extrai a conclusão de que corpo e psique estão intimamente associados. Todavia, a clínica com pacientes psicóticos lhe colocará uma pulga atrás da orelha, pois se deparará com diversos sujeitos que, curiosamente, não se relacionam com o próprio corpo, alegando viverem no organismo de outrem. Como isso é possível? Essa é a pergunta que Winnicott se faz. Como é possível que os bebês lhe apresentem uma vinculação tão profunda entre corpo e psique a ponto de expressarem corporalmente eventos de ordem psicológica e determinados adultos lhe demonstrem exatamente o oposto, isto é, uma total cisão entre corpo e psique?

Se não há quem una, como permanecer uno?

A solução que Winnicott encontra para esse problema é o reconhecimento de que embora corpo e psique possam se vincular, nem todos os indivíduos conseguem realizar essa tarefa. Em outras palavras, no início da vida corpo e psique não estão unidos, podendo ao longo da história do sujeito vir a estar ou não. O que vai determinar um desfecho ou outro? A atuação de Winnicott como pediatra não lhe deixa dúvidas: é o cuidado que a criança recebeu nos primeiros meses de vida. O psicanalista reconhece que a tendência para integrar corpo e psique é inerente a nossa espécie. No entanto, se o ambiente em que nascemos (que para a maioria de nós é a mãe) não ajudar, essa tendência não se realiza. Fora isso o que acontecera com os pacientes psicóticos que diziam viver no corpo do próximo! O ambiente no qual nasceram foi tão falho que sua existência psíquica se constituíra de forma totalmente dissociada de sua corporalidade.

Aqui, cabe uma delimitação conceitual: a palavra psique em Winnicott não é sinônimo de mente. Essa última é entendida pelo autor como uma função intelectual que emerge no momento em que o ambiente começa a fazer a tarefa saudável de quebrar gradualmente a ilusão de onipotência do bebê (“tudo o que eu quero vira realidade”). Nesse processo, o bebê, que antes só se deleitava sem precisar pensar, agora precisa olhar para a realidade e tentar entender o que está acontecendo. É nessa hora que a função mental aparece. A psique, no entanto, já existe. Ela é a elaboração imaginativa de partes e funções do corpo ou, em outras palavras, é a amálgama de fantasias que o bebê elabora sobre o que ele vivencia no nível somático. Se o ambiente é suficientemente bom, ele permite ao bebê integrar essas fantasias ao corpo e passar a ter uma existência psicossomática, isto é, ter a experiência de existir dentro de um corpo.

Caso o ambiente seja muito ruim (no sentido de não auxiliar o bebê nessa tarefa de integrar psique e corpo, a qual Winnicott chama de personalização) a criança não percebe a vinculação entre o que ela produziu de fantasias sobre a experiência corporal e o próprio corpo, ficando refém de uma angústia inimaginável. A saída encontrada pelo bebê nesse caso é cindir completamente tais fantasias do corpo e refugiar-se na mente, na função mental – como acontece com muitos psicóticos nos quais se observa uma capacidade intelectual fora de série.

Está doendo, graças a Deus…

Entre esses dois extremos, isto é, entre um ambiente suficientemente bom e um ambiente que falha muito, existe o que a gente pode chamar de “ambiente mais-ou-menos”. Trata-se de um ambiente que não é bom o bastante, mas também não falha tão drasticamente a ponto de gerar uma cisão entre psique e soma. Quando o bebê é cuidado por um ambiente assim, ele consegue concluir a tarefa de personalização, mas de maneira muito precária. É como se a integração entre corpo e psique se desse de maneira frouxa, de sorte que o indivíduo se desenvolve normalmente, mas com uma tendência para a cisão (isto é, para a psicose) sempre à espreita.

É nesse momento que o sintoma psicossomático revela sua faceta positiva, pois é justamente ele que impede que a cisão aconteça! Explico: pelo fato da integração corpo-psique ter se dado de maneira debilitada, sempre que o indivíduo experimentar situações de grande abalo emocional como lutos, separações conjugais, perda de empregos etc. essa integração frouxa será abalada e a tendência à cisão emergirá. Nessas ocasiões, o organismo lança mão de uma doença psicossomática como que para assegurar a frágil vinculação existente entre corpo e psique. Assim a cisão não acontece, mas em compensação o indivíduo agora se torna refém de uma doença.

Notem, portanto, que, do ponto de vista winnicottiano, ao adotarmos o belicismo terapêutico que vê nos sintomas algo como Bin-Ladens a serem extirpados, incorreremos num grave erro, pois estaremos atacando justamente a tábua de salvação do indivíduo, a pedra onde ele se agarrou para não cair no despenhadeiro da psicose. Além disso, não estaremos levando em conta a “verdadeira” doença constituída pela personalização frouxa e sua correlata a tendência à cisão.

É por isso que, para Winnicott, o tratamento de uma doença psicossomática passa pela provisão de um ambiente suficientemente bom por parte do terapeuta, um ambiente em que o indivíduo se sinta seguro para poder retomar a tarefa que outrora foi feita “porcamente” pelo ambiente “mais-ou-menos”. Agora, o analista assume o papel de ambiente, mas de um ambiente bom o bastante para ajudar o paciente a integrar corpo e psique. Se isso for levado a cabo, não será necessário fazer nada com o sintoma psicossomático. Ele simplesmente desaparecerá, pois perderá sua serventia.

Concluindo

O sintoma psicossomático, para Winnicott, é o último recurso empregado por um indivíduo vivenciando situações difíceis que ocasionam intensas emoções para manter corpo e psique unidos. Tal indivíduo só lança mão da doença por ter realizado o processo de personalização de maneira precária em função das falhas ambientais.

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Se você se interessou pelo pensamento de Winnicott e quer saber mais sobre as teses do autor, leia os posts abaixo:

Winnicott e o Samba

Pedofilia, estupro: a necessidade da Lei

A mente em Winnicott (parte 1)

A mente em Winnicott (final)

O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (parte 1)

O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (final)

Série “Winnicott e o Cristianismo” (sete posts até o momento)

Por que Winnicott não aderiu ao conceito de pulsão de morte? (parte 1)

Por que Winnicott não aderiu ao conceito de pulsão de morte? (final)

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Se você deseja adquirir o livro “Natureza Humana”, uma síntese das descobertas e das inovações teóricas de Winnicott em que o autor aborda em diversos momentos o problema da doença psicossomática, clique neste link e compre pelo Submarino por apenas R$29,90.

[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise I: Joyce McDougall

Caríssimos, o vídeo abaixo é meu passaporte para a era dos vídeos online. Em tempos de Twitter e seus 140 caracteres, cada vez menos gente consegue se concentrar nem que seja por apenas 10 minutos para ler um texto de 2 ou 3 páginas na internet, o que torna o vídeo a mídia por excelência de disseminação de conteúdo no mundo virtual atualmente.

Por essa razão, pretendo, a partir desta semana sempre que possível produzir um vídeo para cada post que eu vier a publicar aqui no blog. Assim, os da velha guarda (como eu – e muitos) que têm paciência para ler os textos poderão fazê-lo normalmente e aqueles que porventura não queiram ler ou aprendem melhor ouvindo terão acesso à mesma informação (ainda que um pouco mais sintetizada por razões intrínsecas à produção de um vídeo online).

O vídeo abaixo tem como texto de referência o post que publiquei nesta semana iniciando a série “Psicossomática e Psicanálise”. Espero que gostem! Mas não deixem de fazer críticas e sugestões para que os próximos vídeos sejam cada vez mais aprimorados.

Psicossomática e Psicanálise I: Joyce McDougall

Este post é o primeiro de uma série de textos que pretendo publicar aqui sobre as concepções teóricas em psicanálise acerca das doenças psicossomáticas. Meu objetivo é levar ao conhecimento do leitor as idéias dos principais autores que trabalharam essa temática no campo analítico. Muitos psicólogos, por desconhecerem as produções teóricas dos autores que serão abordados aqui, permanecem reféns do conceito popular de doença psicossomática segundo o qual afecções dessa natureza são distúrbios orgânicos motivados por conteúdos de ordem psíquica. Essa é uma definição rasteira, pouco útil e que não faz jus à complexidade e delicadeza do problema.

É muito comum encontrar também não apenas leigos, mas estudantes e profissionais de psicologia que irrefletidamente pensam o sintoma psicossomático como sendo ocasionado pelo fato de o indivíduo não poder se expressar pela fala. Como veremos, tal concepção não é de todo equivocada, mas requer maiores esclarecimentos teóricos para que não se seja levado ao absurdo de recomendar uma mera catarse como estratégia terapêutica para pacientes psicossomáticos. Caso não queiram ler o que virá a seguir, fixem na memória apenas a fórmula seguinte. Já será suficiente para desfazer um bilhão de mal-entendidos.

sintoma psicossomático ≠ conversão histérica

Espero também que os conteúdos que aqui serão abordados possam auxiliar àqueles que efetivamente sofrem com sintomas psicossomáticos a discernirem melhor os fatores que podem ter levado ao desenvolvimento da enfermidade e motivá-los a buscar a ajuda de um psicanalista e/ou de um médico.

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Joyce McDougall e uma equação clínica

A autora que inaugura essa série por certo é desconhecida pela maior parte dos leitores. Pudera. Sua produção teórica é bastante recente e só a partir de meados dos anos 90 seus escritos começaram a gerar algum impacto em terras brasileiras. Como meu interesse aqui não é o de apresentar Joyce McDougall, mas sim especificamente suas idéias sobre a doença psicossomática, sugiro ao leitor que se interessar por conhecê-la esse artigo do psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli.

Para nossos propósitos, basta que o leitor saiba que McDougall é de nacionalidade neozelandesa, mas radicada na França onde seguiu durante muito tempo o Seminário de Lacan, embora não seja lacaniana. Aliás, não se pode dizer que a psicanalista se afilie a alguma tradição teórica na psicanálise. Em seus textos, é possível encontrar o uso de termos e idéias de diferentes autores, em especial Winnicott e Lacan.

A teoria de Joyce McDougall acerca do sintoma psicossomático veio à luz a partir de sua experiência clínica de psicanalista tradicional. Por que frisar isso? Porque diferentemente de outros autores que veremos nesta série, McDougall tomou contato com a psicossomática no interior do dispositivo analítico padrão, cuja maioria dos pacientes apresentava queixas de cunho emocional e neurótico. No entanto, começam a aparecer em seu consultório pacientes cujas manifestações mais proeminentes são de ordem orgânica, levando McDougall a buscar entender o significado desses fenômenos na clínica.

Ela começa por observar em pacientes desse tipo um modo peculiar de lidar com os próprios afetos. Tais indivíduos pareciam agir como se seus afetos não existissem. Seu discurso era mecânico, sem vida e frente a acontecimentos intensos de sua existência eram capazes de reagir com toda a resignação do mundo. Ao mesmo, comportando-se dessa forma, faziam com que no analista brotassem os mais vivos afetos. Havia, portanto, três termos para os quais McDougall deveria elaborar uma equação se quisesse entender tais pacientes: o sintoma psicossomático, a ausência de afetos e a estimulação de afetos no analista.

No princípio era o verbo

Como competente psicanalista que era, McDougall foi buscar na obra de Freud o que o inventor da psicanálise dizia sobre os afetos. E o que ela encontrou foi a teoria clássica de Freud a esse respeito: os afetos são manifestações psíquicas do afluxo de energia pulsional. Na medida em que o acúmulo dessa energia gera um afeto desprazeroso, o indivíduo deve empregar estratégias para descarregá-la. Todavia, como a descarga total é impossível, a saída é fazer essa carga energética circular entre representações psíquicas de modo a “drená-la”. Essa é a estratégia utilizada pela maior parte de nós que somos neuróticos. O que McDougall trouxe de novo a partir do que havia aprendido com Lacan e Winnicott foi a consideração de que aquela estratégia só pode ser empregada se o indivíduo, ainda bebê, tiver experimentado um ambiente que utilizou essa mesma estratégia para com ele antes que tivesse capacidade para tal. Sejamos mais claros.

Logo ao nascer, o bebê não dá conta de drenar a energia pulsional que desde o nascimento já dá o seu ar da graça porque ele ainda não possui representações para as quais drenar o afluxo energético. Mas a mãe as possui! E por possuí-las, ela deve exercer para o bebê a tarefa que McDougall denominou de “pára-excitação” a qual, em termos simples, significa fornecer ao bebê palavras, significantes, representações aos quais o bebê possa investir a energia pulsional e se libertar do poder ameaçador dela. Para dar um exemplo, as mães fazem isso sem saber quando brincam de nomear as partes do corpo da criança: “Esse é seu pezinho; esse é seu narizinho” e durante as “conversas” com o bebê ainda quando esse não sabe falar. É importante lembrar que para que a palavra cumpra sua função de representação, o bebê não precisa enunciá-la, basta que ele a ouça. Pois bem. Nem todo indivíduo conta com um ambiente que funciona adequadamente assim. E aí, quando o bebê não conta com essa função de pára-excitação, ele é deixado na cova dos leões pulsionais. Não é que a pulsão seja naturalmente má. É que ela é pulsão, ou seja, força ininterrupta que demanda trabalho. Então, se não há ferramentas (representações) com as quais trabalhar, logo o indivíduo só tem contato com a força! E essa força excede a tal ponto as capacidades de resistência do bebê que passa a ser sentida por ele como uma angústia inominável, isto é, que não se tem palavras para descrever. E não se tem mesmo, ora bolas!

Desafetação

Em tais casos, a única saída que resta para o bebê se constituir minimamente é se cegar para não ver a pulsão, o que McDougall chamou de “ejetar o afeto do psiquismo” ou “desafetação”. É óbvio que a pulsão continua presente, mas o indivíduo passa a viver como se ela não existisse, de modo que ele utiliza dela apenas o mínimo suficiente para se manter vivo, mas sem fazer dela uso libidinal algum, concebendo-a como potencialmente aniquiladora. São esses os pacientes somatizantes que McDougall encontrou na clínica. É justamente por isso que eles aparentam não sentir nada. É que qualquer afeto um pouco mais intenso é sentido por eles como semelhante à situação de desespero que viveram quando bebês. Eles utilizam então a mesma defesa que outrora: ejetam do psiquismo o afeto, tornando-se desafetados.

O problema é que o afeto que foi expulso do psiquismo não foi destruído, mas retornou a seu lugar de origem. Que lugar é esse? O próprio corpo, fonte da pulsão. Entretanto, o corpo não é capaz de suportar tamanha carga energética, pois nós não somos apenas corpo. Somos corpo e psiquismo. Assim, boa parte dessa carga energética deveria ter sido distribuída entre as representações. Por não dar conta de comportar tamanho volume afetivo ressomatizado, o corpo irá sofrer prejuízos. Com efeito, quanto maiores forem as cargas afetivas ressomatizadas, maior impacto o corpo sofrerá e mais graves serão as lesões produzidas.

Concluindo

Para McDougall, portanto, o sintoma psicossomático emerge como consequência de um processo prévio de desafetação que impossibilitou que afetos vinculados a determinado evento aflitivo pudessem ter sido distribuídos entre representações mentais. O afeto é, então sentido como potencial aniquilador e ejetado do psiquismo retornando para seu lugar de origem, o corpo, gerando ali os mais deletérios sintomas.

Adendos

1. Acerca da estimulação de afetos no analista no tratamento de pacientes desafetados, trata-se de um fenômeno que ocorre não apenas na relação com o analista, mas também com outras pessoas do convívio do indivíduo. Se expressa pela tendência de pacientes desafetados em fazer com que o outro experimente os afetos que não lhes são possíveis de serem experimentados na esperança de comunicar ao outro o estado desesperador em que o indivíduo se encontra por não poder experimentar os próprios afetos. É como se o indivíduo estivesse dizendo: “Sinta por mim, já que eu não posso…”.

2. O fato de o paciente desafetado não ter contado com um ambiente que exerceu de maneira efetiva a função de pára-excitação não significa que ele seja pobre em representações. Essas podem inclusive ser mais abundantes do que em pacientes neuróticos. A diferença é que no primeiro caso elas são pouco investidas afetivamente. Elas estão dissociadas do afluxo pulsional que está mais fortemente investido, no caso de pacientes somatizantes, em determinadas partes do corpo.

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I Estudos Clínicos: “Corpo ou (e) mente(s) doente(s)?”

Caríssimos,

Convido a todos para participarem do primeiro encontro da série “ESTUDOS CLÍNICOS”, um projeto inovador elaborado pelos psicólogos Lucas Nápoli e Bruna Rocha de Almeida, cujo principal objetivo é proporcionar o acesso dos estudantes e profissionais dos cursos de Ciências Humanas, especialmente de Psicologia, a temáticas não exploradas ou tratadas de maneira não tão aprofundada na graduação.

Logo no primeiro encontro, trataremos de um assunto extremamente relevante para a atuação clínica não só do psicólogo, mas de todos os profissionais de saúde e que, todavia, ainda não recebe a devida consideração nos cursos de Psicologia: trata-se das relações entre corpo, mente e doença. Justamente por se tratar de relações multifacetadas e que demandam diferentes possibilidades de posicionamentos teóricos e clínicos, escolhemos como título para o encontro: “Corpo ou (e) mente(s) doente(s)?”.

Nesse primeiro encontro teremos dois minicursos de 3 horas de duração cada:

No primeiro, “Quando a alma ganha corpo: introdução à Psicossomática” o psicólogo, psicanalista e mestrando em Saúde Coletiva (UFRJ) Lucas Nápoli trará uma apresentação do campo ainda enigmático que abrange doenças orgânicas em que o componente psíquico e emocional se mostra diretamente associado. O que dizem os teóricos acerca do fenômeno psicossomático? Quem são os principais autores desse campo de estudo? A doença pode ser vista como uma maneira de falar com o corpo? Como é o tratamento de doenças psicossomáticas? Essas e várias outras questões estarão em pauta neste minicurso.

No segundo, “Doenças graves na infância: a constituição psíquica daquele que contraria o ideal dos pais”, a psicóloga e pós-graduanda em Docência do Ensino Superior (PUC-MG) Bruna Rocha de Almeida aborda, a partir de sua experiência clínica, o outro pólo da relação entre corpo e mente: o impacto do somático sobre o psíquico. Quais são as conseqüências de uma doença congênita grave no psiquismo de uma criança? E no comportamento dos pais? O que faz o terapeuta ao receber um caso dessa natureza? Todas essas indagações serão trabalhadas a partir de um intrigante caso clínico.

Durante os minicursos haverá espaço para perguntas e discussões visando o enriquecimento das temáticas abordadas.

Horários, local, valor do investimento e informações para fazer sua inscrição encontram-se no banner abaixo.

Conto com sua presença!

P. S.: Em função de algumas contingências, nessa semana não haverá texto novo aqui no blog. Nossa rotina costumeira continua na semana que vem. 😉


O que é princípio do prazer?

A maior parte das pessoas não envolvidas diretamente com a Psicanálise desconhece as verdadeiras razões que levaram Freud a se tornar um clínico e, em decorrência disso, o inventor de um novo método de tratamento das neuroses. Pouca gente sabe que o desejo original de Freud no âmbito profissional era o de tornar-se um pesquisador do campo neurológico e não um psicoterapeuta. O pai da Psicanálise só se encaminhou para a clínica por razões de ordem prática e, mais especificamente, financeira. Freud não era rico e precisava conseguir dinheiro para se casar com sua noiva Martha Bernays. Aliás, as dificuldades financeiras acompanhariam Freud e família ao longo de toda a sua vida, mesmo após o reconhecimento internacional de suas inovações teóricas.

Nicho de mercado

Naquele início de carreira profissional, a saída que Freud encontrou para conseguir dinheiro foi se dedicar ao tratamento de uma patologia que vinha sendo encontrada com frequência cada vez maior e para a qual ainda não havia sido encontrada uma técnica terapêutica eficaz. Tratava-se da histeria: uma afecção cujos sintomas mais comuns eram disfunções corporais como dores de cabeça, paralisias de membros, contraturas etc. para as quais não se encontrava nenhuma correspondência orgânica. Freud intuitivamente reconhece nesse campo patológico uma oportunidade de conseguir dinheiro para pagar as contas e se casar. E é justamente no processo de busca de um método capaz de curar a histeria que Freud elabora a psicanálise.

Entretanto, a intenção original de se tornar cientista jamais abandonará a Freud e é por essa razão que ele se dedicará a produzir toda uma obra cuja marca mais visível será a elaboração de uma teoria acerca da subjetividade. E um dos primeiros conceitos que Freud cunha para a construção de seu edifício teórico é a noção de “princípio do prazer”.

Entre a ciência e o sujeito

Falando de maneira clara: o princípio do prazer foi a primeira resposta que Freud encontrou para responder à pergunta que todos os psicólogos no final do século XIX se faziam, a saber: “Como a mente funciona?”. A fonte de onde Freud vai tirar sua solução será precisamente sua atuação clínica. E é preciso notar que o médico vienense estava sendo pioneiro ao fazer isso. Os demais psicólogos, como Fechner (que o influenciará) e o próprio Wundt, tido como o pai da psicologia científica, extraíam suas conclusões de achados laboratoriais, isto é, de experimentos controlados, artificiais, distantes da realidade trágica da vida. É por isso que a resposta dada por Fechner à questão do funcionamento mental será: “A mente possui uma tendência a se livrar de todas as excitações que lhe chegam pela via dos sentidos ou, sendo isso inviável, a manter o mínimo de excitação possível e constante.” Fechner deu o nome a essa resposta de “princípio de constância”.

Freud, atento à literatura científica da época, conhecia o princípio de constância. No entanto, o que o pai da psicanálise verificava no dia-a-dia clínico não era essa descrição fria de excitações que aparecem e são reduzidas ou descarregadas. O que ele via eram barulhentas crises histéricas no momento em que, sob estado hipnótico, tais pacientes eram conduzidas a um lembrança aflitiva; eram doentes contando sonhos nos quais era possível discernir um desejo sendo imaginariamente satisfeito uma vez que isso lhe era impossível na realidade; eram neuróticos obsessivos que inventavam mil e uma manias para se esquecer de pensamentos e desejos angustiantes. Ou seja, o que Freud de fato observava eram pessoas buscando evitar a todo custo o encontro com os remanescentes de experiências psicológicas dolorosas, que lhes causavam desprazer e, em compensação, buscando modos diretos e indiretos de experimentar prazer. O que Freud conclui a partir do contato com tais manifestações é justamente a sua resposta ao problema do funcionamento mental: “A mente funciona de modo a alcançar prazer e evitar o desprazer” – eis o princípio do prazer.

No entanto, Freud não poderia parar por aí. Se ele fosse apenas um clínico, a simples constatação desse princípio seria suficiente, pois seria mais uma ferramenta teórica útil para entender melhor seus pacientes. Mas o Freud cientista nunca deixa de se fazer presente no Freud clínico e é por isso que o médico vienense não se contentou em descrever o que se passava no divã. Era preciso harmonizar sua descoberta no âmbito terapêutico com o que já havia sido elaborado em termos de saber científico. É por isso que Freud estabelecerá uma equivalência entre o seu princípio do prazer e o princípio de constância de Fechner. Assim, se no último o psiquismo busca eliminar excitações e no primeiro alcançar prazer, logo a sensação de prazer é a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significa descarga de excitações. De maneira análoga, o desprazer equivaleria, portanto, ao aumento de excitação – reduzindo-se esse evitar-se-ia aquele.

É possível notar essas equivalências em acontecimentos simples como o ciclo de fome e saciedade. Quando estamos sentindo a altamente desprazerosa sensação de fome, no nível somático o que encontramos é um aumento progressivo de excitações provenientes do estômago. Ao nos alimentarmos, essas excitações vão sendo pouco a pouco reduzidas e concomitantemente sentimos uma sensação agradável, prazerosa. Com a experiência da sede ocorre o mesmo.

Para-além do princípio do prazer

O que gerará um incômodo problema teórico para Freud será a excitação sexual. No caso dela, o aumento de excitação proveniente do corpo não é acompanhado por uma sensação de desprazer. Pelo contrário: em algumas culturas orientais busca-se inclusive um prolongamento da excitação e um retardamento do orgasmo. Isso não invalidaria, portanto, a tese de que nosso psiquismo funciona a partir do princípio do prazer? Sim e não. Freud só resolverá o problema pela introdução de um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de nirvana, cuja primeira parte da explicação você encontra aqui.

Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia

A maior parte das considerações que farei na parte inicial deste post eu já a as fizera num texto anterior chamado “A mente em Winnicott” cujas duas partes podem ser acessadas nos arquivos do blog. Winnicott, ao contrário de toda uma tradição em que talvez Freud pudesse ser incluído, não concebe a mente como um espaço imaginário ou real que venha a ser preenchido com seus respectivos conteúdos, a saber: as idéias. Para Winnicott, a mente constitui-se como uma função, função intelectiva. Logo, sendo uma função, a mente não possui um estatuto ontológico, dado, como o corpo. Ela existe devido a necessidades advindas da relação do sujeito com o ambiente.

Também é preciso lembrar que Winnicott faz uma distinção entre mente e psique que, também na tradição psicológica, são tomados como sinônimos. Para o analista inglês, a psique consiste numa “elaboração imaginativa de partes e funções corporais”, ou seja, é um precipitado constituído de imagens derivadas da própria experiência do sujeito com o corpo. Na medida em que tal experiência se inicia primordialmente a partir de seu contato com a mãe, são justamente os cuidados maternos, concretizados em tarefas normais como o banho e a higiene do bebê que o auxiliam a entrar em contato com seu próprio corpo, conjugando a experiência sensório-motora com a realidade imagética dela proveniente.

Percebe-se, portanto, que a psique não está relacionada ao conhecimento no sentido estrito do termo. Em sentido lato, sim, pois se pode dizer que as imagens derivadas da experiência corporal constituem o próprio conhecimento imediato da realidade do corpo pelo bebê. Todavia, o conhecimento no sentido intelectual do termo compete à mente. A função mental, diferentemente da psique, não brota da vivência física, mas aparece, primariamente, em função da relação entre o bebê e o ambiente (mãe). Como vimos nos posts anteriores, em um primeiro momento, devido à satisfação plena das necessidades da criança pela mãe, o bebê não se percebe portando uma existência individual separada de um mundo externo. Naquele momento, tudo é sonho, todos os seus desejos são atendidos. Ora, num mundo como esse, que utilidade teria uma função mental que servisse ao bebê para conhecer e entender o mundo? Nós só buscamos conhecer e compreender a realidade quando ela não corresponde às nossas expectativas, justamente para que, compreendendo-a, possamos saber como agir para saciar nossas necessidades ou para que renunciemos de vez à esperança de fazê-lo. Portanto, num mundo em que todas as necessidades são satisfeitas, não há por que se esforçar por conhecer.

É exatamente por isso que a função mental nasce no momento em que a mãe começa a sair de seu estado de completa devoção ao bebê e esse começa a enfrentar pequenas – e necessárias – frustrações. Por conseguinte, é como se o bebê acordasse do sonho e tomasse contato com o real que ora é maleável ora não com suas expectativas. A saída encontrada pela criança é justamente a de tentar compreender por que o ambiente não mais lhe sacia exatamente na hora em que ela sente a necessidade. E essa compreensão passa pela identificação de possíveis comportamentos que podem fazer com que a mãe vem até ela, como o choro, por exemplo. Essa é a descrição de um uso saudável da função mental, ou seja, como um instrumento de compreensão do real.

Acontece que nem todos os bebês experimentam um ambiente suficientemente bom, regular o bastante para que ele consiga compreender seu fluxo e confiar na sua eficácia. Por exemplo, muitas mães são inábeis na identificação das necessidades da criança, não sabendo interpretar, por exemplo, quando a criança chora porque está sentindo cólica e quando chora porque está com fome. Assim, ao não se ajustar à necessidade da criança, a mãe torna-se invasiva e faz com que o infante não consiga compreender o ambiente. No entanto, ela (a criança) insiste em tentar entender e, como não consegue, faz uso de recurso bastante encontrado no meio universitário: inventa uma explicação. Sua tentativa de compreensão sai da imanência de sua relação com o ambiente e se converte numa forma de explicar o ambiente caótico gerado pelo comportamento imprevisível da mãe. O bebê, então, inventa razões. Talvez haja dias certos para chorar, dias em que a mãe ouve e dias em que a mãe não ouve – claro que essa é apenas uma hipótese, dada a impossibilidade de ter acesso ao pensamento da criança. Mas o importante a ser retido é que, reagindo ao ambiente desse modo, isto é, inventando explicações ao invés de compreendendo-o, a criança vai criando um padrão doentio de interação com o mundo, marcado por uma espécie de intelectualismo que, é claro, gerará excelentes ganhos secundários caso o sujeito se enverede pela carreira acadêmica. No entanto, para-além da academia, tal sujeito sofrerá imensamente, pois terá dificuldades para compreender sua interação com as outras pessoas e com a própria realidade, justamente por estar acostumado a uma vida teorizada e não vivida.

De que forma tudo isso está relacionado ao cristianismo? Vejamos: será que os fundamentos da fé cristã poderiam ser tomados como um ambiente suficientemente bom? Não entenderam? Vou explicar melhor: o ambiente suficientemente bom atende suficientemente bem as necessidades humanas de tal modo que permite ao bebê compreender quando e por que ele (o ambiente) falha. Sendo assim, será que poderíamos considerar a graça divina, o amor incondicional de Deus pelos homens, a morte de Deus na cruz para salvar o homem dos pecados como fatos facilmente palatáveis para o ser humano, ou seja, facilmente compreensíveis como o ambiente suficientemente bom?

É óbvio que não! Naturalmente tendemos a pensar Deus como um rei poderoso, onipotente, que não se curva a seus súditos, que, pelo contrário, exige que eles se curvem. Ora, como então poderíamos conceber facilmente que o rei, por amor a seus súditos, por querer fazê-los compartilhar de sua majestade, se transformasse por um tempo num deles e morresse da pior forma possível para salvá-los da perdição? É um paradoxo terrível, como dissera Kierkegaard. E, como também disse o pensador dinamarquês, o paradoxo aparece à razão como uma doença (pathos), como algo que deve ser extirpado.

É justamente nesse ponto que se inicia nossa analogia. Por que o bebê consegue compreender as falhas do ambiente? Será que é porque ele consegue descrever racionalmente para si mesmo o padrão de funcionamento das idas e vindas da mãe? Claro que não! O bebê compreende porque confia que a mãe não lhe desamparará. Trata-se, portanto, mais de fé do que de racionalidade. Da mesma forma, a único modo de o cristão compreender os paradoxos da relação do homem com o Deus e também da própria constituição divina (um único Deus que é pai, filho e espírito) só se dá mediante a fé – o que Kierkegaard também dizia.

O que acontece é que há uma classe especial de pessoas que se diz cristã ou pretende sê-lo e que, diante do paradoxo, não fazem uso da fé (pois não a tem), mas tentam utilizar a razão. Agindo assim, evidenciam que o paradoxo transformou-se para eles em escândalo. Todavia, ao contrário de outros que, escandalizados, abandonam de vez qualquer pretensão a compreender, essas pessoas, que vocês já devem ter percebido tratar-se dos teólogos, pretendem extirpar o escândalo, inventando explicações que não explicam. Por exemplo, por que simplesmente não crer que Jesus, o Pai e o Espírito Santo são um único e mesmo Deus, simples assim? Por que, em vez disso, postular que são três pessoas de uma substância que é a divindade e que, portanto, há uma homoousia (esse conceito arrogante) entre eles. Por que não considerar com simplicidade que, não obstante Deus seja onisciente, o homem possui liberdade para escolher e, em vez disso, perder tempo com querelas estéreis sobre determinismo e livre-arbítrio?

Poderíamos dar aqui inúmeros outros exemplos de “intelectualização” como forma de tentar apreender os paradoxos cristãos na teologia. Tomás de Aquino e todos os teólogos sistemáticos foram exemplares nesse quesito. Aquele, por exemplo, foi recorrer à filosofia aristotélica para explicar inexplicáveis, como a existência de Deus, a criação, etc. Ele próprio, no fim de sua vida, após uma experiência mística, reconheceu a inutilidade de suas teorias.

Portanto, assim como o bebê que diante de um ambiente insuficiente – que falha mais do que devia – inventa explicações que não explicam por uma dificuldade de compreender, assim também os teólogos que, como bem disse Lacan, junto com os psicóticos são os únicos verdadeiramente ateus, por não conseguirem, pela fé, ter acesso a um conhecimento imediato, intuitivo, não racionalizável, inventam teorias, sistemas e conceitos que não passam de masturbações intelectuais que agradam muitíssimo ao espírito, mas não explicam. E não explicam pelo simples fato de que não há explicação pela via da razão.

Vemos assim que Winnicott não só fornece um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro – o que não significa que tal modelo explique os paradoxos cristãos, mas que, como a função mental saudável, apenas ajuda a pensar sobre eles – mas possibilita pensar em questões periféricas ao cristianismo. Talvez não se trate de uma mera coincidência.

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A mente em Winnicott (final)

s_albertNo último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.

Uma segunda implicação dessa concepção é a de que eu posso fazer da mente tanto um instrumento de compreensão do mundo quanto uma defesa contra o mundo. Uma vez que a mãe falha e a mente emerge como uma função que dará asas à imaginação do bebê para buscar compreender por que a mãe falha, a mente então pode ser utilizada como o instrumento que possibilitará essa compreensão. Por outro lado, o sujeito pode fazer uso dessa mesma função para afogar-se em um mar de explicações, transformando aquilo que serviria para compreender, numa forma de intelectualização que só serve para que o sujeito se defensa de sua incapacidade de compreender.

Pois bem, senhoras e senhores, não é exatamente essa última alternativa a da Filosofia, da Teologia e da Psicologia tal como nós as conhecemos? Com seus conceitos afastados do mundo real, imersos nas categorias do metafísico e do metapsicologia, buscam uma compreensão do mundo, de Deus e do psiquismo que se perde numa imensidão de abstrações (Exceção feita a Nietzsche, Spinoza, os pragmáticos e alguns outros filósofos).

Os teólogos, principalmente, são os maiores representantes desse uso inadequado da mente (como intelectualização): por não compreenderem a vontade divina (mistérios insondáveis, já dizia a Bíblia), inserem Deus e tudo o que se relaciona a ele nas categorias da razão, esterilizando a Revelação.

Por mais que eu aprecie a teoria lacaniana da Psicanálise, também não posso deixar de incluí-la no conjunto daqueles que preferiam o conforto do mundo das idéias. Façamos justiça: a ética lacaniana, o tempo lógico, o estádio do espelho e o destaque dado à função do significante no psiquismo, foram contribuições extraordinárias de Jacques Lacan. Porém, a ênfase dada à topologia, à teoria dos nós e à matemática, são coisas absolutamente desnecessárias à Psicanálise. Só servem para fazer o campo analítico ficar parado no tempo, masturbando-se intelectualmente em torno das ilustrações lacanianas.

Na outra ponta do barbante, encontram-se aqueles nos quais a função da mente parece não ter surgido. Lembrem-se: a mente, para Winnicott, só surge porque o sujeito percebe que o mundo falhou. Então ele tem que parar para matutar sobre o mundo pra tentar entender porque ele falhou. Daí pode-se depreender a ausência de intelectualidade tão comum na contemporaneidade e que se exemplifica por aqueles que frequentam micaretas. A ilusão dada por esse tipo de evento e tudo o que a ele se associa, quer dizer, os comportamentos cotidianos bem como os “aquecimentos” e “ressacas” é a de que o sujeito pode tudo, que para beijar uma garota basta que ele a puxe pelo braço, que a vida é uma bebedeira e uma festa perene.

Um sujeito desses vai pensar? Pra quê?…

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A mente em Winnicott (parte 1)

12venusPara qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.

Deixando o criticismo sintomático de Lacan de lado, hoje enxergo nas idéias de Winnicott uma das mais inventivas teorias em Psicanálise. Volta e meia vocês verão por aqui mais reflexões sobre conceitos-chave do analista inglês, como essa aqui. Hoje, influenciado por uma palestra do psicanalista André Martins que você encontra aqui, vou discutir um pouco a idéia de mente em Winnicott e suas interessantes implicações.

Em primeiro lugar, Winnicott traça uma diferenciação entre psique e mente. Isso aparentemente pode até lembrar a antiga distinção entre alma e espírito proposta por alguns teólogos e filósofos, mas é só aparência, não tem nada a ver. Para Winnicott, a psique é como se fosse composta das imagens resultantes da percepção da vivência corporal. Então, todas as sensações e experiências que tenho com meu corpo resultam em imagens que compõem minha psique. Só que tem um detalhe: mesmo sendo a psique dependente do corpo, eles não estão naturalmente ligados. Tanto é assim, que existem sujeitos esquizofrênicos que não reconhecem seu próprio corpo. É preciso, então, que exista um ambiente que ajude essa junção entre psique e corpo a ocorrer. Qual é o primeiro ambiente da criança? Óbvio: a mãe. Então a mãe deverá ser uma ambiente facilitador para promover a ligação entre a psique e o corpo. Como ela faz isso? Nada demais, basta que ela seja uma boa mãe, ou melhor, uma mãe suficientemente boa.

Esse é um dos conceitos que mais causa confusão nos neófitos na leitura de Winnicott. A mãe suficientemente boa (ou mãe boa o bastante) não é a super-mãe que não tem falhas. Pelo contrário: a mãe suficientemente boa é só aquela mãe comum que deu origem a esse conceito mais do que infeliz de “instinto materno”. É aquela mãe que é capaz de se identificar com a criança e atender às suas necessidades básicas. Ou seja, senhoras e senhores, é só fazer o básico.

Então se a mãe for suficientemente boa, ela vai permitir que a psique da criança se una a seu corpo. Mas nesse ponto o leitor pode pensar: “Tá, mas será que esse processo acontece assim de forma tão perfeita? A mãe não pode ser perfeita, ela comete falhas, e aí?”

É nesse ponto, meus amigos, que Winnicott lança mão do seu conceito de mente. Para ele, a mente é fundamentalmente a função que a criança utiliza para suportar as falhas maternas. Mas, atenção, o bebê não sabe que o que está acontecendo com ele são falhas da mãe. Ele só sente a sensação de desprazer e de que as coisas não estão indo bem. Então, para suportar as angústias geradas por essa situação, o que o bebê faz? Cria uma teoria. Sim, não pensem vocês que a criança não pensa. É óbvio que naquele momento ela não possui as categorias racionais que nós possuímos. Mas mesmo nesse nível primário ela pensa. E o interessante é que ela só pensa porque as coisas não deram completamente certo. Sim, porque até então, sentindo apenas prazer, ela não tinha porque ficar matutando sobre a vida. Só agora, que a mãe falhou, é que surgem as questões:  “O que houve? Por que isso está acontecendo? O que é o mundo? Como ele funciona?”

O barato, senhoras e senhores, é que essa idéia permite que a gente entenda um gama enorme de fenômenos: desde a incapacidade intelectual dos frequentadores de micaretas até a intelectualidade exacerbada das teorias em ciências humanas.

MAS ISSO FICA PARA O PRÓXIMO POST…

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