A mente em Winnicott (parte 1)

12venusPara qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.

Deixando o criticismo sintomático de Lacan de lado, hoje enxergo nas idéias de Winnicott uma das mais inventivas teorias em Psicanálise. Volta e meia vocês verão por aqui mais reflexões sobre conceitos-chave do analista inglês, como essa aqui. Hoje, influenciado por uma palestra do psicanalista André Martins que você encontra aqui, vou discutir um pouco a idéia de mente em Winnicott e suas interessantes implicações.

Em primeiro lugar, Winnicott traça uma diferenciação entre psique e mente. Isso aparentemente pode até lembrar a antiga distinção entre alma e espírito proposta por alguns teólogos e filósofos, mas é só aparência, não tem nada a ver. Para Winnicott, a psique é como se fosse composta das imagens resultantes da percepção da vivência corporal. Então, todas as sensações e experiências que tenho com meu corpo resultam em imagens que compõem minha psique. Só que tem um detalhe: mesmo sendo a psique dependente do corpo, eles não estão naturalmente ligados. Tanto é assim, que existem sujeitos esquizofrênicos que não reconhecem seu próprio corpo. É preciso, então, que exista um ambiente que ajude essa junção entre psique e corpo a ocorrer. Qual é o primeiro ambiente da criança? Óbvio: a mãe. Então a mãe deverá ser uma ambiente facilitador para promover a ligação entre a psique e o corpo. Como ela faz isso? Nada demais, basta que ela seja uma boa mãe, ou melhor, uma mãe suficientemente boa.

Esse é um dos conceitos que mais causa confusão nos neófitos na leitura de Winnicott. A mãe suficientemente boa (ou mãe boa o bastante) não é a super-mãe que não tem falhas. Pelo contrário: a mãe suficientemente boa é só aquela mãe comum que deu origem a esse conceito mais do que infeliz de “instinto materno”. É aquela mãe que é capaz de se identificar com a criança e atender às suas necessidades básicas. Ou seja, senhoras e senhores, é só fazer o básico.

Então se a mãe for suficientemente boa, ela vai permitir que a psique da criança se una a seu corpo. Mas nesse ponto o leitor pode pensar: “Tá, mas será que esse processo acontece assim de forma tão perfeita? A mãe não pode ser perfeita, ela comete falhas, e aí?”

É nesse ponto, meus amigos, que Winnicott lança mão do seu conceito de mente. Para ele, a mente é fundamentalmente a função que a criança utiliza para suportar as falhas maternas. Mas, atenção, o bebê não sabe que o que está acontecendo com ele são falhas da mãe. Ele só sente a sensação de desprazer e de que as coisas não estão indo bem. Então, para suportar as angústias geradas por essa situação, o que o bebê faz? Cria uma teoria. Sim, não pensem vocês que a criança não pensa. É óbvio que naquele momento ela não possui as categorias racionais que nós possuímos. Mas mesmo nesse nível primário ela pensa. E o interessante é que ela só pensa porque as coisas não deram completamente certo. Sim, porque até então, sentindo apenas prazer, ela não tinha porque ficar matutando sobre a vida. Só agora, que a mãe falhou, é que surgem as questões:  “O que houve? Por que isso está acontecendo? O que é o mundo? Como ele funciona?”

O barato, senhoras e senhores, é que essa idéia permite que a gente entenda um gama enorme de fenômenos: desde a incapacidade intelectual dos frequentadores de micaretas até a intelectualidade exacerbada das teorias em ciências humanas.

MAS ISSO FICA PARA O PRÓXIMO POST…

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6 comentários sobre “A mente em Winnicott (parte 1)

  1. Pingback: Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia « Lucas Nápoli

  2. acredito baseasa as leituras que Winnicott é o maior entre todos os psicanalistas no que tange as fases da infancia, minha monografia foi baseada em sua teoria. Winnicott é…as palavras são inefavéis.

  3. Olá Adriana! De fato, Winnicott foi certamente um dos teóricos mais criativos e originais da Psicanálise. Descobri sua obra no final da graduação e também me apaixonei. Espero que meu texto tem feito jus a seu apreço por ele.

    Obrigado pela visita. Apareça sempre!

    Abraço!

  4. Pingback: O que são espaço e objetos transicionais? (parte 1) | Lucas Nápoli

  5. Obviamente que a coisa não é tão simplista assim. Porque, se o autor me permite, não podemos nos esquecer dos aspectos bioontoantropsicogenéticos que estabelecem, sempre, uma falha, ou como diria Lacan, um logro estrutural na constituição psicossocial da criança.

    O texto é bom, bem “humanês”, mas, temos, ainda, os efeitos patogenéticos, psicogenéticos e psicoplásticos, que operam um certo estranhamento, um estrangeirismo, como observara Lacan, na constituição da criança. A MENTE, MENTE e a PSIQUE, INSCREVE.

    Edmar

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