O que são espaço e objetos transicionais? (parte 1)

Unidade mãe-bebêA maioria de nós está consciente de que é uma coisa distinta do restante do mundo. Com exceção de alguns psicóticos e de viciados em smartphones que consideram o dispositivo como mais um órgão do corpo, a maior parte das pessoas acredita saber diferenciar muito bem a realidade externa da realidade interna. Tal discernimento, contudo, não nos vem de fábrica, isto é, não se trata de um saber inato.

Através da observação de bebês, como pediatra, e da escuta de pacientes, como psicanalista, Donald Winnicott demonstrou que até aproximadamente os seis meses de vida nenhum de nós sequer suspeitava que exista uma separação entre nós mesmos e o mundo externo. E isso não ocorre porque nessa época ainda não possuíamos uma estrutura cerebral suficiente, mas sim porque até os seis meses a maioria de nós vivia em um mundo mágico que Winnicott chamou de “dependência absoluta”.

Trata-se da fase imediatamente posterior ao nascimento em que o bebê depende absoluta e integralmente dos cuidados da mãe (ou de alguém que a substitua) para que consiga sobreviver não só física como também psicologicamente. Winnicott costumava dizer que nessa fase o bebê enquanto tal não existe posto que, caso exista, estará sempre junto a uma mãe. Portanto, pode-se dizer que até os seis meses o que existe de fato é uma unidade mãe-bebê.

Pois bem, em contrapartida às necessidades do bebê que lhe colocam em uma condição de dependência absoluta do outro, a maioria das mães, após o nascimento da criança, experimenta um estado subjetivo totalmente peculiar que Winnicott denominou de “preocupação materna primária”. A mãe passa a ter olhos só para o bebê e se identifica de maneira tão visceral a ele que se torna capaz de compreender suas experiências mais sutis. É impressionante, por exemplo, a capacidade que as mães nesse estado possuem de discernir acertadamente as causas das cólicas de seus filhos como se estivessem na pele deles. Winnicott considerava essa condição psicológica tão extravagante que dizia que, se ela fosse avaliada fora do contexto, poderia muito bem ser vista como uma doença psíquica!

Agora tente imaginar a situação de um bebê nos primeiros seis meses de vida: cheio de necessidades, mas inserido em um ambiente tão intensamente identificado a ele que é capaz até mesmo de adivinhar o exato momento em que surgem suas necessidades. Logo, se o bebê sente fome não precisará esperar muito tempo ou chamar a atenção do ambiente para se alimentar. Uma mãe em estado de preocupação materna primária conseguirá detectar que o bebê está com fome de modo quase imediato e irá amamentá-lo antes mesmo que a criança possa sequer pensar. Convenhamos: um ambiente como esse deve parecer um tanto mágico, afinal nele os objetos que queremos aparecem instantaneamente conforme o advento de nossas necessidades. O bebê sente fome e quase no mesmo instante um suculento seio cheinho de leite lhe aparece à frente! A conclusão óbvia à qual todo bebê chega nesse período pode ser descrita mais ou menos como “Uau! Não há nada para-além de mim! Tudo o que eu desejo se concretiza!”. A criança se vê, portanto, como onipotente, como um pequeno deus sem limites.

Trata-se, contudo, de um engodo provocado por um fator que todo ilusionista conhece e utiliza muito bem: o tempo. Com efeito, em função do estado peculiar de identificação com o bebê vivenciado pela mãe, ainda não há um intervalo temporal suficiente entre o surgimento da necessidade e o aparecimento do objeto para que o infante se dê conta de o objeto não é produzido pelo seu próprio desejo. No entanto, aproximadamente após os seis meses, a mãe começa gradualmente a sair da condição de preocupação materna primária, de modo que já não conseguirá adivinhar de maneira tão imediata as necessidades do bebê. Assim, o mundo mágico da onipotência infantil começa a desmoronar, pois, a partir de então, o bebê passará a ter necessidades e eventualmente precisará esperar um tempo considerável até que a mãe ou outra pessoa se aperceba. Esse é o início do processo de descoberta da realidade externa.

Ao perceber que o objeto não aparece mais imediatamente após desejá-lo, o bebê acaba discernindo que entre ele e o mundo há um descompasso, uma separação, um limite. Esses primeiros pensamentos a respeito das razões pelas quais o objeto não apareceu tão logo o desejara constituem os primórdios do que Winnicott chama de “mente” (conceito que o psicanalista inglês diferencia de “psique”).

Para que esse processo de descoberta da realidade externa não seja traumático, ou seja, para que o bebê não precise reagir artificialmente a ele e perca o rumo espontâneo do seu desenvolvimento emocional, é preciso que a mãe vá apresentando ao infante porções graduais do mundo externo a fim de que o bebê não perca a ilusão de onipotência de maneira abrupta. Em outras palavras, o ambiente precisa ser capaz de levar o bebê à consciência de que não basta desejar para que as coisas aconteçam, mas, ao mesmo tempo, deve fazê-lo perceber que isso não significa que deva abandonar seus desejos ou deixar de expressá-los. O fato de que o objeto não mais aparece imediatamente após a necessidade não significa que ele tornou-se a partir de então inalcançável.

De fato, o bebê só será capaz de realizar isso se o ambiente lhe permitir constituir um espaço de transição entre a realidade interna (onde estão os desejos e as memórias dos objetos do mundo mágico) e a realidade externa (onde estão os novos objetos concretos).

CONTINUA

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