O que são espaço e objetos transicionais? (final)

BrincadeiraAté aqui vimos que até aproximadamente os seis meses de vida, o bebê se encontra em uma condição de absoluta dependência do cuidado materno. Essa circunstância associada à preocupação materna primária, o estado psicológico particular experimentado pela mãe logo após o nascimento do bebê, faz com que o infante tenha todas as suas necessidades satisfeitas de modo quase perfeito. Por conseguinte, ainda não é capaz de reconhecer a existência do mundo externo, pois os objetos que satisfazem suas necessidades parecem surgir magicamente à sua volta, como se fossem produzidos por seu próprio desejo.

Mais ou menos após os seis meses, a mãe sai do estado de preocupação materna primária, o que ocasiona o surgimento de um descompasso entre o surgimento das necessidades do bebê e o atendimento dessas necessidades por parte do ambiente. Nesse sentido, a realidade externa não mais se adapta aos desejos da criança de maneira imediata e com a quase perfeição de outrora. Em decorrência, o bebê é forçado a reconhecer o mundo externo, até porque já não bastará esperar pela vinda da mãe, mas será preciso chamar a atenção dela.

Em sua experiência como pediatra, Winnicott observou que coincidentemente nesse mesmo período em que a criança está “descobrindo” a realidade externa, o bebê geralmente se apega intensamente a um determinado objeto (o qual geralmente lhe é oferecido pela própria mãe) e/ou passa a repetir com frequência determinados comportamentos (como, por exemplo, a emissão de determinados sons com a boca). No caso do apego a objetos, Winnicott notou ainda outra particularidade: o bebê só consegue dormir levando-o consigo para o berço. Como exemplo, podemos citar os casos bastante comuns de crianças que passam o dia todo segurando (e, em muitos casos, cheirando) pedaços de pano – o que demonstra que tais objetos não precisam ser necessariamente brinquedos.

Através da observação direta dos bebês articulada à compreensão do desenvolvimento infantil, Winnicott interpretou o significado desses objetos e comportamentos da seguinte forma: se o bebê se apega de forma tão vigorosa ao objeto e precisa dele para dormir, isso mostra que o objeto está exercendo uma função fundamental no psiquismo do bebê. Que função seria essa? Ora, quando se leva em conta que o grande “problema” com o qual o bebê está tendo que lidar após os seis meses de vida diz respeito ao afastamento gradual da mãe e, por consequência, o reconhecimento dela como uma pessoa, logo a função do objeto ao qual o infante se apega se torna mais clara. Se até então a mãe era tudo para o bebê (dependência absoluta), agora que ela começa a “falhar” (dependência relativa), eis que um dado objeto adquire para a criança um significado curiosamente absoluto – tanto é que o bebê precisa dele para sentir-se seguro e dormir. O objeto, portanto, parece exercer, para o infante, a função de substituto da mãe.

Nesse sentido, o pedacinho de pano que a criança segura e cheira não é, para ela, apenas um pedacinho de pano, mas uma espécie de “encarnação” da mãe. Em outras palavras, embora se trate de um objeto externo ao bebê, com todas as características materiais próprias de um pedaço de pano, ele é ao mesmo tempo, um objeto interno, na medida em que subjetivamente o bebê o experimenta como personificação do cuidado materno. O objeto não é meramente externo porque, caso o fosse, não teria tamanha importância para a criança, afinal, do ponto de vista de um observador externo, trata-se tão somente de um simples pedaço de pano. Por outro lado, o objeto também não é totalmente interno, pois apresenta toda uma materialidade que os objetos internos não possuem.

Estamos, portanto, diante de um paradoxo: como o pedaço de pano pode ser um objeto externo e interno ao mesmo tempo? Em vez de tentar resolver essa aparente contradição, Winnicott preferiu enxergar o fenômeno do ponto de vista do bebê e simplesmente aceitar o paradoxo, criando o conceito de objeto transicional. Mas onde estão situados os objetos e fenômenos transicionais? Se eles são simultaneamente externos e internos, logo não podem estar localizados nem na realidade interna nem na realidade externa, não é mesmo? Por isso, Winnicott precisou forjar um segundo conceito: o de espaço transicional, um território intermediário entre os mundos interno e externo.

O psicanalista inglês também chamou o espaço transicional de espaço potencial porque, para ele, é essa a área em que se desenvolve a criatividade e a produção cultural enraizadas nas brincadeiras de criança. Para Winnicott, o brincar seria a evolução natural do uso que os bebês fazem dos objetos e fenômenos transicionais. Nas brincadeiras, as crianças investem conteúdos de seu mundo interno em objetos externos, fazendo, por exemplo, de um simples pedaço de madeira um guerreiro valente. A partir de então, já não existem o pequeno pedaço de madeira na realidade externa e nem a fantasia de guerreiro valente no mundo interno da criança. Ambos estão amalgamados em um objeto único ao mesmo tempo interno e externo, um objeto transicional.

Para Winnicott, um brinquedo como esse vem à luz no mesmo espaço potencial em que um quadro, uma música ou um livro são produzidos, território em que o interno e o externo se encontram e se fundem. Portanto, a criação e a produção cultural podem ser vistas como brincadeiras de gente grande.

E pensar que tudo começou por saudade da mãe…

Anúncios

9 comentários sobre “O que são espaço e objetos transicionais? (final)

  1. Olá, Lucas!
    São excelentes os seus textos…todos muito bem elaborados e de fácil assimilação para os leigos. Tenho uma dúvida: o que acontece quando a criança não elege um objeto de transição? Por mais que se ofereça possibilidades algumas crianças não se apegam a nenhum objeto específico. São crianças mais tranquilas ou isso indica problemas à vista no desenvolvimento emocional?
    Abraço,
    Anna Luisa

  2. Olá Anna Luisa. Winnicott se refere não apenas a “objetos”, mas também a “fenômenos transicionais” como, por exemplo, quando o bebê se diverte com a emissão repetitiva de determinados sons com a boca. É difícil discernir já na infância se tais fenômenos são efetivamente de natureza transicional. A psicanálise trabalha com a causalidade a posteriori, ou seja, a partir do presente é que se compreende o passado, de modo que é mais fácil verificar que um adulto não foi uma criança que não conseguiu desenvolver suficientemente bem um espaço potencial do que averiguar isso através da observação direta da criança. De todo modo, a ausência de um apego a um determinado PODE SER um indício de dificuldades na constituição de um espaço potencial, mas para que tal diagnóstico possa ser feito de maneira apropriada é necessária uma observação mais cuidadosa que poderia ser realizada por um terapeuta de orientação winnicottiana.

    Espero ter respondido sua pergunta. Do contrário, não se furte em fazer outras.

    Um forte abraço!

  3. Pingback: O que são espaço e objetos transicionais? | Psicologia

  4. Olá Lucas,
    Descobri o seu site navegando por aí e gostava de uma opinião sincera.
    Sou pré-mamãe, tenho 25 anos e desde os 4 tenho um objeto transitório MARAVILHOSO, o meu cobertor (nomeado ‘Cosquinho’ e com sensivelmente 21 anos!).
    Sou acompanhada pela psicologia de um hospital de renome na minha cidade, e logo a princípio ‘detectaram’ esse tal objeto transitório. Não consigo desprender dele de jeito nenhum, sofro quando vou de férias e meu marido não deixa eu levá-lo convosco.! O toque, o cheiro e as sensações que me traz são indescritíveis, e dá-me imenso prazer e segurança tê-lo comigo.
    Tive uma infância feliz, apesar de a partir dos 8, 9 anos sofrer grande violência física e psicológica. Hoje em dia não tenho contato com os meus pais, e odeio a minha mãe com todas as forças, por ter permitido que tudo aquilo acontecesse comigo. Por isso acho estranho dizer que o tal ‘cosquinho’ é um substituto dessa pessoa pela qual sequer tenho apreço.
    Gostava muito de uma opinião sua!
    Obrigada, e parabéns pelo site!

    Désirée Martins.

  5. Olá Désirée! Desculpe pela demora na resposta. Na verdade, não sei se o seu “Cosquinho” poderia ser de fato qualificado como um objeto TRANSICIONAL. A permanência do seu apego a ele até a idade adulta é justamente um traço que o desqualifica como tal… Geralmente, na saúde, os objetos e fenômenos transicionais da infância são substituídos por outras atividades na vida adulta, como elementos culturais, religiosos etc.

    Grande abraço!

  6. Olá!!
    Estava pesquisando sobre objetos transicionais e acabei achando seu site! Já faz bastante tempo desde sua publicacao, mas vamos lá!
    Acontece que compartilho do mesmo problema que Desiree. Durmo desde pequena com um “paninho” e nao consigo ter uma noite tranquila quando nao estou com ele. Talvez o cheiro, nao sei, é indiscritível, uma sensacao de conforto que vem de nao sei onde.
    Isso é problemático, nao é?
    Tive uma infancia tranquila, na verdade, como a de qualquer outra crianca.
    Como se explica isso???

  7. Olá Lucas,
    Em relação à pergunta anterior, então qual será o papel ou a importância deste objeto, na vida adulta, uma vez que são os mesmos da infância?! Alguns adultos mantém um laço com os seus objetos Transicional da infância, na adulta, sem conseguirem quebrar este lavo ou vinculo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s