Por que o psicanalista não utiliza a hipnose?

article-new_ehow_images_a04_qt_th_become-hypnosis-practitioner-800x800Estamos no século XIX. Em um escritório sombrio abarrotado de móveis austeros um homem faz movimentos pendulares com um relógio diante de uma jovem que, de olhos fechados, lhe narra suas mais íntimas lembranças. Quem não se impressionaria com uma cena como essa? Muito provavelmente essa pergunta retórica deve ter sido feita por muitos produtores do cinema e da televisão. Afinal, não raro vemos essa mesma cena em filmes e seriados, adaptada ou não para os dias atuais. Na sociedade do espetáculo, as representações de um tratamento hipnótico são excelentes embalagens para determinados produtos da indústria cultural. As pessoas têm sua curiosidade despertada e acreditam tratar-se de um procedimento místico, secreto…

Com alguma frequência tenho me deparado com pessoas que compartilham dessa espécie de “representação social” da hipnose. São indivíduos que encaram o tratamento hipnótico como uma modalidade psicoterapêutica mais “profunda” do que, por exemplo, a psicanálise. Para eles, a hipnose alcançaria determinadas regiões do psiquismo às quais a terapia psicanalítica jamais colocaria os pés. Por conta disso, acreditam que a psicanálise e as demais psicoterapias baseadas essencialmente na interação verbal entre terapeuta e paciente seriam indicadas para o tratamento de casos mais leves de adoecimento emocional. A hipnose seria a única técnica capaz de intervir de maneira eficaz no tratamento de patologias mais graves.

Neste artigo pretendo demonstrar por que essa concepção é inteiramente equivocada e por quais razões os praticantes da psicanálise não fazem uso da hipnose ao tratarem seus pacientes. Para isso, será preciso explicar primeiramente, ainda que de modo esquemático, o que é a hipnose.

O que é hipnose?

Embora hipnose seja empregada em outras especialidades do campo da saúde, como por exemplo, na odontologia, em que o profissional coloca o paciente em estado hipnótico a fim de ele não se sinta ansioso diante de determinados procedimentos, a técnica hipnótica é utilizada com maior frequência como estratégia psicoterapêutica. Com essa finalidade, o terapeuta (hipnotizador) induz o paciente, utilizando diversas técnicas (dentre elas, o movimento pendular de algum objeto) a uma condição psicológica semelhante ao sono. Ao cair nesse estado, o doente se coloca numa posição de completa passividade e total disponibilidade às injunções e comandos do terapeuta. Por essa razão, o profissional é capaz de solicitar do paciente a narrativa de determinados fatos que, em estado de vigília, não seria capaz de recordar.

O elemento central desse tipo de tratamento não é o estado psicológico peculiar em que se encontra o paciente, mas sim o poder que ele concede ao terapeuta sobre seu corpo e seu psiquismo. Em outras palavras, o doente não narra suas mais secretas memórias ao profissional apenas porque se encontra numa condição psicológica privilegiada para tal, mas, sobretudo, porque o terapeuta mandou.

Freud e a hipnose

Por influência de Charcot e de outros grandes neurologistas do século XIX, dentre os quais Joseph Breuer (à época seu amigo pessoal), os quais faziam uso da hipnose no tratamento da histeria, Sigmund Freud inicialmente utilizou a técnica hipnótica para cuidar de suas pacientes histéricas. E foram justamente os impasses que encontrou no emprego desse método que levaram o jovem médico vienense a inventar uma nova técnica psicoterapêutica que viria a batizar de psicanálise.

Vale dizer que Breuer e Freud faziam um uso assaz específico da hipnose, distinto da maneira como Charcot e os demais médicos utilizavam o procedimento. Para utilizar uma nomenclatura que atualmente é familiar para a maioria de nós, o médico francês empregava o hipnotismo apenas como uma maneira de fazer com que o paciente tivesse “adesão ao tratamento”. Dito de outro modo, a hipnose funcionava para Charcot como um tratamento sugestivo. Se uma paciente apresentasse, por exemplo, uma cegueira histérica, bastava colocá-la em estado hipnótico e ordenar a ela que voltasse a enxergar quando fosse despertada. De fato, ao sair da hipnose, a doente voltava a enxergar. Contudo, os motivos pelos quais ela havia temporariamente perdido a visão permaneciam ocultos.

Breuer e Freud, por seu turno, aprenderam na prática que a melhor maneira para eliminar os sintomas da histeria era fazendo com que o doente descarregasse toda a tensão psíquica que ele havia reprimido em determinado momento de sua história. A hipnose era utilizada com a finalidade de fazer com que o paciente “regredisse” a esse momento (à época chamado de “trauma”) e pudesse “ab-reagir” ao acontecimento, ou seja, responder novamente a ele, descarregando a tensão acumulada ao longo do tempo e que vinha sendo descarregada através dos sintomas. Chamavam esse procedimento de “método catártico” por considerarem que ele se baseava numa espécie de “purgação” da alma (catarse).

As limitações da hipnose

Apesar de os dois médicos terem realizado diversos tratamentos bem-sucedidos utilizando esse método, Freud não estava muito satisfeito. Afinal, embora conseguisse através da hipnose levar o paciente até os pontos de sua vida em que os “traumas” haviam acontecido, a questão referente aos motivos pelos quais o doente permanecia impedindo que tais eventos fossem rememorados permanecia sem resposta. Em alguns casos, a resistência do paciente a algumas lembranças era tanta que, nem mesmo sob hipnose, o paciente era capaz de se lembrar delas.

Essa foi a grande limitação que Freud encontrou no método hipnótico: ele passa por cima das resistências, deixando o terapeuta e o próprio paciente sem o discernimento dos motivos pelos quais determinados eventos são considerados pelo psiquismo como “altamente perigosos”. Em outras palavras, a hipnose não é capaz de detectar a resistência.

Diante dessa justificativa, muitas pessoas podem dizer algo do tipo “Ah, mas o importante é que os sintomas desapareciam. E daí que as resistências nunca fossem descobertas?”. Impressiona-me, aliás, a semelhança entre essa alegação e aquela que defende o uso de psicoterapias conhecidas como “cognitivo-comportamentais”. A ênfase é posta sobre a eliminação de sintomas, como se o objetivo de um tratamento psicoterapêutico fosse meramente esse.

Berta Pappenheim, ou Srta. Anna O. – sem dúvida a paciente mais famosa da história da psicanálise e considerada quase uma co-inventora do método psicanalítico – costumava dizer a Breuer (que foi quem a tratou) que as sessões de hipnose que ela fazia com ele eram uma espécie de “chimney-sweeping” (“limpeza de chaminé”, em inglês). Creio que essa expressão descreve com exatidão as limitações da técnica hipnótica. Trata-se efetivamente de uma simples limpeza de chaminés psíquicas, um procedimento cujo alcance é temporário, ou seja, até o momento em que a chaminé volte a ficar suja. E se a chaminé precisa ser periodicamente lavada é justamente porque ela acumula sujeira.

É óbvio que a psicanálise não previne neuroses. Contudo, por não negligenciar a resistência, mas, pelo contrário, procurar encontrá-la, o método psicanalítico, diferentemente da hipnose, evita que existam chaminés para serem lavadas de tempos em tempos. A técnica inventada por Freud trabalha não apenas com a sujeira, mas com a própria chaminé, questionando a própria existência dela. Em outras palavras, a hipnose é capaz de eliminar sintomas, mas sequer se aproxima dos “gatilhos” dos sintomas, que não são os traumas, mas justamente os conflitos psíquicos que se expressam na forma de resistências. Freud descobriu que a melhor estratégia para tratar não apenas dos sintomas, mas, sobretudo, dos seus “gatilhos” é pedindo ao paciente que fale tudo o que lhe vier à mente, sem qualquer tipo de censura.

“Faz de mim o que quiseres”

Para-além da incapacidade da hipnose de detectar a resistência, há uma justificativa ética para que o psicanalista não utilize o método hipnótico. Como disse no início do texto, a eficácia da hipnose reside no poder que o paciente concede ao terapeuta sobre seu corpo e sua alma, de modo que as mudanças acontecem por determinação do profissional e não do doente.

O terapeuta, portanto, é colocado numa posição de controle e maestria sobre o paciente que, nesse caso, acaba se pondo como um objeto a ser moldado de acordo com o “desejo de saúde” do profissional. Existem muitas pessoas que são efetivamente incapazes de entrarem em estado hipnótico. Isso acontece não porque possuam uma condição neurológica específica, mas porque não são capazes de se colocar em posição de tamanha passividade diante do terapeuta. A hipnose requer, portanto, como Freud bem analisa em um dos capítulos de “Psicologia das Massas e Análise do Ego”, que o paciente “se apaixone” de certo modo pelo terapeuta. Afinal, só os apaixonados estão de tal modo vulneráveis ao desejo do outro.

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11 comentários sobre “Por que o psicanalista não utiliza a hipnose?

  1. Quem disse que “Ao cair nesse estado, o doente se coloca numa posição de completa passividade e total disponibilidade às injunções e comandos do terapeuta.” ?????
    Qualquer psicologo com formação em hipnose sabe que na verdade essa idéia é uma reprodução errônea do mercado cinematográfico!
    Seu artigo é interessante, mas, não posso deixar de fazer referência aos seus vários pontos equivocados!

  2. Olá Rafic. Em primeiro lugar, peço que ao comentar neste blog se encoraje a utilizar seu verdadeiro nome e seu verdadeiro email. Por que escondê-los? Qual o receio?

    Quanto à sua colocação, peço a você que procure se inteirar da história do tratamento hipnótico, em especial a respeito do uso que os neurologistas do século XIX, como Charcot, faziam da técnica. Você verá que se trata exatamente do que eu disse.

    Se algumas pessoas atualmente não se colocam nessa posição de total passividade e disponibilidade às injunções e comandos do terapeuta, isso pode se dever a 2 possibilidades: 1. A pessoa não é capaz de se colocar em tal condição, conforme eu disse no final do artigo ou 2. Quem está praticando a hipnose não sabe fazê-lo corretamente.

    Outra possibilidade é a de que você esteja se referindo não à hipnose propriamente dita, mas a variações contemporâneas da técnica hipnótica padrão, as quais podem prescindir do estado de total disponibilidade e passividade do paciente. Eu me referi no texto à hipnose convencional, tradicional em que o paciente sem dúvida deve atingir tal condição.

    Grande abraço.

  3. Oi Lucas,

    Estou me graduando em enfermagem e estou muito interessada na psiquiatria, tanto que estou pretendendo me especializar nisto, pois não encontrei na psicologia o que eu de fato queria e acabei achando a enfermagem mais completa, pois posso ter bases mais sólidas em urgência e emergência (que é uma outra paixão), obstetrícia, dentre outros que julgo muito necessário para certos pacientes e certas situações. Enfim, são muitos detalhes, mas eu andei me interessando muito por Freud e algumas teorias dele que deram base a diversos tratamentos, claro que não concordo com tudo, mas ainda estou aprendendo.
    Bom, eu tive conhecimento de certas condições para tornar-se psicanalista, e sei que pode demorar um bom tempo e me interessei de inicio, mas ainda estou pensando na ideia e o teu texto me foi muito importante, pois eu sou contra o uso da hipnose, sei que existem psicanalistas que se utilizam desta técnica e que ela faz parte do curriculum do curso. Por isso, queria saber de ti se é obrigatório que se no futuro eu, como psicanalista tenha a obrigação de utilizar disso com um paciente caso ele me peça ou outras situações me forcem ao uso da técnica.

  4. Olá Lorena! Muito obrigado por compartilhar comigo um pouco da sua trajetória e de seus planos para o futuro. Com relação à sua pergunta, a resposta é não. Aliás, nas formações sérias em psicanálise, ministradas por instituições psicanalíticas sérias, não existe uma disciplina específica sobre hipnose e nem se exige do candidato que ele aplica a hipnose em algum paciente. Como eu faço questão de mostrar no texto, a psicanálise é um método mais refinado do que a hipnose.

    Espero ter respondido sua pergunta. Do contrário, não se acanhe em continuar a conversa.

    Grande abraço e apareça sempre!

  5. Pingback: O que é atenção flutuante? | Lucas Nápoli

  6. No seu tópico “O que é hipnose” você não explicou o que é hipnose.

  7. Exponha os argumentos que justificam sua opinião, João Aparecido. Sou todo ouvidos.

  8. Pingback: Quando o analista não se apaga (parte 1) | Lucas Nápoli

  9. Gostaria de deixar bem claro que a hipnose moderna de Erickson, ela é totalmente considerável de nível a posto da psicanálise (na minha opinião, muito melhor)

    Esses discursos acerca da hipnose, eu já sou perito nela , o que a psicologia e até mesmo a psicanálise não aceita, são”místicos” científicos que a hipnose gera. Nem vou adentrar no assunto da programação neorolinguistica (PNL).

    A hipnose de charcot sem dúvidas é fantástica e muito alem HOJE, de qualquer psicanálise e psicoterapia, pois ela engloba todos os mesmo referidos e outros ainda mais.

    Ninguém diz que Freud discartou a medicina… E a boatos históricos que Freud, nunca discartou a hipnose, e sim a usou a sua vida inteira.

    Como um bom psicanalista que quero ser, um bom psicólogo, um bom filósofo e um bom teólogo… Deixo bem que a hipnose é fantástica tempo moderno.

    Agradeço a atenção

  10. Ola Excelente tarde Sr.Lucas Nápoli.

    Gostaria de saber se posso aprender a hipnose?
    se existe algum site ou livro que ensine?
    Não quero sair por toda parte praticando mas gostaria de sentir com é?

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