[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise II: Donald Winnicott

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6 comentários sobre “[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise II: Donald Winnicott

  1. Caro Lucas,

    Cheguei no seu blog por acaso e logo me interessei pelo título do seu vídeo. Não sou psicanalista, mas é sempre interessante ouvir o que outras abordagens têm a dizer sobre um tema tão recorrente na clínica.

    Achei muito interessante a proposta de que nascemos pré-dispostos a uma espécie de união corpo-mente. Na verdade, e caso tomemos a mente como a atividade do cérebro, a divisão corpo-mente não seria muito mais do que uma forma didática de se tratar o problema (de vez que o cérebro é uma parte do corpo). Mas por certo existem formas específicas de o corpo e mente/cérebro interagirem, bem como que umas formas são mais adaptativas (saudáveis) do que outras.

    Pelo que entendi, a psicose e as doenças psicossomáticas seriam formas ou manifestações doentias da relação corpo-mente. Com efeito, a definição desses tipos de relação seria mediada tanto por disposições inatas como, em complemento, por experiências de vida do bebê. Essas experiências diriam respeito a interações com a mãe, ou melhor, a condições específicas do ambiente. Entre as condições mais importantes para um processo de união corpo-mente estaria o conjunto de cuidados, isto é, um ambiente acolhedor, de confiança.

    Se é entendi bem, acho que posso passar parar as minhas dúvidas.

    Primeiramente, e espero não ser chato com isso, se mãe e ambiente são sinônimos, por que insistir em utilizar o primeiro termo, cujo significado popular é mais restrito? Se ambiente for um termo amplo demais, poder-se-ia utilizar uma expressão como “relações interpessoais primordiais”. (Veja que minha dúvida/crítica está mais para expressões da Psicanálise do que para Winnicott.)

    Em segundo lugar, achei estranha a afirmação de que o sujeito PRECISA do sintoma psicossomático para que o elo corpo-mente não seja cindido, bem como que esse sujeito ENCONTROU esse meio de “se segurar”. Em que sentido ele precisa desse sintoma? Qual seria sua função adaptativa? Seria em termos dos chamados “ganhos secundários” (se eu vomito ou sofro de dores de estômago, mais pessoas me dão atenção e cuidam de mim)? Mesmo assim, qual a evidência de que na ausência desses sintomas e/ou de seus ganhos a relação corpo-mente seria cindida?

    Minha terceira e última dúvida é sobre o tratamento desse tipo de problema. Um ambiente acolhedor seria o suficiente para tratá-lo? Ou melhor: todo caso de doença psicossomática tem seus pilares erguidos sobre o desenvolvimento corporal que é mediado pela linguagem e pelas interações com a “mãe”? Quais as evidências disso?

    Espero poder contribuir e aprender muito por aqui. Parabéns pelo trabalho. Um abraço.

  2. Caríssimo Daniel,
    Com toda a certeza posso incluir seu comentário entre os melhores que já foram escritos aqui no blog em dois anos de existência deste espaço.
    Suas perguntas são muito pertinentes e espero respondê-las do modo que mais se aproxime à sua satisfação, sem pretensão alguma de convencê-lo, até porque nossos campos de estudo partem de pressupostos distintos.
    Vamos, então, às suas questões:
    1. De fato, o termo mãe e seus correlatos “mãe suficientemente bom” e “mãe insuficientemente boa” geram muitos mal-entendidos, como por exemplo, a idéia de que deve ser necessariamente a mãe biológica a exercer a função do cuidado. Trata-se, portanto, de um vício de linguagem do qual muitos analistas winnicottianos tentam escapar principalmente na contemporaneidade em que emergem novas formas de estruturação familiar, como casais homossexuais, por exemplo. Winnicott também parece fazer um esforço para utilizar o termo “ambiente” no lugar de “mãe” mas o hábito (gerado pelo fato de na grande maioria dos casos ser efetivamente a mãe biológica que personifica o ambiente) amiúde impera. Considero sua proposta de expressão para designar o que se pretende com o termo “ambiente” como não adequada pelo fato de que, do ponto de vista winnicottiano, as relações interpessoais (vistas desse modo pelo bebê) só passam a existir a partir de determinada etapa do desenvolvimento. Antes dessa etapa, o “ambiente” não é sequer percebido pelo bebê em função de seu estado de dependência absoluta em relação ao ambiente. Em outras palavras, o bebê, no início, não se dá conta de que ele está sendo cuidado por uma pessoa, de modo que “relações interpessoais primordiais” embora faça referência ao que de fato está acontecendo, obscureceria a peculiaridade mencionada acima.
    2. Não, no caso do sintoma psicossomático como única saída para manter corpo e psique unidos, o ganho secundário pode até advir, mas, como o próprio termo expressa, trata-se de um ganho secundário. O ganho primário é o impedimento da cisão. A evidência de que sem o sintoma psicossomático o sujeito teria corpo e psique cindidos se encontra no fato de que, em sendo tratado através da provisão de um ambiente de confiança pelo analista, o sujeito consegue integrar corpo e psique e o sintoma psicossomático desaparece. Essa consequência demonstra que naquele sujeito o sintoma psicossomático tinha uma função, pois se ele desaparece depois que o sujeito consegue retomar adequadamente o processo de personalização, isso significa que essa função era justamente a de substituir esse processo. E se ele o substitui é porque tal processo não foi realizado a contento. E se ele não foi realizado a contento o sujeito estava outrora à beira da cisão. Evidentemente, não se trata de uma evidência nos moldes tradicionais (como o desejaria o Sr. Popper) do tipo: um sujeito que perdeu o sintoma psicossomático e, por conta disso, ficou psicótico. A evidência da tese winnicottiana é, por que não dizer, retrospectiva.
    3. Quanto ao tratamento, só a provisão de um ambiente de confiabilidade não é suficiente. Tal provisão apenas possibilita ao sujeito regredir e retomar o processo de personalização. Mas, do ponto de vista de Winnicott, o analista deve exercer a função de ambiente suficientemente bom que o ambiente original do sujeito não exerceu. Nesse sentido, ele tem que auxiliar o sujeito na tarefa de personalização, o que acontece de modos específicos para cada caso. De acordo com Winnicott, o sintoma psicossomático é entendido de acordo com essas diretrizes que você colocou. As evidências, se é que se pode chamá-las assim, são clínicas e dependem, para serem aceitas como tal, de se compartilhar dos conceitos winnicottianos. Se você rejeita o pressuposto, qualquer explicação perderá o sentido.
    Agradeço imensamente por suas perguntas que me deram oportunidade de esclarecer alguns aspectos que ficaram obscurecidos na explicação.
    Espero que possamos trocar mais idéias!
    Forte abraço e apareça sempre!

  3. Prezado Lucas,

    Fico contente em saber que gostou de minhas questões. Quero entender melhor esse tema e estou aberto a tentar fazê-lo também através de outras perspectivas.

    1. Bom, muito pelo contrário, vejo que tomar a situação/etapa do desenvolvimento em “terceira pessoa” (eu, enquanto pesquisador, observo o fenômeno “relação mãe-bebê”) é mais interessante (verificável, compreensível) do que imaginá-lo sob o ponto de vista do bebê (o que, na realidade, viria a obscurecer a descrição/explicação do fenômeno). Por isso acho adequado nomeá-lo “relação interpessoal” ou, para ser mais preciso, “relação interpessoal primordial” (por se referir aos primeiros contatos do bebê com alguma pessoa).

    2. Eu não vejo que o fato de o sintoma desaparecer e uma forma mais adaptativa de se comportar (permita-me o termo) em uma situação específica ser instaurada significa que o sintoma SUBSTITUÍA o comportamento adaptativo — tanto menos que evitava uma cisão. No primeiro caso, o da substituição, seria o mesmo que dizer que minha forma de entender a Psicologia antes de eu entrar no curso SUBSTITUÍA a forma inédita de entendê-la que eu adquiri depois de sair do curso. Traduzindo, talvez existisse o sintoma simplesmente porque a pessoa não teve a chance de aprender a lidar adaptativamente com uma situação específica anteriormente (digamos, talvez por falta de carinho e cuidado). No caso “impedir a cisão”, parece que isso é concluído na medida em que admitimos ser verdadeira a hipótese de que um tipo de “cuidado materno” específico é o que garante a integração mente-corpo. É claro que a interação mãe/ambiente-bebê será fundamental para o desenvolvimento, mas acho que é um salto explicativo muito grande e inconsequente tomá-la como aquilo-que-impede-a-instauração-da-psicose, por exemplo.

    3. A proposta de criar um ambiente inédito, de confiança e aceitação, no qual o sujeito poderá efetuar uma “retificação subjetiva” é muito interessante e praticamente partilhado por todas as abordagens. (A propósito, o processo de personalização poderia ser em parte entendida pelo conceito “retificação subjetiva”? Não sei se entendi bem o termo, e isso é muito importante para que possamos debater.)

    O que nos distingue aqui, em suma, parece ser o pressuposto de que o sintoma psicossomático é algo que amarra o corpo à mente (permita-me continuar usando o termo em seu sentido geral) e, talvez um pouco menos, que a “relação interpessoal primordial” (em termos de cuidados e verbalizações sobre partes do corpo) é a chave para essa amarra.

    Obrigado pelas respostas. Um abraço.

  4. Olá Daniel!
    Estou gostando da nossa conversa!
    Sobre o que você disse no final, sobre se seria possível equiparar o conceito de personalização ao de “retificação subjetiva”, penso que não. A noção de “retificação subjetiva” é de Jacques Lacan e diz respeito a um primeiro momento de uma análise de orientação lacaniana em que o analista tenta levar o sujeito a se reposicionar em relação a seus sintomas, de modo a fazer com que ele reconheça que tais sintomas “resolvem” determinados conflitos, ou seja, que o sujeito se satisfaz com aquilo de que se queixa. A retificação subjetiva, em outras palavras, é um convite a que o analisante se responsabilize por seus sintomas. No caso da retomada do processo de personalização na análise, trata-se de outra perspectiva que privilegia a função do analista não como o objeto que mobiliza o sujeito para a desconstrução de suas identificações (Lacan) mas sim como a personificação de um ambiente suficientemente bom, capaz de facilitar, por sua presença e cuidado, as tendências ao amadurecimento.

    Em relação a sua tréplica da segunda questão, penso que o que está em jogo é uma crítica à idéia de que uma relação de contigüidade no tempo implicaria necessariamente na existência de uma relação de dependência. Concordo contigo que não há uma relação de necessidade entre ambas, mas no caso específico da relação entre sintoma psicossomático e personalização adequada a experiência clínica de Winnicott mostra que há. Como não tenho muita experiência com esses casos, não posso me reportar a casos meus.

    Estou totalmente de acordo quando você quando se refere ao “salto explicativo”. De fato, dizer que uma psicose é gerada APENAS por um cuidado materno inadequado é um reducionismo grosseiro que a ênfase nesse aspecto (feita na obra de Winnicott e no meu vídeo) pode acabar levando o leitor/espectador a fazer. Assim como também constitui um reducionismo grosseiro afirmar que a psicose é APENAS uma disfunção cerebral e genética como muitos psiquiatras fazem (sério, já vi isso escrito). Na verdade, todo fenômeno humano é complexo e depende da existência de uma série de variáveis. Uma delas, como demonstra a experiência clínica de muitos psicanalistas, no caso da psicose, é a presença de um cuidado falho na história infantil do indivíduo. Mas a existência APENAS dessa condição, concordo contigo, não é suficiente para explicar um fenômeno tão complexo.

    Um grande abraço e mais uma vez obrigado pelas perguntas e pelas pertinentes observações!

  5. Lucas,

    Ah, sim! Agora entendi melhor o que minha professora queria dizer com “retificação subjetiva”. Na linguagem comportamentalista, seria ajudar o cliente a entender as relações que um comportamento-alvo tem com o contexto que lhe precede e com as consequências que ele produz (ou que ele deixou de produzir e, por isso, passa a gerar sofrimento), entendimento este que poderia, dependendo do caso, gerar a “responsabilização” ou “implicação” desse cliente sobre o seu problema.

    Acho que entendi a ideia de “facilitar o amadurecimento”, mas não exatamente a de “personificar um ambiente suficientemente bom”. Em que consiste isso?

    Sobre o ponto 2, eu quis dizer que a nova forma (adquirida através da psicoterapia) de se comportar/de lidar com uma situação-problema (estes são termos/expressões inteligíveis para você?), uma forma mais adaptativa, “amadurecida”, não é uma evidência de que a forma anterior, ou o sintoma-em-questão, EVITAVA a cisão. Até podemos dizer que a forma adaptativa (a personificação de um ambiente bom?) substituiu a forma de ser anterior (a sintomática), mas não vejo como isso leva à conclusão que uma ou outra IMPEDE a cisão. (A propósito, a cisão é algo a ser impedido? Se sim, parece-me que toda forma de comportamento tem como FUNÇÃO impedir outros comportamentos que poderiam ocorrer naquele mesmo momento.Afinal, comprar um picolé de manga teria a FUNÇÃO de impedir que eu comprasse um picolé de uva? Acho melhor vermos as coisas como formas alternativas de se comportar [ou de a personalidade se estruturar] do que de pensar as coisas como tendo certas finalidades impeditivas.)

    Verdade, Lucas. Por certo há uma variedade de variáveis envolvidas na determinação de um fenômeno assim tão complexo. Pode ser que o tipo de cuidado nos primeiros momentos do desenvolvimento seja uma das que mais contam, mas eu não tive contato com estudos que mostrassem isso.

    Um abraço.

  6. Olá Daniel!
    Personificar um ambiente suficientemente bom significa fenomenologicamente emitir comportamentos que gerem como consequência um sentimento de confiança do paciente em relação ao analista, sentimento que amiúde está ausente nas relações entre o paciente e o outro em virtude de uma experiência prévia bastante aversiva com o ambiente.
    Entendi seu argumento em relação à “substituição”: a rigor todo comportamento emitido substituiria todos os outros possíveis de serem emitidos numa dada situação. Mas é justamente nessa definição que encontramos a base a partir da qual dizemos que a personificação bem feita substitui o sintoma psicossomático. Trata-se, no caso, de quais comportamentos são possíveis de serem emitidos. Utilizando o exemplo que você deu, é como se um indivíduo tivesse sido condicionado ao longo da sua história de vida a só chupar picolé de uva, pois supostamente seria o único ao qual ele não seria alérgico (alergia = tendência à cisão). No entanto, ele vai comprar um picolé de uva e, em função de um erro do fabricante, o picolé que vem na embalagem de uva é, na verdade, de pêssego. Por não estar preparado para tal surpresa, ele dá logo uma mordida e imediatamente começa a sentir algumas sensações características da reação alérgica (a tendência à cisão é acionada). Nesse momento, o indivíduo se lembra de que possui um remédio em casa que elimina os sintomas da reação. Ele então se dirige para o lar e toma o remédio (sintoma psicossomático). A alergia (tendência à cisão) não foi eliminada, mas seus sintomas foram, digamos, pausados. O indivíduo continua potencialmente alérgico. Passam-se dois anos e eis que a medicina produz um medicamento para aquele tipo específico de alergia que o indivíduo porta, um medicamento que vai de fato curá-lo (personificação bem feita): ele poderá chupar picolés de todos os sabores. O indivíduo então compra o medicamento, o ingere e finalmente se vê livre de uma vez por todas de sua alergia. Conclusão: a função que o primeiro remédio exercia no controle dos sintomas da alergia está sendo feita agora pelo novo medicamento descoberto pela medicina. A diferença é que, no primeiro caso, o remédio (sintoma psicossomático) apenas impedia a manifestação da tendência à cisão (alergia) ao passo que o novo medicamento elimina tal tendência de vez.

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