Psicossomática e Psicanálise I: Joyce McDougall

Este post é o primeiro de uma série de textos que pretendo publicar aqui sobre as concepções teóricas em psicanálise acerca das doenças psicossomáticas. Meu objetivo é levar ao conhecimento do leitor as idéias dos principais autores que trabalharam essa temática no campo analítico. Muitos psicólogos, por desconhecerem as produções teóricas dos autores que serão abordados aqui, permanecem reféns do conceito popular de doença psicossomática segundo o qual afecções dessa natureza são distúrbios orgânicos motivados por conteúdos de ordem psíquica. Essa é uma definição rasteira, pouco útil e que não faz jus à complexidade e delicadeza do problema.

É muito comum encontrar também não apenas leigos, mas estudantes e profissionais de psicologia que irrefletidamente pensam o sintoma psicossomático como sendo ocasionado pelo fato de o indivíduo não poder se expressar pela fala. Como veremos, tal concepção não é de todo equivocada, mas requer maiores esclarecimentos teóricos para que não se seja levado ao absurdo de recomendar uma mera catarse como estratégia terapêutica para pacientes psicossomáticos. Caso não queiram ler o que virá a seguir, fixem na memória apenas a fórmula seguinte. Já será suficiente para desfazer um bilhão de mal-entendidos.

sintoma psicossomático ≠ conversão histérica

Espero também que os conteúdos que aqui serão abordados possam auxiliar àqueles que efetivamente sofrem com sintomas psicossomáticos a discernirem melhor os fatores que podem ter levado ao desenvolvimento da enfermidade e motivá-los a buscar a ajuda de um psicanalista e/ou de um médico.

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Joyce McDougall e uma equação clínica

A autora que inaugura essa série por certo é desconhecida pela maior parte dos leitores. Pudera. Sua produção teórica é bastante recente e só a partir de meados dos anos 90 seus escritos começaram a gerar algum impacto em terras brasileiras. Como meu interesse aqui não é o de apresentar Joyce McDougall, mas sim especificamente suas idéias sobre a doença psicossomática, sugiro ao leitor que se interessar por conhecê-la esse artigo do psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli.

Para nossos propósitos, basta que o leitor saiba que McDougall é de nacionalidade neozelandesa, mas radicada na França onde seguiu durante muito tempo o Seminário de Lacan, embora não seja lacaniana. Aliás, não se pode dizer que a psicanalista se afilie a alguma tradição teórica na psicanálise. Em seus textos, é possível encontrar o uso de termos e idéias de diferentes autores, em especial Winnicott e Lacan.

A teoria de Joyce McDougall acerca do sintoma psicossomático veio à luz a partir de sua experiência clínica de psicanalista tradicional. Por que frisar isso? Porque diferentemente de outros autores que veremos nesta série, McDougall tomou contato com a psicossomática no interior do dispositivo analítico padrão, cuja maioria dos pacientes apresentava queixas de cunho emocional e neurótico. No entanto, começam a aparecer em seu consultório pacientes cujas manifestações mais proeminentes são de ordem orgânica, levando McDougall a buscar entender o significado desses fenômenos na clínica.

Ela começa por observar em pacientes desse tipo um modo peculiar de lidar com os próprios afetos. Tais indivíduos pareciam agir como se seus afetos não existissem. Seu discurso era mecânico, sem vida e frente a acontecimentos intensos de sua existência eram capazes de reagir com toda a resignação do mundo. Ao mesmo, comportando-se dessa forma, faziam com que no analista brotassem os mais vivos afetos. Havia, portanto, três termos para os quais McDougall deveria elaborar uma equação se quisesse entender tais pacientes: o sintoma psicossomático, a ausência de afetos e a estimulação de afetos no analista.

No princípio era o verbo

Como competente psicanalista que era, McDougall foi buscar na obra de Freud o que o inventor da psicanálise dizia sobre os afetos. E o que ela encontrou foi a teoria clássica de Freud a esse respeito: os afetos são manifestações psíquicas do afluxo de energia pulsional. Na medida em que o acúmulo dessa energia gera um afeto desprazeroso, o indivíduo deve empregar estratégias para descarregá-la. Todavia, como a descarga total é impossível, a saída é fazer essa carga energética circular entre representações psíquicas de modo a “drená-la”. Essa é a estratégia utilizada pela maior parte de nós que somos neuróticos. O que McDougall trouxe de novo a partir do que havia aprendido com Lacan e Winnicott foi a consideração de que aquela estratégia só pode ser empregada se o indivíduo, ainda bebê, tiver experimentado um ambiente que utilizou essa mesma estratégia para com ele antes que tivesse capacidade para tal. Sejamos mais claros.

Logo ao nascer, o bebê não dá conta de drenar a energia pulsional que desde o nascimento já dá o seu ar da graça porque ele ainda não possui representações para as quais drenar o afluxo energético. Mas a mãe as possui! E por possuí-las, ela deve exercer para o bebê a tarefa que McDougall denominou de “pára-excitação” a qual, em termos simples, significa fornecer ao bebê palavras, significantes, representações aos quais o bebê possa investir a energia pulsional e se libertar do poder ameaçador dela. Para dar um exemplo, as mães fazem isso sem saber quando brincam de nomear as partes do corpo da criança: “Esse é seu pezinho; esse é seu narizinho” e durante as “conversas” com o bebê ainda quando esse não sabe falar. É importante lembrar que para que a palavra cumpra sua função de representação, o bebê não precisa enunciá-la, basta que ele a ouça. Pois bem. Nem todo indivíduo conta com um ambiente que funciona adequadamente assim. E aí, quando o bebê não conta com essa função de pára-excitação, ele é deixado na cova dos leões pulsionais. Não é que a pulsão seja naturalmente má. É que ela é pulsão, ou seja, força ininterrupta que demanda trabalho. Então, se não há ferramentas (representações) com as quais trabalhar, logo o indivíduo só tem contato com a força! E essa força excede a tal ponto as capacidades de resistência do bebê que passa a ser sentida por ele como uma angústia inominável, isto é, que não se tem palavras para descrever. E não se tem mesmo, ora bolas!

Desafetação

Em tais casos, a única saída que resta para o bebê se constituir minimamente é se cegar para não ver a pulsão, o que McDougall chamou de “ejetar o afeto do psiquismo” ou “desafetação”. É óbvio que a pulsão continua presente, mas o indivíduo passa a viver como se ela não existisse, de modo que ele utiliza dela apenas o mínimo suficiente para se manter vivo, mas sem fazer dela uso libidinal algum, concebendo-a como potencialmente aniquiladora. São esses os pacientes somatizantes que McDougall encontrou na clínica. É justamente por isso que eles aparentam não sentir nada. É que qualquer afeto um pouco mais intenso é sentido por eles como semelhante à situação de desespero que viveram quando bebês. Eles utilizam então a mesma defesa que outrora: ejetam do psiquismo o afeto, tornando-se desafetados.

O problema é que o afeto que foi expulso do psiquismo não foi destruído, mas retornou a seu lugar de origem. Que lugar é esse? O próprio corpo, fonte da pulsão. Entretanto, o corpo não é capaz de suportar tamanha carga energética, pois nós não somos apenas corpo. Somos corpo e psiquismo. Assim, boa parte dessa carga energética deveria ter sido distribuída entre as representações. Por não dar conta de comportar tamanho volume afetivo ressomatizado, o corpo irá sofrer prejuízos. Com efeito, quanto maiores forem as cargas afetivas ressomatizadas, maior impacto o corpo sofrerá e mais graves serão as lesões produzidas.

Concluindo

Para McDougall, portanto, o sintoma psicossomático emerge como consequência de um processo prévio de desafetação que impossibilitou que afetos vinculados a determinado evento aflitivo pudessem ter sido distribuídos entre representações mentais. O afeto é, então sentido como potencial aniquilador e ejetado do psiquismo retornando para seu lugar de origem, o corpo, gerando ali os mais deletérios sintomas.

Adendos

1. Acerca da estimulação de afetos no analista no tratamento de pacientes desafetados, trata-se de um fenômeno que ocorre não apenas na relação com o analista, mas também com outras pessoas do convívio do indivíduo. Se expressa pela tendência de pacientes desafetados em fazer com que o outro experimente os afetos que não lhes são possíveis de serem experimentados na esperança de comunicar ao outro o estado desesperador em que o indivíduo se encontra por não poder experimentar os próprios afetos. É como se o indivíduo estivesse dizendo: “Sinta por mim, já que eu não posso…”.

2. O fato de o paciente desafetado não ter contado com um ambiente que exerceu de maneira efetiva a função de pára-excitação não significa que ele seja pobre em representações. Essas podem inclusive ser mais abundantes do que em pacientes neuróticos. A diferença é que no primeiro caso elas são pouco investidas afetivamente. Elas estão dissociadas do afluxo pulsional que está mais fortemente investido, no caso de pacientes somatizantes, em determinadas partes do corpo.

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8 comentários sobre “Psicossomática e Psicanálise I: Joyce McDougall

  1. Muito bom Lucas.

    Estou curioso para ler os próximos porque eu sei muito pouco sobre Psicossomática a nível teórico, não foi propriamente uma área que tivesse estudado na faculdade.

    Deixe ver se eu percebi, para Joyce o sintomas psicossomáticos são emergências mentais deslocadas para o corpo uma vez que a própria mente não consegue lidar com elas, indo, assim, para um estádio de regressão. É isso Lucas?

    Abraço!!

    PS: Amei (mesmo!) esta frase “É como se o indivíduo estivesse dizendo: “Sinta por mim, já que eu não posso…”.

  2. Olá Cláudio!
    É bom ter seus comentários por aqui novamente!
    Pois é, a psicossomática ainda é um tema pouco trabalhado na psicologia e um dos problemas mais intrigantes da nossa prática – e de difícil manejo clínico (muito mais em função de como a gente compreende o corpo, a saber: apenas como máquina do que da própria natureza do sintoma psicossomático). Espero poder despertar em você e nos demais leitores o gosto pelo tema!

    Você entendeu certinho a idéia-chave do pensamento da Joyce McDougall! Aliás, lhe recomendo muito a leitora dessa senhora. Principalmente como instrução para o trabalho clínico. Ela parece ser uma terapeuta brilhante!

    Grande abraço, amigo!

  3. Interessante! Este primeiro momento [o bebê] até mesmo me lembra da clínica do autismo, apesar de este ser muito aquém disto. O psicossomático, em minha modesta experiência clínica, realmente tem a tranferencia marcada [nisto que já traz uma marca do corpo] pelo jogos de afetos em que o analista participa, por vezes, a duras penas. Afinal ha um so inconsciente em análise, e o analista participando dele, faz a intervenção. Se é que isto já não é uma intervenção. Compartilho do que voce escreveu da relaçao analista-analisando, eu assino em baixo.
    É muito proximo também da transferencia maciça com o masoquista, mas não é a mesma coisa, apenas se aproximam.
    As aparentes palavras vazias desses analisando a que se referem seu texto , também se parecem com as do obsessivo, em que o analista morre de sono (é a”morte” do desejo no obsessivo).
    Seu texto me lembrou também a articulação com a holofrase lacaniana. Mas eu preferiria traduzir o que voce trouxe como representação em outros termos, como idéia, significante, linguagem, etc…Foi uma tradução equivocada que Garcia-Roza analisa bem.
    Outra coisa da clínica com psicossomática: Eles tb não sonham! [É claro que não postulo um matema invariante]
    Em “duas notas sobre a criança”, uma frase resume bem algumas coisas que se aproximam com a teoria de seu post: ” O corpo dá o máximo de garantia.”

  4. Olá Alexandre! Como seus comentários são bem-vindos aqui! Observações precisas! Eu também não gosto muito do termo “representação” mas ele figura em boa parte do texto da McDougall. Prefiro significante mesmo.
    Bem, minha vontade é comentar todas as suas observações, mas acabaria por produzir um outro texto! rs Portanto, vou falar apenas acerca da questão da holófrase lacaniana que você citou. Como você verá no post dessa série que eu dedicarei a Lacan, trata-se de uma mesma dinâmica descrita com termos diferentes. Com efeito, o que está em questão na holófrase é a ausência de significação pela não-existência do intervalo entre os significantes, o que faz com que o objeto a não seja subtraído do corpo. Vejo nessa descrição, a partir de uma interpretação do Lacan inspirada no Nasio, a gênese do sintoma psicossomático proposta pela McDougall.
    Essa série nos dará várias oportunidades de conversarmos sobre esses pontos!
    Grande abraço!

  5. Lucas meu amigo, muito bom seu post! É muito interessante como você tem facilidade para abordar temas as vezes tão difíceis de forma simples e elaborada. Aproveitando o a oportunidade, a idéia de Mcdougall sobre pára-excitação faz uma ótima conexão com a idéia bioniana de ausência de uma função Alfa no bebê, sendo está então praticada pela mãe. Um grande abraço e estou começando a ler o seu segundo post da série!

  6. Olá Renan!
    Muito obrigado pelos elogios!
    Puxa, Bion é um dos poucos autores da Psicanálise de quem li apenas umas dezenas de linhas. Ficaria muito agradecido se você pudesse desenvolver um pouco mais essa analogia que você fez com o conceito de “pára-excitação”. Se você puder postar aqui nos comentários, eu e os leitores agradeceríamos! 😉
    Grande abraço!

  7. Opa Lucas! Na verdade o pouco que sei sobre Bion é devido a um grupo de estudos e discussões de casos clínicos que freqüento, onde o professor é um apaixonado bioniano que acabou por me contagiar com sua paixão. Tentarei explicar o pouco que sei. A idéia principal de Bion parece ser a existência de uma verdade “O”, que seria a verdade última. Quando então através de nossos órgãos sensoriais percebemos essa verdade “O”, ela é transformada no que ele denominou elementos “Beta” sensoriais, ou seja, captamos estímulos “Beta”, que então serão processados por uma última instância, de cunho totalmente psíquico, chamada por Bion de função “Alfa”, que vai nos propiciar criar representações para aquela verdade última. Vamos exemplificar para melhorar o entendimento: imagine que você vai a uma loja de discos, e pergunta ao vendedor qual é a música dos Beatles que ele mais gosta, e ele te responde “A day in the life”. Então você pede a ele que coloque a música para você então ouvir pela primeira vez. Ao som da música, que é uma verdade “O”, você vai captando através de seus ouvidos aquela onda sonora, que vai entrando e subindo pelas hierarquias do sistema nervoso. Depois de chegar ao fim das ligações nervosas esse som então vai tomar a proporção de algo de significado psíquico. E então dizemos se é agradável, triste, feliz, etc. O som sem aquele que o ouve é a verdade última “O”, que existe independente de alguém para ouvi-lo. Quando ele entra pelos ouvidos ele se torna os tais elementos “Beta”, pois dependem de um certo processamento orgânico, e por fim num último processo esse som será processado pela chamada função “Alfa”, e então representamos aquilo que ouvimos. É ai que é a grande sacada, pois essa função “Alfa” vai conseguir processar somente os elementos “Beta” que ela conseguir, e então temos as famosas divergências que uma mesma verdade “O” pode causar em indivíduos diferentes.
    Agora vamos relacionar com a maravilhosa idéia de McDougall de “pára-excitação”. A criança de fato quando nasce e começa tomar contato com verdades “O”, mas especificamente com as sensações provenientes de seu organismo, tais como fome, frio, dores etc, ela capta essas sensações através dos órgãos do sentido e então as transforma em elementos “Beta”. Porém a criança não tem a chamada função “Alfa” desenvolvida, e cabe então a mãe essa função, ou seja, a mãe será a função “Alfa” da criança, que vai propiciar a ela a possibilidade de criar representações sobre aquela verdade última, e portanto de suma importância para que ela desenvolva a capacidade de aumentar sua condição de “Alfa-betizar” os elementos “Beta”. Se a mãe não exerce uma função “Alfa” eficaz, a criança então vai acumular elementos “Beta”, que terão que sair por algum via, terão que ser ejetados de alguma forma, e poderão ser ejetados na forma de sintomas histéricos ou psicossomáticos, sendo que quando a mãe pratica uma função “Alfa” porcamente ruim, a criança por deficiência dessa maternagem pode vir a ejetar os elementos “Beta” que não conseguiu “Alfa-betizar” através da via sensorial novamente, o que culmina então nas famigeradas psicoses. Essa idéia se correlaciona com Winicott, Klein, McDougall (que vir a conhecer somente neste post graças a você Lucas) e talvez muitos outros psicanalistas. Espero ter conseguido explicar o pouco que sei sobre o assunto para você Lucas e para o pessoal do blog. Caso exista dúvidas, me disponho a discutir o assunto para que possamos todos juntos, amantes da psicanálise, enriquecer nossos conhecimentos sobre o assunto. Um grande abraço Lucas e obrigado pelo interesse!

  8. Olá Renan! Agradeço-lhe imensamente por essa brilhante contribuição. Sua explicação foi claríssima e a analogia com a teoria de Joyce McDougall foi, a meu ver, muito pertinente.
    Pelo que pude perceber, minhas intuições sobre as idéias de Bion derivadas das poucas linhas introdutórias que li estavam corretas. Pensando em voz alta: a gente pode dizer que Bion expressa com outros termos e colocando ênfase em outros aspectos importantes aquilo que Freud nos apresenta no Projeto para uma Psicologia Científfica (texto não publicado de 1895 mas onde estão contidas de maneira embrionária todas as suas futuras idéias). Talvez o que Freud disse naquele texto possa ser tomado como a grande matriz teórica da psicanálise que cada autor desenvolverá à sua maneira. Penso isso porque o modo como você estabeleceu a analogia entre Bion e McDougall me levou a pensar na tríade lacaniana real, imaginário e simbólico. Assim, fazendo agora uma analogia entre Bion e Lacan poder-se-ia dizer que a verdade “O” é da ordem do real, os elementos Beta estão no campo do imaginário e os elementos Alfa no simbólico!
    Um grande abraço e apareça sempre!

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