Clínica lacaniana das psicoses

De um ponto de vista lacaniano, o tratamento psicanalítico da neurose visa fundamentalmente suscitar um processo de DESESTABILIZAÇÃO.

Com efeito, na neurose, o sujeito encontra-se excessivamente ESTABILIZADO em função do forte apego que tem ao seu eu ideal.

Esse apego o leva a rechaçar as dimensões de seu psiquismo que são incompatíveis com a imagem idealizada que tem de si mesmo.

E são justamente essas dimensões rechaçadas que estão na origem dos problemas emocionais que levam o neurótico a buscar ajuda.

É por isso que o analista precisa desestabilizar o sujeito: para estimulá-lo a sair deste estado de alienação e se abrir para o encontro com suas outras facetas.

Por outro lado, quando estamos trabalhando com um paciente psicótico, a análise precisa caminhar na direção oposta, ou seja, rumo à estabilização.

Afinal, na psicose falta essa espécie de centro gravitacional com o qual o neurótico pode contar para fugir de si mesmo.

No psicótico, ao invés deste centro, existe um buraco. Por isso, ele encontra-se num estado de errância, de desorientação fundamental.

Nesse sentido, o tratamento lacaniano da psicose deve ter como objetivo ajudar o sujeito a construir algo que funcione como um suplemento para essa lacuna.

Se, na neurose, o trabalho visa desestabilizar, na psicose precisamos ajudar o sujeito a encontrar caminhos para a estabilização.

— Ok, Lucas, mas, na prática, como isso acontece? O que o analista, na perspectiva lacaniana, deve e não deve fazer com pacientes psicóticos?

Eu respondo justamente essas perguntas na aula especial que foi publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, a minha escola de formação teórica em Psicanálise.

O título dela é “Clínica lacaniana das psicoses (II): tratamento” e está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN.

A Confraria é hoje a maior e mais acessível escola de formação em teoria psicanalítica do Brasil.

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3 tipos de projeção: neurótica, borderline e psicótica

A projeção é um dos mecanismos de defesa que mais utilizamos.

Ela consiste na crença de que um determinado processo psíquico que ocorre em mim está, na verdade, acontecendo em outra pessoa.

Eu especificaria três níveis de projeção, que variam conforme o grau de certeza que a pessoa tem em relação ao que está sendo projetado.

Na projeção NEURÓTICA, o sujeito possui apenas uma impressão de que o outro apresenta o conteúdo que ele está projetando.

Elias, por exemplo, passou dias achando que Davi estava magoado consigo, sendo que, na verdade, era o próprio Elias quem alimentava uma hostilidade contra o amigo.

Em apenas uma sessão de análise, Elias conseguiu se dar conta da projeção e a impressão em relação a Davi foi facilmente dissipada.

O segundo nível de projeção eu chamaria de projeção BORDERLINE.

Nesse, a pessoa não tem apenas uma impressão ou vaga sensação em relação ao outro.

Ela acredita fortemente no que projeta e, inclusive, DISTORCE sua percepção da realidade para que a projeção seja justificada.

Vitória, por exemplo, interpretou uma simples brincadeira inofensiva de seu irmão (de 7 anos de idade) como um ataque frontal à sua honra.

A moça estava projetando no menino um objeto persecutório interno que se formou em seu psiquismo em função de graves problemas na relação com os pais.

Finalizando, podemos distinguir uma terceira (e mais conhecida) forma de projeção: a PSICÓTICA.

Nessa, o sujeito não tem apenas uma forte convicção, como na projeção borderline. O psicótico acredita PIAMENTE no que está projetando.

Um objeto mau, do mesmo tipo que perturba Vitória, por exemplo, pode estar presente na mente de um psicótico e ser projetado na forma de uma CERTEZA ABSOLUTA de estar sendo vigiado e controlado por um apresentador de TV.

Por que motivo a projeção acontece?

Pela mesma razão que justifica o acionamento de todo e qualquer mecanismo de defesa: a evitação de uma dor psíquica insuportável.

Essa dor é provocada justamente pelo processo psíquico que o sujeito projeta.

Ele supõe, acredita ou tem certeza absoluta de que o processo está do lado de fora por não ser capaz de suportá-lo do lado de dentro.


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[Vídeo] Você tem recriado seu passado doloroso?


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[Vídeo] Retorno do recalcado: entenda como funciona


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[Vídeo] A transferência na psicose

Esta é uma pequena fatia da aula “Clínica lacaniana das psicoses (I): diagnóstico” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN da CONFRARIA ANALÍTICA.


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Como saber se o paciente é psicótico?

Muitas pessoas acreditam que a presença de alucinações e pensamentos delirantes no quadro clínico é suficiente para diagnosticar um paciente como psicótico.

Mas isso não é verdade.

Sujeitos neuróticos também podem relatar que estão vendo coisas inexistentes ou construir certas interpretações que passam muito longe da realidade.

Anna O., por exemplo, a conhecida paciente histérica de Josef Breuer, alucinou que uma serpente negra se aproximava de seu pai para mordê-lo.

O “Homem dos Ratos” de Freud, embora fosse um neurótico obsessivo, relatava certas ideias que podem muito bem ser classificadas como delirantes.

Portanto, tais fenômenos não são exclusividade da psicose.

Para usá-los como índices diagnósticos, é essencial considerar como o paciente se relaciona com eles.

O neurótico está aberto à possibilidade de questionar a veracidade de suas alucinações e pensamentos delirantes. O psicótico, não.

Como dizia Lacan, na psicose, a pessoa não só acredita que ouve vozes, mas crê NAS VOZES, no que elas dizem.

Essa CERTEZA é um dos traços que permitem a identificação de um quadro psicótico. Mas existem outros, igualmente importantes.

Eu falo sobre eles (e também sobre a certeza) detalhadamente e com exemplos na aula publicada hoje (sexta) na CONFRARIA ANALÍTICA.

O título dela é: “Clinica lacaniana das psicoses (I): diagnóstico” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – LACAN.

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Você tem brincado de Fort-da?

No livro “Além do princípio do prazer”, Freud narra uma curiosa cena protagonizada por seu netinho Ernst, de um ano e meio na época.

O menino tinha um carretel de madeira enrolado em um cordão e costumava brincar de jogar o objeto para longe de si, puxando-o de volta logo em seguida.

Quando lançava o carretel, Ernst emitia um som que sua mãe e seu avô interpretaram como sendo uma tentativa de dizer “fort” (“foi embora”, em alemão).

Ao trazer o objeto de volta para junto de si, o garoto dizia, alegremente, a palavra “da” (“aqui” ou “está aqui”).

Vendo que Ernst, apesar de muito apegado à mãe, não chorava quando ela estava longe, Freud interpretou a brincadeira da seguinte forma:

Ao fazer o carretel “ir embora” e retornar, o menino estaria reproduzindo simbolicamente as idas e vindas da mãe.

Transformando a mãe simbolicamente naquele objeto, Ernst passava a ter CONTROLE sobre os movimentos dela.

Assim, a mãe desaparecia e voltava quando ELE queria, não ela.

Ou seja, a brincadeira fazia o garoto se sentir SUJEITO da situação e não mais um mero objeto do desejo materno.

Se o anseio do garoto fosse apenas evitar o desprazer de estar longe da mãe, ele poderia simplesmente manter o carretel sempre junto a si.

Mas Ernst queria algo mais. Algo que está justamente para além do princípio do prazer: o menino queria DOMINAR a situação.

Por isso, ele precisava reproduzir não só a presença, mas também a ausência da mãe, ou seja, justamente o movimento que lhe causava dor.

Muitos de nós recorremos a esse mesmo processo defensivo empregado pelo netinho de Freud.

O problema é que as nossas “brincadeiras” de adultos envolvem PESSOAS e não carreteis.

Muita gente usa seus relacionamentos amorosos para tentar dominar, simbolicamente, uma situação dolorosa que vivenciaram na infância.

A pessoa se casa com um homem tão frio quanto o pai, por exemplo, para tentar simbolicamente mudar o genitor e torná-lo mais afetuoso.

Será que isso está acontecendo com você?

Será que você está até hoje tentando consertar o passado reencenando-o no presente?


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[Vídeo] Quais são os restos da sua infância?


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[Vídeo] A relação com o analista também cura!


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[Vídeo] Reação contratransferencial à transferência erótica

Esta é uma pequena fatia da aula “Como manejar a transferência erótica” que já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS da CONFRARIA ANALÍTICA.


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Como manejar a transferência erótica?

Patrícia levantou-se da poltrona para chamar Davi, seu último paciente do dia, que a aguardava na sala de espera.

Normalmente, o rapaz vinha à terapia trajando uma camiseta simples, bermuda e tênis. Mas, naquele dia, ele se vestira de forma diferente.

Estava com uma camisa de botão azul muito bem passada, calça jeans e sapatos.

Patrícia também notou que o paciente havia se perfumado mais do que de costume e imaginou que ele deveria ter algum evento especial após a sessão.

Ela estava enganada.

Davi havia caprichado no perfume e na vestimenta porque havia planejado fazer uma confissão à analista naquela noite.

E foi exatamente isso que ele fez logo após deitar-se no divã:

— Patrícia, eu preciso te contar uma coisa que venho sentindo há muito tempo, mas ainda não tinha coragem para falar.

— Hum… — reagiu a terapeuta.

— Eu… não sei bem como dizer isso, mas acho que sinto algo a mais por você. Faz um bom tempo que eu não te vejo só como minha analista.

Patrícia ficou em silêncio e foi tomada por uma crescente ansiedade.

Com efeito, ela havia começado a atender há pouco tempo e era a primeira vez que tomava contato com uma transferência erótica.

Sem saber o que dizer, a terapeuta limitou-se a pedir que Davi continuasse a falar.

O paciente, então, passou a elogiá-la exageradamente e, na sequência, a falar de sua insatisfação com a namorada — tema recorrente de sua análise.

A analista sentiu certo alívio quando o paciente passou a falar de seu relacionamento.

Porém, continuou ansiosa até o fim da sessão por não saber o que fazer diante da confissão amorosa.

Muitos terapeutas vivenciam essa mesma insegurança que Patrícia sentiu por não terem sido bem formados em relação ao manejo da transferência erótica.

Por isso, decidi fazer uma aula especial na CONFRARIA ANALÍTICA chamada justamente “Como manejar a transferência erótica”.

Ela já está disponível em nossa plataforma no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS.

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A gente faz Psicanálise para desistir de mudar o passado.

Eu nunca atendi um paciente cujo adoecimento não estivesse relacionado diretamente a experiências vividas em sua infância.

As ideias que apresentarei a seguir já estavam consolidadas na teoria psicanalítica desde a época de Freud.

Eu, porém, comprovei a veracidade delas não pelos exemplos dos livros e artigos, mas em minha própria experiência de mais de 15 anos como terapeuta.

Se tem algo que a clínica me mostrou com extrema clareza, foi que nós podemos passar a vida inteira sofrendo para digerir os restos de nossa infância.

Esses restos são constituídos por conflitos psíquicos não resolvidos e marcas traumáticas não elaboradas.

No fundo, a condição de adoecimento apresentada por nossos pacientes é uma forma patológica que inventaram para tentar processar esses restos.

João vive desperdiçando energia, tempo e dinheiro para tentar superar uma angustiante dúvida que o acompanha desde criança: “Sou homem de verdade?”.

Amanda nunca aceitou o descaso do pai na infância. Assim, embora seja adulta, ainda se vê intimamente como uma criança lutando pela aprovação paterna.

Flávia tem muitos problemas com amizades e relacionamentos, pois se percebe como um mero objeto descartável desde que a mãe a abandonou aos cinco anos.

Como não é possível voltar no tempo, João, Amanda e Flávia não podem simplesmente apagar seus restos infantis.

Mas eles tentam.

O adoecimento emocional é justamente isso: uma tentativa de digerir os restos baseada na vã esperança de mudar o passado.

João quer provar para o Joãozinho que sempre foi macho.

Amanda quer fazer o papai virar fã da Amandinha.

Flávia quer que a mamãe desista de ir embora para ficar com a Flavinha.

Fazendo análise, tais pacientes terão a oportunidade de perceber que estão fazendo isso e serão confrontados com as seguintes perguntas:

Vale a pena seguir lutando contra os restos e alimentando a ilusão de que um dia deixarão de existir?

Ou é melhor aprender a conviver com eles e, quem sabe, até transformá-los em fonte de criatividade e não de sofrimento?


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[Vídeo] Diferença entre a Psicanálise e as terapias diretivas


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[Vídeo] React #04 – Ex-psicanalista no Eslen Podcast (parte 03)


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[Vídeo] Mau acolhimento na infância e autoimagem

Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “ESTUDOS DE CASOS 18 – Uma jovem mal acolhida que se sentia um peso para o mundo” que já está disponível no módulo ESTUDOS DE CASOS da CONFRARIA ANALÍTICA.


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