É preciso ter olhos para ver e ouvidos para ouvir

Quando a gente aprende que o Inconsciente é constituído de ideias recalcadas, surge a tentação de imaginá-lo como uma caixinha onde esses pensamentos são depositados.

Essa comparação não é boa porque ela sugere a falsa conclusão de que as ideias ficam paradas lá no Inconsciente à espera de serem resgatadas.

Na verdade, os pensamentos recalcados não param quietos!

Eles estão o tempo todo se manifestando.

Porém, como sua entrada na Consciência foi barrada, eles precisam recorrer a representantes, assim como grandes empresas utilizam parlamentares para fazerem valer seus interesses na legislação.

Tal como na relação promíscua entre empresários e políticos, o retorno do recalcado acontece debaixo dos panos, nos bastidores das nossas intenções oficiais…

É preciso ter olhos para ver a silhueta do recalcado numa inocente troca de palavras.

É preciso ter ouvidos para ouvir a voz do Inconsciente num inofensivo ritual cotidiano.


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A gente faz Psicanálise para se dar conta de que a nossa verdade se revela justamente onde não estamos acostumados a procurá-la.

Quem deseja se tornar analista precisa acostumar-se a olhar para aquilo que normalmente ignoramos.

É por isso que a experiência de ser paciente de outro analista é fundamental.

É principalmente ali, no divã, que percebemos o quão significativos são os atos falhos, os sonhos e os termos que saem de nossas bocas.

Para quem não está habituado a conversar com o Inconsciente, uma troca involuntária de palavras é apenas um errinho a ser desconsiderado.

O analista, contudo, dá valor a essa “pedra que os construtores rejeitaram”. Ele a considera como “pedra angular”.

Com efeito, o Inconsciente se revela justamente nas brechas inevitáveis do nosso discurso consciente e dos nossos comportamentos voluntários.

Assim, um simples lapso de fala ou de escrita é capaz de expressar, de forma truncada e condensada, intenções que não ousamos confessar nem para nós mesmos.

Mas para ser capaz de vislumbrar a verdade reprimida que se manifesta sorrateiramente em um mero errinho de digitação é preciso ter olhos para ver e ouvidos para ouvidos.


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“A boca fala do que está cheio o coração.”

Esta é uma das diversas teses psicológicas de Jesus de Nazaré que se encontram registradas nos Evangelhos.

Ela aparece naquele que talvez tenha sido o discurso mais contundente de Jesus contra os fariseus, em que Ele os chama de “raça de víboras”.

Curiosamente, quando nos lembramos dessa frase “A boca fala…” nos esquecemos de que ela é a resposta da pergunta retórica que Jesus dirige aos fariseus nesses termos:

“Raça de víboras, como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”

Estou chamando sua atenção para essa questão porque ela evidencia um interessante alinhamento entre as concepções de Jesus e as da Psicanálise.

Com efeito, ao insinuar que os fariseus, sendo maus, não poderiam dizer coisas boas, Jesus está implicitamente afirmando que nós não controlamos nossa fala.

A conclusão “A boca fala do que está cheio o coração” é justamente um reforço dessa ideia.

Para Jesus, o Eu parece não ter autonomia completa sobre a fala. Por mais que tente controlar o que sairá de sua boca, no fundo é o Coração quem estará realmente no comando.

Ora, quem disse exatamente a mesma coisa, mas utilizando outros termos, foi o velho Freud.

A invenção da técnica da associação livre e, juntamente com ela, a ênfase na análise dos sonhos e atos falhos mostram justamente que, também para Freud, a verdade sempre escapa do controle do Eu.

Quando seguimos a recomendação freudiana e pedimos aos nossos pacientes que falem tudo o que lhes vier à cabeça, estamos atestando nossa confiança de que da boca deles sairá NECESSARIAMENTE a verdade.

Quando não tratamos um lapso do paciente apenas como um errinho irrelevante, mas o convidamos a interpretá-lo, estamos demonstrando nossa convicção de que… “A boca fala do que está cheio o coração”.

Ao perguntar retoricamente aos fariseus “como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”, Jesus estava sugerindo que existe uma correspondência entre o SER e o DIZER.

Em outras palavras, o que efetivamente DIGO atesta quem verdadeiramente SOU, ainda que “pelo meu muito falar” eu queira farisaicamente convencer os outros e a mim mesmo de que sou o que GOSTARIA DE SER.

Freud certamente daria like nessa “postagem” de Jesus.


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Como escutar o Inconsciente?

Os psicanalistas entendem que uma pessoa adoece emocionalmente quando se recusa obstinadamente a reconhecer certos aspectos de sua personalidade e de sua história.

Tal recusa obriga esses aspectos a se manifestarem à força na vida da pessoa, por meio de problemas emocionais.

Um sujeito, por exemplo, que desde a infância se recusa a tomar posse de seus impulsos agressivos pode acabar expressando essa agressividade reprimida por meio de uma culpa neurótica.

Nesse sentido, o principal objetivo de um tratamento psicanalítico é ajudar o paciente a se apropriar conscientemente daquilo que ele não quer reconhecer em si mesmo.

Para alcançar esse propósito, o analista precisa justamente ser capaz de captar na fala do analisando indícios daquilo que ele não quer admitir.

O terapeuta, portanto, deve ter uma escuta que seja sensível ao Inconsciente e estar apto a ajudar o paciente a também desenvolver essa sensibilidade.

Mas como escutar aquilo que não se manifesta às claras, de forma evidente?

De fato, em função da resistência que o analisando impõe aos conteúdos do seu Inconsciente, eles não se apresentam de forma explícita.

Assim, para ser capaz de escutá-los, o analista precisa seguir e ajudar o paciente a seguir as PISTAS do Inconsciente.

Que pistas são essas?

Várias. Por exemplo, as aparentes “coincidências” que ocorrem na vida do sujeito:

O sujeito que reprime a própria agressividade pode ter desenvolvido uma dor estranha nos braços justamente no dia em que lhe fizeram uma brincadeira de mal gosto no trabalho.

Outra pista bastante esclarecedora são comportamentos involuntários que a pessoa repete sem perceber:

Esse mesmo sujeito que não consegue se apropriar de seus impulsos agressivos pode dizer ao seu analista que não sabe a razão pela qual vive cantarolando uma música popular que fala de violência e ódio…

Esquecimentos, trocas de palavras, excessos… Todas essas coisas também são pistas para o Inconsciente.

Cabe ao analista ter desenvolvido, em sua própria análise e por meio do estudo teórico, a capacidade de enxergar esses indícios que geralmente “passam batido”…


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Não dá para ver o Inconsciente a olho nu: a importância do olhar simbólico para a Psicanálise

Ontem eu conversava com os alunos da Confraria Analítica sobre como a prática da Psicanálise exige o exercício de um olhar SIMBÓLICO sobre a realidade.

É por isso que eu sempre recomendo “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, de Freud, como primeira leitura para quem deseja iniciar um percurso no campo psicanalítico.

Com efeito, nessa obra o leitor encontrará uma coleção imensa de relatos de pequenos erros e comportamentos aparentemente insignificantes interpretados simbolicamente por Freud.

Quem lê “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” vai pouco a pouco se acostumando a encarar um simples esquecimento de nome, por exemplo, como um discurso eloquente.

Sim! Nesse livro, Freud nos convida a olhar para lapsos, equívocos e pequenos atos do dia a dia não só como eles se apresentam, mas enxergando o que eles REPRESENTAM.

É isso o que eu chamo de OLHAR SIMBÓLICO, que penso ser indispensável para quem quer exercer a Psicanálise na prática ou mesmo apenas estudá-la teoricamente.

É somente por meio da aplicação desse olhar simbólico que podemos enxergar no esquecimento da chave de casa, por exemplo, o desejo de não voltar para ela.

Só olhar simbólico também nos permite olhar para os sintomas de nossos pacientes e enxergá-los não só como problemas, mas fundamentalmente como MENSAGENS.

Quem não cultiva esse olhar julga as interpretações psicanalíticas como exageradas ou forçadas. De fato, não consegue ver para-além do imediato.

O olhar simbólico é justamente o que torna um analista apto a observar o Inconsciente em ação. Afinal, é próprio do Inconsciente não se mostrar de maneira explícita.

O terapeuta que não exercita o olhar simbólico é levado a crer equivocadamente que seus pacientes estão apenas descrevendo objetivamente  a realidade.

Olhar simbolicamente para a fala do analisando habilita o analista a percebê-la como um discurso muito mais RETÓRICO do que descritivo…

Em suma, para ser psicanalista é preciso ter olhos para ver. E ouvidos para ouvir.

Você tem facilidade para aplicar esse olhar simbólico?


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