Quando a presença do analista é mais importante que a interpretação

Nessas ocasiões, o analista deve renunciar a seus esforços de interpretação e dedicar-se tão-somente a uma escuta sensível, empática e acolhedora.


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“O que não tem conserto nem nunca terá”


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Um analista não pode ser apático

Isso aí é só uma “palhinha” do que veremos na AULA AO VIVO de hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, a partir das 20h.

Centenas de terapeutas estão transformando completamente seu olhar sobre a clínica psicanalítica acompanhando nossas aulas.

Estamos estudando o texto “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi e hoje veremos algumas das diferenças gritantes entre certas ideias de Ferenczi e de Freud.

Vai ser uma noite inesquecível para muitos, eu tenho certeza!

Para assistir a essa aula, é só se juntar às mais de 700 pessoas que já estão na nossa comunidade.

Até mais tarde!


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[Vídeo] Psicanálise não é uma conversa

Muita gente que nunca fez análise imagina que as sessões são constituídas basicamente de um bate-papo com o terapeuta. Neste vídeo eu explico por que essa ideia é equivocada.


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3 funções que o terapeuta exerce na Psicanálise

A diversidade das situações clínicas e a complexidade dos quadros de adoecimento com os quais se depara exigem que o psicanalista alterne diferentes posições ao longo do tratamento.

As funções apresentadas nos cards não esgotam a totalidade dos papéis que o terapeuta pode desempenhar na clínica psicanalítica.

Todavia, entendo que essas três posições apresentadas são essenciais para que os objetivos do tratamento possam ser alcançados.

Eventualmente, duas ou mais funções podem ser exercidas simultaneamente, mas normalmente uma delas prevalece, até porque cada uma está articulada a visões específicas do próprio paciente.

Quando está desempenhando o papel de investigador, por exemplo, o analista encara o paciente como um “suspeito”, alguém que esconde uma verdade e involuntariamente se esforça para mantê-la oculta.

Por outro lado, quando o terapeuta adota a posição de testemunha, o paciente passa a ser visto como uma pessoa que apresenta um sofrimento até então silenciado e que precisa ser ouvido e validado.

Sacou? Funções diferentes pedem visões diferentes do mesmo paciente.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma AULA ESPECIAL em que explico detalhadamente cada uma dessas 3 funções.

Te vejo lá!


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Por uma Psicanálise sem máscaras

Você certamente já deve ter ouvido por aí que os psicanalistas são frios, distantes e excessivamente silenciosos na relação com seus pacientes.

Também já deve ter lido que o analista jamais deve atender demandas do analisando. Pelo contrário, deve consistentemente frustrá-las para que o paciente enfrente sua angústia.

Da mesma forma, não ficaria surpreso se você me dissesse que ouviu em alguma aula ou palestra (inclusive de minha autoria, talvez) que o analista deve posicionar-se diante do paciente exclusivamente como um espelho (Freud) ou como um objeto provocador (Lacan).

Mas e se eu te dissesse que toda essa mistura de lendas com verdades e meias verdades foi justamente alvo de crítica de um dos maiores autores da Psicanálise?

Sim. O nome dele é Sándor Ferenczi, um psicanalista húngaro que ousou dizer em alto e bom som, em pleno congresso internacional de Psicanálise, que os analistas são hipócritas e insensíveis enquanto estão tratando de seus pacientes.

Alguns colegas sentiram tanto o golpe que houve quem dissesse que Ferenczi estava vivenciando um quadro psicótico…

A verdade é que ele estava chamando a atenção da comunidade psicanalítica para os efeitos adversos provocados pela posição tradicional do analista, marcada por atitudes artificiais como abstinência, distância e reserva.

Essa ideia aparece em vários dos trabalhos que Ferenczi escreveu em seus últimos anos de vida, mas o texto em que ele manifesta de maneira mais explícita suas críticas à técnica psicanalítica clássica é, sem dúvida, “Confusão de língua entre os adultos e a criança”.

Trata-se justamente do artigo que Ferenczi apresentou em 1932 no XII Congresso Internacional de Psicanálise, em Wiesbaden na Alemanha, em que chama a postura clássica do analista de “hipocrisia profissional”.

A partir de hoje, eu e as centenas de pessoas que estão comigo na Confraria Analítica estudaremos LINHA A LINHA esse texto a fim de compreendermos o que de fato Ferenczi diz e quais são as possibilidades e os limites da Psicanálise sem máscaras que ele propõe.

Você também pode fazer parte dessa jornada.

É só entrar na nossa comunidade.


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Sobre a hipocrisia profissional dos psicanalistas

Sándor Ferenczi (1873-1933), médico e psicanalista húngaro, foi um dos discípulos mais próximos de Freud.

Ferenczi chegou, inclusive, a ser analisado pelo pai da Psicanálise.

Essa circunstância, aliás, foi fundamental para que Ferenczi começasse a propor inovações radicais tanto no plano da teoria quanto na técnica da Psicanálise.

Inovações que batiam de frente com algumas das ideias de Freud… 😬

Ferenczi passou a questionar a postura tradicional do analista no tratamento, considerando-a excessivamente fria, distante e, portanto, prejudicial ao paciente.

Por que prejudicial?

Porque, do ponto de vista de Ferenczi, o adoecimento emocional se desenvolveria justamente como resposta do sujeito a uma infância marcada pela falta de acolhimento e ausência de confiabilidade.

Para o autor, ao se colocar diante do paciente de maneira excessivamente formal, impassível e protocolar, o analista estaria agindo com HIPOCRISIA.

Sim, hipocrisia profissional.

Ferenczi soltou essa “bomba” pela primeira vez na conferência “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, proferida no XII Congresso Internacional de Psicanálise e que se encontra disponível no volume IV das Obras Completas do autor.

Vocês podem imaginar a polêmica que isso causou no meio psicanalítico da época, né? 😅

Ferenczi estava simplesmente dizendo: “Galera, desculpem a sinceridade, mas a gente é tudo hipócrita…” 🤷🏻‍♂️

Freud, por exemplo, ficou chocado 😱 quando o colega levou para ele o artigo antes de apresentá-lo no Congresso e pediu para que Ferenczi reconsiderasse suas posições.

Mas ele não voltou atrás.

Ainda bem.

Quer saber mais sobre essa história de hipocrisia profissional?

Ainda hoje quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá uma aula especial em que comento o trecho do artigo “Confusão de língua…” no qual Ferenczi fala do assunto.


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O psicanalista é abstinente, mas não insensível.

Na Psicanálise normalmente não dizemos para o paciente o que ele deveria fazer para resolver seus problemas emocionais.

Esse é um dos aspectos que diferenciam radicalmente a terapia psicanalítica de outras formas de tratamento nas quais o terapeuta orienta o paciente numa certa direção.

Na Psicanálise não tem dica, não tem exercício, não tem lição de casa.

A única coisa que um analista pede ao paciente e que fale da forma mais sincera, franca e espontânea que puder durante as sessões.

Essa postura passiva, que se abstém de usar a força do vínculo terapêutico para interferir na vida do paciente, é muitas vezes confundida com INSENSIBILIDADE.

Eventualmente, por exemplo, um analista pode receber no consultório uma paciente cujo sofrimento está diretamente vinculado aos abusos psicológicos que ela sofre por parte do marido.

Os pais e as amigas dessa paciente podem já ter dito a ela diversas vezes que deveria se separar, mas essa mulher jamais ouvirá da boca de seu analista um conselho semelhante.

Não porque o analista seja insensível e não esteja nem aí para o sofrimento da paciente.

De forma alguma!

O bom analista acolherá esse sofrimento, escutando com genuína atenção e interesse cada pequeno detalhe do discurso dela.

Mais do que isso: ele se esforçará para deixar claro, por meio de sua postura e tom de voz, que é verdadeiramente sensível à dor dela.

Todavia, em nenhum momento essa pobre mulher ouvirá dele a recomendação de se separar nem qualquer outra sugestão sobre como supostamente deveria conduzir sua vida.

Por quê?

Vamos continuar essa conversa lá na Confraria Analítica?

Quem está na comunidade receberá ainda hoje uma aula especial sobre esse assunto.

Te encontro lá!


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Na Psicanálise, o que de fato cura é a relação com o analista

Muita gente se engana pensando que a Psicanálise é um procedimento meramente intelectual.

Imagina-se que o paciente melhora ao fazer análise simplesmente porque conseguiu substituir seus problemas emocionais pela elaboração psíquica dos conteúdos que estavam por trás deles.

Essa é uma visão equivocada.

O principal fator de cura no tratamento psicanalítico é a RELAÇÃO do paciente com o analista.

Como assim, Lucas?

Pensa comigo: o que ocasiona o adoecimento emocional do ponto de vista psicanalítico?

A resposta é: um processo de dissociação da personalidade, certo?

Em outras palavras, entendemos que o sujeito adoece para se proteger de determinadas partes de si mesmo que ele tem medo de integrar em sua personalidade.

Se é assim, qual deve ser o objetivo do tratamento?

Óbvio: ajudar a pessoa a perder esse medo!

O trabalho de decifração dos sintomas e inibições do paciente só pode acontecer se ele for se sentindo suficientemente seguro para explorar o avesso de si.

E ele só conseguirá desenvolver essa segurança no interior de uma RELAÇÃO com uma pessoa confiável, empática, não invasiva e, sobretudo, que não o condena.

Entendeu?

A análise não cura por causa daquilo que o paciente redescobre sobre si durante a terapia ou em função de interpretações certeiras do analista.

Isso tudo é importante, mas é secundário.

O fator terapêutico primordial é a reconquista, pelo paciente, da capacidade de olhar para si mesmo e se escutar sem medo.

E isso só pode ser alcançado por meio de uma RELAÇÃO de confiança com o analista.

Corroborando essas ideias, Freud diz o seguinte na conferência “Transferência”, de 1917 (volume XVI das Obras Completas):

“A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistências que lhe mostramos na análise, ele tem necessidade de um poderoso estímulo que influenciará sua decisão no sentido que desejamos, levando à recuperação. […] Nesse ponto, o que é DECISIVO em sua luta não é sua compreensão interna (insight) intelectual — que nem é suficientemente forte, nem suficientemente livre para uma tal realização —, mas simples e unicamente a sua RELAÇÃO com o médico.” (grifos meus).


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Quando a gente complica a própria vida para fugir do padrão dos pais

A experiência clínica tem me mostrado que, em muitas pessoas, um fator chave na constituição da personalidade foi a repressão de certos aspectos muito ligados a determinadas figuras parentais.

Deixa eu explicar esse negócio de forma mais clara.

Imagine, por exemplo, uma moça que desde criança viu sua mãe se comportando de modo subserviente e passivo na relação com o pai.

Essa jovem evidentemente pode tomar a genitora como modelo e vir a se tornar muito semelhante a ela nas suas próprias relações amorosas.

Isso a gente já conhece. É o que a Psicanálise chama de “identificação”.

O fenômeno que a clínica tem me mostrado é diferente.

Imagine que a tal moça, ao invés de se identificar com a mãe, desenvolva uma forte aversão à postura materna, considerando-a humilhante e indigna.

Ora, essa jovem se esforçará o máximo possível para não se tornar parecida com a genitora.

E, ao fazer isso, ela precisará necessariamente reprimir as disposições passivas e masoquistas que naturalmente existem dentro dela (e de qualquer pessoa).

Resultado: a moça poderá se tornar excessivamente ativa e dominadora em seus relacionamentos, comprometendo a continuidade deles no longo prazo.

Desejando a todo custo fugir do padrão materno, ela cria uma profunda rachadura em sua personalidade, tornando-se inimiga de suas próprias tendências passivas — as quais, cabeça dela, são representantes da mãe.

Um processo parecido é vivenciado por muitos homens que reprimem sua agressividade espontânea por terem convividos com pais violentos.

Tais homens, ao contrário da moça do exemplo anterior, se tornam excessivamente dóceis, passivos e submissos porque estão lutando arduamente para não se assemelharem aos genitores.

Para eles, a expressão natural da agressividade é vivenciada como perigosa, pois remete diretamente à figura paterna.

Por outro lado, a clínica me mostra também que esse processo é sempre ambivalente:

De alguma maneira, parece que o padrão aversivo do pai ou da mãe é também incorporado, mas fica ilhado no Inconsciente, perturbando o sujeito por meio de sintomas, inibições e ansiedades.

Você acha que talvez esteja vivenciando uma dinâmica  dessa natureza?


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[Vídeo] Qual é o grande objetivo do tratamento psicanalítico?

[Vídeo] A importância da retificação subjetiva na clínica psicanalítica

Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

[Vídeo] Psicanálise prática

Em psicanálise, o alívio do sofrimento experimentado pelo paciente é apenas um efeito “extra” do tratamento ou deve ser o seu objetivo primordial?


Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 3)

No último post desta série vimos que, por volta dos anos 1920, Freud se viu diante de um baita problema teórico: de que valia continuar utilizando o termo “inconsciente” para designar uma parte específica de nosso psiquismo se essa parcela da mente se parecia mais com um tremendo balaio de gato onde cabiam coisas tão heterogêneas como os impulsos reprimidos e as partes do ego que impediam que esses impulsos fossem reconhecidos pelo sujeito, ou seja, que provocavam resistência?

Não seria melhor passar a utilizar o termo “inconsciente” num sentido meramente descritivo, ou seja, apenas para fazer referência à forma em que se encontra uma representação mental da qual não estamos conscientes no momento?

“Sim, seria”: essa foi a resposta de Freud. Já que o conceito de inconsciente estava perdendo a especificidade que tinha no início da psicanálise, melhor seria abandoná-lo de vez.

Mas o que colocar em seu lugar? Se o conceito de inconsciente como uma região psíquica já não fazia mais sentido, logo aquela primeira divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente também iria para o ralo, certo?

Perfeitamente. O problema agora passava a ser então a elaboração de um novo modelo para representar o psiquismo. Se a mente não poderia mais ser pensada como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente, como uma seria uma nova estruturação, capaz de superar as limitações da primeira?

A aposta freudiana no conceito de Id

Freud foi encontrar o princípio da resposta que daria a essa pergunta num conceito extraído da obra do médico e psicanalista Georg Groddeck, acerca do qual já falei algumas vezes aqui no site e cuja obra, aliás, foi meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva.

Influenciado pela leitura de Nietzsche, Groddeck vinha utilizando naquela época a palavrinha alemã “Es” (cuja tradução para o latim seria “Id”) para fazer referência a uma espécie de força vital que condicionaria toda a nossa existência, desde a formação dos órgãos do corpo até os nossos mais sutis pensamentos. Nesse sentido, nenhuma de nossas escolhas seria autônoma, ou seja, produto de nosso livre-arbítrio. Groddeck costumava dizer que em vez da frase “Eu vivo” deveríamos dizer “Sou vivido por isso”.

O que Groddeck queria, na verdade, era chamar a atenção para o fato de que nenhum de nós se encontra isolado do contexto em que vive e carrega em si as marcas de sua própria história. Em decorrência, todas as nossas escolhas são o produto da nossa relação coma natureza (da qual somos apenas uma modificação) bem como de nossa história. O conceito de “Es” servia para Groddeck justamente para evidenciar o fato de que o que nós chamamos de que nós não somos donos do nosso próprio nariz na medida em que nos encontra na dependência de fatores que estão para além de nós mesmos e acerca dos quais na maioria das vezes não temos consciência.

Ora, esse modo de entender a existência humana proposto por Groddeck era bastante semelhante à conclusão que Freud havia chegado desde que inventara a psicanálise e que sintetizou na famosa frase: “O eu não é senhor na própria casa.”. No momento em que Freud proferiu essa frase, o que ele tinha em mente era a força do inconsciente na determinação da conduta humana. Mas se a ideia de “o inconsciente” já não fazia muito sentido, como continuar sustentando que o “eu não é senhor na própria casa”?

Tomando emprestado de Groddeck o conceito de “Es”, ora! O termo parecia perfeito para designar a região da mente que Freud até então vinha chamando de inconsciente e, de quebra, não tinha os inconvenientes do termo inconsciente!

O vocábulo “Es” na língua alemã é um pronome impessoal. Por isso, as edições mais recentes da obra de Freud preferem traduzir o termo por “Isso” em vez de “Id”, justamente para valorizar esse aspecto semântico referente a algo indeterminado, desconhecido, obscuro. Essa característica, aliás, foi uma das razões que levaram Freud a gostar do conceito. Pareceu-lhe o termo ideal para contrapor ao ego, na medida em que colocaria em primeiro plano a verdadeira oposição que interessa à psicanálise, a saber: a oposição entre o ego e a pulsão, essa fome insaciável de viver que pode, paradoxalmente, colocar a vida em risco. É esse conflito que de fato esteve nas raízes da psicanálise e não o embate entre consciência e inconsciente!

O Id freudiano

Diferentemente de Groddeck, que entendia o Id como a expressão da nossa vinculação indissociável com o mundo, Freud privilegiou o significado do conceito referente a algo exterior ao ego, exemplificado na famosa frase de uma personagem da Escolinha do Professor Raimundo: “Ele só pensa naquilo”. Esse “naquilo” é obviamente a sexualidade, a qual, para Freud, se manifesta no ser humano de modo excessivo, desmedido e que, por conta disso, adquire uma conotação de exterioridade em relação ao ego. É por isso que, do ponto de vista freudiano, haverá sempre um conflito entre o ego e as pulsões no cerne de cada alma humana.

O Id é justamente o conceito que Freud empregará para situar o lugar que essas pulsões ocupam no aparelho psíquico. No Id se encontrariam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões de morte (responsáveis pela agressividade que dirigimos contra nós mesmos e contra os outros). As pulsões seriam os representantes no psiquismo de necessidades provenientes do corpo e buscariam unicamente a satisfação sem levar em conta as possibilidades reais de obtê-la e, muito menos, se essa satisfação faria bem para o sujeito. A norma que regula o funcionamento mental dentro do Id é o princípio do prazer, ou seja, no Id uma representação mental se liga a outra não em função de uma relação lógica ou semântica, mas sim devido ao fato de ambas estarem ligadas mutuamente a uma experiência de satisfação ou de busca dela. Assim, no Id, a fórmula 1 + 1 não é necessariamente igual a 2. Pode ser igual a 3 ou a 20 caso essa estranha equação favoreça a conquista do prazer e da satisfação. Em outras palavras, não há razão no interior do Id. A racionalidade é um modo de funcionamento mental a ser conquistado pelo sujeito.

No próximo post veremos como essa conquista é levada a cabo. Conheceremos de que modo o Id dá origem ao ego, esse filho ingrato que desde o nascimento já entrará em conflito com seu genitor e, se possível, veremos ainda o surgimento do terceiro e último elemento da segunda tópica, o famoso e feroz “superego”.

CONTINUA.

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