Fantasia inconsciente: o filme trágico que protagonizamos sem perceber

Eu preciso ser totalmente independente, pois não posso confiar em ninguém.

Eu preciso ser engraçado porque somente assim serei amado.

Eu preciso me submeter à vontade das outras pessoas, pois, assim, não serei abandonado.

Eu preciso desconfiar de todo o mundo, pois, dessa forma, não serei atacado.

Esses são apenas alguns exemplos de fantasias inconscientes que comumente encontramos na clínica.

Elas fornecem respostas a duas grandes perguntas que nos são colocadas pela vida desde muito cedo:

1 – Quem sou eu?
2 – Como são os outros?

A fonte primária na qual vamos buscar elementos que nos ajudem a construir a fantasia que responderá essas perguntas é a família.

É na relação com pai, mãe e irmãos que vamos forjando a ideia de como é o OUTRO, essa categoria que engloba todas as pessoas com as quais nos relacionamos e o mundo de forma geral.

É das vicissitudes das interações com a família na primeira infância que brota a visão do outro como:

Alguém em quem não se pode confiar.

Alguém que precisa ser seduzido.

Alguém que precisa ser obedecido.

Alguém que pode atacar a qualquer momento.

Essas são apenas algumas das inúmeras imagens do outro que podem emergir.

A partir dessa imagem, deduzimos nossa posição:

Se o outro é visto como alguém que pode me atacar, por exemplo, logo eu preciso ser aquele que se defende, que desconfia.

Se o outro precisa ser seduzido, devo me tornar um sedutor.

Uma das tarefas que buscamos levar a cabo numa Psicanálise é justamente a de identificar a fantasia inconsciente que comanda a vida do paciente a fim de ajudá-lo a adotar um olhar crítico em relação a ela.


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[Vídeo] Quais são os preconceitos que você tem em relação a si mesmo?

Atualmente, gostamos de dizer que não se deve ter preconceito contra ninguém, mas e se eu te disser que você pode estar sendo preconceituoso em relação a si mesmo?


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O Real angustia, a fantasia conforta.

Muitos indivíduos encaram a realidade apenas como um conjunto de evidências que comprovam as fantasias que nutrem a respeito de si mesmas.

Você pode conhecer pessoas assim ou mesmo ser uma delas.

Há, por exemplo, aqueles que acreditam firmemente que NUNCA conseguirão ter um relacionamento amoroso duradouro porque percebem que a realidade SEMPRE lhes mostra o quanto são desinteressantes.

A despeito da aparente coerência desse pensamento, trata-se tão-somente de uma FANTASIA.

Sem perceberem, tais pessoas estão generalizando encontros singulares ou, em outras palavras, interpretando o acaso como se fosse destino.

Mas por que alguém criaria uma fantasia tão destrutiva como essa? Uma das razões é que, por mais dolorosa que seja, esse tipo de crença falaciosa funciona como uma poderosa defesa psíquica. Com efeito, aqueles que a sustentam acabam se privando de novos encontros, pois supostamente “sabem” que não serão bem-sucedidos. Evitam, assim, o confronto com a incerteza e a ansiedade inerentes a toda possibilidade de relação amorosa.

Protegem-se também do risco de obterem sucesso e serem obrigados a abandonar suas queixas. Por mais paradoxal que possa parecer, não poder mais contar com uma realidade que sustente uma reclamação crônica é um dos maiores temores de muita gente.


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Você vive obedecendo à criança que já deixou de ser?

E seu eu te disser que esse quadro de adoecimento emocional que te faz sofrer talvez possa ser a consequência inevitável de um raciocínio que você elaborou quando criança e que mantém no fundo da alma até hoje?

Calma que eu vou te explicar.

Vou tratar aqui de um achado que deriva diretamente da minha experiência clínica iluminada, obviamente, pela teoria psicanalítica.

Percebo com muita frequência que muitos dos padrões de sofrimento que meus pacientes apresentam parecem estar fortemente vinculados a certas conclusões que a pessoa fez quando criança e que, desde então, ela nunca mais questionou.

Deixa eu te dar um exemplo:

Uma moça queixa-se de um excesso de autocobrança que a faz se sentir extremamente mal quando fracassa ou comete alguma falha. Ao falar sobre sua infância, essa paciente relata ter sofrido humilhações e zombarias por parte de alguns colegas no início da vida escolar em função de certas particularidades do seu corpo. No fluxo da associação livre, ela própria chega à conclusão de que, para compensar o sentimento de inferioridade induzido pelos ataques de seus colegas, pode ter buscado se tornar uma aluna exemplar, elogiada por todos os professores, pelos pais e admirada por vários colegas.

O problema é que, na medida em que a busca por se tornar uma “aluna nota 10” foi impulsionada pela fuga do sentimento de inferioridade, ela provavelmente desenvolveu o seguinte raciocínio (naquela época): “Não posso jamais deixar de ser a aluna exemplar! Do contrário, o que serei? Apenas a menina inadequada, inferior e humilhada por aqueles colegas. Não! Não quero isso para mim. Portanto, não posso errar, não posso fracassar, preciso ser sempre a aluna perfeita!”.

Ora, diante de uma conclusão como essa, como não sofrer com a autocobrança excessiva e o medo de errar?

Percebe? Essa jovem padece de um raciocínio inadequado e defensivo, forjado há muitos anos, mas que provavelmente permanece em seu psiquismo, orientando inconsciente suas ações.

Agora, na terapia, finalmente ela terá a oportunidade de questioná-lo e, consequentemente, abandoná-lo.

Você consegue identificar um processo semelhante na sua própria vida?


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A origem da crença no “pensamento positivo”

Filme "Click", com Adam Sandler

A crença de que pelo nosso mero pensar seremos capazes de fazer a realidade “conspirar” a nosso favor não é nova na história da humanidade. Outrora associada ao favor de deuses e outras entidades sobrenaturais, atualmente essa crença assume uma roupagem pseudocientífica em livros como “O Segredo”.

De acordo com os gurus do “pensamento positivo” todos nós temos a capacidade de alterar a realidade em nosso benefício, sem precisar necessariamente agir sobre ela. Até gente que se diz cristã e que supostamente têm fé num Deus da graça que não exige sacrifícios de nenhuma natureza embarcam nessa espécie de fé na própria fé.

Um psicanalista contemporâneo de Freud chamado Sándor Ferenczi tem uma explicação muito interessante para essa história de “Mentaliza que dá certo.”. Segundo ele, todos nós já passamos por um estágio do desenvolvimento psíquico em que acreditávamos piamente que tínhamos a capacidade de modificar a realidade apenas com nossos pensamentos. Ferenczi chamou essa fase de “período dos pensamentos e palavras mágicas”. Tal estágio ocorre no momento em que estamos começando a aprender a falar. Trata-se de um momento epifânico para a criança, pois ela percebe que não precisa mais chorar ou gestos para ser atendido pelo ambiente em suas necessidades. Basta emitir determinados sons de uma determinada maneira. É mais econômico!

Por outro lado, ao mesmo tempo em que aprendemos a falar, vamos aprendendo também a pensar com palavras, de modo que ao experimentarmos uma determinada necessidade passamos a articular mentalmente as palavras ou “quase-palavras” que precisaremos emitir para sermos atendidos. No entanto, o ambiente, especialmente aquele composto por pessoas cuidadosas, acolhedoras e empáticas, raramente precisa esperar que o bebê fale ou balbucie para que suas necessidades sejam atendidas. O ambiente suficientemente bom, como diria Winnicott, meio que “adivinha” prontamente as necessidades do bebê. Conclusão: a criança inevitavelmente passa a acreditar que foram os seus pensamentos que levaram o ambiente a atendê-la. Ferenczi chamou essa crença de “ilusão de onipotência”.

Nesse sentido, a tese do “pensamento positivo” seria, portanto, a expressão coletiva (ainda que racionalizada ou com uma roupagem religiosa) de uma regressão a esse estágio do desenvolvimento psíquico. Como Ferenczi mostra no artigo “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios“, que está no volume II das suas Obras Completas, o desenvolvimento do bebê prossegue na direção do reconhecimento da realidade externa como uma dimensão autônoma em relação aos seus pensamentos. Em outras palavras, nós gradativamente vamos nos dando conta de que não basta “mentalizar” para que as coisas aconteçam. É necessário falar, agir e, não raro, resignar-se e ter paciência, pois nem sempre será possível alcançar o que desejamos.

Dependendo do ambiente no qual foram criadas, certas crianças demorarão mais ou menos para reconhecerem essa independência do mundo externo. Assim, aquelas pessoas que foram muito “mimadas” na infância, ou seja, que não precisaram se esforçar muito para terem suas necessidades atendidas e, portanto, tiveram mais resistência para abandonar a crença na força de seus pensamentos, podem se tornar excessivamente otimistas, indolentes e não terem muito discernimento acerca da quantidade de esforço necessário para alcançarem seus objetivos. Por outro lado, aquelas que foram educadas num ambiente excessivamente duro ou hostil podem desenvolver um pessimismo crônico e tornarem-se céticos, desconfiados e sem esperança em relação ao mundo e à sua própria potência. Ambos os casos caracterizam quadros de imaturidade emocional.

Mas voltando diretamente ao tema do “pensamento positivo”, podemos caracterizá-lo à luz da interpretação proposta por Ferenczi como uma recusa infantil à aceitação da realidade como autônoma e uma regressão à ilusão de onipotência própria do bebê. O recrudescimento dessa crença na atualidade pode ser atribuído, talvez, a uma dificuldade generalizada de lidar com uma realidade tão mutante e não raro caótica que caracteriza o mundo contemporâneo.

Antes de encerrar este artigo quero deixar claro que não estou advogando em favor de uma atitude pretensamente fria e objetiva diante da vida, até porque tal postura é impossível de ser adotada integralmente (a não ser por sociopatas, provavelmente). Parece-me óbvio que uma postura de confiança na nossa própria capacidade e de “torcida” por nós mesmos é saudável e, inclusive, nos ajuda a alcançar nossas metas. Afinal, é plausível supor que uma pessoa autoconfiante e que acredita verdadeiramente que é capaz de obter o emprego desejado terá muito mais probabilidade de ser aprovado num processo seletivo do que alguém que participa do mesmo processo com um medo enorme de não ser selecionado. No primeiro caso temos uma pessoa com BOM ÂNIMO e AUTOCONFIANÇA; não se trata de “pensamento positivo”. O indivíduo não está depositando sua fé numa suposta conspiração do universo a seu favor, mas sim em suas próprias competências.

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