Affectus #001 – Lidar com a ansiedade

Eis abaixo o primeiro episódio de “Affectus“, minha nova produção audiovisual voltada para a internet. Fazendo jus ao título do projeto (que é a tradução latina da palavra “afeto”) pretendo produzir em cada episódio uma reflexão sobre impasses e dificuldades emocionais vivenciadas pelos sujeitos na contemporaneidade. Como eu friso no primeiro vídeo, não se trata de nada semelhante à auto-ajuda. Pelo contrário, minha proposta é justamente a de evidenciar que não há uma fórmula mágica para a resolução de nenhum problema subjetivo e que em todos eles fatores irredutíveis ligados à condição humana se fazem presentes.

Ficaria muito feliz se vocês postassem reações ao vídeo nos comentários. Enjoy!

O que é resistência em Psicanálise?

Conservo na memória lembranças muito divertidas da minha época de estudante de Psicologia. Uma delas tem a ver precisamente com a noção que tentarei explicar neste texto.

Quando ficou claro para a maior parte de meus colegas que eu escolhera peremptoriamente a teoria psicanalítica como método de compreensão e intervenção nos fenômenos psicológicos, aqueles que haviam feito a opção por outras linhas de trabalho se alegravam de maneira sarcástica em me provocar com a sentença mordaz: “Isso deve ser resistência.”. Subliminarmente, objetivavam com isso dizer que o conceito de resistência era uma espécie de desculpa esfarrapada utilizada pelos analistas para se preservarem quanto à responsabilidade por seus fracassos terapêuticos. Em outras palavras, o argumento de meus colegas era o de que, por exemplo, todas as vezes que um paciente não quisesse continuar um processo analítico, o analista estaria isento de responsabilidade quanto a isso, pois a motivação para a evasão do paciente seria sua resistência ao tratamento. Como eu não tenho nenhum compromisso com a “preservação” da psicanálise – pois eu apenas utilizo o ensino de Freud e dos demais autores; não os cultuo – não procurava defender-me daqueles irônicos ataques. Pelo contrário, a ignorância ressentida de meus colegas me fazia dar boas gargalhadas. De fato, o que eles diziam não era totalmente falso. Muitos analistas se refugiam no conceito de resistência para se defenderem do reconhecimento das próprias falhas. No entanto, obviamente essa não é a regra. Na maioria das vezes, os analistas fazem uso apropriado do conceito que, como veremos abaixo, serve para caracterizar uma série de eventos em análise que manifesta um fenômeno paradoxal descoberto por Freud.

A resistência como parteira da psicanálise

Apesar de Lacan não ter considerado o conceito de resistência como fundamental – para ele, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise eram inconsciente, pulsão, transferência e repetição – Freud dizia que a condição teórica para que alguém pudesse ser reconhecido como psicanalista seria o reconhecimento, no tratamento, da existência dos fenômenos da transferência e da resistência. Por que o pai da psicanálise considerava o discernimento da resistência como elemento necessário para um tratamento genuinamente psicanalítico?

Porque foi o reconhecimento da resistência o pivô da transformação do método catártico em método psicanalítico. O leitor versado na história da psicanálise sabe que Freud utilizou dois métodos terapêuticos antes de inventar a psicanálise: a hipnose e a catarse. Em ambos, o princípio que guiava o trabalho do médico era o mesmo: fazer sair do paciente os venenos psíquicos que estavam na gênese de seus sintomas. Esse procedimento efetivamente funcionou durante algum tempo, mas logo Freud se apercebeu de que ele não era suficiente. Isso aconteceu por uma razão no mínimo paradoxal: os pacientes não queriam por seus venenos para fora!

O aparelho psíquico parecia funcionar de uma maneira distinta do corpo. Enquanto o organismo se esforça para expelir através de vômitos, diarréia e outros sintomas uma substância tóxica ingerida, o psiquismo parecia apresentar uma… resistência a livrar-se de seus conteúdos venenosos. Ao discernir essa curiosa característica do aparelho psíquico, Freud abandona a hipnose e o método catártico, pois percebe que não adiantava forçar a barra e tentar quebrar a resistência brutalmente. Era preciso criar um método capaz de compreender por que há resistência, de modo a “convencer” o aparelho psíquico a renunciar a ela. Nasce, assim, o método psicanalítico.

Por que há resistência?

Aplicando a psicanálise, Freud descobre de fato as razões pelas quais o aparelho psíquico resiste a lançar para fora seus conteúdos tóxicos. Trata-se da descoberta da divisão subjetiva. Diferentemente do organismo, o psiquismo não é uno, não é integral. Pelo contrário, é dividido, fragmentado, de modo que aquilo que em uma esfera psíquica é reconhecido como veneno, em outra é tido como uma saborosa sobremesa. Essa ambivalência e ambigüidade amiúde não são reconhecidas pelo sujeito, pois seus sintomas mantêm tudo numa homeostase doentia. Em outras palavras, o sujeito “conserva” sua inteireza psíquica à custa de sua doença. A ação do psicanalista vai na contramão desse processo. A análise vai levar o paciente à constatação de que seus sintomas são, na verdade, a manifestação patológica, doentia, sofrida de um desejo que não pôde ser reconhecido, que não pôde ser encarado de frente. Em suma, a análise vai levar ao paciente à compreensão de que ele não sabe nem a metade da missa que é; vai levá-lo ao reconhecimento de que é um ser ambíguo, ambivalente, dividido, radicalmente distinto daquele ser inteiro e consciente que acreditava ser. Nesse processo, o analisante vai descobrir coisas não muito agradáveis a respeito de si. Aliás, o próprio fato de constatar o desconhecimento em relação a si mesmo já é profundamente angustiante. A análise o levará ao reconhecimento de pulsões que jamais esperaria encontrar em si, de modo que ele será levado a admitir que os venenos psíquicos dos quais quer se livrar são, na verdade, preciosidades que guarda com muita satisfação…

Pois bem, ninguém se livra de preciosidades sem impor alguma resistência. E não importa se essas preciosidades matam. Todos os toxicômanos estão aí para testemunhar a veracidade dessa afirmação. O analista é aquele ser filho do desejo de Freud que quer trazer essas preciosidades venenosas à luz, tirá-las das caixinhas em que as guardamos. Mas nós não queremos a luz. Temos medo de reconhecer para nós mesmos que somos colecionadores dessas preciosidades. Temos medo do que nós podemos pensar sobre nós mesmos: “O que o meu ego dirá quando eu lhe mostrar essas preciosidades?” É por esse medo que as guardamos no sótão da alma.  É por esse medo que resistimos, medo de experimentar essa angústia de reconhecer que minhas preciosidades não serão reconhecidas como tais por todos os pedaços de mim que me habitam.

O que é princípio do prazer?

A maior parte das pessoas não envolvidas diretamente com a Psicanálise desconhece as verdadeiras razões que levaram Freud a se tornar um clínico e, em decorrência disso, o inventor de um novo método de tratamento das neuroses. Pouca gente sabe que o desejo original de Freud no âmbito profissional era o de tornar-se um pesquisador do campo neurológico e não um psicoterapeuta. O pai da Psicanálise só se encaminhou para a clínica por razões de ordem prática e, mais especificamente, financeira. Freud não era rico e precisava conseguir dinheiro para se casar com sua noiva Martha Bernays. Aliás, as dificuldades financeiras acompanhariam Freud e família ao longo de toda a sua vida, mesmo após o reconhecimento internacional de suas inovações teóricas.

Nicho de mercado

Naquele início de carreira profissional, a saída que Freud encontrou para conseguir dinheiro foi se dedicar ao tratamento de uma patologia que vinha sendo encontrada com frequência cada vez maior e para a qual ainda não havia sido encontrada uma técnica terapêutica eficaz. Tratava-se da histeria: uma afecção cujos sintomas mais comuns eram disfunções corporais como dores de cabeça, paralisias de membros, contraturas etc. para as quais não se encontrava nenhuma correspondência orgânica. Freud intuitivamente reconhece nesse campo patológico uma oportunidade de conseguir dinheiro para pagar as contas e se casar. E é justamente no processo de busca de um método capaz de curar a histeria que Freud elabora a psicanálise.

Entretanto, a intenção original de se tornar cientista jamais abandonará a Freud e é por essa razão que ele se dedicará a produzir toda uma obra cuja marca mais visível será a elaboração de uma teoria acerca da subjetividade. E um dos primeiros conceitos que Freud cunha para a construção de seu edifício teórico é a noção de “princípio do prazer”.

Entre a ciência e o sujeito

Falando de maneira clara: o princípio do prazer foi a primeira resposta que Freud encontrou para responder à pergunta que todos os psicólogos no final do século XIX se faziam, a saber: “Como a mente funciona?”. A fonte de onde Freud vai tirar sua solução será precisamente sua atuação clínica. E é preciso notar que o médico vienense estava sendo pioneiro ao fazer isso. Os demais psicólogos, como Fechner (que o influenciará) e o próprio Wundt, tido como o pai da psicologia científica, extraíam suas conclusões de achados laboratoriais, isto é, de experimentos controlados, artificiais, distantes da realidade trágica da vida. É por isso que a resposta dada por Fechner à questão do funcionamento mental será: “A mente possui uma tendência a se livrar de todas as excitações que lhe chegam pela via dos sentidos ou, sendo isso inviável, a manter o mínimo de excitação possível e constante.” Fechner deu o nome a essa resposta de “princípio de constância”.

Freud, atento à literatura científica da época, conhecia o princípio de constância. No entanto, o que o pai da psicanálise verificava no dia-a-dia clínico não era essa descrição fria de excitações que aparecem e são reduzidas ou descarregadas. O que ele via eram barulhentas crises histéricas no momento em que, sob estado hipnótico, tais pacientes eram conduzidas a um lembrança aflitiva; eram doentes contando sonhos nos quais era possível discernir um desejo sendo imaginariamente satisfeito uma vez que isso lhe era impossível na realidade; eram neuróticos obsessivos que inventavam mil e uma manias para se esquecer de pensamentos e desejos angustiantes. Ou seja, o que Freud de fato observava eram pessoas buscando evitar a todo custo o encontro com os remanescentes de experiências psicológicas dolorosas, que lhes causavam desprazer e, em compensação, buscando modos diretos e indiretos de experimentar prazer. O que Freud conclui a partir do contato com tais manifestações é justamente a sua resposta ao problema do funcionamento mental: “A mente funciona de modo a alcançar prazer e evitar o desprazer” – eis o princípio do prazer.

No entanto, Freud não poderia parar por aí. Se ele fosse apenas um clínico, a simples constatação desse princípio seria suficiente, pois seria mais uma ferramenta teórica útil para entender melhor seus pacientes. Mas o Freud cientista nunca deixa de se fazer presente no Freud clínico e é por isso que o médico vienense não se contentou em descrever o que se passava no divã. Era preciso harmonizar sua descoberta no âmbito terapêutico com o que já havia sido elaborado em termos de saber científico. É por isso que Freud estabelecerá uma equivalência entre o seu princípio do prazer e o princípio de constância de Fechner. Assim, se no último o psiquismo busca eliminar excitações e no primeiro alcançar prazer, logo a sensação de prazer é a experiência qualitativa de uma redução de excitações dentro do psiquismo, ou seja, prazer significa descarga de excitações. De maneira análoga, o desprazer equivaleria, portanto, ao aumento de excitação – reduzindo-se esse evitar-se-ia aquele.

É possível notar essas equivalências em acontecimentos simples como o ciclo de fome e saciedade. Quando estamos sentindo a altamente desprazerosa sensação de fome, no nível somático o que encontramos é um aumento progressivo de excitações provenientes do estômago. Ao nos alimentarmos, essas excitações vão sendo pouco a pouco reduzidas e concomitantemente sentimos uma sensação agradável, prazerosa. Com a experiência da sede ocorre o mesmo.

Para-além do princípio do prazer

O que gerará um incômodo problema teórico para Freud será a excitação sexual. No caso dela, o aumento de excitação proveniente do corpo não é acompanhado por uma sensação de desprazer. Pelo contrário: em algumas culturas orientais busca-se inclusive um prolongamento da excitação e um retardamento do orgasmo. Isso não invalidaria, portanto, a tese de que nosso psiquismo funciona a partir do princípio do prazer? Sim e não. Freud só resolverá o problema pela introdução de um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de nirvana, cuja primeira parte da explicação você encontra aqui.