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Tem muita coisa que a gente descobre fazendo análise.
E descobre no sentido mais literal da palavra: são coisas que estavam encobertas e a gente as des-cobre.
Descobrimos desejos, medos, fantasias e também… ideais.
Isso mesmo: fazendo análise a gente descobre imagens idealizadas que queremos encarnar.
A mulher abnegada, sem vaidade, completamente desinteressada, que está sempre se sacrificando pelos outros.
O homem 100% firme, seguro, dominante, pegador.
São apenas dois exemplos comuns. Nossos ideais podem ser os mais variados.
Há quem possua o ideal de ser uma pessoa absolutamente independente, que não precisa da ajuda de ninguém.
Fazendo análise, a gente não só descobre a existência dos ideais, mas também percebe o quanto influenciaram e continuam influenciando nossas vidas.
O ideal da mulher abnegada pode fazer você se sentir culpada por usufruir de benefícios que outros pessoas não têm.
Mais do que isso: pode fazer você se sabotar e evitar esses benefícios para não sentir a dor da culpa.
O ideal do homem pegador pode fazer você destruir um relacionamento de muitos anos por achar que ficar com uma única mulher é ser menos homem.
Mais do que isso: pode fazer com que você sequer consiga permanecer em um relacionamento por mais do que alguns meses.
Como se formam esses ideais?
Eles são respostas.
Respostas que nós construímos para uma pergunta que nossa condição humana nos obriga a fazer desde o início da vida:
Que pessoa eu devo ser?
Questão incômoda para a qual construímos respostas com a ajuda de nossos pais, da sociedade e da cultura, já que a natureza não nos presenteou com respostas inatas.
Por um lado isso é bom porque não somos obrigados a nos conformar a um destino genético que não poderíamos mudar.
Por outro, essa “liberdade” nos torna vulneráveis a construir ideais que podem ser fonte de muito sofrimento — como os exemplos que eu citei.
A boa notícia é que, fazendo análise, a gente não só descobre os ideais e percebe a força deles, mas também adquire a capacidade de criticá-los, contestá-los e, eventualmente… abandoná-los.
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Quero começar este texto falando de três situações que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, mas que, na verdade, estão estruturalmente conectadas:
(1) Sempre que eu abro a caixinha de perguntas do Instagram aparecem várias pessoas querendo saber como é SER uma histérica ou um obsessivo.
(2) Pululam na internet vídeos e mais vídeos que supostamente pretendem ajudar as pessoas a identificarem se elas têm TDAH ou até autismo.
(3) Nunca se falou tanto nas redes sociais sobre os tais quatro temperamentos — uma concepção de personalidade completamente especulativa proveniente da Antiguidade.
Estes três fenômenos ilustram o anseio humano por IDENTIDADE.
No fundo, grande parte das pessoas que querem saber se são histéricas, TDAH ou fleumáticas, por exemplo, está apenas desesperada por encontrar uma resposta apaziguadora à pergunta:
“Quem sou eu?”.
Na busca por resolvermos de modo definitivo essa nossa CARÊNCIA IDENTITÁRIA, podemos acabar nos alienando a certas identidades fixas e rígidas.
Penso, por exemplo, numa paciente que não consegue pedir ajuda a sua chefe, mesmo quando está enfrentando severas dificuldades no trabalho.
Essa moça sempre se percebeu e foi vista pelas pessoas à sua volta como alguém independente, que dá conta de resolver seus problemas sozinha, que não precisa do apoio de ninguém.
Pelo medo de perder essa identidade e ser confrontada novamente com a sua “falta-a-ser” (como dizia o psicanalista francês Jacques Lacan), a jovem se prejudica, mas não pede ajuda…
Lembro-me também de um idoso que acompanhei como estagiário em um ambulatório de lesões dermatológicas.
Aquele senhor tinha uma ferida que já estava em sua perna há tantos anos (décadas!) que ele era conhecido na vizinhança como o “Sr. Fulano da ferida”.
Era fácil entender porque ele não aderia ao tratamento oferecido no ambulatório e sua lesão sempre voltava a se abrir.
De fato, se ficasse curado, não perderia só a ferida, mas também a IMAGEM associada a ela — identidade pela qual era socialmente reconhecido.
Todo o mundo quer uma imagem egoica redondinha para chamar de sua.
O problema é que a gente pode acabar se tornando refém dela.
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Esse corte foi extraído da nossa última aula AO VIVO de segunda-feira na CONFRARIA ANALÍTICA.
Hoje, a partir das 20h, teremos mais um encontro.
Estamos estudando linha a linha o texto de Freud “Sobre o narcisismo: uma introdução”.
Te vejo lá!
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