Eis as duas fantasias que te fazem ser tão indeciso

Muitas pessoas possuem uma grande dificuldade em fazer escolhas, em tomar decisões, em optar por um caminho em meio a várias possibilidades.

De fato, dúvida e angústia são afetos que invariavelmente se fazem presentes antes de uma escolha. Não existe nenhuma fórmula comportamental capaz de evitá-los.

Em outras palavras, escolher, decidir, optar é sempre difícil.

Por outro lado, existem determinadas FANTASIAS que podem fazer com que qualquer simples decisão, como a escolha do pedido em um restaurante, se torne um ato ainda mais sofrido.

Trata-se, primeiramente, da fantasia de que existe sempre uma opção a priori CORRETA.

Essa crença faz com que a angústia envolvida no ato de decidir não se refira apenas às consequências da escolha, mas à sua ADEQUAÇÃO.

Quando nos perguntamos “Será que estou de fato fazendo a escolha certa?”, estamos pressupondo que, em algum lugar do mundo, deve existir uma espécie de “GABARITO DA VIDA”.

A segunda fantasia é a de que nós podemos encontrar em nós mesmos uma espécie de guru ou oráculo capaz de nos informar acerca de quais escolhas DEVERÍAMOS fazer.

Acredito que uma má interpretação popularesca da psicanálise tenha contribuído para construir essa fantasia na mente de muitas pessoas.

Ainda hoje há gente que acredita que, se fizerem psicanálise não mais experimentarão dúvidas a respeito de nenhuma escolha, pois já estarão conscientes do que de fato querem para suas vidas.

Fantasia! O inconsciente não é uma divindade a ser consultada e é até provável que alguém saia de uma análise com muito mais dúvidas do que quando entrou.

Nós não encontraremos respostas definitivas nem dentro e nem fora de nós.

Não há garantia alguma incrustada em nossas escolhas.

Estamos sempre decidindo a partir do risco e da imprevisibilidade.

E não há como ser diferente, a não ser que voluntariamente nos tornemos autômatos que apenas obedecem a comandos previamente determinados sabe-se lá por quem…

Com efeito, uma das características que nos diferenciam dos demais seres vivos é justamente essa capacidade (sim, capacidade!) de sentir angústia, de não saber de antemão o que escolher.

Envie este texto para todos os indecisos que você conhece. 😉


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Não somos só o que escolhemos. Somos quem podemos ser

Jean-Paul Sartre, filósofo francês, defendia a tese de que, no caso dos seres humanos, a existência precede a essência, ou seja, aquilo que cada pessoa é não seria uma expressão de uma suposta natureza intrínseca, mas o resultado condensado das escolhas que vem fazendo desde que nasceu.

Uma porta não é assim. Uma porta concreta é meramente a materialização de um projeto de porta que já existia antes dela na mente do fabricante.

No caso dos outros animais, também não vale a afirmação de que a existência precede a essência. Afinal, os bichos não fazem escolhas. Eles apenas reagem de forma mais ou menos padronizada às pressões do próprio corpo e do ambiente. Nesse sentido, um cachorro x é meramente uma expressão particular da espécie canina, cuja essência pode ser inferida por meio da observação de qualquer cão.

Quando consideramos o Homo sapiens, a história é outra. Dada a diversidade imensa de perfis humanos, não é possível extrair da observação de uma pessoa particular uma noção geral de natureza humana. Pense, por exemplo, nas diferenças abissais existentes entre indivíduos como Josef Stálin e São Francisco de Assis.

Portanto, Sartre está corretíssimo ao propor que, no caso do homem, a essência é um projeto que vai sendo permanentemente construído e reconstruído em função dos caminhos que cada pessoa toma ao longo da vida.

O que talvez tenha escapado a esse brilhante expoente do Existencialismo, é que as escolhas que fazemos não são integralmente livres. A descoberta freudiana do Inconsciente evidencia que as marcas que a vida deixa em nós se articulam de modo autônomo, desafiando nossa liberdade e condicionando nossas escolhas. Sim, a gente decide, seleciona, faz opções, somos responsáveis por elas, mas não necessariamente somos livres ao fazer isso.

De fato, não temos uma essência prévia, tal como a porta ou o cachorro, mas isso não significa que tenhamos autonomia absoluta sobre o destino de nossas vidas. O que nos tornaremos não é algo que já esteja pré-determinado desde antes do nascimento, mas também não é produto apenas de nossas escolhas voluntárias.

Como diria o poeta, somos quem podemos ser.


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