O que é Nome-do-Pai?

Toda vez que vou escrever uma explicação como essa, faço questão de frisar que todo conceito surge, ou melhor, é criado para dar conta de um determinado aspecto da experiência que não se pode compreender de forma imediata. Em termos mais simples, é preciso ter em mente que todo conceito é útil, funcional e se presta a resolver problemas, impasses e questões. Logo, para compreender adequadamente um conceito, é conveniente que nos façamos a seguinte pergunta: “Qual problema o autor tentou resolver ao criar esse conceito?”

Vamos direto ao ponto. Como a maioria de vocês deve saber, quem inventou o conceito de Nome-do-Pai foi um cara chamado Jacques Lacan, tido por muitos como o maior teórico da psicanálise depois de Freud, rivalizando, talvez, com Melanie Klein e Donald Winnicott.

Qual problema Lacan tentou resolver inventando essa ideia de Nome-do-Pai?

Respondo: o problema que pode ser expresso pela pergunta: “Como é que a gente consegue entender a realidade?”

Você já se fez essa pergunta?

Sim, porque não se trata de uma indagação banal ou mesmo irrelevante. Afinal, tem um bando de gente por aí que simplesmente não entende o que a gente chama de “realidade”. Gente que por conta disso resolveu criar uma realidade particular para si, a qual nós soberbamente denominamos de delírio. Tais pessoas são as que outrora chamávamos de loucos e que hoje recebem a alcunha de psicóticos, esquizofrênicos, paranoicos ou, numa nomenclatura mais politicamente correta, portadores de transtorno mental grave e persistente.

Sejamos elegantemente silogísticos: se essas pessoas não dão conta de entender a suposta realidade que os demais conseguem, logo, nós, os supostamente “entendedores” temos alguma coisa que nos permite entender, ao passo que eles não. Nós temos uma chave, um software, que ao ser colocado nessa imensa máquina chamada “mundo” nos permite navegar nas páginas da realidade! O psicótico, por sua vez, cria um sistema operacional próprio!

É essa chave, é esse software, que nos permitiria entender a realidade que Lacan chamou de Nome-do-Pai.

Calma, a explicação ainda não terminou. Até porque provavelmente (caso você seja um neófito na teoria psicanalítica) ainda não deve ter entendido muita coisa. Prossigamos.

Uma pergunta básica: como é, afinal de contas, que a gente entende alguma coisa?

Há uma série de explicações. Uma delas é a de que a gente entende, por exemplo, o significado de uma frase porque a gente sabe o que cada palavra significa. Aí a gente vai juntando o significado de cada um dos termos da frase e pronto: entendemo-la!

Lacan, que era um cara apaixonado por três livrinhos de Freud, a “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, “A Interpretação dos Sonhos” e “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, pensava diferente: pra ele, as palavras não tem um significado definido a priori. Por exemplo, a palavra casa na frase “Eu adoro ficar em casa” tem o significado de “morada”, “residência”, “lar” etc. Já na frase “No ano que vem, será que você se casa?”, a palavra casa tem o sentido de unir-se matrimonialmente a alguém. Os livrinhos do Freud dos quais Lacan gostava eram cheios de exemplos como esse. Portanto, para Lacan, o significado de uma determinada palavra não era fixo, mas dependia do contexto, isto é, das outras palavras que com ela estavam na frase.

Agora raciocine comigo: se os significados das palavras dependem das outras palavras que estão junto com ela dentro de uma sentença ou de uma frase, logo para que eu compreenda o significado de uma palavra da sentença eu tenho que saber TODAS as palavras que estão dentro dela, certo? E para que eu saiba quais são todas as palavras que estão na frase, eu preciso saber qual é a última palavra da frase, não é? Ou seja, aquela palavra que fecha a frase e que coloca limite a ela. Só assim eu vou poder saber onde a frase começa e onde ela termina e, em decorrência, quais são todas as palavras que nela estão. Só assim eu vou poder entender a frase!

Por exemplo, tomemos a seguinte frase: “Eu matei uma mulher.”. Você entendeu o significado dessa frase? Provavelmente sim. Entendeu que na frase eu digo que cometi um assassinato contra uma pessoa do sexo feminino. E você só conseguiu entender isso porque a palavra “mulher” é o último elemento da frase. Se a última palavra não fosse mulher, mas “susto”, como na frase “Eu matei uma mulher de susto.”, você entenderia outra coisa, completamente diferente, não é mesmo?

Vamos agora estender essa mesma lógica para o nosso problema inicial, que eu disse que foi o problema que Lacan tentou resolver com o conceito de Nome-do-Pai, a saber: “Como é que a gente entende a realidade?”.

Já vimos que a gente consegue entender uma frase quando a gente sabe qual é o último elemento dela, não é? E se a gente pensar isso que a gente chama de “realidade” como uma imensa e gigantesca frase?

Foi mais ou menos assim que Lacan pensou. Ele chamou essa frase colossal de “cadeia significante“. E de onde ele tirou isso?

Do fato de que a nossa vida está completamente imersa na linguagem.

Já parou para pensar nisso?

Pense, por exemplo, no fato de que antes mesmo de você nascer, seus pais e familiares já estavam falando sobre você nem que seja apenas para escolher seu nome, ou seja, como diz o apóstolo João: “No princípio era o Verbo”. Antes de você existir, já havia uma série de frases sendo ditas sobre você. Aí, depois que nasce, você cai de paraquedas num mundo em que tudo tem nome, desde essa sensação ruim que você sente no estômago e que você fica sabendo que é “fominha” até as partes do seu corpo: “olhinho”, “boquinha”, “piupiu”. Enfim, a gente nasce dentro de algo que parece uma frase enorme!

Agora vem a pergunta: já que nós nascemos dentro dessa imensa frase e vamos ter que viver o resto da vida nela, é preciso que a gente se vire para entendê-la, certo? E como é que a gente faz isso?

Ora, como a gente já viu, só é possível fazer isso, ou seja, entender essa grande frase chamada realidade, se apresentarem pra gente o último elemento dela, isto é, aquela “palavra” que está no fim dessa imensa frase (e que, em decorrência, estará virtualmente no fim de toda e qualquer frase) e que nos permite apreender o significado dela.

Lacan chamou a essa “última palavra” de Nome-do-Pai.

Você pode estar se perguntando: “Mas porque Lacan resolveu chamar essa última palavra logo de Nome-do-Pai. O que o pai tem a ver com isso?”.

Para respondermos a essa questão, será preciso nos reportarmos aos condicionamentos históricos da teoria psicanalítica. Embora tanto Freud quanto Lacan tenham pretendido formular hipóteses e conceitos de validade universal, isto é, que supostamente valeriam para todo e qualquer ser humano independentemente da época e do local em que tenham nascido, nós não podemos esconder o sol com a peneira! Devemos admitir que aquilo que Freud chamou de “complexo de Édipo” é um tipo de fantasia/conflito psicológico historicamente datado, tributário do tipo de organização familiar vigente em sua época e que não existiu desde sempre.

Quando Freud fala, por exemplo, que o complexo de Édipo é o núcleo das neuroses, ele está simplesmente descrevendo a organização psíquica que lhe aparecia com mais frequência no consultório. De fato, a raiz da grande maioria dos problemas emocionais dos pacientes de Freud e de todos os praticantes da psicanálise do final do século XIX e início do século XX estava em um conflito psíquico que misturava um intenso desejo incestuoso, uma culpa terrível derivada desse desejo e um ódio/temor igualmente forte da severidade monstruosa de uma figura paterna pouco afetuosa, distante e que encarnava a moralidade.

Quando Lacan vai fazer sua leitura do complexo de Édipo, o que ele tenta é de alguma forma extrair do Édipo freudiano aquilo que nele seria de ordem estrutural, ou seja, universal e invariável, que não precisaria ficar restrito à organização familiar. Todavia, nesse processo o que Lacan acaba fazendo é NATURALIZANDO o complexo de Édipo! Apoiado em Freud, Lacan fez com que a organização familiar moderna (pai, mãe e filhos, a “sagrada família”) passasse a servir de referência transcendental para toda e qualquer organização familiar de qualquer época. Em outras palavras, por mais diversificadas que fossem as organizações familiares, em todas elas se poderia encontrar uma estrutura básica triádica (pai, mãe e filho). É aí que surge essa história de que na psicanálise (leia-se lacaniana) o importante não é a mãe e o pai, mas a função materna e a função paterna.

Quando Lacan define aquele último elemento da imensa frase que é a realidade como sendo o Nome-do-Pai, o que ele está dizendo nas entrelinhas é que a nossa realidade, independentemente do período histórico, é e sempre será PATRIARCAL, ou seja, marcada por uma relação hierárquica em que os homens ocupam a linha de cima e as mulheres a de baixo e em que o masculino é o parâmetro definidor da subjetividade.

Para sustentar essa ideia, Lacan recorre ao complexo de castração freudiano, mais uma vez NATURALIZANDO a fantasia que ali se encontra, segundo a qual os homens teriam medo de perder o pênis e as mulheres desejariam possuí-lo. Nesse sentido, o que organizaria o que Lacan chama de “partilha dos sexos” seria a presença ou não de um símbolo derivado da anatomia masculina, isto é, o falo.

Assim, os homens teriam uma “palavra” ou um “símbolo” (o falo) capaz de representá-los na imensa frase da realidade ao passo que as mulheres não. É essa ideia que fundamenta a famosa frase de Lacan: “A Mulher não existe”. De fato, se a realidade é patriarcal, masculina, fálica, a mulher de fato não tem lugar nessa realidade.

O Nome-do-Pai, portanto, seria essa última palavra que, pondo fim à grande frase da realidade, permitiria entendê-la. Por “entendê-la”, leia-se interpretar a realidade segundo a lógica patriarcal e fálica. Lacan é explícito quanto a isso, ao fazer referência à “significação do falo”.

Passemos a uma última questão.

Na teoria lacaniana, como é que a gente teria acesso ao Nome-do-Pai? Como é que a gente se daria conta da existência dele?

Por intermédio da mãe. Para Lacan, como a mulher é um ser que não tem o falo embora o deseje ardentemente, ela tende a usar o filho como um objeto equivalente, ou seja, faz uso do bebê como um objeto de gozo.

Para Lacan (como também para Freud) TODAS as mães têm essa tendência doentia a gozar de seus filhos como consolo para sua falta de pênis, TODAS.

Nesse sentido, no início da vida, segundo Lacan, a mãe seria para o bebê a encarnação da sua realidade, já que ele passa quase todo o tempo com ela. O problema é que essa realidade seria, um inferno, pois ela seria constituída unicamente do desejo caprichoso, voraz e sem lei da mãe. Nesse contexto, o bebê ainda não seria capaz de entender a realidade, já que ainda não saberia o que move o desejo da mãe, o que ela busca, pois ainda não lhe teria sido apresentado o último elemento da frase.

Num segundo momento, o que salvaria o bebê desse estado terrível de submissão ao desejo absoluto da mãe seria o fato de que ele não seria capaz de encarnar definitivamente o falo, ou seja, de saciar completamente o desejo da mãe por um pênis. Em decorrência, aos poucos, a mãe iria deixando-o um pouco de lado e, ao mesmo tempo, mostrando que ela tem outros interesses.

É essa mudança no funcionamento da mãe que coloca em jogo e indica a existência do Nome-do-Pai e junto com ele a significação fálica. É a partir daí que começa a surgir para o sujeito a percepção do significado que tinha até então para a mãe. Aos poucos, ele iria se apercebendo que encarnava para ela esse objeto que o mundo todo desejo e que regula o funcionamento da realidade, a saber o falo.

A partir de então, a realidade que antes era caótica e sem lei, passa a poder ser entendida, pois agora a gente sabe qual é o último elemento da frase.

O que é falo? (parte 2)

05edwardNo último post apresentei algumas considerações que seriam explicadas em maiores detalhes subsequentemente. Neste post, apresentarei alguns pressupostos que permitirão esclarecer a primeira e a terceira teses: a de que o falo é apenas uma representação e que tal representação só existe porque os órgãos genitais de homens e mulheres são como são. Então, vejamos.

Quando Freud utiliza os termos “falo” e “fálico” ele tem em mente uma fase do desenvolvimento da libido. Libido é  o nome que Freud toma emprestado da literatura universal para descrever a energia que nos move na busca de um objeto de satisfação da nossa pulsão sexual (da mesma forma que a fome é a energia que nos move na busca de um objeto de saciedade).

Pois bem, quando a gente é ainda muito bebê, não procuramos a satisfação em um objeto do mundo (como hoje adultos fazemos ao buscar uma mulher, um homem, um cachorro ou um travesti). A gente se diverte sexualmente com o próprio corpo. É o que Freud chamou de autoerotismo.

Assim, primeiro nossa maior fonte de diversão é a mucosa da boca. Tanto é que as crianças usam chupeta ou chupam o próprio dedo, quando não têm o seio da mãe – não se enganem, o seio da mãe não é ainda, para a criança, um objeto externo. Ela sente o seio como se fosse uma parte dela. Essa é a chamada fase oral. Depois, a fonte principal de satisfação passa a ser o ânus (e a gente passa a se divertir retendo e soltando as próprias fezes), é a fase anal. Obviamente, essas fases não se sucedem assim, desse jeito bonitinho. Elas meio que ocorrem simultaneamente. É preciso sempre lembrar: a psicanálise não trabalha com o tempo do idiota, o tempo cronológico, mas com o tempo lógico.

Após essas duas fases, ocorre algo diferente. O mais importante para a criança agora não é a mais uma parte do corpo, mas uma idéia, uma representação. Explico: é que a libido, após ter se concentrado na boca e no ânus, se desloca, no caso do menino, para o pênis e, no caso da menina para essa parte tão misteriosa do corpo feminino chamdada clitóris. E é nesse momento que começam os problemas, especificamente humanos.

É que até então não havia diferença entre meninos e meninas. Ambos se satisfizeram com as mesmas partes do corpo: boca e ânus. Agora, eis que surge uma diferença que persistirá na cabeça de homens e mulheres para o resto da vida.

CONTINUA NO PRÓXIMO POST…

Sugestões de leitura:

41nF3j4hLCL._SX310_BO1,204,203,200_     513falUYOjL._SX333_BO1,204,203,200_     41Pgkx3h3HL._SX331_BO1,204,203,200_