O que é falo? (final)

muehlberg_01_aufdiemensurEncerramos o post anterior com uma afirmação que, após uma segunda leitura, julguei que poderia levar a um mal-entendido: a afirmação de que há dois tipos de seres humanos: os que têm o falo (os homens) e os que não têm o falo (as mulheres). Essa pode ser a fantasia de muitos homens mas, na verdade, ninguém tem o falo! E isso se deve ao fato de que uma das formas que temos de pensar o falo é tendo em mente a possibilidade de não tê-lo. Sim: é só se lembrar do menininho e da menininha. O menino morre de medo de ser castrado e a menina tem inveja do menino porque já nasceu castrada.

É por isso que o Lacan quando vai falar desse falo que figura na nossa imaginação ele utiliza a letra grega “fi” acompanhada de um sinal minúsculo: (-φ), ou seja, o falo é sempre algo “real” ou virtualmente faltoso (não se tem ou se pode perder).

Mas o leitor pode estar pensando: “Pô, mas se o que o menino sente é um medo de perder o pênis e a menina um desejo de ter um pênis, por que Freud não fala só de pênis em vez de usar o termo falo?” Porque, caro leitor, o pênis é só o ponto de partida dessa representação chamada falo. Sem pênis não haveria a idéia de falo, mas o falo NÃO é o pênis.

O falo, prestem atenção, é a representação simbólica do pênis. Ou seja, qualquer coisa que tenha para uma pessoa a mesma significação que o pênis para a criancinha no complexo de castração. E qual é essa significação? É só se lembrar dos posts anteriores: para a criança recém-confrontada com a visão do órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto.

A razão disso é o fato mais do que óbvio de que não gostamos de nos sentir incompletos, faltosos, isso gera angústia. É por isso que os homens geralmente gostam tanto de competições e se gabam tanto entre si de suas conquistas: desde ter conseguido pegar a garota mais bonita da escola até a compra de um carro novo. Tanto a garota quanto o carro funcionam na economia psíquica deles como falos. É preciso mostrá-los, como crianças disputando para ver quem tem o pênis maior.

Do lado das mulheres, o exemplo mais comum de falo é o filho. Já repararam na auto-suficiência de uma grávida? Já notaram o quão cuidadosas são a maioria das mães com seus filhos? Elas parecem estar cuidando de uma parte de seus próprios corpos. E na fantasia, os bebês são mesmo uma parte do corpo delas. Winnicott achava que nesse momento as mães viviam uma espécie de psicose necessária. Então, senhoras e senhores, para a mulher é como se com o filho ela estivesse tendo uma recompensa por ter nascido sem pênis.

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