“A interpretação é fundamentalmente isto: Eu te digo que você disse algo diferente do que pretendia dizer”. Jacques-Alain Miller

Certa vez eu sonhei com um lugar que tinha um formato de “L”.

Enquanto narrava esse sonho no divã e estimulado por algumas pontuações feitas pelo meu analista, me dei conta do fato óbvio de que “L” é a primeira letra do meu nome.

Por incrível que pareça, isso não tinha passado pela minha cabeça até aquele momento.

Impressionado com a IMAGEM insólita do lugar no sonho, não me atentei para o SIGNIFICANTE “L”.

E tem mais: constatei também que o termo “ele” (de letra “L”) é o mesmo que designa o pronome masculino da terceira pessoa do singular.

Esse pequeno fragmento de minha análise ilustra essa belíssima definição da interpretação psicanalítica feita pelo Miller.

Trata-se, é claro, de uma concepção lacaniana de interpretação, que se diferencia do modo freudiano de interpretar.

Eu diria que Freud propunha um método ALEGÓRICO de interpretação, baseado no esquema ISSO REPRESENTA AQUILO.

É o que vemos, por exemplo, na interpretação que ele faz do gesto de Dora de ficar enfiando e tirando o dedo de sua bolsinha porta-moedas.

Freud toma tal comportamento como uma alegoria do ato masturbatório.

Lacan, por sua vez, trabalhará com um método interpretativo diferente, que se vale da POLISSEMIA do significante, ou seja, do fato de que uma mesma palavra pode remeter a mais de um significado, dependendo do contexto.

O termo “ele”, por exemplo, pode tanto designar a letra “L” quanto se referir ao pronome masculino da terceira pessoa do singular.

Para Lacan, a interpretação analítica não deveria ter como propósito apontar o suposto significado verdadeiro daquilo que o sujeito diz.

Pelo contrário, ao interpretar, o analista deveria estimular o sujeito a se dar conta de que há outras possibilidades de leitura daquele mesmo texto que ele está apresentando.

Ou seja, ao invés de “fechar a questão”, fixando um determinado significado, a interpretação, para Lacan, deveria produzir justamente uma ABERTURA para novas significações.

E isso se torna possível quando o analista, ao invés de dizer para o paciente: “Isso que você diz significa aquilo”, opta por enunciar algo mais ou menos assim:

“O que você diz pode ser lido de uma forma diferente da que você pretende…”.


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As diferenças na forma como Freud e Lacan pensavam a interpretação em Psicanálise

A interpretação é uma das principais ferramentas de trabalho do psicanalista.

Por quê?

Porque a Psicanálise trabalha com o pressuposto de que o paciente expressa simbolicamente, ou seja, de forma codificada, os elementos inconscientes que estão na origem de seus problemas emocionais.

Logo, cabe ao analista interpretar aquilo que o paciente traz a fim de que esses elementos inconscientes sejam trazidos à luz e, assim, possam ser trabalhados.

Freud tinha uma concepção muito tradicional de interpretação.

Para ele, interpretar consistia basicamente em DEDUZIR e COMUNICAR ao paciente os elementos inconscientes a partir de uma observação minuciosa e cuidadosa de sua fala, de seus atos falhos, de seus sonhos e do comportamento dele na transferência.

Em outras palavras, para Freud, ao interpretar, o analista apresenta o comportamento do Inconsciente ao analisante como um detetive que, após a coleta e análise detalhada dos indícios e evidências, explica ao delegado de polícia como se deu um determinado crime.

É por isso que, nos grandes casos clínicos de Freud, vemos interpretações longuíssimas.

O “racional” freudiano é muito simples: o analista, como alguém que escuta de forma neutra e com atenção flutuante, está em condições de decifrar as manifestações do Inconsciente do analisante como um exegeta diante de um texto antigo.

Para Freud, portanto, o analista REVELA o Inconsciente por meio da interpretação.

O psicanalista francês Jacques Lacan pensava o ato analítico de interpretar de forma bem diferente.

Para ele, a interpretação não serve para revelar o Inconsciente, mas para COLOCÁ-LO EM MOVIMENTO.

Para Freud, essa era uma CONSEQUÊNCIA da boa interpretação, mas, para Lacan, trata-se do próprio OBJETIVO do ato de interpretar.

Nesse sentido, do ponto de vista lacaniano, o analista não deve fazer interpretações EXPLICATIVAS, mas PROVOCATIVAS.

Como assim, Lucas?

Quem está na Confraria Analítica vai saber! Ainda hoje, os assinantes vão receber uma aula especial sobre a interpretação na perspectiva de Lacan.

Te vejo lá!


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A abertura do paciente para a verdade requer tempo e preparação

“Coletamos o material para o nosso trabalho de uma variedade de fontes – do que nos é transmitido pelas informações que nos são dadas pelo paciente e por suas associações livres, do que ele nos mostra nas transferências, daquilo a que chegamos pela interpretação de seus sonhos e do que ele revela através de lapsos ou parapraxias. Todo esse material ajuda-nos a fazer construções acerca do que lhe aconteceu e foi esquecido, bem como sobre o que lhe está acontecendo no momento, sem que o compreenda. Nisso tudo, porém, nunca deixamos de fazer uma distinção rigorosa entre o nosso conhecimento e o conhecimento dele. Evitamos dizer-lhe imediatamente coisas que muitas vezes descobrimos num primeiro estágio, e evitamos dizer-lhe a totalidade do que achamos que descobrimos. Refletimos cuidadosamente a respeito de quando lhe comunicaremos o conhecimento de uma de nossas construções e esperamos pelo que nos pareça ser o momento apropriado – o que nem sempre é fácil de decidir. Via de regra, adiamos falar-lhe de uma construção ou explicação até que ele próprio tenha chegado tão perto dela que só reste um único passo a ser dado, embora esse passo seja, de fato, a síntese decisiva. Se procedemos doutra maneira e o esmagamos com nossas interpretações antes que esteja preparado para elas, nossa informação ou não produziria efeito algum ou, então, provocaria uma violenta irrupção da resistência que tornaria o avanço de nosso trabalho mais difícil ou poderia mesmo ameaçar interrompê-lo por completo.”
(Freud – Esboço de Psicanálise – 1938)


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[Vídeo] Interpretação em Psicanálise: o que é e como deve ser feita

Neste vídeo: entenda quais são os objetivos a serem atingidos com a interpretação e como ela deve ser formulada no tratamento psicanalítico.


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Interpretar, em Psicanálise, é trazer ao paciente notícias de um mundo em que ele está prestes a adentrar.

A interpretação é um dos diversos tipos de intervenção que o psicanalista pode fazer durante de uma sessão de análise.

Interpretar consiste em expressar aquilo que, com base em vários indícios, o analista deduz que esteja se passando inconscientemente com o paciente.

Uma interpretação adequada deve ser uma formulação mais próxima possível daquilo que efetivamente acontece no interior do analisando.

Podemos diferenciar dois objetivos que precisam ser alcançados por uma boa interpretação:

1 – Ela deve ajudar o paciente a integrar fantasias, desejos, impulsos etc. que vinham “rodando” em seu Inconsciente e se manifestando de forma distorcida pela via dos sintomas, sonhos e atos falhos.

2 – Ela deve servir como um sinal para o paciente de que o analista está “sintonizado” com ele, contribuindo para que o analisando se sinta acolhido pela escuta do terapeuta.

Portanto, a interpretação não serve só para trazer à luz aquilo que estava no Inconsciente, mas também (e fundamentalmente) para proporcionar ao paciente a experiência de se sentir cuidado e amparado pelo analista.

Quando é utilizada pelo terapeuta tão-somente como um meio de “jogar na cara” do paciente as verdades que supostamente estariam em seu inconsciente (e isso, infelizmente, acontece), a interpretação se torna traumática.

Por isso, como Freud recomenda, o analista só deve comunicar uma interpretação quando percebe que o paciente já está suficientemente próximo de alcançar por conta própria o conteúdo dela.

Quando o terapeuta tem essa sensibilidade, suas interpretações não são sentidas como “tapas na cara”, mas como expressões de atenção e cuidado.


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Sofrendo o suficiente para não sofrer o insuportável

Psychosis-Bangour-Village-Hospital-Mono-Print-Copy1Diferentemente do que pensam os leigos, o delírio apresentado por um indivíduo psicótico não é uma manifestação direta de sua doença, mas sim uma tentativa, digamos, capenga de se autocurar. Sim, um paranoico que acredita piamente estar sendo monitorado e perseguido pelo FBI não padece propriamente dessa ideia delirante. Ela o faz sofrer, evidentemente, mas, por outro lado, é justamente essa crença que o impede de provar um sofrimento ainda maior: aquele que está em jogo na experiência de desmoronamento da realidade que acomete o psicótico nos momentos iniciais da doença. O delírio é uma espécie de colagem de fragmentos psíquicos que foram, por alguma razão, espalhados. É como se a tendência espontânea de integração presente desde o início da vida impulsionasse o indivíduo a fazer um mosaico com os pedaços de si mesmo. O delírio é, portanto, uma terapêutica “natural” para a experiência de desintegração e de ausência de sentido presente na psicose.

É interessante notar que delirar, em certo sentido, não é uma prerrogativa apenas dos psicóticos. Se levarmos em conta a função eminentemente terapêutica do delírio de possibilitar uma saída diante do sem-sentido, podemos dizer com certa segurança, parafraseando Lacan, que todos deliram. A vida inevitavelmente nos oferece experiências que não podem ser processadas pelos nossos “esquemas cognitivos prévios” (expressão que usada livremente, isto é, fora da teoria piagetiana, possui o seu valor). A morte de uma pessoa querida, por exemplo, experimentada sem o apoio reconfortante das crenças religiosas, apavora muito mais por sua incompreensibilidade do que pela perda de quem se foi. Há quem diga que as religiões não passam de grandes delírios que nos servem de consolo para o sem-sentido da morte. De fato, a experiência de compreender aquele evento como um processo de desencarnação ou de adormecimento espiritual é, sem dúvida, menos sufocante do que lidar de forma imediata com ele.

Entre o delírio psicótico e as inevitáveis construções que fazemos diante de determinadas experiências a fim de enfrentá-las de modo menos doloroso, estão certas fantasias que, assim como os delírios, produzem um sofrimento suportável como “remédio” para um sofrimento insuportável. Algumas dessas fantasias são típicas, como a convicção jamais confirmada pela experiência que alguns pacientes têm de que seus pais possuem uma preferência ou predileção por seus irmãos. É óbvio que uma situação como essa pode se configurar efetivamente, mas, no caso dessas pessoas, não há nenhuma evidência de que ocorra. Quando se analisa a história do paciente, verifica-se com certa clareza que a fantasia de que se foi preterido pelos pais funcionou, na verdade, como uma tentativa desesperada de dar sentido a determinadas experiências que, à época em que aconteceram, não puderam ser compreendidas. Um exemplo simples: um indivíduo pode ter construído a fantasia de que não era amado pela mãe porque, quando criança, sua genitora precisou ser internada num hospital em função de uma doença grave e ninguém lhe explicara na ocasião o que de fato havia acontecido. Em outras palavras, a fim de lidar com a experiência bruta e intensamente angustiante da ausência inexplicável da mãe, a criança forjou sua própria explicação, a qual, embora dolorosa, lhe permitiu compreender o episódio.

Vemos na clínica que muitos pacientes experimentam um sofrimento intenso justamente por interpretarem os diversos eventos da existência a partir do seu “paradigma fantasmático”. Não percebem que o seu ponto de vista diante das situações é o ponto de vista que a fantasia lhe proporciona. Não percebem, ademais, que, de forma indireta e inconsciente acabam “produzindo” situações que justificam a fantasia, como um policial que “planta” evidências a fim de incriminar uma pessoa. Isso acontece porque a fantasia precisa se manter sólida a fim de evitar o retorno da experiência incompreensível e angustiante. Nesse sentido, o que se busca na psicoterapia é proporcionar as condições afetivas suficientemente boas para que o paciente possa se permitir experimentar novamente o incompreensível sentindo-se seguro para dar a ele um sentido novo, criativo e aberto à mudança.