Participe da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
O discurso dos pacientes em análise revela de modo cristalino que temos uma tendência a internalizar as experiências que vivenciamos, sobretudo na infância.
Internalizar significa trazer para o interior do psiquismo aquilo que acontece, num primeiro momento, do lado de fora, no mundo externo.
Muitos de nossos conflitos psíquicos, por exemplo, são apenas reproduções de relações conflituosas que tivemos com nossos pais na infância ou na adolescência.
Vejamos o caso de Samanta:
Quando criança, essa mulher se sentia travada e humilhada pela postura severa da mãe, alimentando fortes desejos vingativos contra a genitora.
Hoje, aos 40 anos, a paciente se vê presa a essa mesma situação emocional.
O detalhe é que a mãe faleceu há dez anos e Samanta já não morava com ela há muito tempo.
A paciente, entretanto, continua se sentindo travada e humilhada.
Não pela mãe, mas por si mesma, ou melhor, por uma parte de si mesma que se formou por meio da internalização da figura materna.
Em outras palavras, a mãe “de carne e osso” morreu, mas a mãe internalizada continua vivíssima.
Talvez você esteja se perguntando:
— Mas, Lucas, por que Samanta internalizaria uma pessoa que só lhe causava sofrimento. Masoquismo?
Não, caro leitor.
Podemos elencar, no mínimo, duas boas razões que justificam essa internalização:
Em primeiro lugar, a frequência da relação:
Buscando previsibilidade e segurança, nosso psiquismo tende a se adaptar a situações externas de sofrimento que se repetem.
A internalização é um dos mecanismos que facilitam esse esforço de adaptação.
É como se Samanta, quando criança, pensasse: “Se eu trouxer mamãe para dentro de mim, estarei mais preparada para lidar com ela do lado de fora.”
O segundo motivo é o desejo de eliminar a situação de sofrimento:
Samanta pode ter acreditado que, trazendo a mãe para dentro de si, ou seja, para uma esfera de suposto controle, conseguiria transformá-la numa pessoa menos severa.
A internalização mostra que nosso psiquismo é como uma esponja.
Portanto, para entender o que se passa em seu interior, precisamos necessariamente mapear o que aconteceu do lado de fora dele…
Participe da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.
Num trabalho de 1930 chamado “O tratamento psicanalítico do caráter”, o analista húngaro Sándor Ferenczi explica da seguinte maneira a origem do núcleo do superego:
“No início, o menininho resiste, quer aniquilar a potência paterna, essencialmente para apropriar-se da ternura e da afeição maternas. Mas quando compreende que numa luta aberta não levará vantagem, projeta em si a figura poderosa do pai; trata-se com o mesmo rigor com que outrora o pai o tratara; já não é mais porque tema o pai, mas porque uma parte de sua personalidade beneficia-se exercendo os privilégios paternos sobre a outra parte” (p. 247 do volume 4 das obras completas de Ferenczi)
Para-além da relação entre superego e complexo de Édipo, o que Ferenczi está nos ensinando aqui?
O autor está mostrando que uma forma que encontramos quando crianças de “resolver” um impasse relacional é reproduzindo o conflito no interior de nós mesmos. Diante da impossibilidade de “vencer” a disputa com o pai pelo amor da mãe, o menino introjeta a figura paterna e passa viver DENTRO DE SI exatamente o mesmo conflito que experimentava na relação com o genitor. Só que agora, o confronto não é mais entre o menininho e o pai, mas entre duas partes do próprio garoto.
Verificamos o tempo todo na clínica essa reprodução intrapsíquica de um conflito relacional infantil. Não raro, vemos, por exemplo, indivíduos que emulam dentro de si as constantes brigas entre seus pais.
Lembro-me de um rapaz que, diante dos embates frequentes entre seus genitores, desejava ardentemente que a mãe se separasse do pai a fim de colocar um ponto final naquela guerra interminável.
Como tal desfecho jamais aconteceu, esse paciente inconscientemente decidiu tentar realizá-lo dentro de si. A maior parte de sua personalidade era habitada pela imagem da mãe, mas regularmente a identificação com o pai aparecia, de tal modo que o rapaz revivia o conflito parental em sua própria identidade. Mãe e pai continuavam brigando, mas, agora, DENTRO DELE.
Você consegue enxergar processos semelhantes em sua vida?
Participe, por apenas R$39,99 por mês, da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda.