O que é Narcisismo?

O mito é um tipo de artifício humano criado com a finalidade de apresentar aquilo que se processa no Real em forma de imagens e símbolos. Que não se enganem os mestres do universo senso-comum ao suporem que o termo “narcisismo” significa “amar-se a si mesmo”. Uma das particularidades mais interessantes do mito de Narciso é o fato de que o personagem se apaixona por sua imagem refletida na água. Para melhor fundamentar nossa discussão subseqüente, melhor seria retificar nossa última asserção e dizer que a imagem não é refletida na água e, sim, pela água. Com isso queremos ressaltar a idéia de que a imagem de nós mesmos é sempre vinda do exterior. Todavia, não há dúvida de que o autor ou os autores do mito quiseram expressar a idéia do amor a si mesmo, ou melhor, a idéia de que aquele que ama a si mesmo acaba se afogando (como foi o caso de Narciso) em si mesmo.

O interessante é constatar que para construir um mito que denotasse o amor a si mesmo como algo que no fim das contas não acaba bem, só foi possível fazê-lo colocando no lugar das palavras “si mesmo” uma imagem do corpo de Narciso. A conclusão a que se chega é a de que só é possível amar a si mesmo amando uma imagem de si mesmo. Vejamos, então, qual é a natureza dessa imagem. Será que a reconhecemos de imediato, isto é, será que sabemos sem precisar aprender que aquela imagem que aparece no espelho somos nós mesmos?

Segundo o psicólogo Henri Wallon, não. Em seus experimentos, Wallon verificou que só a partir dos seis meses de idade é que nos reconhecemos na imagem do espelho. Ele chamou essa fase de estádio do espelho. Porém, vejamos: para que a criança veja a imagem de seu corpo no espelho e se reconheça nela, é preciso que tanto ela, criança, quanto a imagem sejam postas simultaneamente num mesmo lugar no pensamento. Esse lugar é a palavra “eu”. De vez que a criança não aprende a falar sozinha, é preciso que alguém diga a ela que ela e a imagem no espelho são a mesma pessoa, de modo que ela possa dizer no futuro: “Sou eu que estou lá [no espelho]”.

Tal situação coloca de imediato o homem em um estado de alienação no que concerne à sua identidade. Uma vez que o reconhecimento de si mesmo no espelho pressupõe um aprendizado, o qual se dá a partir de um atestado de garantia que é fornecido por um outro, a resposta à questão “Quem sou eu?” será dada por esse outro. E é nesse ponto que se encontra a justificativa da falta de sustentação do argumento segundo o qual o narcisismo denotaria um amor por si mesmo. Na medida em que minha identidade é-me fornecida pela boca de um outro, ao tentar “amar-me” não o estarei fazendo pois estarei amando ao outro, ou melhor, àquilo que o outro quer que eu seja.

No início da vida, do nascimento até um determinado momento da vida infantil, a distância entre o que verdadeiramente somos, isto é, a soma de nossos comportamentos, e aquilo que o outro (na maioria das vezes encarnado pelos pais) queria que fôssemos é praticamente nula. Os pais geralmente acham tudo o que a criança faz uma maravilha; ela adquire um estatuto de objeto que faz os pais se sentirem completos, em especial a mãe. Freud caracterizou a criança nessa fase como “sua majestade o bebê” e deu a esse período o nome de “narcisismo primário”. Gradativamente, os pais vão percebendo que o filho não é tudo aquilo que eles imaginavam; passam a ter outros interesses além da criança e essa também vai percebendo que perdeu terreno. Assim, a distância entre o que somos e o que outro queria que fôssemos só vai aumentando e no lugar daquele momento em que a criança era tudo para os pais surge o eu ideal, uma representação perfeita de si mesmo, a qual será uma das fontes do recalque, visto que serão reprimidos aqueles traços mnêmicos que forem incompatíveis com o eu ideal.