Escrevo

Escrevo para reciclar o lixo cuidadosamente depositado a cada encontro com um Homo Sapiens

Escrevo para impedir que eu me torne tóxico

A mim mesmo

Escrevo para fazer de um tropeço dádiva divina

E de um oráculo baba canina

Escrevo porque o sono mata a fome

Escrevo para sobreviver a uma leitura

Escrevo porque ninguém quer escutar

Escrevo para tornar um cravo um amante abandonado

Escrevo para me comunicar com minhas fezes, minha urina e meu esperma

Escrevo para ver se um dia encontro a palavra perfeita

Que fale de mim melhor que meu pai, minha mãe, meu analista

Escrevo esperando que uma tecla peça por misericórdia:

“Pare, por favor!”



Grito de anima

Onde estão os amores repletos de cobras

Que em meu peito jazem tortas e em vão procuro?

Que loucos amores têm ganhado?

A saudade de tempos que não existem

O crime nunca realizado

As desculpas pelo não-feito

O perdão moral

E todo o vendaval

De promessas escarnecidas

O som da voz inconsciente

O paladar é bem melhor quando se sente o beijo molhado

Sem gosto, só tato

Quem me dera ter todos os colares

De pérolas esquecidas

Em corpos nunca dantes navegados

Com sibilos e abraços apertados

Calma, ainda não é hora

O choro mata qualquer manobra

Eis que sou Deus, agora!

Redenção

Os dons de tua alma franciscana

Recolhia-as qual a soma dos dados

Sem saber que Javé só afana

Onde há pó de outros deuses cremados

 

Tuas sendas já não guiam meus pés

Verdugo, fiz perecer tua graça

Feito o povo que exaspera Moisés

Roubei-te o linho, te fiz linhaça

 

Mas tua ira fez-se eco em meu pensar

Da madeira dos ídolos adveio holocausto

E mesmo roto e maltrapilho advogo-lhe altar

 

Não como o Daquele que assenta na Terra os pés

Pois se no éter habitam espadaúdos

Só aqui adora-se a deusa que és