A faceta narcísica do ciúme

Tradicionalmente nos acostumamos a pensar o ciúme como sendo resultante do medo de perder o objeto amado.

Isso leva algumas pessoas a pensarem que o ciumento é tão-somente um ser que “ama demais” a ponto de não suportar a perspectiva de perder o parceiro ou a parceira.

Essa visão obscurece o aspecto eminentemente narcísico presente em toda manifestação de ciúme.

Com efeito, o que o ciumento verdadeiramente não suporta não é exatamente a ausência do objeto amado, mas sim o buraco aberto em sua autoimagem ao imaginar que seu parceiro ou parceira possam preferir outra pessoa, o que Freud chamava de “ferida narcísica”.

Em outras palavras, o ciúme é um sentimento que brota muito mais da relação entre o sujeito e seu ego do que da interação entre o sujeito e o outro.

Isso não significa que apenas seres com uma autoestima frágil estão propensos a sentirem ciúme; trata-se de um sentimento universal. De fato, todos nós temos a tendência de idealizar nosso papel nas relações amorosas, acreditando  que somos o objeto mágico que fará do outro um ser “completo” e eternamente satisfeito.

A realidade, contudo, nos informa que isso é apenas uma fantasia, ou seja, que, a despeito da nossa existência, o outro continua e continuará sendo “incompleto”!

Não raro, o ciúme é justamente a expressão de indignação do ego diante da constatação de que não é “tudo” para o outro.

Portanto, a pergunta que atormenta o ciumento é a seguinte: “Como assim não sou suficiente para fazer o outro feliz?”.

Além dessa faceta narcísica, há outros elementos mais especificamente neuróticos que podem ser encontrados nas manifestações de ciúme. Aqueles que estão na Confraria Analítica receberão ainda hoje (sexta) um vídeo em que comento esses outros elementos.

Você se considera uma pessoa ciumenta?


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[Vídeo] Amor incondicional é coisa de criança

Neste vídeo: conheça o psicanalista Michael Balint e entenda porque a expectativa de amor incondicional é sinal de imaturidade emocional.


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Amor incondicional é só o amor materno (nos primeiros meses de vida). E olhe lá…

Você já ouviu falar de um cara chamado Michael Balint?

Balint foi um médico e psicanalista húngaro, discípulo e também paciente do grande Sándor Ferenczi, teórico também húngaro e responsável por diversas contribuições conceituais e técnicas muito significativas para o campo psicanalítico. Outro dia eu falo dele. Hoje quero tratar de algumas das ideias de seu discípulo.

Com base em sua experiência clínica tanto como médico quanto como psicanalista, Balint formulou uma tese muito interessante: a de que no centro da alma de todos nós habita uma sede de sermos amados.

Diferentemente de Freud, Balint acreditava, com base em seu trabalho como terapeuta, que, em última instância, todos os nossos esforços na vida, sobretudo na relação com outras pessoas, não visam a satisfação de nossos impulsos, mas o alcance de um estado em que seríamos amados de forma plena.

De fato, para Balint, no início da vida é isso o que acontece com a maioria das crianças. O anseio espontâneo de serem amadas é satisfeito de modo incondicional pelo cuidado amoroso oferecido pela mãe. No entanto, esse estado de harmonia e felicidade, em que somos amados sem precisar fazer nada, tem prazo de validade. Em pouco tempo, passamos a ser objetos de um amor um pouco mais exigente, que demandará de nós aquilo que Balint chama de “trabalho da conquista”.

Com efeito, o amor do outro deixa ser algo 100% gratuito e incondicional e passa a depender também de um engajamento ativo da nossa parte. Essa é a forma adulta e amadurecida de amar. O amor do outro pode ser espontâneo, mas é também uma resposta ao meu amor por ele e vice-versa.

Em outras palavras: amor gratuito e incondicional é só o amor materno nos primeiros meses de vida. Passado esse primeiro momento, precisamos conquistar o amor do outro. Algumas pessoas, porém, sentem tanta saudade dessa etapa inicial da vida que acabam se colocando em suas relações amorosas como se ainda estivessem naquela época. Assim, esperam que o outro as ame sem que precisem dar nada em troca, sem que precisem fazer qualquer investimento afetivo.

Você já foi uma dessas pessoas ou já se relacionou com alguém que se encaixava nesse perfil?


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Não raro usamos nossos namoros e casamentos para tentar resolver questões que ficaram pendentes da relação infantil com nossos pais.

Relacionamentos amorosos de longo prazo oferecem o contexto de intimidade mais próximo daquele que vivenciamos na relação com nossos pais.

Essa é condição que favorece o possível uso de nossos namoros e casamentos como palcos nos quais representamos os dramas do passado que ficaram mal resolvidos.

Por exemplo: uma mulher pode ter convivido na infância com um pai carinhoso, mas que, na maioria das vezes, estava ausente. Por conta disso, a filha ficava constantemente num estado de expectativa e frustração. Na idade adulta, essa pessoa escolhe como parceiro amoroso justamente um homem que a faz se sentir da mesma forma que se sentia na relação com o pai: frustrada e à espera de migalhas de amor. Com efeito, o parceiro é extremamente afetuoso quando está com ela, mas esses momentos são raros, pois ele frequentemente “some” ou diz estar indisponível.

Você pode estar se perguntando: mas, Lucas, por que ela escolheu alguém que a faz reviver as frustrações da infância? O natural não seria buscar uma pessoa que fosse capaz de estar sempre presente, ao contrário do pai?

Não. Inconscientemente nós não conseguimos simplesmente deixar para lá nossas questões mal resolvidas da infância e “partir para outra”. A gente quer mudar o passado. A criança que fomos e que ainda vive inconscientemente em nós quer voltar no tempo e alterar o modo como as coisas aconteceram.

É por isso que a mulher do exemplo não se interessou por um cara que não lhe deixaria frustrada e ansiosa por sua presença. Para tentar alterar simbolicamente o passado, ela precisou encontrar um homem que tivesse os atributos necessários para encenar o papel de seu pai. Agora, estando ao lado de um cara carinhoso, mas que sempre frustra suas expectativas e a abandona, ela consegue reproduzir a situação infantil.

O que essa mulher busca no fim das contas? Converter o parceiro. Transformá-lo no pai com o qual ela sempre sonhou, mas nunca teve: um pai que se mantivesse carinhoso, mas fosse muito mais presente.

Em outras palavras, ela quer usar o presente para mudar o passado.

Você acredita que na sua relação amorosa atual ou em relacionamentos passados esse fenômeno aconteceu?


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[Vídeo] Recado Rápido #03 – Transferindo queixas

Neste terceiro recado rápido, falo sobre um fenômeno muito comum nos relacionamentos amorosos: a transferência para o(a) parceiro(a) de expectativas, demandas e necessidades que não foram satisfeitas na infância. Isso acontece porque a profundidade do vínculo que estabelecemos com a pessoa amada é tão grande quanto aquela que se faz presente na relação entre pais e filhos. Assim, a pessoa que está conosco acaba tornando-se a destinatária de queixas que originalmente foram dirigidas às figuras parentais.