[Vídeo] Entenda por que os psicanalistas ficam em silêncio

Neste vídeo você vai entender as razões técnicas que explicam por que a maioria dos analistas fica boa parte do tempo em silêncio durante as sessões.


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A gente faz Psicanálise para recuperar, com o apoio do analista, a segurança que precisamos para enxergar o avesso de nós mesmos.

Quem faz Psicanálise sabe que passar por esse processo muitas vezes não é fácil.

Somos convidados pelo analista a olhar para dimensões do nosso ser que não gostaríamos que existissem.

Aliás, a gente adoece justamente por passar a vida inteira querendo fugir dessas regiões incômodas do nosso mundo interior.

Na análise, somos levados a visitá-las e reconhecê-las como legitimamente nossas.

Essa viagem, como eu disse, não é fácil. E é por isso que precisamos fazê-la muito bem acompanhados.

O analista não é só quem nos incita a olhar para aquilo que não queremos enxergar.

Ele é também quem oferece a atmosfera de segurança e confiabilidade necessária para que a gente dê conta de lidar com nossos fantasmas.

Muita gente se esquece disso.

Percebo que há no “senso comum psi” uma imagem estereotipada do psicanalista como uma pessoa fria, irônica e que fica jogando supostas verdades na cara do paciente.

Embora alguns colegas talvez se encaixem nesse padrão, é preciso enfatizar que ele não tem nada a ver com o que de fato deve ser a postura de um analista.

Se o paciente resiste a enxergar certos aspectos de si, isso acontece justamente porque ele não se sente suficientemente seguro e relaxado para tal.

O apego narcísico ao eu ideal é justamente a tábua de salvação que utilizamos quando nos sentimos inseguros e vulneráveis diante do ambiente e dos nossos próprios desejos e fantasias.

O analista que compreende isso sabe que, portanto, sua tarefa não é só a de ajudar o paciente a encarar o recalcado.

Cabe ao analista ter sensibilidade suficiente para criar as condições emocionais que auxiliem o sujeito a adquirir a segurança necessária para encarar o recalcado.


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A associação livre não é livre

Associação livre é a expressão que a gente tradicionalmente usa em português para traduzir “Freie Einfälle”, o termo alemão empregado por Freud.

A própria tradução de “Einfälle” por “associação” ou “associações” já é problemática.

Com efeito, associar é um verbo que designa a ação de conectar voluntariamente uma coisa com outra, mas não é disso que se trata nas “Freie Einfälle”.

A tradução mais literal para Einfälle seria “ideias” ou “ocorrências mentais”, ou seja, não se trata de algo que EU faço (como associar), mas de algo que ME ACONTECE.

A expressão “associação livre” pode levar as pessoas a pensar que o paciente em análise é convocado a se esforçar para fazer conexões entre suas ideias.

Na verdade, é justamente o oposto: os analistas pedem aos pacientes que abandonem o ímpeto de controlar seus pensamentos e simplesmente descrevam o que lhes OCORRE.

Em outras palavras, a suposta associação que o paciente está fazendo não ocorre voluntariamente. A passagem de uma ideia para outra não é controlada por ele.

É por isso que eu digo que a associação livre não é livre.

De fato, quem goza de liberdade nesse caso é apenas o Inconsciente, que pode se manifestar de forma menos distorcida quando o paciente renuncia a controlar seus pensamentos.

O Eu, no entanto, aquele a quem o analista pede que fale o que vier à cabeça, é chamado justamente a abrir mão de sua liberdade (que é mais ilusória do que real).

Quando Freud estabelece as “Freie Einfälle” como técnica fundamental da Psicanálise, ele faz isso justamente por não acreditar na liberdade…

A tese de que podemos acessar o que o paciente esconde de si ao pedir que ele fale o que lhe vier à cabeça se fundamenta no pressuposto do determinismo psíquico.

De acordo com essa premissa, nosso funcionamento mental não acontece de modo aleatório.

Nesse sentido, se uma ideia, por mais irrelevante que pareça ser, ocorre em minha mente, essa ocorrência não se faz por acaso.

Na prática, fazer associação livre significa abrir mão da liberdade imaginária que nos impede de perceber que nossos pensamentos “já estavam escritos”…

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje (sexta) uma AULA ESPECIAL sobre o conceito de associação livre.


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Por que os psicanalistas ficam em silêncio?

Aqueles que criticam a Psicanálise como método psicoterapêutico sempre elegeram o silêncio do analista como um de seus alvos prediletos.

“Psicanalistas não dão feedback”, dizem eles. “Deixam o paciente falar, falar, enquanto apenas fazem cara de paisagem”.

Esse tipo de afirmação incorre na famosa falácia do espantalho: não é verdade que todo analista seja silencioso.

É conhecida, por exemplo, a tendência de alguns analistas kleinianos de formularem uma imensidão de interpretações a todo momento.

De fato, cada analista tem o seu estilo. Alguns são mais silenciosos, outros não. Não há uma regra que defina quanto silêncio o analista deva fazer durante as sessões.

Por outro lado, é importante salientar que, quando o analista faz silêncio, ele não está meramente deixando de falar.
Trata-se, na verdade, de uma TÉCNICA.

Sim! O silêncio é uma DECISÃO CLÍNICA tomada pelo analista, tão estrategicamente pensada quanto uma interpretação.

O analista faz silêncio, em primeiro lugar, para sinalizar ao paciente que uma análise não é uma conversa qualquer em que duas pessoas dialogam.

Na terapia psicanalítica, o paciente é convidado a SE ESCUTAR e não a bater papo. Ora, como o sujeito vai se escutar se o outro não para de falar?

Em segundo lugar, o silêncio do analista é necessário para que ele colha as informações necessárias para falar algo que MERECE SER FALADO.

Explico: numa conversa normal, nós falamos o que queremos dizer e não aquilo que o outro PRECISA ouvir.

Na análise é diferente. Como se trata de um TRATAMENTO, a fala do analista não pode ser sobre si e nem pode ser vazia, banal, irrelevante.

Quando o analista fala, é necessário que seu dizer verdadeiramente AFETE o paciente.

E isso só é possível se o analista falar algo que evoque ou reflita o que se passa com o analisando.

Não dá para falar alguma coisa dessa natureza sem ESCUTAR o paciente suficientemente bem.

Muitas vezes, o desejo compreensível que alguns pacientes nutrem de que seus analistas sejam mais falantes é da ordem da resistência.

Com efeito, ESCUTAR-SE não é uma tarefa nada fácil.

Há determinados sons interiores que gostaríamos que fossem abafados pela voz apaziguadora de nossos analistas…


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3 habilidades fundamentais que todo psicanalista precisa ter

Ninguém se torna psicanalista apenas estudando a teoria e atendendo pessoas.

Um requisito básico e essencial para quem deseja praticar a Psicanálise é passar pela experiência de ser paciente de outro analista durante um bom tempo.

Por isso, saliento que a participação assídua e aplicada na Confraria Analítica representa um EXCELENTE ponto de partida no caminho de quem deseja se tornar analista.

Todavia, a maior parte dessa jornada deve ser percorrida no divã.

É no divã que vamos ficando cada vez menos vulneráveis aos nossos “pontos cegos” que brotam do Inconsciente e comprometem a escuta e o acolhimento do outro.

E é também no divã que APRENDEMOS habilidades PRÁTICAS que são fundamentais para o exercício da Psicanálise.

Não se fala muito sobre isso no campo psicanalítico, mas é forçoso reconhecer que existe um rol de COMPETÊNCIAS que todo psicanalista precisa ter.

A gente pode até ler sobre elas (como está sendo o caso nessa postagem), estudá-las, mas só as incorporamos de fato quando temos a oportunidade de VIVENCIÁ-LAS na prática.

E isso acontece justamente quando passamos durante uns bons anos pela experiência de sermos pacientes de outro analista.

Nos cards você encontrará algumas dessas habilidades fundamentais.

Falarei mais detalhadamente sobre elas na aula especial de amanhã (sexta) que será recebida por quem faz parte da Confraria.

Dessas habilidades citadas, qual você considera que seja a mais difícil de desenvolver?


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Analistas, cuidado para não roubarem a cena!

No artigo “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, de 1912, Freud diz o seguinte:

“O médico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não mostrar-lhes nada, exceto o que lhe é mostrado.”

Muitas pessoas acreditam que, ao fazer essa recomendação, Freud estaria incentivando os psicanalistas a serem frios, distantes e indiferentes aos seus pacientes.

Quem pensa assim está equivocado.

Quando a gente olha para o contexto em que Freud fez essa advertência, fica muito claro que seu objetivo é alertar os analistas para um risco muito sério.

Que risco, Lucas?

Trata-se do perigo de transformar o tratamento psicanalítico numa troca de experiências entre dois amigos íntimos.

Freud observa que alguns colegas, na ânsia de se mostrarem solidários ao sofrimento de seus pacientes, ficam “tentados a colocar sua própria individualidade livremente no debate”.

Em outras palavras, o terapeuta começa a falar de seus próprios conflitos e dificuldades para mostrar ao paciente que ambos estão, digamos, “no mesmo barco”.

Vários pacientes já me relataram que foram atendidos por terapeutas que tinham esse hábito de ficarem “roubando a cena” nas sessões.

É para prevenir esse erro gravíssimo que Freud diz aos analistas para se comportarem como um espelho.

O foco do processo analítico é exclusivamente o paciente. A Psicanálise não é uma conversa de bar em que dois amigos compartilham seus problemas. Trata-se de um TRATAMENTO.

Isso não significa que o analista deva ser frio, distante e indiferente. Ele pode ser atencioso, acolhedor e simpático sem poluir as sessões de análise com suas próprias questões.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje (sexta) uma aula especial sobre o papel de espelho a ser desempenhado pelo analista.

E você: já foi atendido por algum terapeuta que ficava “roubando a cena” 😅?


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Como explicar a Psicanálise para o paciente que nunca fez terapia?

Uma pessoa me fez essa pergunta na caixinha dos stories do Instagram.

Como muitos seguidores consideraram a resposta relevante, decidi compartilhá-la aqui no feed também a fim de alcançar outras pessoas.

Para explicar o funcionamento da Psicanálise para um paciente que nunca fez terapia, creio ser apropriada a seguinte analogia:

“Imagine [você, analista, está falando com o paciente] que a terapia é uma longa viagem que nós dois faremos juntos de carro.

É uma viagem diferente, pois a gente não sabe exatamente onde vai chegar; o mais importante é a jornada que faremos juntos.

Quem irá dirigir o carro? Você. Sim, pode parecer estranho que seja você, o paciente, a guiar esse processo, mas, confie em mim: é melhor assim.

Bem, isso significa que eu, como terapeuta, estarei no banco do carona, certo? Mas, não se preocupe: eu não vou ficar dormindo (aqui pode entrar uma leve risada). Eu vou funcionar para você como uma espécie de copiloto.

Durante a viagem, a sua tarefa é bem simples: você só tem que guiar o carro para onde quiser e ir descrevendo para mim o que está vendo à frente e ao redor.

Não, não temos um mapa. Esta é a graça desta viagem. Não existe um trajeto planejado. É você quem decide para onde a gente vai.

E eu, o que farei? Como disse, eu serei meio que um copiloto. De vez em quando, eu vou pedir para você fazer a volta para a gente passar de novo por certos lugares e vou chamar sua atenção para certas coisas que passaram batido pelo seu olhar.

Confie em mim: enquanto a gente faz essa viagem, pouco a pouco esse sofrimento todo que te fez vir aqui vai passar.

Talvez, depois de um tempo, você queira estacionar o carro, mas é possível também que goste tanto da viagem que não queira mais parar de dirigir.”.

E aí, o que você achou da analogia? Você, analista, costuma utilizar outras comparações como essa com seus pacientes?


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[Vídeo] Associação livre: a regra fundamental da Psicanálise

Neste vídeo: entenda o que é a associação livre, no que ela se diferencia da fala cotidiana e por que Freud escolheu essa técnica.


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A essência da psicanálise

O que diferencia a psicanálise das demais formas de psicoterapia? Em que atributos reside a singularidade do método criado por Freud? Que características devem estar presentes para que um tratamento psicológico possa ser caracterizado efetivamente como psicanalítico?

Recentemente venho meditando tais questões. Não se trata de um mero exercício intelectual. A reflexão perpétua em torno dessas questões me parece relevante como forma de manter vivas na consciência do clínico as diretrizes essenciais da prática da psicanálise, as quais, amiúde, correm o risco de serem relativizadas. Neste texto, quero compartilhar com os leitores alguns apontamentos derivados dessas reflexões, sem a pretensão de esgotar o assunto.

Numa carta dirigida a Georg Groddeck, em 1917, Freud afirma que todo terapeuta que leve em conta a presença da resistência e da transferência no tratamento pode dizer que está de fato fazendo psicanálise. Para o médico vienense, portanto, a essência de seu método, aquilo que garantiria sua singularidade, seria a consideração da resistência e da transferência no processo terapêutico.

Em textos anteriores dediquei-me a explicar de maneira simples e clara ambos os conceitos. Todavia, a fim de demonstrar por que Freud os tomou como sendo a essência do método psicanalítico, dedicarei a eles mais algumas palavras.

Resistência

O que os psicanalistas chamam de resistência diz respeito àquilo que faz com que a psicanálise se diferencie de um procedimento meramente educativo. Com efeito, a educação tradicional pressupõe que a realização de uma tarefa por parte de um sujeito depende unicamente da posse, por parte desse sujeito, da capacidade para tal.

Embora essa ideia pareça estupidamente tautológica, a clínica psicanalítica mostra que não é bem assim. Afinal, o que mais encontramos em nossos divãs são pessoas que possuem plena capacidade para não fazerem aquilo lhes prejudica e que, ainda assim, ou seja, mesmo lhes fazendo mal, não conseguem deixar de fazer!

A educação, diante de alguém nessa situação, teria apenas duas opções de diagnóstico: ou a pessoa não possui de fato a capacidade para deixar de fazer o que lhe prejudica (ainda que diga que possua) ou, na verdade, não quer deixar de fazê-lo.

Freud descobriu uma terceira possibilidade de explicação, que resultou no conceito de resistência. Ele observou que o sujeito pode ter a capacidade e a vontade consciente de deixar de renunciar ao seu sintoma e ainda assim não conseguir abandoná-lo em função de determinados fatores inconscientes. São justamente esses fatores que Freud denominou de resistências.

Considerar a resistência nos permite entender porque o paciente frequentemente nos diz: “Eu gostaria de mudar, mas não consigo”. Se ele não consegue, não é porque de fato não queira, mas porque a mudança traria consigo uma série de consequências imaginárias e reais que o paciente ainda não é capaz de suportar.

Um exemplo banal nos ajuda a esclarecer essa ideia. Tomemos um paciente que afirme não ser capaz de dizer “não” às demandas de pessoas à sua volta nos momentos em que conscientemente gostaria de fazê-lo. Trata-se de uma dificuldade experimentada por muitas pessoas. O paciente afirma que deseja ardentemente ser capaz de dizer “não”, mas infelizmente não consegue. Observem: ele quer, tem boca e sabe falar, mas, por alguma razão, não consegue.

No decorrer da análise, poderemos verificar que esse paciente teme imaginariamente que ao dizer “não” para alguém, essa pessoa passará a não mais amá-lo ou a não lhe dar a atenção que costumava dar. Essa consequência, certamente possível, mas que em outras pessoas não produziria mais do que um leve mal-estar, para esse sujeito que não consegue dizer “não” poderia implicar num processo de desintegração psíquica! Para esse sujeito, o amor e olhar do outro podem ser tão doentiamente necessários que, sem eles, o sujeito teme não mais existir ou a viver num estado de angústia funesta. Poderemos também descobrir que esse temor está associado às experiências que o paciente vivenciou quando era bebê, nas quais o ambiente não o acolheu suficientemente bem, de modo que ele não foi capaz de se sentir existindo independentemente do olhar do outro.

O paciente, portanto, “resiste” à cura ou à melhora, isto é, não consegue dizer “não” porque esse sintoma é ainda um mal menor perto da situação emocional em que se encontraria caso não pudesse contar com ele.

Nesse sentido, se Freud diz que levar em conta a resistência é uma das marcas do tratamento psicanalítico isso significa que o psicanalista não é adepto do famoso adágio psicoterapêutico de quinta categoria que afirma: “Eu posso te ajudar, mas você tem que querer.”.

Para o psicanalista esse suposto “querer” que faria o paciente abandonar o sintoma não é fruto de um suposto livre-arbítrio ou da famosa “força de vontade”, mas resultado da relação do sujeito com o ambiente e, sobretudo, das marcas deixadas por essa relação no psiquismo. A resistência do paciente sinaliza a função defensiva do sintoma. Sem a doença, o sujeito fica indefeso e entregue à angústia. Por essa razão, ele resistirá até o momento em que a angústia não for mais um inimigo do qual é preciso se defender ou até o ponto em que se sentirá suficientemente seguro para enfrentá-la sem utilizar o sintoma como defesa.

Para que isso ocorra, é preciso que o clínico possa levar em conta o segundo conceito que Freud aponta como fazendo parte da essência do método psicanalítico: a transferência.

Transferência

Considerar a transferência como o eixo do tratamento significa apostar no potencial que a relação entre terapeuta e paciente tem de servir como um novo começo para o doente. Significa entender que o sujeito não vem ao psicanalista para falar sobre sua doença, mas para manifestar essa doença diretamente na relação com o terapeuta. É essa a realidade espantosa que Freud observou desde seus primeiros tratamentos de pacientes histéricas!

Chama-se “transferência” porque de fato o paciente transfere sua doença para o setting terapêutico, fazendo com que o problema possa ser abordado ao vivo e a cores e a transformação do paciente possa acontecer de maneira direta e imediata.

Voltemos a nosso exemplo. Se o paciente não consegue dizer “não” às pessoas que compõem o seu círculo de relacionamentos, da mesma forma, na medida em que o analista passa a ser uma dessas pessoas, ele também não conseguirá dizer “não” ao analista. Em decorrência, essa dificuldade poderá ser tratada in loco. A primeira pessoa a quem ele poderá dizer “não” sem medo de deixar de existir será o analista que, diferentemente do ambiente inicial no qual o sujeito se constituiu, será capaz de suportar esse “não”, mantendo o acolhimento intacto.

Transferência, portanto, não significa que o analista é uma tela em branco, onde o paciente irá projetar todas as suas fantasias. Trata-se de um laboratório da vida, onde misturas podem ser feitas, substâncias podem ser decompostas sem medo. A transferência testemunha a esperança do paciente de que o destinatário da mensagem veiculada por sua doença – destinatário que, no tratamento, passa a ser o analista – possa dar uma resposta diferente daquelas que o paciente já conhece e que só contribuem para a manutenção do adoecimento.

A consideração da transferência é, portanto, uma das marcas da psicanálise porque, diferentemente de outros tipos de psicoterapia, o método psicanalítico sustenta que a relação entre analista e analisando é o espaço onde a doença se manifesta e onde ela será compreendida e tratada e não apenas um lugar onde se falará acerca dela.

Concluindo

Pode-se dizer que, a despeito da diversidade de orientações teóricas na psicanálise, o elemento que jamais poderá estar ausente de um tratamento que se denomine psicanalítico é a consideração da resistência e da transferência. Ao levar em conta a resistência, o psicanalista reconhece que todo sintoma funciona como uma defesa para o sujeito e que, por conta disso, é difícil para o paciente abandonar sua doença, de modo que, em matéria de psicopatologia, o jargão “É preciso querer” é absolutamente falso. Outrossim, levando em consideração a transferência, o analista sabe que o abandono do sintoma só se faz quando ele deixa de ser necessário como defesa e isso só acontece quando o paciente experimenta um ambiente suficientemente seguro. Esse ambiente deverá ser encontrado na relação com o analista, evidenciando que na psicanálise a doença é abordada de forma direta, na medida em que se manifesta com todas as suas características no interior da relação terapêutica.

O psicanalista deve fazer anotações durante as sessões?

Todos os iniciantes na prática da psicanálise possuem uma série de dúvidas de ordem prática e operacional que geralmente não são sanadas nos cursos de formação. Uma das perguntas mais frequentes de quem está começando a atender pacientes diz respeito à realização ou não de notas durantes as sessões.

Não se trata de uma indagação para a qual se tenha uma resposta óbvia. Afinal, muitas informações que se encontram no discurso do paciente precisam ser registradas, pois podem ser úteis na construção de um relato clínico ou mesmo para a própria compreensão mais clara da história clínica do paciente. Em certos casos clínicos de Freud é possível verificar, por exemplo, o quanto certos dados cronológicos foram extremamente relevantes para o entendimento da doença do paciente.

Vemos, portanto, que os registros escritos são de fato muito importantes tanto para a elaboração de um relato do caso quanto para a própria condução do tratamento. Por outro lado, sabemos também que nem todos os analistas são dotados de uma alta capacidade de memorização e, além disso, as próprias questões inconscientes do analista podem acabar influenciando suas lembranças relativas às sessões. Isso coloca em xeque as anotações que são feitas após o encerramento da sessão, já que o analista pode simplesmente não se lembrar das informações de que precisa.

Dada essa dificuldade, o que fazer? Anotar durante as sessões?

Quando anotar?

Num texto de 1912, chamado “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, Freud nos dá algumas dicas de como solucionar esse problema. Vejamos o que o pai da psicanálise diz:

1. NÃO SE DEVE ANOTAR TUDO O QUE O PACIENTE DIZ.

Lembre-se: você é um psicanalista e não um estenógrafo! Não dá para tratar um paciente e escrever ao mesmo tempo. Ninguém consegue realizar duas atividades ao mesmo tempo. Logo, se você está preocupado em anotar tudo o que o paciente diz, sua tarefa de fazer a análise acontecer será deixada de lado. Além disso, a grande maioria dos pacientes se sente desconfortável, intimidada e, frequentemente, percebe que você deixou de lado a análise e está focado apenas em anotar o que fala. Outra razão pela qual você não deve anotar integralmente o que o paciente diz é que a anotação exige um tipo de concentração que é inteiramente contrária à atitude que um analista deve adotar durante a sessão. Essa atitude, que Freud chamou de “atenção flutuante” deve permitir ao analista se deixar levar pela associação-livre do paciente e captar os momentos propícios a uma pontuação ou interpretação. Portanto, se você está preocupado em anotar o que paciente diz, sua atenção ficará presa apenas ao discurso em si do paciente e não estará livre para perceber as incoerências, lapsos, atos-falhos e outras eventualidades que não devem jamais passar despercebidas.

2. FAÇA APENAS ANOTAÇÕES EVENTUAIS

Datas são informações que, pela reduzida possibilidade de associação consciente, tendem a ser facilmente esquecidas. Por outro lado, são altamente relevantes para a compreensão do caso, pois muitas vezes são significantes que estão intimamente associados a eventos cruciais da história do paciente. Logo, talvez seja interessante ter um caderninho de notas por perto para poder anotar alguns delas.

Determinados sonhos e eventos da história clínica fornecem uma espécie de “radiografia” tão precisa da situação do paciente ou de uma fantasia inconsciente que, caso não sejam registrados, correm o risco de serem perdidos como informação para a confecção de um relato clínico. Nas ocasiões em que tais elementos aparecerem, anotá-los pode ser indicado, afinal o valor a longo prazo da informação compensará os poucos minutos de intervalo da atenção flutuante.

Conclusão

Não, não é recomendável que o psicanalista faça anotações regulares durante as sessões. Não se engane: se em reuniões e outros compromissos profissionais fazer anotações pode ser vista como uma atitude que indica profissionalismo e seriedade, na análise esse comportamento apenas provocará irritação e incômodo no paciente e tirará sua atenção dos reais objetivos do tratamento. Todavia, deixe sempre o bloquinho por perto. Datas relevantes, sonhos e outros eventos importantes podem ser exceções à regra.