Psicanálise não é uma conversa. É muito melhor do que isso.

Muita gente acredita que a Psicanálise é um tipo de conversa. Isso é um equívoco.

A conversa é basicamente uma troca de ideias. Quando conversamos, estamos interessados em verbalizar o que pensamos e também em ouvir o que o outro pensa. O interlocutor, por sua vez, faz a mesma coisa.

Ora, não é isso o que acontece numa Psicanálise.

De fato, numa sessão analítica, o paciente fala e deseja ouvir o que o seu analista tem a dizer. Aliás, esse interesse pela palavra do terapeuta é um dos sinais do que nós chamamos de transferência, ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento.

No entanto, ao contrário do que acontece numa conversa, o analista frustra a demanda do paciente de saber quais são suas ideias. Com efeito, numa Psicanálise, o terapeuta não fala o que pensa, mas tenta colocar em palavras aquilo que está nas entrelinhas do discurso do paciente. Em outras palavras, o psicanalista entrega ao analisante aquilo que está implícito em sua própria fala.

É por isso que fazer análise é uma experiência simultaneamente incômoda e aliviadora.

É desconfortável porque frustra o nosso desejo infantil de termos um guru a nos guiar pela vida dizendo o que devemos fazer e como devemos ser.

Todavia, é uma experiência também reconfortante porque nos oferece a possibilidade de sermos verdadeiramente escutados em nossa singularidade, o que raramente ocorre numa conversa, na qual que o interlocutor, amiúde, ao invés de nos escutar atentamente, está mais preocupado com o que irá dizer quando nos calarmos.


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Para que sua alma está predisposta?

Se você não costuma praticar atividades físicas, é muito provável que tenha dificuldades para manter o fôlego ao subir alguns lances de escada. Por outro lado, quem faz atividades aeróbicas frequentes não se sentirá tão extenuado.

Estou chamando sua atenção para essas obviedades a fim de destacar o fato de que os processos pelos quais nosso corpo passa ao longo do tempo o tornam mais ou menos predisposto a certas atividades. Quem pratica corrida três vezes por semana, por exemplo, está muito mais preparado para fugir de um assaltante do que uma pessoa sedentária.

Da mesma forma, nossa alma também apresenta predisposições advindas de nossa história. Por exemplo, há pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis em situações novas porque, no passado, foram forçadas a se adaptar de modo abrupto a um contexto diferente. A alma delas tornou-se, por conta dessa experiência, predisposta a encarar a novidade como uma ameaça. Assim, sempre que podem, fogem do desconhecido e procuram estar sempre preparadas a fim de evitar absolutamente qualquer imprevisto.

Há também aqueles indivíduos que não suportam situações de conflito. Alguns deles, além da ansiedade intensa, experimentam até sensações físicas apavorantes quando expostos a contendas e embates. A experiência clínica me autoriza a dizer que em praticamente todos os casos desse tipo verifica-se uma história marcada pela exposição precoce a conflitos familiares, geralmente entre os pais. Dito de outro modo, pessoas que evitam conflito possuem uma alma que se tornou predisposta a temer todo e qualquer confronto porque lá atrás, quando eram crianças, se sentiram extremamente ameaçadas pelo impacto dos conflitos familiares.

A terapia psicanalítica nos ajuda a identificar essas predisposições e a gênese de cada uma delas. Afinal, esse é um requisito necessário para que se possa ajudar a alma a perdê-las e a adquirir tendências e inclinações mais favoráveis à vida.

Psicanálise não é autoconhecimento

Muitas pessoas dizem que fazem Psicanálise não só para se livrarem de certos sintomas, mas também pelo desejo de se conhecerem.

Entretanto, a Psicanálise não serve a essa segunda finalidade pela simples razão de que não se pode conhecer aquilo que já se sabe.

Como assim, Lucas? Explico: ao contrário do que muita gente imagina, nós não somos desconhecidos para nós mesmos. Pelo contrário: sabemos exatamente o que se encontra presente em cada pedaço de nossas almas.

O problema é que a gente deliberadamente se esquece de algumas dessas coisas. Sabe quando você tem certeza de que sabe a resposta de uma pergunta da prova, mas não consegue se lembrar dela? Então, com as coisas da alma acontece o mesmo. A diferença é que o esquecimento da resposta da prova não é proposital (pelo menos, aparentemente, não…).

Repito: nós conhecemos tudo o que se passa em nosso interior. Contudo, por medo, vergonha ou culpa, preferimos fingir que alguns dos elementos que nos habitam não existem. Isso faz com que nos tornemos estrangeiros para nós mesmos.  Não por falta de conhecimento, mas pela resistência a nos… RECONHECERMOS.

Sim, as pessoas não adoecem porque não se conhecem, mas por que não RECONHECEM certas partes de si mesmas. Nesse sentido, o que a Psicanálise promove não é autoconhecimento, mas AUTORECONHECIMENTO.

O que acontece numa terapia analítica é semelhante ao processo de aprendizagem na concepção de Platão. Para o filósofo grego, quando aprendemos uma verdade, isso significa tão-somente que estamos nos lembrando dela, pois já a conhecíamos de nossa estada prévia no mundo inteligível.

Analogamente, na Psicanálise, quando o sujeito obtém, por exemplo, um insight e se dá conta das motivações de um sintoma ou de um traço de personalidade, o que está acontecendo é um processo de RECONHECIMENTO de uma verdade que já estava ali presente, impedida de se manifestar em função das resistências internas.

A gente faz Psicanálise para transformar cicatrizes em tatuagens

 

Não é possível mudar o passado.

Não é possível voltar no tempo e fazer com que seus pais frios e distantes se tornem acolhedores e amorosos. Não dá para voltar há 20, 30, 40 anos e impedir aquele abuso sexual de acontecer ou convencer sua mãe de que violência e autoritarismo não combinam com educação.

Enfim, nos é vedada a possibilidade de alterar os fatos que atravessaram nossa existência.

Contudo, podemos, sim, mudar a maneira como os enxergamos. Não, eu não estou me referindo a essas bobagens polianescas que muitos pseudoterapeutas andam dizendo por aí. O que eu, como psicanalista, proponho não é uma mera ressignificação do passado, o tal do “enxergar o lado bom das coisas”. Não existe lado bom no abuso sexual, na opressão, na frieza, na violência. Não! Na vida, diferentemente do que acontece no Instagram, não existe filtro para fazer tudo ficar artificialmente belo.

A gente não faz Psicanálise para “olhar a vida de outra forma”. A gente faz Psicanálise para se APROPRIAR da vida tal como ela é e foi (aos nossos olhos): com suas dores, com seus abusos, com seus sofrimentos.

A tendência natural que todos nós temos é a de querermos nos livrar das memórias das dores que nos marcaram.  Ou seja, não queremos TOMAR POSSE da nossa própria história. Desejamos inutilmente voltar no tempo para mudar as coisas. E, por isso, muitos de nós vivem cronicamente frustrados.

A Psicanálise vai na contramão dessa tendência. Convocamos o paciente a resistir a ela e o exortamos a olhar para o próprio passado e dizer: “Isso sou eu, essa é a minha história. Apesar de não ter escrito todas as páginas, permaneço sendo o único autor dessa obra irrepetível que é a minha existência”.