Como você lida com o seu passado? (final)

Vimos no post anterior que, de acordo com Vattimo, Nietzsche põe em oposição dois modos de se lidar com a história. O primeiro, que ele denomina “doença histórica” é a forma tradicional com a qual a cultura ocidental sempre encarou o passado, qual seja, como um emaranhado de eventos que devem ser conhecidos objetivamente sendo possível, para algumas cabeças pensantes (como Hegel, por exemplo) encontrar nessa concatenação de acontecimentos um sentido, isto é, um devir que se processa tendo em vista um objetivo final. A esse modo “doentio” de pensar a história, Nietzsche apresenta sua própria perspectiva, a qual não concebe a história nem como uma “verdade factual” que gradualmente descobrimos nem como uma fábula com final feliz. A história, para Nietzsche, é puro devir e os acontecimentos que se processam nesse devir alimentos que podemos recusar ou nos apropriar deles tendo em vista o quanto eles favorecem a nossa capacidade de agir e criar a qual é justamente aquilo que resiste à “hitoricização”.

Um passado traumático

O exercício da reflexão me leva a pensar que o processo de desenvolvimento da Psicanálise enquanto método de tratamento das neuroses experimentou dois momentos que podem dispostos analogamente aos dois modos de se pensar a história propostos por Nietzsche. Ainda que você, leitor, seja apenas superficialmente versado na teoria psicanalítica, provavelmente deve saber que antes de inventar a Psicanálise com a ajuda de suas brilhantes professoras histéricas, Freud utilizava a hipnose como técnica de tratamento. Ora, em que consiste o procedimento hipnótico? Supõe-se que para que o paciente seja curado de seus sintomas atuais ele precisa ser levado a reencontrar-se com as lembranças reais de seu passado relativas a eventos que foram a causa dos sintomas. Ao recordar o que o levou a produzi-los, o paciente poderia retroativamente reagir de maneira distinta aos eventos em questão e abdicar dos sintomas. Com efeito, esses haviam surgido porque o paciente havia reagido inadequadamente àqueles acontecimentos.

O encontro de Freud com o não-histórico

Por que Freud desistiu da hipnose e deu um jeito de inventar a Psicanálise? Porque ele foi se dando conta que freqüentemente a técnica hipnótica fracassava e isso porque parecia haver um fator que dificultava o acesso às lembranças, um elemento que impunha uma resistência ao trabalho terapêutico. Logo, a estratégia de invadir o território inimigo à força bruta com o auxílio da redução do limiar de consciência precisava ser revista, pois fortes muralhas se formavam no meio do caminho. Era preciso elaborar uma estratégia que contemplasse essas muralhas. Nasce, então, a Psicanálise como um método que vai buscar justamente compreender isso que bloqueia o acesso do sujeito à sua própria história.

E, pasmem, isso que o bloqueia é a própria vida! Não é a pulsão de morte, como muitos pensam. O ser não quer morrer. Pelo contrário, quer criar, se expandir, agir e só se torna apático, retraído e doente quando essa é a única forma de se defender daquilo que “aprendeu” a encarar como um perigo maior. A resistência, portanto, é a manifestação da vida em nós que resiste contra aquilo que considera um mal maior do que a dor do sintoma. Nesse sentido, quando Freud se depara com o fenômeno da resistência o que ele encontra é precisamente o que Nietzsche define como vida, isto é, como impulso para a criatividade e a ação. Parece contraditório, pois nos acostumamos a pensar a resistência apenas como um fator que dificulta o trabalho de análise. Mas quero chamar sua atenção para o fato de que ela só é um obstáculo para o alcance daquilo que para o sujeito é um mal maior.

A “doença histórica” na Psicanálise

Assim, poderíamos ver a fase pré-psicanalítica de Freud, com o uso da hipnose, como sendo o predomínio da “doença histórica” nietzschiana. Nesse momento o que se busca é a verdade dos fatos, escondida nos porões mentais das histéricas. Pergunta-se ao paciente quando começaram seus sintomas, quem estava lá, o que aconteceu, enfim, o objetivo é fazer uma historiografia do doente. Quando a vida irrompe na cena na forma da resistência, Freud se apercebe que não é possível fazer uma remontagem fria e objetiva da história. Ele nota que há algo ali que opta, afirmando ou negando determinadas realidades e que é preciso encarar o passado do doente tendo como guia esse elemento.

Torna-se preciso entender por que a vida negou determinado acontecimento e hoje insiste em não querer afirmá-lo. Via de regra, é por medo que ela o faz, como defesa contra uma realidade angustiante e imaginariamente aniquiladora. É justamente por não levar isso em conta que a hipnose fracassa, pois sua prática pressupõe que o simples encontro com a história é suficiente para eliminar o medo; é o pressuposto de que a história sendo a verdade objetiva é capaz por si só de devolver a saúde ao sujeito.

Muitos analistas hoje dizem que fazem Psicanálise, mas fundamentam sua prática nesse mesmo pressuposto: para eles é preciso mostrar a qualquer custo “a verdade” ao sujeito sem qualquer tipo de acolhimento que possa permitir ao doente se sentir seguro para conseguir lidar com sua própria história, isto é, sem o temor de ser aniquilado.

O que essa “doença histórica psicanalítica” (parafraseando Nietzsche) gera são sujeitos que se dizem analisados e conscientes de sua própria história (como provavelmente atestou uma banca de “passe”) e que continuam como os mesmos sintomas com os quais iniciaram a análise. Eles dizem que tais sintomas são “irredutíveis”, expressam seu modo de se relacionar com o mundo. Na verdade, não se trata de nada disso. Em geral, foram maltratados por analistas defensivamente silenciosos e continuam com os mesmos medos, com as mesmas defesas e, por não terem sido tratados corretamente, encontram uma saída na positivação de seus sintomas, considerando-os não mais como problemas, mas como “estilo”.

Portanto…

O pressuposto de uma psicanálise cujo modo de encarar o passado fosse análogo ao proposto por Nietzsche deveria vê-lo não como “a verdade do desejo”, mas sim como uma série de afirmações e negações feitas pela vida. É dessa dinâmica que emergem os sintomas e para levar o paciente a abdicar deles (na medida em que eles constituem formas restritas de vida) é preciso supor que há uma potência de vida guiando o enfrentamento do devir. Essa potência, que Nietzsche denomina de “força plástica”, precisa ser tornada consciente e fortalecida. Só assim o doente estará seguro o suficiente para estabelecer uma relação saudável com seu passado.

Como você lida com o seu passado? (parte 1)

Esta é a primeira parte de um dos dois posts em que pretendo desenvolver algumas idéias que me vieram à mente no decorrer da leitura do texto “O niilismo e o problema da temporalidade” de Gianni Vattimo que figura na excelente coletânea de ensaios do autor intitulada “Diálogo com Nietzsche”. Pra variar, são idéias que buscam estabelecer algumas relações entre o que se encontra no texto e a Psicanálise.

Nietzsche e os dois modos de encarar a história

No início do ensaio, Vattimo aborda o conceito nietzschiano de “eterno retorno” (ewige wiederkehr, em alemão), seu caráter conceitualmente problemático e as diversas interpretações do termo pelos comentadores de Nietzsche. Antes de esboçar a sua própria interpretação, Vattimo faz um breve percurso pelo modo como Nietzsche encara o problema da temporalidade. É essa seção do texto que me serve de inspiração aqui.

Segundo Vattimo, desde seus primeiros escritos Nietzsche tece duras críticas ao modo como a tradição ocidental se acostumou a lidar com sua própria história, a saber: buscando fazer uma remontagem completa dos fatos ocorridos, como se fosse necessário desvendar o que aconteceu no passado em sua totalidade. A maior ilustração dessa tendência de “querer tudo saber”, cujo ponto de origem o filósofo localiza na figura de Sócrates, é o próprio surgimento de uma disciplina científica denominada precisamente “História” que se dedicará justamente a desenvolver métodos e teorias para o conhecimento o mais fiel possível do passado.

Para Nietzsche, esse desejo de produzir um retrato completo do que se passou constitui o que ele chama de “doença histórica”. Sim, doença, pois torna o homem menos capaz daquilo que ele pode fazer ao aniquilar sua criatividade. A investigação minuciosa do passado faz com que se perca a visão do possível na medida em que tudo o que poderia ser criado como novo passa a ser visto como mera reprodução daquilo que já ocorreu. Frente à grande massa do que já aconteceu, a ação que se processa no hoje em vista de um futuro perde em potência e em sentido, pois é encarada como mais um grão de areia na praia do tempo.

Por outro lado, a tendência de querer tudo saber pode levar também à suposição bastante comum de que tudo o que aconteceu, aconteceu em função de uma determinada finalidade: é a idéia de que a história possui um sentido e que, portanto, nossa ação não tem potencial algum de criar algo novo, pois o curso das coisas já se encontra pré-determinado.

Qual alternativa Nietzsche contrapõe à doença histórica? Qual seria o modo correto de lidar com a história na visão do filósofo?

Para Nietzsche a origem da resposta está justamente naquilo que não tem história, ou seja, no elemento que não muda apesar de todo o resto se transformar. Esse elemento é a vida. Nietzsche inverte os termos que foram conjugados na doença histórica. Para o filósofo, o Ocidente colocou a vida a serviço da história. Para Nietzsche o correto é que a história esteja a serviço da vida. E com o termo “vida” o filósofo quer expressar justamente o caráter daquilo que é vivo, isto é, a possibilidade de criação, de invenção e de reinvenção. A relação correta com o passado, portanto, é aquela que vê a história como um manancial de eventos cuja apropriação pode ou não fortalecer, expandir e facilitar a nossa capacidade de criar, de agir. Nem tudo o que aconteceu deve ser apropriado por nós, pois há eventos que limitam e reduzem a nossa capacidade de agir. Ou seja, o crivo para o que deve ou não ser apropriado é sempre a própria vida.

No entanto, para que se possa saber discernir o joio do trigo é preciso estar consciente da própria força da vida, que não muda e que ultrapassa a história. Quem não está consciente da vida não percebe que há algo não-histórico e é, assim, facilmente levado a desenvolver a doença histórica, ou seja, a pensar que é presa de um destino ou que sua ação não vale nada em vista de tudo o que já aconteceu.

O que tudo isso tem a ver com a Psicanálise? É o que veremos no próximo post.

CONTINUA…

Idealização e demonização do pobre no Brasil

A motivação para que eu escrevesse este texto surgiu a partir de um comentário feito por um apresentador desses programas sensacionalistas “estilo Datena” que cada vez mais se multiplicam na TV aberta. O comentário do apresentador fora feito após a exibição de uma reportagem que mostrava os preparativos para uma manifestação cultural organizada pelos moradores de uma comunidade de baixa renda de um município de Minas Gerais. Após a matéria, o apresentador disse algo mais ou menos nesses termos: “Quem mora no morro é gente de bem, honesta e trabalhadora. Os criminosos são exceções.”. Evidentemente, tal apresentador não foi o único a dizer esse tipo de coisa; falas como essa aparecem com frequência na mídia.

A minha intenção com este post é demonstrar como, por detrás desse comentário aparentemente “justo” e “pertinente”, se camufla uma tentativa pérfida de negar ao pobre sua condição humana e, em decorrência, seu estatuto de sujeito no meio social. Para comprovar essa tese, farei uso da teoria psicanalítica, mais especificamente dos conceitos de idealização e cisão, os quais, em Psicanálise, constituem dois mecanismos de defesa. Freud os utilizou, mas foi a inspiradora e perspicaz Sra. Melanie Klein quem mais os aprimorou evidenciando o papel deles no desenvolvimento psíquico dos bebês. Não vou me alongar muito, pois a idéia é relativamente simples.

Cisão e idealização em Psicanálise

Tanto Freud quanto Klein perceberam através de suas respectivas experiências clínicas que uma das formas que temos de nos defender da constatação inevitável de que a pessoa que tanto amamos pode nos dar prazer, carinho, aconchego e satisfação como também nos frustrar, nos agredir e falhar conosco é dividindo a imagem que temos dessa pessoa em duas: uma boa e outra . É esse o mecanismo de defesa da cisão. Defesa contra quê? Contra a angústia que aparece no momento em que a gente se dá conta de que aquela pessoa não é a perfeição toda que a gente imaginava. A angústia nem é tanto pela constatação das imperfeições do outro, mas porque as imperfeições do outro fazem com que a gente se aperceba de que nós próprios não somos perfeitos.

De todo modo, após operarmos essa divisão, nós passamos a nos relacionar apenas com a parte boa da pessoa, isto é, a parte previsível, sem defeitos, que não nos causa angústia. Todavia, como a realidade (ou, nesse caso, a parte má que foi descartada) não cessa de bater na nossa porta, a gente exagera as qualidades boas da pessoa e exclui de vez os seus defeitos da imagem que temos dela, dizendo para nós mesmos que eles não lhe pertencem. É precisamente isso o que em Psicanálise nós chamamos de idealização.

Preguiçosos ou trabalhadores?

Pois bem, a minha tese é de que os brasileiros fazem o mesmo com aqueles que são menos favorecidos economicamente. Em função do incômodo e do mal-estar gerados pela distribuição criminosamente desigual de renda no país, os quais se manifestam através justamente da violência, nós estabelecemos uma cisão na imagem que temos do pobre. Com que objetivo? Ora, assim como a cisão no plano da psicologia individual tem o objetivo de resguardar nosso narcisismo, no nível social, essa divisão na imagem do pobre é feita com a intenção de mascarar os reais fatores que geram o mal-estar, sendo o principal deles a péssima distribuição de renda. Ou seja, o objetivo é manter intacto o narcisismo da sociedade como um todo.

Assim, para alguns, o problema da violência passa a ser localizado na “natureza” do pobre, através de proposições como a de que pobre não gosta de trabalhar; que é “naturalmente” dado à preguiça; que de levar vantagem em tudo; que só gosta de fazer filho para ganhar mais uma “Bolsa Família” etc. Todos esses argumentos eu já ouvi literalmente. Em contrapartida, para outros, como o apresentador do início do post, o pobre é um exemplo de ser humano: honesto, moralmente íntegro, trabalhador, “de bem”, cumpridor de seus deveres legais.

Anjos ou demônios; jamais humanos

Temos, portanto, claramente duas imagens do pobre: de um lado um diabo que corrói o meio social e que sofre por consequência de sua própria preguiça e do outro um anjo, perfeito, sem qualquer tipo de falha. A grande sacada é perceber que essa última visão angelical não é o avesso da outra, pois ambas possuem uma mesma origem: o desejo de criar uma imagem universal do pobre que jamais corresponderá a nenhum pobre em particular, pois cada pobre singular, como todo ser humano, não é natural nem plenamente bom ou mau.

A idealização nega ao pobre a possibilidade de não corresponder às expectativas do meio social, pois a não-correspondência é tomada como índice de que sua natureza seria o oposto, isto é, má. Por exemplo, quando nosso apresentador diz que as pessoas em geral que moram no morro são honestas, ele está fixando nelas uma falsa essência. Ninguém é honesto ou desonesto. As pessoas têm atitudes honestas e desonestas em contextos específicos e isso vale tanto para pobres quanto para ricos, mas ninguém é essencialmente honesto ou desonesto porque mesmo que nunca tenha cometido um ato de desonestidade essa figura como possibilidade, a menos que se trate de uma máquina. A idealização, portanto, longe de valorizar o pobre, veda-lhe o direito de errar. Por outro lado, quando se o demoniza, ocorre o oposto: o direito que lhe é negado é o de acertar. Estabelece-se assim, de ambos os lados, a retirada do estatuto de humano ao pobre, isto é, de possibilidade tanto do “erro” quanto do “acerto”, conceitos que, obviamente, se estabelecem a partir de convenções sociais.

A idealização ou demonização do pobre constituem estratégias defensivas contra o incômodo de descobrir as razões pelas quais em determinados momentos o pobre age de um modo que qualificamos como “bom” e em outros de uma maneira que denominamos “má”. Por que isso geraria incômodo? Por que no fundo todo mundo sabe que boa parte dessas razões tem a ver com o modo injusto como erigimos nossa sociedade.

Concluindo…

É mais fácil afirmar categoricamente que o pobre é preguiçoso por natureza do que tentar compreender as razões da sua “preguiça” e descobrir que se é um péssimo patrão que não oferece condições satisfatórias de trabalho e paga um salário indecente. Por outro lado, é também mais cômodo negar que o pobre, como também o rico e qualquer ser humano, gosta mais do descanso do que de um trabalho estafante e dizer que o pobre adora trabalhar, é sempre honesto e “de bem”…