
Você já deve ter vivido a seguinte situação:
Você está sonhando, e, de repente, ao se deparar com alguma situação, você acorda.
Por que isso acontece?
Por que será que você acordou justamente naquele momento?
A resposta é simples: se continuasse sonhando, você faria contato com uma realidade interna insuportável.
Então, acordar é uma forma de se proteger emocionalmente.
Aí você pode retrucar:
— Mas, Lucas, isso não faz muito sentido. Como o despertar vai me proteger do contato com essa realidade interna tão dolorosa? É mais fácil encontrá-la dormindo do que acordado?
Exatamente.
Quando a gente dorme, as defesas que utilizamos durante o dia para não pensar em certas coisas se enfraquecem.
É por isso que a gente sonha.
A matéria-prima dos sonhos é formada por pensamentos que ficam rodando na nossa cabeça diuturnamente, em segundo plano ou de forma totalmente inconsciente.
E não são quaisquer pensamentos.
Em geral, são ideias e desejos conflituosos, que nos causam muita dor ou angústia. Por isso, tendemos a evitá-los.
— Mas, Lucas, eu não me lembro de sonhar com pensamentos. Nos meus sonhos aparecem imagens, cenas… Muito estranhas, inclusive.
Sim, isso acontece porque, embora suas defesas estejam enfraquecidas durante o sono, elas ainda têm força suficiente para transformar as ideias angustiantes em imagens que você consegue suportar.
É por isso que nossos sonhos costumam ser esquisitos ou aparentemente aleatórios. É que, na tentativa de te proteger dos pensamentos dolorosos, a defesa precisa disfarçá-los.
Vamos supor, por exemplo, que esteja rodando na sua cabeça, em segundo plano, a seguinte ideia:
“Eu queria xingar meu namorado, mas, como tenho medo da minha própria agressividade, fico calada e tolero os xingamentos dele.”
Para te poupar de fazer contato com esse pensamento, suas defesas podem transformá-lo numa cena em que você observa, da janela de casa, animais selvagens entrando em seu quintal.
O problema é que suas defesas, que já são limitadas por natureza, durante o sono estão enfraquecidas, lembra?
Então, pode acontecer o seguinte:
A ideia da qual você está se protegendo pode ter tamanha força que suas defesas não conseguem disfarçá-la muito bem.
Vamos retomar o exemplo:
Pode ser que durante o dia alguém tenha ouvido seu namorado te xingando e chamou sua atenção: “Como você tolera?”.
Por conta disso, o pensamento “Eu queria xingar meu namorado etc.” ficou mais intenso em seu psiquismo.
Mas lembre que você não suporta fazer contato com ele.
Então, pode ser que o sonho que você tem nesse dia comece daquele jeito que eu falei: você, da janela de casa, observando os animais selvagens andando pelo seu quintal.
Porém, como o pensamento foi intensificado, as defesas não conseguem representá-lo de forma disfarçada apenas com essa imagem.
Ele está tão forte que a cena precisa continuar: os animais começam a invadir sua casa. Quando você olha para trás, vê um monte deles vindo em sua direção.
E justamente, nesse momento, você acorda.
Por quê?
Porque a defesa chegou ao limite: a alternativa seria você sonhar que está sendo atacada pelos animais, o que seria tão angustiante quanto tomar consciência da ideia que está sendo representada.
É por isso que o psicanalista francês Jacques Lacan brincava dizendo que a gente acorda dos sonhos… para continuar sonhando.
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