A superfluidade do Carnaval

lh_bdesozinhoCaro leitor, hoje vou me atrever a falar como sociólogo, muito embora eu não tenha formação pra isso, mas como nas Ciências Humanas formação nunca foi critério, falarei sem culpa. O tema já está no título: é o Carnaval.

O ponto de vista que adotarei é essencialmente funcionalista. Com isso quero dizer que acredito que todo fato social não existe por acaso, mas que exerce uma função específica dentro de determinada cultura. A questão é tentar saber qual a função exercida.

No caso do Carnaval, essa função é muito clara: a festa da carne em tese seria a oportunidade reservada aos pobres filhos de Adão de descarregarem em quatro dias todos os impulsos que, por força das circunstâncias, tiveram que reprimir ao longo do ano. Tanto é assim que existe até uma “quarta-feira de cinzas” reservada para queimar os pecados cometidos durante os quatro dias.

É importante dizer que eventos do mesmo estilo do carnaval não são fatos exclusivos de terras tupiniquins e nem da atualidade. Pelo contrário, sempre existiram em todas as culturas períodos em que as crenças que fundamentavam as sociedades eram tratadas comicamente e nos quais se era permitido fazer tudo aquilo que não se podia durante o resto do ano. Carl Gustav Jung via aí a manifestação do arquétipo do trickster (Em breve explicarei aqui o que é um arquétipo). Por ora, basta ao leitor saber que o trickster denota o elemento cômico, personificado em muitas fábulas pelos duendes e em muitas culturas pelo palhaço.

Para se ter uma idéia da presença de carnavais em outras épocas, veja: Jung narra estranhos costumes eclesiásticos na Idade Média tais como os que aconteciam após o Natal, em que se escolhia um episcopum puerorum (bispo das crianças), o qual fazia uma visita oficial ao palácio do arcebispo, acompanhado de grande algazarra. Dentro do palácio, o bispo (das crianças) distribuía sua benção. Tais costumes evoluíram a ponto de no final do século XII serem chamados de festa stultorum (festa dos loucos). Assim se vê que até no meio mais improvável, pequenos carnavais já existiram.

Portanto, sabemos que o Carnaval tem essa função de ser o momento reservado para que a gente se recorde de que tudo isso em que acreditamos para viver em sociedade é puro semblante. Mas, será que hoje temos mesmo a necessidade de um Carnaval para fazer isso?

Penso que não. Em primeiro lugar porque eventos idênticos ao Carnaval ocorrem o ano inteiro em praticamente todas as cidades brasileiras, são as chamadas micaretas e as raves,onde as pessoas fazem tudo o que fazem no Carnaval, ou seja: suam, bebem, se drogam e transam. Em segundo lugar, porque a vantagem que o Carnaval outrora trazia, isto é, de ser o único momento em que a gente podia enfiar o pé na jaca sem culpa, já não é mais privilégio do Carnaval, principalmemte em relação à sexualidade: ninguém mais precisa esperar até o Carnaval pra poder transar com várias pessoas numa mesma noite. Em terceiro lugar, porque o momento pelo qual passa a cultura ocidental é de uma total perda de referência, de perda de prestígio das grandes instituições e blá, blá, blá,ou seja, não precisamos do Carnaval pra se dar conta de que a gente vive numa ficção e fazer chacota dessa ficção: fazemos isso a todo momento.

Mas por que, então, ainda se “comemora” o Carnaval. Penso que apenas por razões econômicas. É só porque Olinda, Salvador, Rio e São Paulo geram uma grana preta em patrocínios para TV, por exemplo, que a festa se mantém. Ah, mas e os Carnavais de cidades menores, tradicionais? Os que ainda não entraram no ciclo perverso do capital, estão com os dias contados.

Pra quê Carnaval?

Anúncios

6 comentários sobre “A superfluidade do Carnaval

  1. Não posso deixar de fazer um comentário sobre esse tema…CARNAVAL. Pelo andar da carruagem, até qdo vai durar? Concordo com o que foi colocado e acrescentaria mto mais…que festa é essa onde a promiscuidade é propagada? Onde turistas vem a procura de sexo? Até onde vale a pena sacrificar a “moral” das mulheres brasileiras e crianças em prol do ganho financeiro,onde a prostituição nessa época aumenta assustadoramente…em real,euro ou dolar! Não suporto gente bêbada…e é isso o que rola no carnaval…todo mundo com todo mundo,ninguém é de ninguém…sexo livre…além do que já é normal hoje em dia…e os “infelizes” nem se lembram do preservativo…e o menor dos males…9 meses depois…ou algo pior! Não entendo essa falsa alegria motivada pela “cachaça”…essa animação de 4 dias…e depois a deprê…a ressaca…o nada ser!!!O vazio e a desmotivação como ser humano está levando as pessoas a uma satisfação cega, a uma busca incontrolável e a um caminho sem volta…uma estrada esburacada. Que alegria buscamos? É triste perceber como as pessoas se usam mutuamente hoje em dia…os sentimentos verdadeiros são raros…amor? Existe? Estamos precisando de DEUS? Motivação?Alegria? Verdade?Fé? Amor próprio? Issoooo…falta amor próprio…somos objetos pq nos colocamos nessa situação…O carnaval passa,os “cacos” ficam…junte-os e faça deles algo melhor no futuro…não espere o próximo carnaval para soltar a “franga”. Seja feliz hoje,encontre a verdadeira alegria de viver…SEJA VOCÊ…sem álcool…sem carnaval…sem sexo desregrado…sem vexame…se ame!!! Na verdade, acho carnaval uma festa legal,principalmente por causa do feriado…rs…mas odeio o que as pessoas fazem durante essa festa…Que Deus nos ajude…como diz minha avó…estamos nos fins dos tempos!!!Bjooo

  2. Meu nobre e caro Lucas …. sinceramente acho que o carnaval deveria se banido do nosso caprichoso calendário cristão, visto que ele causa um prejuízo econômico para o país, 3 dias em plena folia, além de um prejuízo enorme para os ouvidos, imagina escutar de 1 a 3 aquela bateria de escola de samba – o tal ti que dum, ti que dum o tempo inteiro e imagina só ouvir chiiicleete oba oba, …. é brincadeira. E como todo mundo já sabe, o Brasil só anda depois do Carnaval, em tese o ano só começa na quarta feira a partir do meio-dia.

  3. Caríssimo, o problema é que a gente escuta “Chiclete” o ano todo! Só aqui em Valadares a gente tem, por ano, uns quatro ou cinco “não-sei-o-que Folia”. E o que dizer das raves (ou, em humanês, bando de débeis mentais usando LSD e ecstasy) que acontece todo fim-de-semana. O mundo contemporâneo vive um Carnaval perene…

  4. Acho que nesse caso vale a máxima de Cristo. O que mais me deixa puto é saber que esses 4 (ou 3 ou cinco, ou como postulei, o ano todo) é simplesmente o gozo pelo gozo, sem a significação de outrora. Sem essa de “frevo é tradição”…

  5. Caro amigo, na verdade o carnaval tem a maior função de todos os tempos em nossa sociedade atual: lembrar-nos que o ano está começando…

    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s