Por que é tão difícil fazer associação livre?

Freud estabeleceu que, no tratamento psicanalítico, o paciente deve falar tudo o que lhe vier à cabeça durante as sessões.

No entanto, a verdade, constatável por qualquer analista sincero, é que são raríssimos os pacientes que efetivamente fazem associação livre.

A maioria seleciona mais ou menos cuidadosamente o que fala, mesmo sob protestos reiterados do terapeuta para que isso não aconteça.

Sem falar naqueles que trazem para as sessões uma “pauta” anotada no papel ou no celular.

Não sou desses que proíbe o paciente de trazer essas notas ou que lhe dá uma bronca por não fazer a associação livre.

Por influência do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, entendo que o analista que age assim converte-se automaticamente na encarnação de uma figura parental excessivamente dura e severa.

Por outro lado, é interessante refletir sobre os motivos pelos quais é tão difícil para a imensa maioria dos pacientes fazer a associação livre.

Qualquer pessoa que já tenha feito a experiência de simplesmente verbalizar o fluxo de ideias que passam por sua cabeça sabe que o resultado não é lá muito agradável.

Inevitavelmente você acaba falando coisas que jamais imaginou que sairiam de sua boca.

Isso evidencia aquilo que o Lacan chamou, em certo momento, de “a realidade do discurso em sua autonomia”.

O exercício da associação livre nos faz perceber que as palavras parecem ter vida própria e que basta retirar temporariamente a censura egoica de cena para que elas manifestem sua autonomia.

Ao verbalizarmos tudo o que vem à nossa cabeça, nos damos conta de que, apesar de falarmos, somos, na verdade, muito mais FALADOS.

Essa constatação provoca ansiedade, pois faz com que o Eu se sinta ameaçado pelo fluxo autônomo das ideias.

Dá medo, né?

Afinal, sabe-se lá o que sairá de nossas bocas…


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