Qual é o seu clichê?

Num texto de 1912 chamado “A Dinâmica da Transferência”, Freud compara aquilo que se apresenta no fenômeno transferencial a um “clichê”.

Mas, ao contrário do que muita gente pensa, o pai da Psicanálise não estava se referindo a clichê no sentido figurado, isto é, a uma expressão muito repetida.

Freud estava falando do clichê em seu sentido original, que é proveniente do campo da artes gráficas.

Originalmente, o termo clichê designava uma placa de metal que servia de modelo para a impressão de textos e imagens.

Ou seja, estamos falando de um artefato cujo mecanismo de funcionamento é semelhante ao de um carimbo.

Ora, um processo análogo de reprodução de um modelo acontece na transferência. É por isso que Freud faz a comparação.

De fato, o que observamos em análise é que o paciente reproduz, na relação com o terapeuta, certo modo estereotipado de se relacionar com os outros de forma geral.

Um paciente que costuma ser submisso em suas relações interpessoais, por exemplo, tenderá a ser submisso na relação com o analista.

Esse padrão relacional básico se constitui na infância e o sujeito o repete compulsivamente, como um clichê sendo impresso em páginas e mais páginas.

A grande maioria das pessoas não percebe que possui esse padrão porque, no dia a dia, consegue justificar seu funcionamento em função do contexto:

“Eu sou tão submisso no meu trabalho porque tenho medo de ser demitido.”

O que esse sujeito não sabe é que continuaria agindo de forma submissa mesmo se estivesse num cargo público, com pouquíssimas chances de ser demitido.

O padrão se impõe independentemente das circunstâncias, assim como o clichê pode ser impresso em qualquer tipo de folha, mesmo as que não estão em branco.

Ao fazer análise, a pessoa tem mais facilidade para identificar o padrão relacional porque o analista se apresenta de forma mais ou menos “neutra”.

Assim, o paciente não consegue encontrar muitas razões objetivas para explicar seu modo de agir.

Ele acaba sendo compelido a reconhecer que se encontra preso a um padrão que vem de si mesmo e que se reproduz continuamente à revelia de sua vontade.


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