Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista e professor. Possui os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro "A Doença como Manifestação da Vida".
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Antes de Freud, entendia-se que as perversões sexuais eram formas desviantes, anormais, degeneradas de vivência da sexualidade.
Em outras palavras, na cabeça do povo vigorava mais ou menos o seguinte raciocínio:
Se uma pessoa, por exemplo, sente prazer sexual e é capaz de chegar ao orgasmo simplesmente sendo amarrada, chicoteada e humilhada, isso significa que tal indivíduo se desviou, se verteu completamente (per-vertere) para o caminho sexual errado.
Na base desse pensamento está o pressuposto de que existe uma forma correta e NATURAL de viver a sexualidade: a forma genital-heterossexual-monogâmica.
Supostamente, todo o mundo nasceria voltado para esse “bom caminho” e apenas alguns malucos anormais, os perversos, se desviariam dele.
Freud vai produzir uma reviravolta nessa maneira tradicional de entender a sexualidade humana.
Observando que seus pacientes neuróticos viviam cheios de fantasias perversas na cabeça, apesar de viverem na prática uma sexualidade genital-heterossexual-monogâmica, Freud chega à conclusão revolucionária de que, na verdade, A PERVERSÃO É QUE É PRIMÁRIA E NÃO A “NORMALIDADE”.
Ou seja, Freud nos fez ver que a sexualidade genital-heterossexual-monogâmica é CONSTRUÍDA e não NATURAL.
Construída por meio de uma LAPIDAÇÃO, de uma espécie de MODELAGEM que se dá sobre uma condição perversa original.
Afinal de contas, a sexualidade infantil não é genital-heterossexual-monogâmica.
As crianças podem experimentar prazer sexual com as mais diversas ações, os mais diferentes objetos e em várias partes do corpo.
Isso significa que quando uma pessoa sente prazer sexual e é capaz de chegar ao orgasmo simplesmente sendo amarrada, chicoteada e humilhada, ela não está se desviando de uma suposta norma natural, mas simplesmente expressando uma potencialidade que já estava presente na infância.
Nesse sentido, o desenvolvimento (legítimo, diga-se de passagem) de uma sexualidade genital-heterossexual-monogâmica é resultado de um processo que consiste num “descarte” das diversas outras formas de prazer de que somos capazes de usufruir.
— Mas o que acontece com tudo isso que é “descartado”, Lucas?
Outro dia a gente fala a respeito…
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Neste vídeo proponho uma maneira didática e simples de compreender as diferenças fundamentais entre os conceitos de outro (com “o” minúsculo) e grande Outro na doutrina do psicanalista francês Jacques Lacan.
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O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi conta que, antes de conhecer a Psicanálise, frequentemente se deparava com uma situação embaraçosa em seus atendimentos.
Vai vendo…
Como a maioria dos psicoterapeutas do final do século XIX, Ferenczi empregava a SUGESTÃO como método de trabalho.
E o que é a sugestão?
Você sabe.
Hoje em dia o que mais tem na internet é gente que utiliza essa técnica, ainda que sem chamá-la pelo nome…
Quando uma pessoa aflita e vulnerável manda uma pergunta na caixinha de um desses gurus de Instagram e o “Pai”, “Mestre” ou “Doc”, do alto da sua sabedoria milenar de 34 anos, diz para aquela crédula criatura o que ela deve fazer para resolver seu problema, estamos diante de um episódio de sugestão ao vivo e a cores.
O método sugestivo consiste basicamente em introduzir, por meio da autoridade, da intimidação ou de uma atitude doce e benevolente, certas ideias na cabeça do paciente — ideias que a pessoa aceita de forma acrítica por conta da confiança cega depositada no guru.
Em suma, trata-se de um procedimento de manipulação da mente de outro — embora, normalmente, o paciente não se sinta manipulado.
Feita essa explicação, voltemos ao que acontecia lá com o Ferenczi:
Pois bem, enquanto ainda não trabalhava com a Psicanálise, utilizando exclusivamente a técnica da sugestão, Ferenczi passava amiúde pela seguinte saia justa:
Ele estava lá, de repente, pelejando com um paciente histérico resistente, que não saía do lugar, até que decidia falar para o cara mais ou menos o seguinte:
“Você não está doente, meu amigo, recobre as forças, basta querer!”
Sabe o que o paciente respondia para o Ferenczi? Veja:
“O meu mal, doutor, é justamente o de não ter vontade; digo-me dia e noite: você tem que, você tem que e, apesar de tudo, não consigo. Procurei-o precisamente para que me ensine a querer!”
Seria cômico se não fosse trágico, né?
Ferenczi conta essa história num artigo chamado “Sugestão e Psicanálise”.
Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma AULA ESPECIAL em que comento esse texto, mostrando por que a Psicanálise NÃO É um tratamento baseado na sugestão e por que, portanto, o psicanalista não é um guru.
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Ontem, atendendo uma paciente, eu utilizei uma analogia que gostaria de compartilhar com vocês, pois acredito que poderá servir para muitos como estímulo para alguns insights.
Eu dizia para essa paciente que nós geralmente criamos “remédios psíquicos” para “tratar” certos problemas emocionais que nos acometeram na infância.
Esses “remédios” são traços de personalidade e padrões de comportamento, ou seja, são formas de ser e de agir que se manifestam em nós de forma quase automática.
Há pessoas, por exemplo, que, sem perceberem, estão sempre se sentindo atacadas e, por isso, se mostram o tempo todo desconfiadas e “na defensiva”.
Quando a gente analisa a história de vida de indivíduos assim frequentemente encontramos em sua infância a passagem por experiências de negligência, injustiça e falta de amor.
Nesse sentido, é possível compreender as atitudes de desconfiança e reatividade como “remédios” que tais pessoas inconscientemente foram criando para se protegerem de um ambiente hostil e pouco acolhedor.
E esses remédios de fato funcionam!
Sem eles, a pessoa seria absorvida pela angústia desesperadora que invade a alma de uma criança que não recebeu por parte do ambiente AQUILO QUE LHE ERA DEVIDO.
Sim, meus amigos: existe a falta estrutural, inevitável, a impossibilidade de satisfação plena, mas existem faltas que não deveriam existir, pois não são da ordem do desejo, mas da NECESSIDADE.
Então, quando o sujeito não tem suas necessidades básicas atendidas na infância, ele vai precisar inventar esses remédios para não cair no abismo da angústia desesperadora.
O problema, como eu dizia para minha paciente, é que todo remédio tem efeitos colaterais…
E é por isso que a gente faz Psicanálise:
Para encontrar remédios melhores.
Para tratar as feridas anímicas e não precisar mais de nenhum deles.
Ou, no mínimo, para acertar a dose…
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É muito mais fácil e confortável dizermos para nós mesmos que nossas ações não foram de fato escolhidas, mas são apenas reações a demandas e imperativos externos. Mas a questão é: você quer continuar se autoenganando pensando dessa forma?
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Muitas pessoas procuram a ajuda da Psicanálise porque não conseguem abandonar certos padrões repetitivos de comportamento ou de escolhas amorosas que lhes trazem muito sofrimento. Neste vídeo apresento as duas principais causas desse fenômeno que Freud chamou de compulsão à repetição.
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Certa vez, o psicanalista inglês Donald Winnicott passou por uma situação insólita.
Ele estava atendendo um menino bastante problemático, na faixa dos 10 a 11 anos.
O garoto costumava roubar, tinha surtos agressivos e chegou a subir no telhado da clínica onde Winnicott atendia para jogar água no recinto, alagando todo o espaço.
Para completar, certa vez o rapazinho arrombou o carro do analista para dar um rolê com o automóvel.
— Ah, Lucas, aí é demais! Depois desse episódio Winnicott parou de atender esse capetinha, né?
Nada disso. Apesar de todos esses ataques, o terapeuta permanecia firme, atendendo-o diariamente.
O tratamento só foi suspenso porque, depois de algum tempo sem praticar assaltos, o menino voltou a roubar e se tornar agressivo fora da terapia, o que levou a Justiça a interná-lo numa instituição que hoje chamaríamos de “socioeducativa”.
No artigo em que narra esse caso (“Psicoterapia dos distúrbios de caráter”), Winnicott diz que, se “tivesse sido muito mais forte” do que o garoto, talvez o guri tivesse conseguido se segurar e não teria sido apreendido.
— Uai, Lucas, como assim “mais forte”? Por acaso é papel do analista conter pacientes baderneiros? E outra: Winnicott fez certo em continuar atendendo um paciente que chegou a arrombar o carro dele?
Responderei essas e várias outras perguntas na aula especial que estará disponível ainda hoje (sexta) para quem está na CONFRARIA ANALÍTICA.
Falarei nessa aula sobre como o analista deve se comportar, do ponto de vista winnicottiano, em casos como o desse menino (que revelam uma “tendência antissocial”) e em outras situações clínicas nas quais o paciente regride ao padrão de funcionamento de um bebê de colo.
Ah, para finalizar, sabe o que aconteceu com o garoto na vida adulta?
Ele se casou, teve três filhos e se tornou… MOTORISTA DE CAMINHÃO. 😉
Te vejo lá na Confraria!
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Certa vez eu sonhei com um lugar que tinha um formato de “L”.
Enquanto narrava esse sonho no divã e estimulado por algumas pontuações feitas pelo meu analista, me dei conta do fato óbvio de que “L” é a primeira letra do meu nome.
Por incrível que pareça, isso não tinha passado pela minha cabeça até aquele momento.
Impressionado com a IMAGEM insólita do lugar no sonho, não me atentei para o SIGNIFICANTE “L”.
E tem mais: constatei também que o termo “ele” (de letra “L”) é o mesmo que designa o pronome masculino da terceira pessoa do singular.
Esse pequeno fragmento de minha análise ilustra essa belíssima definição da interpretação psicanalítica feita pelo Miller.
Trata-se, é claro, de uma concepção lacaniana de interpretação, que se diferencia do modo freudiano de interpretar.
Eu diria que Freud propunha um método ALEGÓRICO de interpretação, baseado no esquema ISSO REPRESENTA AQUILO.
É o que vemos, por exemplo, na interpretação que ele faz do gesto de Dora de ficar enfiando e tirando o dedo de sua bolsinha porta-moedas.
Freud toma tal comportamento como uma alegoria do ato masturbatório.
Lacan, por sua vez, trabalhará com um método interpretativo diferente, que se vale da POLISSEMIA do significante, ou seja, do fato de que uma mesma palavra pode remeter a mais de um significado, dependendo do contexto.
O termo “ele”, por exemplo, pode tanto designar a letra “L” quanto se referir ao pronome masculino da terceira pessoa do singular.
Para Lacan, a interpretação analítica não deveria ter como propósito apontar o suposto significado verdadeiro daquilo que o sujeito diz.
Pelo contrário, ao interpretar, o analista deveria estimular o sujeito a se dar conta de que há outras possibilidades de leitura daquele mesmo texto que ele está apresentando.
Ou seja, ao invés de “fechar a questão”, fixando um determinado significado, a interpretação, para Lacan, deveria produzir justamente uma ABERTURA para novas significações.
E isso se torna possível quando o analista, ao invés de dizer para o paciente: “Isso que você diz significa aquilo”, opta por enunciar algo mais ou menos assim:
“O que você diz pode ser lido de uma forma diferente da que você pretende…”.
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Frequentemente a conquista da liberdade exige de nós o enfrentamento de situações de conflito, confrontação e posicionamento diante do desejo do outro. Portanto, para gozarmos da experiência de liberdade, precisamos inevitavelmente sacrificar o conforto.
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Neste vídeo: veja o que você precisa saber antes de solicitar uma consulta com um psicanalista e entenda por que nem todas as pessoas se adaptam ao método de trabalho psicanalítico.
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