O amor é o grande educador

Tem um texto do Freud cuja leitura recomendo fortemente a vocês: trata-se do artigo “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico”.

Tá no volume XIV das obras completas (edição standard).

Nesse artigo, Freud descreve três tipos muito curiosos de pessoas que não raro aparecem nos nossos consultórios: (1) aquelas que se acham merecedoras de privilégios da vida, (2) aquelas que se sabotam quando têm sucesso e (3) aquelas que cometem crimes para justificar um sentimento crônico de culpa.

Mas hoje não quero falar especificamente sobre essas categorias de indivíduos. Outro dia eu mexo nesse assunto.

Quero neste momento comentar um trecho desse texto em que Freud nos presenteia com uma síntese do que poderíamos chamar de uma concepção psicanalítica da educação.

Eis as palavras do autor:

“Lado a lado com as exigências da vida, o amor é o grande educador, e é pelo amor daqueles que se encontram mais próximos dele que o ser humano incompleto é induzido a respeitar os ditames da necessidade e poupar-se dos castigos que sobrevém a qualquer infração dos mesmos”.

Nessa passagem, Freud está chamando nossa atenção para o fato de que o processo educacional que os pais desenvolvem junto a seus filhos não é algo da ordem de uma imposição, mas de uma SEDUÇÃO.

Em última instância, a criança não obedece seus pais, submetendo-se aos limites sustentados por eles, por medo ou por convencimento racional.

Ela aceita as diversas “castrações” exigidas pela educação porque AMA seus educadores e quer ser amada por eles.

Fazendo uso da maravilhosa perspicácia infantil, a criança percebe que as demandas de seus pais se apresentam como condições para manter-se na posição de objeto do amor deles.

O próprio medo do castigo, nos diz Freud, é menos um medo da eventual dor ou frustração trazida pela punição e muito mais uma aversão àquilo que o castigo SIGNIFICA, a saber: o desapontamento dos pais.

Portanto, nós não nos submetemos ao Outro porque compreendemos racionalmente o certo e o errado.

A gente obedece por amor.

Porque acreditamos desde a infância que, se formos bons meninos e boas meninas, conservaremos o amor do Outro por nós.


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As fixações são as nossas zonas de conforto no Inconsciente: entenda

Como alguns dos principais conceitos propostos por Freud, a noção de FIXAÇÃO brotou diretamente da experiência clínica de seu autor.

Desde os seus primeiros contatos com neuróticos, Freud observou uma tendência característica desses pacientes de se manterem excessivamente apegados a certos elementos de seu passado.

Basta lembrar a famosa fórmula freudiana de que “os histéricos sofrem de reminiscências”.

A neurose parece testemunhar com a intensidade típica do adoecimento a inércia inerente ao funcionamento da nossa alma.

Embora sejamos convocados pela vida a nos mantermos em movimento, trocando objetos de desejo e nos adaptando de modo flexível às circunstâncias, parece haver em nós uma resistência a “sair da zona de conforto”, como diz o outro.

As fixações representam justamente a permanência no Inconsciente de determinados desejos, modos de satisfação e objetos que, em tese já deveriam ter sido abandonados.

Por exemplo: tem homem que nunca conseguiu renunciar ao desejo de ser o parceiro amoroso da mãe.

Essa fantasia incestuosa é perfeitamente admissível (e até esperada) na cabeça de uma criança de 3 ou 4 anos, mas não na de um marmanjo de 45.

Pois é! Mas pode ser que esse marmanjo nunca tenha conseguido aceitar muito bem a exigência que a vida lhe fez de renunciar ao objeto materno.

Por conta disso, ele pode ter simplesmente reprimido seu desejo pela mãe e, dessa forma, mantido-o intacto e bem alimentado no Inconsciente.

Agora, sempre que a vida, especialmente no campo do amor, lhe “presenteia” com dificuldades, frustrações e impasses, ele recorre à sua fantasia incestuosa reprimida para se consolar.

Mas, Lucas, essa fantasia não está no Inconsciente?

Está.

Então, como é que o cara vai poder se consolar se não tem como tomar consciência dela?

Boa pergunta!

Vamos continuar essa conversa lá na CONFRARIA ANALÍTICA?

Ainda hoje os membros da nossa comunidade vão receber uma aula especial sobre o conceito de FIXAÇÃO.

Te vejo lá! 😉


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Os cães têm inveja de nós

Um cachorro que porventura tenha sido vítima de severas agressões físicas quando filhote provavelmente permanecerá arredio, medroso e arisco pelo resto da vida.

É possível fazer essa previsão com um grau razoável de certeza porque sabemos que os animais não possuem a capacidade de se comportar na direção oposta àquela determinada pelas suas experiências de vida.

Em outras palavras, o animal é aquilo que a vida o leva a ser.

Com os seres humanos, as coisas se passam de modo diferente.

Afinal, contamos com a capacidade singular de REFLETIR sobre o nosso próprio comportamento.

Um cachorro não é capaz de olhar para si mesmo e para sua própria história e chegar à conclusão de que sua atitude arredia é o resultado das experiências de violência pelas quais passou.

Ele simplesmente padece os efeitos de sua história, mas não é capaz de refletir sobre esses efeitos e tampouco sobre a própria história.

Os seres humanos, por sua vez, possuem essa capacidade e é justamente ela que nos habilita a alterarmos o curso de nossa existência.

Uma pessoa que, tal como o cachorro do exemplo acima, tenha sido vítima de severas agressões físicas quando criança e, por conta disso, tenha se tornado acanhada, ansiosa e desconfiada pode DECIDIR, à luz de uma reflexão sobre sua história, que procurará ser mais aberta e sociável.

Provavelmente ela experimentará fortes resistências emocionais ao tentar fazer isso, mas o fato é que possui essa CHANCE de modificar radicalmente o rumo de sua vida decidindo não seguir o script supostamente determinado por sua infância.

Frequentemente a gente se esquece de que essa capacidade de reflexão e decisão representa uma distinção abismal entre nós e os outros seres vivos.

Por isso, menosprezamos o potencial extraordinário das decisões conscientes que promovem o advento de novas possibilidades existenciais totalmente  imprevistas.

Os efeitos do ambiente e da nossa história são poderosíssimos e é justamente por isso que a gente faz terapia.

Mas qualquer processo terapêutico seria inviável se não contássemos com a capacidade de alterar o desfecho de uma história que parecia ser fatalmente trágica.

Tenho certeza de que os cães adorariam ter esse potencial.


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A fantasia é o delírio inconsciente do neurótico

Em 1924, Freud publicou um artigo chamado “A perda da realidade na neurose e na psicose”.

Ele começa o texto esclarecendo o próprio título.

Com efeito, naturalmente somos levados a pensar que apenas na psicose aconteceria uma perda de realidade, já que, nessa patologia, assistimos ao surgimento de uma realidade “alternativa” marcada pelas alucinações e delírios.

Em outras palavras, temos a tendência de pensar que é só na psicose que ocorre um rompimento da relação do indivíduo com a realidade.

Na neurose, por sua vez, haveria supostamente um excesso de apego à realidade, que levaria o sujeito a reprimir seus impulsos.

Freud,  no entanto, mostra que o neurótico também se afasta da realidade na medida em que “apaga” da sua consciência as ideias relacionadas a seus impulsos reprimidos.

Além disso, de modo análogo ao que acontece na psicose, o neurótico busca compensar a impossibilidade de expressar determinados impulsos por meio da criação de fantasias inconscientes que se materializam nos sintomas.

São justamente essas fantasias que perturbam a relação do neurótico com a realidade, fazendo com que, por exemplo, ele tenha medo de coisas absolutamente inofensivas.

Assim como o psicótico, o neurótico também cria sua realidade particular imaginária e vive nela.

A diferença é que, na psicose, essa realidade “alternativa” é vivenciada conscientemente pela pessoa na forma do delírio e das alucinações.

Na neurose, por sua vez, tudo acontece no plano do Inconsciente.

Conscientemente o sujeito sabe que está apenas conversando com seu chefe no trabalho, mas no Inconsciente pode estar rodando uma fantasia homossexual na qual ele é sodomizado por seu pai.

Inconsciente dessa fantasia, o neurótico experimenta apenas os efeitos que ela produz no plano da consciência: angústia, medo, inibição.

É por isso que o sujeito do exemplo acima não conseguiria entender porque se sente tão tenso na presença do chefe, mesmo ele sendo uma pessoa acolhedora, gentil e compreensiva.

É que conscientemente o indivíduo está apenas conversando com o patrão, mas inconscientemente está EM OUTRA REALIDADE, vivendo uma relação sexual com seu pai…


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No fundo a gente tem tesão pelo superego

Em uma de suas “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” intitulada “A Dissecção da Personalidade Psíquica”, Freud diz o seguinte:

“Abandonando o complexo de Édipo, uma criança deve, conforme podemos ver, renunciar às intensas catexias objetais que depositou em seus pais, e é como compensação por essa perda de objetos que existe uma intensificação tão grande das identificações com seus pais, as quais provavelmente há muito estiveram presentes em seu ego”.

Esse trecho se encontra na parte do texto em que Freud está explicando como se desenvolve o superego.

Quero destacar uma ideia que o autor está apresentando ali e que muitas vezes não recebe a devida atenção quando estamos falando da nossa relação com o superego.

Freud está sustentando nesse trecho que o superego, isto é, a parte do nosso eu que nos observa, nos julga e eventualmente nos pune com o sentimento de culpa, surge, pelo menos em parte, como uma COMPENSAÇÃO pela saída do Édipo.

Em outras palavras, um dos fatores que nos levariam a trazer para dentro de nós (na forma do superego) o monitoramento, as proibições e coerções de nossos pais, seria o fato de não podermos continuar tomando-os como objetos sexuais.

É como se, na formação do superego, a criança dissesse para si: “Já que não posso tê-los como objetos, vou me identificar a eles. Dessa forma, consigo mantê-los para sempre dentro de mim”.

Essa formulação deveria nos fazer enxergar com outros olhos a relação que temos com o superego.

Se ele é, em alguma medida, uma compensação pelo abandono do vínculo incestuoso com os pais, isso significa que, no fundo… a gente tem tesão pelo superego.

Na verdade, isso não deveria nos surpreender tanto visto que, se o superego é “eficaz” em sua tarefa de nos manter “na linha”, é justamente porque gozamos com a obediência a ele.

Para Freud, o fator que leva a criança a submeter-se às coerções de seus pais é o medo de perder o amor deles.

Da mesma forma, quando adultos, não queremos perder o amor do superego, que nada mais é do que papai e mamãe internalizados.

Por isso, podemos nos satisfazer masoquisticamente com a renúncia a certos desejos e até com o sentimento de culpa.

Tudo em nome da nostalgia do amor edipiano…


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Enquanto os obsessivos são nostálgicos do ser, os histéricos são militantes do ter

No clássico (e, infelizmente, esgotado) livro “Estruturas e Clínica Psicanalítica”, Joël Dor propõe a seguinte tese:

“Se pude dizer que os obsessivos são uns NOSTÁLGICOS DO SER, pode-se igualmente dizer que os histéricos são uns MILITANTES DO TER.” (p. 67, gritos do autor).

Para o autor, a gênese das estruturas histérica e obsessiva está diretamente relacionada a certas condições relativamente comuns que podem se apresentar ao sujeito quando criança.

No caso da obsessão, teríamos invariavelmente na infância a relação com um Outro que mantém o sujeito numa posição de objeto suplementar de seu desejo.

Em outras palavras, a criança percebe que o Outro deseja coisas que estão para-além dela, mas entende que essas outras coisas não são suficientes para dar conta do desejo do Outro.

Assim, o sujeito é levado a crer que ocupa uma posição privilegiada junto a esse Outro e que é o seu DEVER mantê-lo sempre satisfeito.

Por isso, o obsessivo teria essa eterna NOSTALGIA DE SER o objeto que não deixa o Outro “a desejar”…

Na histeria, por sua vez, teríamos uma configuração diferente, ligada ao momento da infância em que o sujeito precisa reconhecer que tanto ele quanto o Outro não são completos.

Dependendo do modo como é apresentada a essa “descoberta”, a criança pode ser levada a acreditar que a incompletude não vale para todos e que ela é, na verdade, uma INJUSTIÇA.

Para o histérico, existem alguns Outros que indevidamente possuem o privilégio de serem completos e, por isso, precisam ser “castrados”.

Colocar-se a serviço do Outro, por exemplo, costuma ser uma típica estratégia histérica para manter o Outro castrado: “Se ele precisa de mim, é porque é carente e incompleto. 😌”.

Quanto à sua própria incompletude, o histérico a reconhece, mas a considera, como eu disse acima, uma injustiça.

“Sou incompleto, sim”, ele diz, “mas só porque o Outro me fez assim, privando-me daquilo que me faria inteiro e feliz”.

Por isso, o histérico passa a vida MILITANDO, reivindicando, se queixando daquilo que ele acha que somente uns privilegiados têm, mas que, na verdade, NINGUÉM TEM…


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Diferenças entre eu ideal e ideal do eu em Psicanálise

Eu ideal e ideal do eu são conceitos que costumam causar certa desorientação em quem está começando a estudar a teoria psicanalítica.

São nomes diferentes para a mesma coisa ou se trata de fenômenos distintos?

Ao que parece, para Freud, Idealich (eu ideal) e Ichideal (ideal do eu) eram mais ou menos intercambiáveis.

Foram autores pós-freudianos, como Lacan, por exemplo, que perceberam corretamente que são processos psíquicos diferentes.

De modo geral, passou-se a considerar como o eu ideal a IMAGEM idealizada de nós mesmos que forjamos como compensação pela saída do narcisismo primário.

Deixa eu explicar isso direitinho:

Normalmente, na fase inicial do desenvolvimento que Freud denomina de “narcisismo primário” não existe nenhuma diferença entre aquilo que somos e aquilo que o Outro (os pais) deseja que sejamos.

Até porque, no início da vida, o Outro não tem muitas expectativas sobre nós. Ele nos ama de graça; acha bonitinho e engraçadinho tudo o que fazemos.

Essa situação faz com que o bebê se sinta o ser mais poderoso, lindo e desejado do universo!

Na verdade, não é bem assim: em “condições normais de temperatura e pressão”, quando o Outro faz o seu papel de cuidador direitinho, a gente nem percebe, enquanto bebês, que os pais existem.

Temos a ilusão de que somos nós mesmos quem criamos o seio que nos alimenta simplesmente com a força do nosso desejo de mamar!

Pois bem, essa ilusão de onipotência vivida nesse estado maravilhoso de plenitude em que nos sentimos a única bolacha do pacote… acaba.

Acaba porque, depois de alguns meses, o Outro volta a ter outros interesses para-além de nós e acaba também porque esse Outro, que até então achava tudo o que a gente fazia a coisa mais linda do mundo, começa a…exigir coisas.

Ele passa a pedir, por exemplo, que a gente se conforme a certas regras sociais.

Resultado: a gente começa a ter saudade daquela época em que éramos superpoderosos e plenamente amados sem precisar fazer nada para conseguir isso.

É aí que nasce o eu ideal…

Vamos continuar essa conversa na Confraria Analítica? Quem está na comunidade, receberá ainda hoje uma aula especial sobre a distinção entre eu ideal e ideal do eu.

Te vejo lá!


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Quem tem medo de ser cancelado é um idólatra da própria imagem

Certo Mestre judeu do primeiro século costumava dizer a seus alunos a seguinte máxima:

“Onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração”.

Tal sentença expressa poeticamente o fato evidente de que nossas inclinações espontâneas (aquilo que vem do “coração”) revelam os objetos que mais valorizamos (nosso “tesouro”).

Penso que o medo também é um indicativo igualmente revelador das coisas que mais apreciamos.

Veja-se, por exemplo, o que acontece com pessoas que possuem muito medo de passar vergonha ou serem malvistas.

Não me refiro necessariamente aos tímidos, isto é, a pessoas que tem medo de se exibir.

A propósito, esse receio de aparecer também é muito sintomático, mas não é sobre ele que pretendo falar hoje.

Estou aludindo àqueles indivíduos que até gostam de serem vistos pelo outro, mas buscam desesperadamente evitar a experiência da vergonha, do constrangimento, do feedback negativo.

Embora tais pessoas arrumem mil e uma desculpas para justificar o seu medo, o fato é que ele revela de modo quase cristalino o quanto elas valorizam a própria imagem.

Mas quando digo “a própria imagem” não estou me referindo à imagem que o sujeito tem de si, mas à imagem que ele supõe QUE O OUTRO ENXERGUE.

O medo de passar vergonha evidencia que, para a pessoa que sofre dele, a imagem de si refletida no olhar do outro é um tesouro a ser cuidado, lustrado e protegido.

O Mestre judeu a que me referi no início também comentava com seus alunos que a gente vende tudo para obter algo que consideramos um tesouro.

E assim acontece com o sujeito que valoriza tanto sua imagem nos olhos do outro: ele está disposto a sacrificar tudo, inclusive os próprios desejos, para manter essa imagem intacta.

As redes sociais contemporâneas, com seus mecanismos imediatos de feedback favorecem essa forma de adoecimento naqueles que já são propensos a ela.

Outrora, quem morria de medo de passar vergonha só contava com a própria imaginação para supor como o outro o enxergava.

Hoje, o olhar alheio aparece escancarado em curtidas, reações e comentários…


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A Psicanálise é o melhor antídoto contra o fariseu que habita em nós

Na Psicanálise:

O suposto pessimismo pode se revelar como medo de assumir a responsabilidade pela própria história.

A suposta virtude pode se revelar como tesão disfarçado.

O suposto medo pode se revelar como ódio acovardado.

A suposta crítica imparcial pode se revelar como inveja da liberdade alheia.

A suposta preocupação com o outro pode se revelar como desejo de controle.

A suposta generosidade pode se revelar como desejo de ser amado.

A suposta preocupação com justiça social pode se revelar como ressentimento.

A suposta culpa pode se revelar como vaidade.

A suposta fé pode se revelar como medo de encarar a vida.

O suposto ciúme pode se revelar como desejo recalcado.

A suposta ordem pode se revelar como medo dos próprios impulsos inconfessáveis.

A Psicanálise é o melhor antídoto já inventado para combater o farisaísmo nosso de cada dia.


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O neurótico é feliz. Mas não sabe…

Da série “Postagens antigas que merecem ser repostadas”.


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Neurose, psicose e perversão: uma analogia para entender a diferença

Da série “Postagens antigas que merecem ser respostadas”.


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O indeciso é um medroso

Da série “Postagens antigas que merecem ser respostadas”.


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O que Freud pensava sobre a ansiedade?

A palavra alemã “Angst” já foi traduzida por “angústia”, “ansiedade” e até por “medo” em traduções brasileiras dos textos de Freud.

Eu, pessoalmente, prefiro o termo “ansiedade” por considerar que ele possui uma conotação menos filosófica que “angústia” e mais indeterminada do que “medo”.

No clássico texto “Hemmung, Symptom und Angst” (Inibição, Sintoma e Ansiedade), de 1926, Freud define a ansiedade como uma reação a uma situação de PERIGO, ou seja, uma circunstância que pode acarretar algum tipo de dano ao indivíduo.

O autor faz uma distinção entre ANSIEDADE REALÍSTICA e ANSIEDADE NEURÓTICA.

A primeira seria um sinal que indicaria a consciência de um risco real, externo e objetivamente constatável.

Trata-se da ansiedade que uma pessoa sentiria, por exemplo, ao perceber que o motorista do carro em que se encontra está dirigindo de forma imprudente em alta velocidade.

A ansiedade neurótica, por sua vez, se manifestaria frente a processos INTERNOS que o indivíduo foi levado a INTERPRETAR desde a infância como perigosos.

Que processos são esses?

Trata-se de determinados IMPULSOS — sexuais ou agressivos.

Na infância, o sujeito chega à conclusão de que permitir a expressão desses impulsos implicaria em algum tipo de prejuízo a ele, como a perda de uma parte do corpo (fantasia de castração) ou a perda do amor dos pais.

É o que acontece, por exemplo, com algumas pessoas que ficam extremamente ansiosas em situações de conflito.

A ansiedade não aparece porque elas se sentem ameaçadas pelo outro com quem estão discutindo.

Na verdade, o que de fato as assusta são seus próprios impulsos agressivos, que elas reprimem desde a infância e que, portanto, são vistos como perigosos.

Para Freud, os SINTOMAS são justamente barreiras que nós construímos para evitar essa situação interna de perigo e, consequentemente, o surgimento da ansiedade.

Mas isso é assunto para o vídeo especial que será recebido ainda hoje (quinta-feira) por aqueles que estão na CONFRARIA ANALÍTICA.


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Histeria e obsessão: respostas neuróticas ao desejo do Outro

Originalmente, histeria e neurose obsessiva eram termos que designavam tão-somente transtornos mentais.

Por outro lado, desde o início de sua abordagem dessas patologias, Freud observou que em cada uma delas haveria uma constelação específica de traços de personalidade.

Na histeria, por exemplo, haveria quase sempre uma atitude de repúdio à sexualidade ao passo que na neurose obsessiva normalmente se encontraria, dentre outros traços, um crônico sentimento de culpa.

Lacan, por sua vez, propôs que histeria e neurose obsessiva seriam, na verdade, não apenas categorias psicopatológicas, mas as duas posições subjetivas possíveis para uma pessoa neurótica.

No pensamento de Lacan, o neurótico pode ser pensado como o sujeito que trava sua vida em função da pergunta “O que o Outro deseja?”.

Empacado diante desse problema, o neurótico constrói uma fantasia e passa a viver nela, protegendo-se da constatação de que não há resposta definitiva para aquele mistério.

O obsessivo vive na fantasia de que precisa ser completo, autônomo, tendo tudo sob controle. Para se proteger da questão sobre o desejo do Outro, ele tenta fingir que o Outro não existe.

Daí o desespero em que se vê quando sua parceira se recusa a encarnar o papel de um simples objeto, ou seja, quando resolve se manifestar como uma Outra pessoa de verdade.

A fórmula do amor do obsessivo é “Eu amuminh’a mulher” (amor + múmia). Com efeito, para ele, a mulher ideal é uma mulher… morta.

A histérica, por sua vez, encara de frente a questão do desejo do Outro. Sua saída, no entanto, não é melhor que a do obsessivo:

Na histeria, o sujeito tenta encarnar o objeto que supostamente seria a causa do desejo do Outro.
Percebam: a histérica não quer ser o objeto que satisfaz o Outro. Ela busca se converter no objeto que CAUSA o desejo.

É como se ela pensasse: “Se o Outro deseja, logo eu existo, pois sou exatamente o objeto que o faz desejar”.

Daí sua famosa insatisfação crônica: para ela nunca está bom, está sempre faltando alguma coisa…

Precisa faltar! Encarnando em fantasia o papel de objeto causador do desejo do Outro, a histérica só pode sustentar sua existência se mantiver o Outro num estado perpétuo de carência.


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Batatinha frita 1, 2, 3: o sadismo nosso de cada dia

Na clássica obra “O mal-estar na civilização”, Freud propõe a tese de que a sociedade humana, para sobreviver, exige dos indivíduos a supressão de parte da satisfação de seus impulsos.

Em outras palavras, só podemos viver em sociedade se estivermos dispostos a abrir mão do “direito natural” de fazer tudo o que quisermos.

Por outro lado, Freud também nos ensinou a perceber que aquilo que é suprimido num primeiro momento inevitavelmente reaparece em outro com novas roupagens.

Assim, a parcela de satisfação pulsional à qual renunciamos para viver em sociedade retornaria na forma do mal-estar inerente à vida em comunidade.

A palavra em alemão que Freud utiliza e que costuma ser traduzida por “mal-estar” é Unbehagen, que também pode ser traduzida por “desconforto”.

Trata-se de uma espécie de tensão psíquica básica que funciona como um lembrete das possibilidades de satisfação que a gente decidiu suspender para viver em sociedade.

Por outro lado, estamos sempre buscando formas socialmente aceitas de satisfazer nossos impulsos a fim de mitigar um pouco esse mal-estar.

De fato, a vida civilizada seria absolutamente insuportável se não houvesse “válvulas de escape” para compensar o sacrifício pulsional que cada indivíduo faz.

A cultura do cancelamento, a chamada polarização política e os programas de TV policiais são exemplos contemporâneos dessas válvulas de escape.

Por trás do linchamento virtual a famosos, feitos em nome da moral e dos bons costumes politicamente corretos, o que existe de fato são indivíduos aproveitando a oportunidade para descarregarem seu sadismo reprimido.

Por trás das aparentemente nobres e desinteressadas discussões sobre democracia, distribuição de renda e liberdades individuais temos tão-somente o bom e velho tesão de brigar, que a duras penas aprendemos a suprimir.

E os programas policiais, por sua vez, nada mais são do que veículos socialmente aceitos de satisfação de nossos desejos de vingança e de nosso apetite natural pela violência.

Sim, é também esse gosto por ver o circo pegar fogo (e o palhaço se f****) que nos anima a assistir com júbilo uma série como “Round 6” em que pessoas participam de um jogo estúpido apostando a própria vida.


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