Você está doente para se proteger

Há uma coisa que você PRECISA saber e que talvez nenhum profissional de saúde mental tenha lhe falado até hoje:

Seus problemas emocionais existem para PROTEGÊ-LO.

Sim! Seus episódios depressivos, suas crises de ansiedade, seus pensamentos negativos, sua compulsão alimentar… Tudo isso existe para proteger você.

Eu sei que tal afirmação parece absurda, mas fique tranquilo que vou demonstrá-la.

Primeiramente, você precisa reconhecer dois fatos indiscutíveis:

(1) Todos nós somos seres contraditórios, no sentido de que temos muitas inclinações diferentes, que frequentemente se opõem umas às outras.

(2) Não temos consciência de todas essas inclinações e, portanto, não estamos plenamente conscientes de todos os possíveis conflitos entre elas.

Admitidas essas duas realidades, podemos continuar nossa demonstração:

Essas contradições internas (por exemplo: entre o amor e o ódio que você tem por uma pessoa) geram uma emoção extremamente desagradável: a ANGÚSTIA.

Quando estamos fortes psiquicamente, conseguimos tolerar a angústia e, consequentemente, o conflito que a produz.

Porém, quando nos encontramos num estado de fragilidade emocional, a angústia se apresenta como algo insuportável.

E aí, para evitar o surgimento dela, precisamos empregar defesas psíquicas contra o conflito que a desencadeia.

Pois bem! Nossos sintomas são justamente a EXPRESSÃO VISÍVEL dessas defesas.

— Mas, Lucas, eu não me percebo utilizando defesa nenhuma e também não consigo enxergar nenhum desses conflitos de que você está falando.

OK, mas você lembra que admitiu agora há pouco que nós nem sempre estamos conscientes de nossas inclinações e de possíveis conflitos entre elas?

Na maioria das vezes, todo esse processo que descrevi (conflito -> angústia -> defesas -> adoecimento) acontece inconscientemente.

E é justamente por isso que, para tratar seus problemas emocionais, você precisa de um método terapêutico que lhe permita enxergar essa mecânica inconsciente.

Felizmente, esse método já foi inventado.

Há mais de 100 anos.

O nome dele é Psicanálise.

Você sabe aplicar a teoria psicanalítica na clínica?

Está começando a estudar Psicanálise e sente dificuldade em entender como os conceitos se aplicam na clínica?

Não se preocupe. É natural que isso aconteça. Afinal, há uma quantidade muito maior de trabalhos teóricos do que de casos clínicos na literatura psicanalítica.

Assim, alguns estudantes podem se sentir um pouco perdidos no começo da formação.

Na Confraria Analítica, a minha escola de formação teórica em Psicanálise, nós temos um módulo que ajuda os alunos a fazerem a articulação entre teoria e clínica.

O nome dele é ESTUDOS DE CASOS e contém aulas em que comento casos clínicos reais enviados por membros da escola que já atuam como analistas ou terapeutas.

Nesta sexta-feira, publicamos a vigésima aula deste módulo.

Nela, trabalhamos o caso de André (pseudônimo), um jovem que vem enfrentando problemas no namoro por conta de questões mal resolvidas de sua infância.

O rapaz já foi traído diversas vezes e nutre a fantasia de ser uma bela alma injustiçada a quem é negado o amor idealizado que supostamente merece.

Prisioneiro dessa dinâmica, André esgota sua namorada e sua analista com demandas insaciáveis.

Este caso demonstra nitidamente a aplicação de conceitos como fantasia, identificação projetiva, transferência, contratransferência, dentre outros.

O título da aula é “ESTUDOS DE CASOS 20 – André e o complexo de caçula”.

Para ter acesso a ela, às 19 aulas anteriores do módulo ESTUDOS DE CASOS e a todo o nosso acervo de mais de 500 horas de aulas, faça parte da Confraria.

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Por que não adianta só tratar o sintoma?

Na Psicanálise, nós não traçamos como objetivo primário do tratamento a remoção de sintomas e inibições, mas a elaboração de fantasias e angústias.

SINTOMA é aquilo que você faz (ou que se faz em você), mas que não queria que acontecesse. Por exemplo: permanecer num relacionamento tóxico.

INIBIÇÃO é aquilo que você não consegue (ou não se permite) fazer, mas queria. Por exemplo: não ser capaz de fazer apresentações em público.

Sintomas e inibições são expressões visíveis de FANTASIAS — as quais podem ser mais ou menos conscientes.

As fantasias, por sua vez, são construções imaginárias que surgem em nós como forma de proteção contra a ANGÚSTIA.

Vejamos o exemplo de Beatriz, uma moça de 24 anos que não se sentia suficientemente amada pelo pai na infância.

Para se proteger da angústia gerada por essa frustração, ela construiu a fantasia de que conquistaria o amor paterno se fosse obediente e submissa, como a mãe.

Não adiantou nada.

Mesmo sendo boazinha e dócil, Beatriz continuou se sentindo pouco amada pelo pai.

Por isso, na adolescência, acabou transferindo inconscientemente a fantasia para a relação com Valmir, seu primeiro namorado, um sujeito ciumento e muito violento.

Apesar de agredir verbalmente a moça e traí-la diversas vezes, o rapaz nunca quis terminar o namoro.

— Eu nunca vou te deixar, Bia.

Beatriz interpretava inconscientemente isso como sinal de que era verdadeiramente amada por Valmir e, por isso, não conseguia terminar com ele.

Percebeu?

A FANTASIA de conquistar o amor paterno pela via da submissão materna era o que estava na raiz do SINTOMA da moça (permanência num relacionamento tóxico).

Se Beatriz simplesmente rompesse com o namorado sem atravessar essa fantasia, ela se sentiria extremamente angustiada e insegura.

E aí, para se proteger, provavelmente transferiria a fantasia para outra pessoa, dando início a mais um ciclo de dependência emocional.

Moral da história:

Como psicanalistas, nossa luta não é contra sintomas e inibições.

Mas, sim, contra as fantasias e angústias encobertas no mundo interno de nossos pacientes — porque é ali que a verdadeira mudança acontece.


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Vício em conteúdo adulto: quando o prazer esconde uma fuga

Ele tentou de tudo, mas não conseguia parar. Seu recorde foram dois meses.

— Não dá. Eu não dou conta de ficar sem fazer isso…

Assim Marcos concluiu a longa descrição de seu vício em se tocar assistindo a conteúdo adulto na internet.

Fernanda, a psicanalista que o escutava naquela tarde, disse que havia entendido e pediu que ele falasse sobre sua vida de forma geral.

O rapaz tinha 25 anos, namorava Isabela há três e começou a consumir conteúdo adulto em meados da adolescência.

— Meus pais trabalhavam fora. Então, tinha dia que eu passava a tarde inteira vendo vídeos e me tocando.

Os dois meses em que Marcos conseguiu ficar sem fazer isso foram justamente os dois primeiros meses de namoro.

Ele estava tão apaixonado por Isabela que não sentia a menor vontade de se tocar.

Porém, pouco a pouco o vício foi sendo retomado e acabou se fortalecendo depois que o casal começou a se desentender.

— Já houve vezes em que eu preferi ir ao banheiro me tocar do que aceitar o convite dela para fazermos amor.

À medida que o paciente narrava sua história, Fernanda percebia que o consumo de conteúdo adulto tinha uma função defensiva para Marcos.

— Tem alguma técnica que você pode me passar para parar com isso de uma vez?, perguntou o rapaz ao final da sessão.

Após alguns segundos em silêncio, a analista respondeu:

— Nenhuma técnica vai funcionar enquanto você não entender do que está fugindo, Marcos. E enquanto não se tornar forte o bastante para parar de fugir.

O paciente ficou um pouco surpreso e abaixou a cabeça.

Fernanda entendeu que aquele era um momento oportuno para encerrar e o fez agendando a próxima sessão para a semana seguinte.

Sim, o consumo compulsivo de conteúdo adulto é fuga, é defesa, é recusa de uma realidade que PARECE ameaçadora.

Se você quer saber mais sobre isso — e ajudar seus pacientes —, assista à aula “P0rn0𝓰rafıa, Psicanálise e Neurociência Afetiva”, publicada hoje na Confraria Analítica.

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Discordo de Viviane Mosé: doença psíquica não é só uma “diferença”

Recentemente, Viviane Mosé disse, em entrevista ao programa “Sem Censura”, que, do ponto de vista dela, não existem doenças psíquicas, mas apenas “diferenças”.

Segundo ela, a categoria “doença” é utilizada ideologicamente para patologizar certas configurações subjetivas que não se encaixam “na ordem social”.

Este argumento me parece facilmente refutável.

Tomemos, por exemplo, o caso de pessoas que são viciadas em apostas.

Elas comprometem seu patrimônio, usam o jogo para fugirem de emoções negativas, sentem-se irritadas e inquietas quando tentam parar de apostar etc.

Ora, ninguém em sã consciência diria que essas pessoas não estão doentes.

Não obstante, o comportamento delas está perfeitamente encaixado na “ordem social”.

Com efeito, existem milhares de casas de apostas que obtêm lucros exorbitantes justamente graças a tais viciados. Sem eles, muitas delas entrariam em falência.

Ou seja, o vício em aposta é um comportamento que reconhecemos como doentio e que, apesar disso, está inteiramente em harmonia com a “ordem social” vigente.

É verdade que existem certas configurações subjetivas que talvez não deveriam ser chamadas de “doenças”, mas reconhecidas simplesmente como “diferenças”.

É bastante sustentável, por exemplo, a tese de que muitos casos de autismo podem ser considerados tão-somente como formas diferentes de lidar com o mundo.

O grande problema da fala de Viviane é que ela é GENERALIZADORA, colocando situações muito díspares no mesmo balaio:

Uma criança que é só um pouco mais desatenta do que a maioria e recebe o rótulo de TDAH e uma pessoa gravemente deprimida que pensa em tirar a própria vida.

Para Viviane, nos dois casos estamos falando apenas de “diferenças”.

Eu, por outro lado, defendo que só o primeiro caso deve ser classificado como uma mera diferença. Para o segundo, devemos, sim, preservar a categoria de doença.

Uma pessoa que pensa o dia todo em não mais existir deve, sim, ser reconhecida como doente, justamente para que seja incentivada a buscar tratamento.

Reconhecer o sofrimento como doença não é estigmatizar — é abrir caminho para o cuidado.


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Entenda a clínica da não neurose

Todo bebê vem ao mundo com necessidades emocionais muito básicas, que precisam ser atendidas para que ele tenha o mínimo de estabilidade psíquica.

Todo criança precisa, por exemplo, de segurança, confiabilidade, previsibilidade, validação, limites, incentivo gradual à autonomia etc.

Nada de extraordinário.

Apenas o pacote básico que qualquer família minimamente funcional consegue oferecer.

Pessoas que tiveram essas necessidades atendidas desenvolvem um eu suficientemente forte para lidar com os desafios da vida.

Os pacientes que a Psicanálise nomeia como “neuróticos” fazem parte desse grupo.

Se recorrem a sintomas e inibições para fugirem da angústia, é porque têm estrutura para isso — porque contam com uma base psíquica mínima que os sustenta.

Mas nem todos tiveram essa sorte.

Existe uma grande (e crescente) quantidade de pacientes que não tiveram suas necessidades infantis básicas acolhidas.

O que se desenvolve, nesses casos, é um eu fragmentado, machucado, mutilado — que não consegue nem mesmo organizar uma neurose.

Em vez disso, tais pessoas se abrigam em um falso eu: rígido, defensivo, duro, como um casco de tartaruga.

É a única saída que eles encontram para protegerem o frágil, ferido e VERDADEIRO eu, que não foi minimamente bem acolhido na infância.

Esses pacientes precisam muito mais de cuidado, presença e apoio do que de interpretações, pontuações e cortes.

Por não poderem se dar ao “luxo” de fugir para a neurose, nós os chamamos de NÃO NEURÓTICOS.

Na aula publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, você vai entender como manejar casos assim, a partir da leitura de Donald Winnicott.

O título da aula é: “LENDO WINNICOTT #11 – Diretrizes clínicas para o manejo de não neuróticos” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – WINNICOTT.

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O psicanalista não pode ser um superego gourmet

Existe uma sorrateira erva daninha que precisa ser arrancada do jardim psicanalítico.

Estou me referindo a uma espécie de moralismo velado que frequentemente se faz presente em nossa prática.

Ele se manifesta, por exemplo, no uso banalizado da controversa expressão “bancar o próprio desejo” ou de uma frase erroneamente atribuída a Freud:

“Qual a sua parte na desordem de que se queixa?”

Muitas vezes, tais formulações são utilizadas para fundamentar intervenções psicanalíticas que são piores do que as mais severas condenações superegoicas.

A pessoa vai fazer análise porque não está conseguindo sair sozinha de uma condição de sofrimento e, em vez de cuidado, o que recebe são imperativos:

“Responsabilize-se por sua parte nessa desordem!”

“Banque seu desejo!”

Eu sei que nenhum bom analista falaria isso, mas — na prática — infelizmente, essas incitações estão na base da conduta clínica de muitos profissionais.

Esta é uma das razões pelas quais muitas pessoas dizem que “não aguentam” fazer análise.

Pudera!

Se em vez de encontrar um terapeuta que vai te ajudar, você se depara com um “superego gourmet”, é natural que o processo acabe sendo insuportável mesmo.

Nós, analistas, não podemos nos esquecer que estamos lidando com pessoas fragilizadas, emocionalmente feridas, que precisam acima de tudo de CUIDADO.

Se o paciente não reconhece “sua responsabilidade na desordem da qual se queixa”, não é por má-fé que ele age assim.

É porque não dá conta, porque PRECISA se defender acusando o outro.

Se o paciente não “banca seu desejo”, não é por covardia. É porque ele ainda não tem força egoica, segurança, confiança suficientes para fazer isso.

Nesse sentido, nosso objetivo na análise não deve ser o de simplesmente instigar os pacientes a serem mais honestos, responsáveis e corajosos.

Na verdade, devemos ajudá-los, com sensibilidade, paciência e solidariedade a se tornarem mais FORTES para poderem, naturalmente, renunciar a suas defesas.

Você já foi atendido por um analista que agia como superego gourmet?


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O psicanalista precisa ter três ouvidos

Tradicionalmente, nós, psicanalistas, aprendemos que nossa principal ferramenta de trabalho é a escuta.

Por isso, temos uma tendência a focar nossa atenção (flutuante, diga-se de passagem) àquilo que o paciente DIZ durante a sessão.

É com base nesse material verbal que normalmente formulamos nossas hipóteses e interpretações.

Assim, se alguém nos perguntasse: “Por que você fez tal intervenção?”, poderíamos responder: “Porque o paciente me falou tais e tais coisas”.

Tudo isso está correto. Porém, a experiência comunicativa que estabelecemos com nossos analisandos não se reduz a essa troca verbal.

Frequentemente, nos flagramos pensando ou sentindo certas coisas em relação ao paciente que não conseguimos remeter diretamente a algo que ele tenha dito.

Às vezes, é o MODO como o sujeito fala, seu tom de voz ou a postura específica que adota diante de nós o “gatilho” que nos induz a certas hipóteses ou sensações.

É aí que entra o que Theodor Reik chamou de “terceiro ouvido”: uma escuta mais sutil, quase intuitiva — que toca o inconsciente antes mesmo da fala.

Quer entender melhor esse conceito e ver exemplos práticos de como isso aparece nas sessões?

Então, assista à aula “Theodor Reik e o terceiro ouvido“, publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

A aula já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS.

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Você está sabotando seu processo terapêutico?

Nos anos finais da década de 1910, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi estava insatisfeito com o processo terapêutico de alguns pacientes.

Para além das conhecidas e naturais resistências, parecia haver algum obstáculo adicional que os impedia de avançarem no trabalho de análise.

Ah, para quem não sabe:

Ferenczi foi um dos principais nomes da primeira geração de analistas, fez análise com Freud e produziu grandes contribuições para a teoria e a técnica da Psicanálise.

Voltando ao assunto: incomodado, o médico decidiu sair da posição passiva em que o psicanalista geralmente fica no tratamento a fim de testar uma hipótese.

Ferenczi suspeitava que certos comportamentos daqueles pacientes, dentro e fora do consultório, tinham a ver com a falta de evolução deles.

Por isso, começou a propor mudanças concretas no comportamento, sugerindo ações a serem feitas ou evitadas.

Ele poderia, por exemplo, pedir a uma paciente para se expor a uma situação que lhe causava medo ou se esforçar para evitar um ato compulsivo.

Ferenczi acreditava que tais comportamentos (evitação e compulsão) poderiam ser formas que a analisanda encontrava para fugir do confronto com suas fantasias.

Nesse sentido, se ela seguisse suas recomendações, isso interromperia o movimento de fuga e a terapia voltaria a progredir.

Afinal, não tendo mais “válvulas de escape”, a paciente não teria alternativa a não ser trabalhar suas fantasias em análise.

Essa chamada “técnica ativa” deu certo?

Sim, Ferenczi conseguiu destravar o processo terapêutico de muitos pacientes fazendo isso.

Algum tempo depois, o médico acabou abandonando o método por achar que ele fazia o paciente ficar muito submisso ao analista.

Todavia, o experimento ferencziano nos deixou uma lição importantíssima:

A de que, muitas vezes, nós não evoluímos na terapia porque, sem perceber, sabotamos o trabalho de elaboração que fazemos no setting analítico.

Talvez, se não tomarmos a decisão consciente de abandonar certos hábitos, mesmo sentindo angústia, corremos o risco de passar 30 anos no divã e avançar muito pouco.


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“E a fórmula mais geral que lhes dou da sublimação é esta — ela eleva um objeto […] à dignidade da Coisa” (Jacques Lacan)

Lacan disse isso na oitava lição de seu seminário do ano acadêmico de 1959-1960, intitulado “A ética da Psicanálise”.

Ao dizer que, na sublimação, estamos fazendo um ato de ELEVAÇÃO, Lacan está se remetendo ao próprio significado de “sublime”.

Com efeito, essa palavra designa justamente algo grandioso, alto, ELEVADO.

Ora, segundo a fórmula do autor, o elemento sublime em questão seria a tal da “Coisa”.

Pelo que podemos deduzir, os ‘objetos’ seriam, a priori, inferiores ou, talvez, exteriores ao lugar onde estaria essa Coisa.

Porém, na sublimação, nós conseguiríamos ELEVAR um desses objetos ao patamar da Coisa, de modo que ele passaria a gozar da mesma dignidade que ela tem.

Como podemos articular essa ideia à concepção original de sublimação proposta por Freud? Lembremos que Lacan se dizia freudiano…

Na obra de Freud, a sublimação aparece como uma forma dessexualizada e socialmente valiosa de satisfação de um impulso sexual.

Em vez de mostrar seu corpo nu para pessoas aleatórias na rua, o sujeito se torna ator e, assim, satisfaz sua pulsão exibicionista — eis um exemplo de sublimação.

Veja: essa pessoa está usando uma atividade (a atuação) não só como um simples trabalho, mas como um meio de satisfação pulsional.

Ela está, portanto, colocando sua profissão, diria Lacan, em um patamar mais elevado, o patamar do desejo, o patamar da Coisa…

— Mas, afinal de contas, Lucas, o que é essa tal de Coisa?

Bem, ao vincularmos a fórmula de Lacan à concepção freudiana, já aprendemos que a Coisa tem a ver com desejo e satisfação pulsional, certo?

Mas se você quer saber mais, eu o convido a assistir à aula publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, minha escola de formação teórica em Psicanálise.

O título dela é “CONCEITOS BÁSICOS 23 – Sublimação” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – CONCEITOS BÁSICOS.

Nela eu abordo a concepção freudiana de sublimação e trago as contribuições não só de Lacan, mas também de Klein e Winnicott para o entendimento desse conceito.

Acesse este link e junte-se à Confraria.


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Você está se punindo sem saber?

Geralmente, ao pensarmos no inconsciente freudiano, imaginamos uma parte da mente onde se encontram aqueles desejos que consideramos proibidos.

Ora, essa não é uma imagem falsa, mas é incompleta.

De fato, o inconsciente é uma dimensão do psiquismo que abriga aquilo que a gente quer, mas não consegue admitir que quer.

Todas aquelas suas fantasias “indecorosas”, mas profundamente satisfatórias, estão lá, alimentando sintomas e inibições, já que não podem ser reconhecidas.

Todavia, nem só de desejos reprimidos vive o inconsciente.

Os elementos que provocam a repressão, ou seja, autojulgamentos morais, também podem estar lá.

Freud expressou essa descoberta, em seus próprios termos, lá no início da década de 1920, ao dizer que grande parte do superego é inconsciente.

Superego foi o nome que Freud deu pra essa voz moral que vive dentro da gente — e que nasce, principalmente, das broncas, censuras e lições que ouvimos na infância.

Ora, eventualmente, a gente percebe essa dimensão moral em ação, quando, por exemplo, nos condenamos por ter feito algo ou censuramos certos desejos.

Porém, muitas vezes, o superego opera silenciosamente, de forma inconsciente, e nós só temos acesso aos “produtos” dessa atividade.

É o que acontece, por exemplo, quando não sabemos porque nos sentimos culpados ou quando nos flagramos em um franco processo de autossabotagem.

Se seu superego detecta que você fez (ou desejou fazer) algo que vai contra as suas próprias convicções morais, ele pode, muito bem, levá-lo a se punir.

Sim! Conscientemente você pode estar lá, de boa, mas, inconscientemente, pode estar se condenando severamente — e implorando para ser punido.

Aí, de repente, você percebe que está se boicotando, se prejudicando e não entende o motivo.

Parece até puro masoquismo, mas é só você se punindo sem saber…

A Psicanálise, portanto, não descobriu apenas que os seres humanos são mais “safados” do que nossa tradição hipócrita nos levou a pensar.

Ela mostrou também que, no fundo, até o mais liberal entre nós carrega um pequeno moralista escondido — pronto pra julgar, censurar… e punir.


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Entenda por que a aliança de trabalho é essencial na Psicanálise

Geralmente, quando pensamos na relação entre analista e paciente, a primeira palavra que nos vem à mente é TRANSFERÊNCIA.

Muitas pessoas, inclusive, não entendem corretamente esse conceito e o reduzem simplesmente à confiança que o analisando deposita no terapeuta.

Na verdade, a transferência acontece quando o sujeito traz para a relação com o analista sentimentos, fantasias, desejos etc. que originalmente estavam vinculados a figuras significativas da sua história.

Trata-se, portanto, de um fenômeno muito mais amplo do que um mero vínculo de confiança.

Por outro lado, nem só de transferência vive a dupla analítica.

Sendo a Psicanálise um tratamento COLABORATIVO, é essencial que se estabeleça uma PARCERIA entre analista e analisando.

Trata-se de um acordo tácito, em que ambas as partes se comprometem com seus papéis no processo analítico.

Se, por exemplo, o terapeuta não exercer a atenção flutuante e o paciente não estiver disposto a fazer associação livre, a análise se torna praticamente inviável.

Em 1965, o psicanalista norte-americano Ralph Greenson propôs o termo “aliança de trabalho” para nomear essa parceria entre analista e analisando.

No artigo “The Working Alliance and the Transference Neurosis”, ele descreve as condições necessárias para a formação desse tipo de vínculo.

E na aula especial publicada hoje na CONFRARIA ANALÍTICA, eu comento esse texto e explico didaticamente o significado e a importância da aliança de trabalho.

O título da aula é “O papel crucial da aliança de trabalho na clínica” e ela já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS.

A Confraria é hoje a maior e mais acessível escola de formação em teoria psicanalítica do Brasil, com um acervo de mais de 500 horas de conteúdo.

Venha entender por que, sem aliança de trabalho, não há análise de verdade.


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A criança que você foi está sempre assumindo o controle?

Um dos traços mais marcantes da maturidade psíquica é a capacidade de suportar emoções negativas sem buscar formas rápidas de eliminá-las.

Um sujeito emocionalmente maduro consegue sentir muita raiva, por exemplo, e não recorrer a atos violentos para “descarregar” esse afeto.

Veja: essa pessoa não está “reprimindo” sua agressividade. Como eu disse, ela se SENTE zangada. A emoção está lá, totalmente consciente.

A questão é que o indivíduo maduro possui força psíquica suficiente para aguentar o tranco de seus estados emocionais.

Pessoas emocionalmente imaturas, por outro lado, encaram suas emoções negativas como perigos internos e, por isso, querem fugir delas por meio de atos impulsivos.

Um sujeito imaturo acometido pela culpa, por exemplo, fará tudo o que estiver imediatamente a seu alcance para deixar de se sentir culpado.

Ele não conseguirá PENSAR sobre as razões que produziram aquele afeto, pois seu psiquismo é muito frágil para suportar o peso do estado emocional.

Essa pessoa, então, poderá tomar uma série de decisões precipitadas com o único objetivo de dissipar o mais rápido possível a aflição gerada pelo sentimento de culpa.

Metaforicamente, podemos dizer que, na hora em que a emoção negativa vem, o indivíduo imaturo tira as mãos do volante e o entrega à criança que ele foi.

— Como assim, Lucas?

É simples:

Todos nós abrigamos em nosso mundo interno a criança que fomos.

Quando tal criança não foi muito machucada pelo ambiente, ela sobrevive no adulto como uma fonte de vitalidade e criatividade que não atrapalha o amadurecimento.

Porém, quando a criança que fomos não teve tanta sorte, ela permanece em nós como uma tendência para a fragilidade e a infantilidade.

Esta é a sina do sujeito emocionalmente imaturo:

A criança assustada que foi está sempre pronta para tomar o controle de suas ações e levá-lo a se comportar de forma impulsiva e precipitada, ou seja, de modo infantil.

Um dos objetivos da terapia psicanalítica é mostrar a essa criança que não há mais motivo para tanto medo e que, portanto, ela não precisa mais assumir o volante.


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Você busca o outro apenas como um meio de satisfação?

No artigo “Os instintos [pulsões] e suas vicissitudes”, Freud afirma o seguinte:

“O objeto do instinto [pulsão] é aquele com o qual ou pelo qual o instinto [pulsão] pode alcançar a sua meta. É o que mais varia no instinto, não estando originalmente ligado a ele, mas lhe sendo subordinado apenas devido à sua propriedade de tornar possível a satisfação.”

Este trecho deixa claro que, para ele, o objeto investido pela pulsão seria tão-somente um MEIO para alcançar a satisfação.

Por “satisfação”, entenda-se “descarga”, pois Freud concebia a pulsão como uma excitação que brota no corpo e gera um estado tensão no aparelho psíquico.

Ou seja, buscamos objetos (pessoas, coisas ou até nós mesmos) para aliviar essa tensão.

Assim, se você tem um namorado, por exemplo, esse vínculo teria sido formado, essencialmente, para que vocês pudessem usar um ao outro como meios de satisfação.

Mas essa visão fazia sentido diante da realidade clínica?

O psicanalista escocês Ronald Fairbairn achava que não.

Ao observar quantas pessoas permanecem em relações extremamente insatisfatórias, ele propôs uma nova ideia:

O objeto não seria apenas um meio, mas o próprio alvo da pulsão.

Ou seja, investimos libido não apenas para descarregar tensão, mas para nos vincularmos ao outro.

Quer entender melhor essa concepção de Fairbairn e as críticas que ele faz às ideias de Freud?

Na aula que acaba de ser publicada na CONFRARIA ANALÍTICA, explico essa mudança de perspectiva e suas implicações clínicas.

O título dela é “Fairbairn e sua crítica à visão freudiana da libido” e já está disponível no módulo AULAS TEMÁTICAS – TEMAS VARIADOS.

Para se tornar nosso aluno e ter acesso a essa aula e a todo o nosso acervo de mais de 500 horas de conteúdo, acesse o linque que está no meu perfil.


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Nosso nome é Legião, porque somos muitos

Há uma passagem muito conhecida do Evangelho, em que Jesus vai à província de Gadara e é abordado por um sujeito endemoninhado.

Ao ser questionado a respeito de como se chamava, o “espírito imundo” responde dizendo: “Legião é o meu nome, porque somos muitos”.

O tal demônio, portanto, era, na verdade, uma espécie de conglomerado de vários demônios.

Afinal, “legião” era um agrupamento militar romano composto por milhares de soldados.

Pois bem… A resposta que o diabo deu a Jesus poderia estar na boca de cada um de nós.

De fato, nós também “somos muitos”.

Esta é uma das descobertas mais fascinantes da Psicanálise.

Embora você se identifique com UM nome e se perceba conscientemente como UMA pessoa, essa ideia de unidade é apenas uma impressão ilusória.

Quantas vezes, por exemplo, você já não olhou para certas coisas que fez e pensou algo mais ou menos assim: “Como será que eu pude agir daquela forma?”.

Frequentemente, temos essa sensação de não nos reconhecermos em certos comportamentos e dizemos: “Eu não sei onde estava com a cabeça…”.

Sem falar nas vezes em que travamos verdadeiras guerras interiores, brigando com nossa consciência ou com certos desejos.

Mas não existe evidência maior de que o nosso eu é muito mais uma legião do que um in-divíduo do que a linguagem dos sonhos.

Uma das premissas que mais nos ajudam a interpretar sonhos é a de que as pessoas que neles aparecem muitas vezes são representações de partes de nós mesmos.

Então você sonha com um amigo te dando uma bronca, por exemplo, e ele pode muito bem estar simbolizando seu superego.

Ou você pode sonhar de repente que está começando a namorar alguém e isso estar representando seu desejo de integrar duas partes suas que estão em conflito.

A constatação de que nosso nome é Legião — porque somos muitos — nos liberta da tirania da coerência.

Queremos X, mas também podemos querer o oposto de X.

Um lado seu quer partir, outro quer ficar.

Parte da arte de viver consiste em aprender a aceitar essa inelutável ambiguidade.

Por isso, ao contrário do que muita gente imagina, a gente não faz análise para descobrir nosso verdadeiro desejo.

Porque se o Eu é Legião, nossos “verdadeiros” desejos também são muitos.


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