Não lute contra si mesmo. Nessa guerra, você sempre vai sair perdendo.

Existem alguns conceitos psicanalíticos que, por refletirem a experiência humana com muita precisão, acabam sendo incorporados ao senso comum.

Um deles é a noção de DEFESA.

Freud formulou esse conceito lá no final do século XIX para explicar o que lhe parecia estar na gênese de certas formas de adoecimento psíquico.

Seguindo a trilha indicada pelo discurso de seus pacientes, o pai da Psicanálise percebeu que havia na mente de todos eles um profundo CONFLITO.

Conflito entre o que almejavam ser e o que verdadeiramente eram ou, dito de outra forma, entre seus ideais e seus desejos.

Freud percebeu que a doença da qual padecia o paciente era justamente o DESFECHO desse conflito.

Afinal, o paciente ficava do lado dos ideais e virava as costas para seus desejos.

Resultado: os desejos se rebelavam e se expressavam à revelia da vontade do sujeito por meio da doença.

Essa constatação levou Freud a postular a tese de que as neuroses são causadas essencialmente por um processo de… DEFESA:

O paciente adoece porque SE DEFENDE dos próprios desejos.

Hoje em dia essa ideia já não provoca reações de espanto.

A popularização do discurso psicanalítico nos tornou habituados à noção de defesa como um mecanismo que frequentemente utilizamos em relação a nós mesmos.

Por razões ligadas à nossa história de vida, podemos encarar certas partes de quem somos como coisas perigosas, ameaçadoras, desestabilizadoras.

Assim, adotamos uma postura “autoimune”: desperdiçamos energia construindo barreiras de proteção contra nós mesmos.

Às vezes, elas são resistentes e “funcionam” até bem, pois nos colocam em conformidade com imperativos sociais, culturais, econômicos, morais…

O problema é que a vida fica sem graça, entediante e com aquele mal-estar difuso que sinaliza a presença potente e intensa dos desejos contidos.

Em outros casos, as barreiras de defesa são mais frágeis e não suportam a força impetuosa do desejo.

E aí o sujeito é obrigado a recorrer à doença — último recurso para evitar olhar para essa parte de si mesmo que ele insiste em querer extirpar.


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Todo sonho é a realização de um desejo?

Outro dia alguém me perguntou na caixinha do Instagram se os psicanalistas ainda trabalham com a ideia de que todo sonho sempre expressa um desejo.

Essa pessoa estava fazendo referência à conhecida tese que Freud propõe no livro “A Interpretação dos Sonhos”:

“Quando o trabalho de interpretação se conclui, percebemos que o sonho é a realização de um desejo.” (última frase do capítulo II do livro)

Pois bem… Minha opinião é a de que o pai da Psicanálise incorreu em uma generalização excessiva.

De fato, é inegável que muitos sonhos expressem de modo disfarçado a realização de desejos, especialmente aqueles que se encontram reprimidos no Inconsciente.

Admito, inclusive, que seja possível vincular todo e qualquer sonho (como qualquer outro conteúdo psíquico) a desejos dessa ordem.

Afinal, a mente humana é uma imensa rede de ideias articuladas.

Contudo, não me parece útil, especialmente na clínica, olhar para o sonho de um paciente buscando encontrar o desejo que supostamente estaria em jogo.

Na minha experiência (que vai ao encontro do que observo na literatura psicanalítica), o sonho funciona mais como um RETRATO SIMBÓLICO.

Sim, um retrato simbólico do que está se passando no psiquismo do sujeito.

Um paciente obsessivo, por exemplo, ao iniciar um novo relacionamento, sonha que sua casa está sendo invadida e, na sequência, que ela está sendo demolida.

Ora, nesse sonho não assistimos à realização de um desejo (a não ser que se queira forçar muito a barra no processo interpretativo).

Pelo contrário: o que está sendo simbolizado é justamente o MEDO que o sujeito tem do próprio desejo, visto como algo invasivo, ameaçador e potencialmente destrutivo.

Por isso, do meu ponto de vista, deveríamos valorizar mais os seguintes aspectos das descobertas de Freud sobre as produções oníricas:

(1) A descrição dos mecanismos simbólicos de formação dos sonhos;

(2) A demonstração de que os sonhos sempre fazem referência ao que está acontecendo inconscientemente com o sujeito;

(3) A ênfase na ideia de que todo sonho pode ser interpretado.


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A gente faz Psicanálise para descobrir e bancar o nosso próprio padrão.

O que fazer quando desejamos nos comportar de certa forma, mas não conseguimos?

Deixe-me dar um exemplo.

Vamos supor que você é psicóloga e decidiu divulgar o seu trabalho nas redes sociais.

O problema é que, apesar de já ter feito vários cursos, você simplesmente não consegue “engrenar”: faz uma postagem aqui e ali, mas fica dias sem publicar nada.

O que fazer nesse caso?

Bem… Você pode contratar a mentoria de algum influenciador que vai lhe ensinar estratégias para ser mais criativa e eficiente na produção de conteúdo.

Você também pode fazer terapia com um psicólogo comportamental ou cognitivo-comportamental que vai lhe ajudar a ter mais disciplina e constância.

Em qualquer das duas situações, sua demanda de conseguir ter uma presença digital consistente será naturalmente aceita e o profissional em questão procurará atendê-la.

Mas se você for ao encontro de um psicanalista, as coisas serão diferentes.

Para começo de conversa, numa terapia psicanalítica, a própria vontade de conseguir produzir conteúdo para as redes sociais será colocada em questão.

A sua dificuldade de se engajar nesse trabalho não será tomada como um simples “déficit de habilidades” que pode ser superado por um processo de aprendizagem.

Um analista não olhará para você como uma máquina que apresenta um defeito ou precisa de um “upgrade”.

Na Psicanálise, o buraco é mais embaixo.

O fato de você não postar com frequência será tomado pelo analista como o indício de que PODE haver em seu psiquismo um CONFLITO entre querer e não querer aparecer nas redes sociais.

Apostando nessa hipótese que respeita a complexidade da subjetividade humana, o terapeuta NÃO se dedicará a “resolver” o seu problema.

Sim! Porque, em princípio, se trata de um SUPOSTO problema.

Será que você verdadeiramente DESEJA divulgar seu trabalho nas redes sociais?

E, se deseja, será que deveria fazer isso da forma como os influenciadores X ou Y dizem que é o correto a ser feito?

Essas são algumas perguntas que um bom processo de análise levaria você a se fazer.

Em vez de ajudá-la a se encaixar nos padrões supostamente evidentes da cultura contemporânea, a Psicanálise vai encorajá-la a descobrir e bancar o SEU próprio padrão.


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[Vídeo] Qual é a sua hybris?


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Ícaro quis voar mais alto do que podia. E você?

A lenda grega de Ícaro é bastante conhecida. Mas, se você nunca ouviu falar a respeito, deixa eu te contar rapidinho:

Ícaro era um rapaz que ficou preso com seu pai, Dédalo, num labirinto na ilha de Creta, feito pelo próprio Dédalo para encarcerar o monstro Minotauro.

A fim de escapar do local, o pai de Ícaro produziu, tanto para si quanto para o filho, um par de asas feitas de penas e cera.

Dédalo advertiu o rapaz a não voar muito alto a fim de que o calor do sol não derretesse a cera e acabasse fazendo as asas se desmancharem no ar.

Ícaro, porém, gostou TANTO da sensação de voar, se sentiu tão autoconfiante, que acabou desobedecendo as recomendações do pai e… voou alto demais.

Resultado: suas asas derreteram e o coitado acabou morrendo afogado após cair no mar Egeu.

A história de Ícaro serve como ilustração para a noção de “hybris” que os gregos antigos utilizavam para designar uma atitude exagerada, que ultrapassa os limites apropriados.

O filho de Dédalo poderia muito bem ter curtido aquela gostosa sensação de voar sem transgredir a advertência do pai.

Mas o rapaz não se satisfez com esse gozo limitado, contido, moderado. Ele se deixou levar pela hybris: “Só um pouquinho mais alto, eu dou conta, não vai acontecer nada…”.

Eu diria que a hybris acontece quando, ao invés de desejar, somos tomados por nossos desejos, de tal modo que eles passam a nos governar de modo tirânico.

Perceba: o problema de Ícaro não era o seu prazer de voar, mas o fato de de que ele não foi capaz de colocar limites para esse prazer, tornando-se escravo dele.

Na minha experiência clínica, às vezes me deparo com pacientes que adoram estar na posição de objeto da alegria alheia.

São pessoas que sentem muito prazer em ajudar os outros, fazer favores para eles, presenteá-los etc.

Ou seja, o indivíduo se sente bem ao perceber que fez outra pessoa se sentir bem.

O problema é que muitos sujeitos com esse perfil gostam DEMAIS de estar nessa posição, o que os leva a desrespeitarem os próprios limites.

Eles acabam se prejudicando significativamente porque não conseguem controlar a ânsia de serem fonte de alegria para os outros.

Esta é a hybris desses pacientes.

Qual é a sua?


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[Vídeo] Você vive de maneira criativa?

Esta é uma pequena fatia da aula especial “LENDO WINNICOTT #06 – Criatividade: uma conquista fundamental para a saúde emocional”, que já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – WINNICOTT” da CONFRARIA ANALÍTICA.


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[Vídeo] O obsessivo não se autoriza frente ao próprio desejo

Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “ESTUDOS DE CASOS 04 – Jonas: um obsessivo fugindo do próprio desejo”, que já está disponível no módulo “ESTUDOS DE CASOS” da CONFRARIA ANALÍTICA.


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O neurótico morre de medo do próprio desejo

Um dos traços mais característicos de um neurótico é a defesa em relação ao próprio desejo.

O termo “desejo” é uma categoria ampla que engloba os anseios que temos espontaneamente e que, não raro, exigem o rompimento com uma situação já estabelecida.

O neurótico é essencialmente alguém que tende a se conformar às situações já estabelecidas justamente porque tem medo do próprio desejo.

Assim, em vez de realizar aquilo que deseja, ele se frustra deliberadamente (é o que se passa na histeria) ou adia eternamente a satisfação do desejo (como ocorre na neurose obsessiva).

Isso não acontece por acaso.

Se o neurótico tem medo do próprio desejo é porque o enxerga como PERIGOSO.

Essa interpretação equivocada pode ser construída por várias razões:

O sujeito pode ser levado a encarar seu desejo como algo ameaçador porque, na infância, teve sua sexualidade (expressão primária do desejo) explorada por um adulto abus4dor.

O desejo também pode ser visto como perigoso por conta de um contexto familiar excessivamente repressor, que leva o sujeito a olhar para seus anseios espontâneos sempre como “pecaminosos”.

E há também aqueles neuróticos que foram levados, na infância, a ter medo do desejo em função de um ambiente muito invasivo e controlador, que simplesmente não lhes PERMITIA desejar.

Foi isso o que aconteceu com Jonas, um servidor público que não se permite sair do emprego que considera medíocre e nem se separar da esposa, com quem mantém uma relação de dependência.

Como não consegue bancar o próprio desejo, ele sofre com um estado constante de ansiedade ao mesmo tempo em que se queixa de apatia e falta de espontaneidade.

O caso de Jonas foi apresentado por uma de nossas alunas da CONFRARIA ANALÍTICA e foi comentado por mim na AULA ESPECIAL publicada nesta sexta-feira na nossa escola.

Nessa história clínica, podemos enxergar com muita clareza como se manifesta a defesa em relação ao próprio desejo na neurose obsessiva.

O título da aula é “ESTUDOS DE CASOS 04 – Jonas: um obsessivo fugindo do próprio desejo” e já está disponível na CONFRARIA no módulo “ESTUDOS DE CASOS”.


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[Vídeo] O histérico busca a insatisfação

Esta é uma pequena fatia da AULA ESPECIAL “A histérica e seu desejo insatisfeito”, que já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS” da CONFRARIA ANALÍTICA.


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A histérica e seu caso de amor com a insatisfação

Fabíola, uma professora de 37 anos, está em análise com Vanessa desde 2021.

Inicialmente, a principal queixa apresentada pela docente era o excesso de ansiedade que experimentava quando lecionava nas turmas do Ensino Médio.

Logo nos primeiros meses de terapia, essa tensão exagerada diminuiu conforme Fabíola foi elaborando as lembranças de certos eventos ocorridos quando ela própria estava na adolescência.

Entusiasmada com a significativa melhora e tendo desenvolvido um forte vínculo de confiança com Vanessa, a paciente decidiu continuar a análise e passou a falar de outras questões.

O principal problema agora era a vida s3xual com o marido.

A professora se queixa de que ele age de forma fria e distante na maior parte do tempo e só se torna carinhoso quando deseja ter relações com ela.

— … e aí eu corto as asinhas dele! — disse ela numa sessão recente — Tá pensando que eu sou o quê? Um depósito? Não… Ele que vá dormir na vontade!

— Mas… E você? — disse a terapeuta em tom bem-humorado — Acaba dormindo na vontade também, né?

— Nem sempre… Na maioria das vezes eu não estou muito a fim, mas tem dia que eu quero mesmo.

— E você cede à procura dele nesses dias em que está com vontade?

— Depende de como ele se comportou durante o dia. Se tiver me tratado com aquele jeitão gelado dele, eu posso estar subindo pelas paredes que não faço nada!

— Mas agindo assim você está deliberadamente se privando de experimentar prazer, não? — provocou a analista.

— Sim, Vanessa, mas isso eu aguento… O que eu não suporto é ser tratada que nem uma boneca inflável!

— E como seu marido reage quando você se nega a tr4nsar?

— Ele fica aflito, coitado! — diz Fabíola com uma leve risada — Pede desculpa, fala que vai ser diferente, chega a implorar! Porém, eu não cedo… Ele tem que aprender!

— Mas, cá pra nós, a sua prova é bem difícil, né professora? — provoca Vanessa encerrando a sessão.

Como você pôde perceber, essa paciente parece ter um verdadeiro caso de amor com a INSATISFAÇÃO — tanto a sua quanto a do marido.

Essa é uma das características mais marcantes da HISTERIA.

E é sobre ela que falaremos em HUMANÊS na AULA ESPECIAL de hoje na CONFRARIA ANALÍTICA.

O título da aula é “AULA ESPECIAL – A histérica e seu desejo insatisfeito” e ela já está disponível no módulo “AULAS ESPECIAIS – TEMAS VARIADOS”.


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[Vídeo] Você tem medo do próprio desejo?

Só nos sentimos ansiosos porque conseguimos imaginar um possível contato futuro com situações que consideramos perigosas – ainda que tais situações sejam inconscientemente desejadas…


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[Vídeo] Você perdeu a capacidade de desejar?

Há pessoas que passam tanto tempo de suas vidas submissas àquilo que em psicanálise nós costumamos chamar de “desejo do Outro” que gradualmente vão perdendo a própria capacidade de desejar.


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Você vive no sufoco?


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[Vídeo] A vida “perfeita” do Instagram e nossa falta estrutural

Blogueiras e influenciadores exploram nossa falta estrutural com sua suposta vida “perfeita” e reforçam nossa sensação natural de insatisfação.


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[Vídeo] O analista deve deixar a desejar

Esta é uma pequena fatia da aula especial “CONCEITOS BÁSICOS 17 – Objeto a”, já disponível para quem está na CONFRARIA ANALÍTICA.


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