A origem da crença no “pensamento positivo”

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A crença de que pelo nosso mero pensar seremos capazes de fazer a realidade “conspirar” a nosso favor não é nova na história da humanidade. Outrora associada ao favor de deuses e outras entidades sobrenaturais, atualmente essa crença assume uma roupagem pseudocientífica em livros como “O Segredo”.

De acordo com os gurus do “pensamento positivo” todos nós temos a capacidade de alterar a realidade em nosso benefício, sem precisar necessariamente agir sobre ela. Até gente que se diz cristã e que supostamente têm fé num Deus da graça que não exige sacrifícios de nenhuma natureza embarcam nessa espécie de fé na própria fé.

Um psicanalista contemporâneo de Freud chamado Sándor Ferenczi tem uma explicação muito interessante para essa história de “Mentaliza que dá certo.”. Segundo ele, todos nós já passamos por um estágio do desenvolvimento psíquico em que acreditávamos piamente que tínhamos a capacidade de modificar a realidade apenas com nossos pensamentos. Ferenczi chamou essa fase de “período dos pensamentos e palavras mágicas”. Tal estágio ocorre no momento em que estamos começando a aprender a falar. Trata-se de um momento epifânico para a criança, pois ela percebe que não precisa mais chorar ou gestos para ser atendido pelo ambiente em suas necessidades. Basta emitir determinados sons de uma determinada maneira. É mais econômico!

Por outro lado, ao mesmo tempo em que aprendemos a falar, vamos aprendendo também a pensar com palavras, de modo que ao experimentarmos uma determinada necessidade passamos a articular mentalmente as palavras ou “quase-palavras” que precisaremos emitir para sermos atendidos. No entanto, o ambiente, especialmente aquele composto por pessoas cuidadosas, acolhedoras e empáticas, raramente precisa esperar que o bebê fale ou balbucie para que suas necessidades sejam atendidas. O ambiente suficientemente bom, como diria Winnicott, meio que “adivinha” prontamente as necessidades do bebê. Conclusão: a criança inevitavelmente passa a acreditar que foram os seus pensamentos que levaram o ambiente a atendê-la. Ferenczi chamou essa crença de “ilusão de onipotência”.

Nesse sentido, a tese do “pensamento positivo” seria, portanto, a expressão coletiva (ainda que racionalizada ou com uma roupagem religiosa) de uma regressão a esse estágio do desenvolvimento psíquico. Como Ferenczi mostra no artigo “O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios“, que está no volume II das suas Obras Completas, o desenvolvimento do bebê prossegue na direção do reconhecimento da realidade externa como uma dimensão autônoma em relação aos seus pensamentos. Em outras palavras, nós gradativamente vamos nos dando conta de que não basta “mentalizar” para que as coisas aconteçam. É necessário falar, agir e, não raro, resignar-se e ter paciência, pois nem sempre será possível alcançar o que desejamos.

Dependendo do ambiente no qual foram criadas, certas crianças demorarão mais ou menos para reconhecerem essa independência do mundo externo. Assim, aquelas pessoas que foram muito “mimadas” na infância, ou seja, que não precisaram se esforçar muito para terem suas necessidades atendidas e, portanto, tiveram mais resistência para abandonar a crença na força de seus pensamentos, podem se tornar excessivamente otimistas, indolentes e não terem muito discernimento acerca da quantidade de esforço necessário para alcançarem seus objetivos. Por outro lado, aquelas que foram educadas num ambiente excessivamente duro ou hostil podem desenvolver um pessimismo crônico e tornarem-se céticos, desconfiados e sem esperança em relação ao mundo e à sua própria potência. Ambos os casos caracterizam quadros de imaturidade emocional.

Mas voltando diretamente ao tema do “pensamento positivo”, podemos caracterizá-lo à luz da interpretação proposta por Ferenczi como uma recusa infantil à aceitação da realidade como autônoma e uma regressão à ilusão de onipotência própria do bebê. O recrudescimento dessa crença na atualidade pode ser atribuído, talvez, a uma dificuldade generalizada de lidar com uma realidade tão mutante e não raro caótica que caracteriza o mundo contemporâneo.

Antes de encerrar este artigo quero deixar claro que não estou advogando em favor de uma atitude pretensamente fria e objetiva diante da vida, até porque tal postura é impossível de ser adotada integralmente (a não ser por sociopatas, provavelmente). Parece-me óbvio que uma postura de confiança na nossa própria capacidade e de “torcida” por nós mesmos é saudável e, inclusive, nos ajuda a alcançar nossas metas. Afinal, é plausível supor que uma pessoa autoconfiante e que acredita verdadeiramente que é capaz de obter o emprego desejado terá muito mais probabilidade de ser aprovado num processo seletivo do que alguém que participa do mesmo processo com um medo enorme de não ser selecionado. No primeiro caso temos uma pessoa com BOM ÂNIMO e AUTOCONFIANÇA; não se trata de “pensamento positivo”. O indivíduo não está depositando sua fé numa suposta conspiração do universo a seu favor, mas sim em suas próprias competências.

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O que é complexo de Édipo? (parte 1)

Sem dúvida, ao lado de “inconsciente”, a noção de complexo de Édipo talvez seja o conceito freudiano que mais tenha se incorporado ao senso comum. E talvez seja essa a razão de muitos mal-entendidos quanto ao significado do termo. Nessa explicação, passarei deliberadamente ao largo da história grega de Édipo, a qual inspirou Freud na elaboração do conceito. Basta que o leitor saiba que Édipo foi um cara que, sem saber, se casou com a própria mãe e, também sem saber, acabou matando o próprio pai. Como você verá adiante, isso mostra que o próprio Édipo não teve complexo de Édipo porquanto tenha realizado o desejo que gera o complexo justamente por ter não poder ser levado a cabo.

Primeiramente são necessárias algumas palavras sobre o termo “complexo”. Ele foi criado por Jung (que durante algum tempo foi o discípulo predileto de Freud). Jung, que era psiquiatra, mesmo antes de conhecer a psicanálise, praticava um experimento com seus pacientes que consistia em enunciar diversas palavras para o doente e esse, a cada palavra enunciada, deveria responder com outra. Durante esse processo, alguns sinais corporais do sujeito, como batimento cardíaco, eram monitorados, bem como o tempo que o paciente gastava para responder às palavras. Jung percebia que perante alguns grupos de palavras os pacientes demoravam mais tempo para responder e/ou suas funções vitais ficavam mais alteradas. Jung compreendeu tais resultados da seguinte forma: quando tais palavras eram enunciadas, provavelmente elas eram associadas com outras representações mentais ligadas a lembranças ou pensamentos aflitivos – daí a alteração no tempo de resposta e nas funções vitais. Assim, esse grupo de representações articuladas em torno de um núcleo comum angustiante foi chamado por Jung de complexo.

Freud passou a utilizar o termo mais ou menos no mesmo sentido. Logo, a rigor o complexo de Édipo se refere a um conjunto de representações mentais interconectadas pela referência ao conflito edipiano. É esse conflito que vamos abordar. Para Freud, é a forma como cada um de nós dá um encaminhamento para ele que está na base de nossos relacionamentos com todo o mundo, seja com a namorada, com o marido, com os amigos ou com o presidente da república. Na tentativa de deixar a psicanálise mais em sintonia com a lingüística e a antropologia estruturais, disciplinas de vanguarda nos anos 50, Lacan dirá que o modo como lidamos com o conflito edipiano resulta numa estrutura. Sim, estrutura. A idéia é a mesma daquela estrutura que os engenheiros fazem no início da construção de um edifício, ou seja, é aquilo que dá a diretriz de como a construção será feita. O prédio pode ser azul, verde, branco, pode ser feito com tijolos de barro ou com blocos de concreto, mas sua estrutura não pode variar. Assim também, podemos mudar de país, de idade, de estilo, de amigos, de esposa, de marido, que, mesmo assim, nossa estrutura básica de relacionamento com o mundo e nosso modo de nos conduzirmos quanto a nossa sexualidade, vai permanecer o mesmo ao longo de toda a vida. E essa estrutura é definida no conflito edipiano.

Para não terminarmos esse post no vazio, vamos deixar claro desde já o cenário onde se desenrola o Édipo (a partir deste momento passarei a utilizar esse termo em vez de “conflito edipiano”): pois bem, temos um menininho por volta dos seus cinco anos de vida e que possui nesse momento duas pessoas realmente significativas em sua existência: seu pai e sua mãe. Ele adora o aconchego do colo materno, lembra-se com extrema saudade do tempo em que em vez da mamadeira, era nos seios da mãe que ele se saciava, do tempo em que ela com toda a paciência lhe limpava, de modo que agora ele sente um prazer enorme em ficar junto dela. Mesmo que lá na escolinha seja divertido, ele adora quando o sinal toca e já é hora de voltar pra casa e reencontrá-la. O menininho também tem feito algumas descobertas em seu próprio corpo. Sem querer acabou percebendo que tocando de uma determinada forma no “piupiu”, como a mãe lhe disse que se chamava, ele sente uma sensação muito gostosa que dá vontade de repetir. Do outro lado do palco, temos o pai, aquele estranho ser que sempre corta o barato do menininho. No momento em que esse mais gostaria de estar com a mãe, à noite, na cama dela, quem está lá é ele, o pai. Assim, esse sujeito é a pedra no sapato do menininho. “Como seria bom se ele desaparecesse…” pensa o garoto.

CONTINUA…

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