O que é complexo de Édipo? (parte 1)

Sem dúvida, ao lado de “inconsciente”, a noção de complexo de Édipo talvez seja o conceito freudiano que mais tenha se incorporado ao senso comum. E talvez seja essa a razão de muitos mal-entendidos quanto ao significado do termo. Nessa explicação, passarei deliberadamente ao largo da história grega de Édipo, a qual inspirou Freud na elaboração do conceito. Basta que o leitor saiba que Édipo foi um cara que, sem saber, se casou com a própria mãe e, também sem saber, acabou matando o próprio pai. Como você verá adiante, isso mostra que o próprio Édipo não teve complexo de Édipo porquanto tenha realizado o desejo que gera o complexo justamente por ter não poder ser levado a cabo.

Primeiramente são necessárias algumas palavras sobre o termo “complexo”. Ele foi criado por Jung (que durante algum tempo foi o discípulo predileto de Freud). Jung, que era psiquiatra, mesmo antes de conhecer a psicanálise, praticava um experimento com seus pacientes que consistia em enunciar diversas palavras para o doente e esse, a cada palavra enunciada, deveria responder com outra. Durante esse processo, alguns sinais corporais do sujeito, como batimento cardíaco, eram monitorados, bem como o tempo que o paciente gastava para responder às palavras. Jung percebia que perante alguns grupos de palavras os pacientes demoravam mais tempo para responder e/ou suas funções vitais ficavam mais alteradas. Jung compreendeu tais resultados da seguinte forma: quando tais palavras eram enunciadas, provavelmente elas eram associadas com outras representações mentais ligadas a lembranças ou pensamentos aflitivos – daí a alteração no tempo de resposta e nas funções vitais. Assim, esse grupo de representações articuladas em torno de um núcleo comum angustiante foi chamado por Jung de complexo.

Freud passou a utilizar o termo mais ou menos no mesmo sentido. Logo, a rigor o complexo de Édipo se refere a um conjunto de representações mentais interconectadas pela referência ao conflito edipiano. É esse conflito que vamos abordar. Para Freud, é a forma como cada um de nós dá um encaminhamento para ele que está na base de nossos relacionamentos com todo o mundo, seja com a namorada, com o marido, com os amigos ou com o presidente da república. Na tentativa de deixar a psicanálise mais em sintonia com a lingüística e a antropologia estruturais, disciplinas de vanguarda nos anos 50, Lacan dirá que o modo como lidamos com o conflito edipiano resulta numa estrutura. Sim, estrutura. A idéia é a mesma daquela estrutura que os engenheiros fazem no início da construção de um edifício, ou seja, é aquilo que dá a diretriz de como a construção será feita. O prédio pode ser azul, verde, branco, pode ser feito com tijolos de barro ou com blocos de concreto, mas sua estrutura não pode variar. Assim também, podemos mudar de país, de idade, de estilo, de amigos, de esposa, de marido, que, mesmo assim, nossa estrutura básica de relacionamento com o mundo e nosso modo de nos conduzirmos quanto a nossa sexualidade, vai permanecer o mesmo ao longo de toda a vida. E essa estrutura é definida no conflito edipiano.

Para não terminarmos esse post no vazio, vamos deixar claro desde já o cenário onde se desenrola o Édipo (a partir deste momento passarei a utilizar esse termo em vez de “conflito edipiano”): pois bem, temos um menininho por volta dos seus cinco anos de vida e que possui nesse momento duas pessoas realmente significativas em sua existência: seu pai e sua mãe. Ele adora o aconchego do colo materno, lembra-se com extrema saudade do tempo em que em vez da mamadeira, era nos seios da mãe que ele se saciava, do tempo em que ela com toda a paciência lhe limpava, de modo que agora ele sente um prazer enorme em ficar junto dela. Mesmo que lá na escolinha seja divertido, ele adora quando o sinal toca e já é hora de voltar pra casa e reencontrá-la. O menininho também tem feito algumas descobertas em seu próprio corpo. Sem querer acabou percebendo que tocando de uma determinada forma no “piupiu”, como a mãe lhe disse que se chamava, ele sente uma sensação muito gostosa que dá vontade de repetir. Do outro lado do palco, temos o pai, aquele estranho ser que sempre corta o barato do menininho. No momento em que esse mais gostaria de estar com a mãe, à noite, na cama dela, quem está lá é ele, o pai. Assim, esse sujeito é a pedra no sapato do menininho. “Como seria bom se ele desaparecesse…” pensa o garoto.

CONTINUA…

Sugestões de leitura:

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20 comentários sobre “O que é complexo de Édipo? (parte 1)

  1. Saudações de Portugal

    Gostei muito do seu artigo e do blog em geral. Visite o meu se estiver interessado. Dá-me permissão para adicionar o seu site aos meus links?

    Com os melhores cumprimentos,
    Cláudio

  2. Olá Cláudio. Pode adicioná-lo sim, certamente.

    Obrigado pela visita!

    Apareça sempre!

  3. Legal Lucas, ultilizo esse tema nas reuniões com os pais das crianças e adolescentes com o qual trabalho e com essa mesma linguagem ascessível. Vou aguardar o restante de sua proposta, profissionalmente sera bastante aproveitavel! Abraços meu caro!

  4. Olá Sandra! Considero extremamente que os pais tenham acesso a essa informação para que possam compreender melhor esse momento decisivo na vida das crianças e fornecer um ambiente suficientemente bom.

    Fique no aguardo. Acho que não demora a sair a parte 2.

    Abraços!

  5. Pingback: Reflexões no Divã » Blog Archive » O que é complexo de Édipo? (parte 1)

  6. Lucas, Parabens pelo post! Como psicologa, penso que conseguiu transformar um assunto extremamente técnico num artigo de Facil compreensão! Tomei a liberdade de cita-lo no meu site, com as devidas referencias. Quando vem a segunda parte?
    Abracos, Carla Feijoo

  7. Olá Carla! Fique sempre à vontade para citar os posts. Por conta da correria de fim de semestre no mestrado devo atrasar um pouco a publicação da segunda parte, mas não demorará muito a sair.

    Apareça sempre!

    Grande abraço!

  8. “como seria bom que ele desaparecesse…”, disse o garoto para a mamãe… E completou: “igual ao vovô mamãe, ele podia viajar e nunca mais voltar!”. A mamãe, que pensa que sabe da morte mais que o garotinho, se assusta com o impulso homicida descoberto no filho (do que em breve se esquecerá, idealizando-o como um anjo), e lhe dirije alguma forma de reprimenda… começa o complexo de castração…

    desculpa a intrusão… é que eu gostei da leitura, e as palavras continuaram no meu cerebrim…

  9. Grande RZ! Fique sempre à vontade! A idéia do blog é exatamente de proporcionar uma interlocução e não uma mera divulgação de idéias! E sua “intrusão” (rs) veio a calhar. Vou desenvolvê-la um pouco mais adiante. Pelo visto a explicação do Édipo vai ter umas 4 partes. É muita coisa.

    Abração!

  10. Grande Lucas!
    Material limpo e super didático! Você está mandando cada vez melhor seus textos! Parabéns!

  11. Grande Léo! Vindo de alguém que trabalha com design educacional, esses elogios valem em dobro!

    Abração!

    Apareça sempre!

  12. oi lucas estou fazendo um trabalho sobre as contribuições da psicanalise para a avaliação psicopedagógica. sou estudante de pedagogia vc poderia mi mandar algumas explicações sobre esse assunto. boa tarde. meu email é akabyank@hotmail.com
    des de já muito obrigado

  13. Olá Maria de Fátima. Obrigado pela visita ao site. Infelizmente, não possuo tempo disponível para lhe enviar explicações a respeito do referido tema. Sugiro que você faça uma pesquisa na internet. Estou certo que encontrará inúmeros artigos.

    Um grande abraço e apareça sempre!

  14. Pingback: Por que muitos adolescentes atravessam uma fase de excessiva timidez em relação ao sexo oposto? | Lucas Nápoli

  15. Pingback: O que é Nome-do-Pai? | Lucas Nápoli

  16. Pingback: Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 1) | Lucas Nápoli

  17. Lucas, estou encantada com seu site. Estou fazendo pós em teoria psicanalítica e muitos termos estão parecendo a princípio estranhos no meu entendimento. Porém seu site esclarece muitas coisas. Estou aguardando ANCIOSA pela continuação desse termo. Agradecida.

  18. Pingback: O que é complexo de Édipo? (parte 2) | Lucas Nápoli

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