“Ganhar neném”

normal_Cassatt-Mary-Mother-Holding-Her-BabyVocê já notou que muitas pessoas utilizam a expressão “ganhar neném” para se referirem ao ato de conceber uma criança? Apesar de ouvi-la com muita frequência aqui em Minas Gerais, onde resido, acredito que ela seja empregada em todo o país. A psicanálise nos ensina que as produções culturais – entre as quais se incluem os ditos populares – jamais se mantêm ao longo da história por acaso. É a capacidade de expressarem conteúdos inconscientes compartilhados socialmente o elemento que leva algumas delas a se perpetuarem e serem transmitidas entre gerações. Esse parece ser o caso da expressão “ganhar neném”.

Uma conclusão evidente que pode ser extraída dessa expressão pela simples consideração de seu enunciado é a de que nela o bebê é encarado como algo que se ganha, ou seja, um presente, uma dádiva, um dom. À primeira vista pode parecer que não há nenhum significado mais profundo que possa ser colhido daí. Afinal, as mães que conscientemente desejaram ficar grávidas amiúde sentem o nascimento de seus filhos de fato como uma dádiva. Aliás, no caso de pessoas muito religiosas, o filho frequentemente é recebido como uma graça divina. O que haveria de extraordinário nisso?

Em primeiro lugar, o fato de que o bebê seja visto como um dom não me parece uma ideia tão natural assim. Se levarmos em conta que, para ter um filho, uma mulher experimenta durante os nove meses de gravidez uma série de desconfortos e sofrimentos bem como fortes dores na hora do parto, o mais natural seria encarar o nascimento do bebê como um produto que demandou muito esforço para ser elaborado e não como uma dádiva! Presente é aquilo que recebemos gratuitamente, sem que precisemos trabalhar para consegui-lo. Aparentemente, esse não seria o caso dos bebês, os quais, como eu disse, só vêm ao mundo depois de um árduo trabalho. A propósito, não é por acaso que se utiliza a expressão “trabalho de parto”.

Portanto, a ideia de que o bebê é um presente e não um produto ou uma conquista não pode ser fruto da experiência de gravidez. Sua origem deve ser buscada alhures. Fundamentado na teoria psicanalítica, defendo e pretendo demonstrar aqui a hipótese de que a expressão “ganhar neném” guarda, na verdade, um significado inconsciente que está relacionado ao lugar que o filho tende a ocupar na subjetividade feminina.

Complexo de castração

Através das análises que empreendeu, Freud pôde ter acesso a uma série de ideias e fantasias de seus pacientes relacionadas ao problema da diferença sexual entre homens e mulheres. A esse conjunto de conteúdos psíquicos, o pai da psicanálise deu o nome de “complexo de castração”. Freud observou que a diferença entre os sexos torna-se uma questão especialmente relevante para os indivíduos durante certo período da infância. O complexo de castração seria justamente uma tentativa de resposta para o problema. Quais são as ideias e fantasias que compõem o complexo de castração?

Aproximadamente aos 2 ou 3 anos, ansiosos por entenderem por que razão seus corpos seriam diferentes, meninos e meninas elaborariam algumas hipóteses. Entre os meninos, a teoria mais comum seria a de que as meninas, assim como eles, também teriam nascido com pênis. Contudo, por alguma razão, os membros delas teriam sido cortados – sinal de que os deles também poderiam ser. Já entre as meninas, duas teorias se sucederiam. Na primeira delas havia a crença de que o pênis que ainda não possuíam iria crescer à medida que o tempo passasse. Como a realidade acabava por refutar essa ideia, outra teoria lhe dava lugar: a de que teriam nascido castradas mesmo e que a culpa desse infortúnio seria de suas mães que lhes teriam concebido assim, “com defeito”. Em consequência, de acordo com as observações de Freud, as meninas tenderiam a desenvolver uma inveja do pênis dos meninos. Esses, em contrapartida, passariam a ter medo de se tornarem como elas, ou seja, seres castrados.

É preciso entender com precisão o que Freud pretende efetivamente transmitir ao dizer que após o complexo de castração, as meninas passam a sentir uma “inveja do pênis” dos meninos. Nos textos que dizem respeito a esse tema, Freud faz questão de frisar que o que está sendo invejado não é de fato o órgão genital masculino, mas o que ele representa para a criança que está ocupada com o problema da diferença entre os sexos. Para essa criança, o pênis funciona como o único atributo de diferenciação. Em decorrência, o fato de estar presente apenas nos meninos leva intuitivamente ambos os sexos à suposição de uma superioridade masculina, posto que a ausência do pênis nas meninas indicaria uma deficiência. É óbvio que se trata de uma fantasia que certamente recebe influências da ideologia patriarcal. Entretanto, a natureza fantasística dessas ideias não impede que elas produzam efeitos reais sobre a constituição da subjetividade. Na medida em que o pênis é tomado como o elemento que dá completude ao corpo masculino e que, ausente na mulher, a faz incompleta, pode-se interpretar o que Freud chama de “inveja do pênis” como a busca da mulher por algo que ela acredita que será capaz de restituir sua completude. A esse “algo”, Freud preferiu dar o nome de “falo” porque ele não precisa ser necessariamente um pênis, mas alguma coisa que possa exercer a mesma função de completude que a mulher um dia acreditou que o pênis exerceria para os homens.

Compensação

Ora, o que a experiência psicanalítica atesta é que grande parte das mulheres toma justamente o filho como esse objeto capaz de proporcionar-lhes essa completude imaginária! Em outras palavras, muitas mulheres investem seus filhos de uma significação fálica, tomando-os, na fantasia, como objetos capazes de torná-las completas. No limite, o bebê passa a servir de consolo para a falta de pênis. É como se a natureza, essa mãe primordial de todos nós, tivesse “corrigido” o erro de constituir as mulheres sem pênis, presenteando-as com filhos. Não estaria aí a origem da expressão “ganhar neném”?

A criança é percebida como algo que se ganha justamente porque na fantasia de boa parte das mulheres ela advém como compensação por uma suposta privação de outrora. Dito de outra forma, é como se a expressão condensasse um enunciado inconsciente mais ou menos assim: “Quando eu nasci, a mamãe natureza não me presenteou com um pênis, fazendo com que eu me sentisse incompleta e ficasse com uma baita inveja dos meninos, os quais foram todos agraciados com o membro. No entanto, qual não foi minha surpresa quando, ao ficar adulta, recebi a dádiva de poder gestar em meu ventre não um mero órgão, mas uma pessoa inteira! Eis que a natureza ao invés de me brindar com um pênis, me presenteou com um bebê! Eu, que achava que nunca poderia ser completa como os meninos!”.

Livro narra depoimento de um pai sobre os sinais de autismo

Giovani era o bebê que todos os pais gostariam de ter. Falo dos pais contemporâneos que se dividem entre o trabalho, o cuidado dos filhos e seus projetos pessoais. Calmo, silencioso e com pouca propensão a chorar, Giovani era capaz de passar horas brincando sozinho, folheando um livro ou vendo televisão sem solicitar a atenção de seus pais. Em outras palavras, diferentemente da maioria das crianças, o garoto pouco demandava de seus pais, produzindo neles uma sensação de conforto e tranquilidade bastante atípica para quem estava cuidando de um bebê com poucos meses de vida. Essa sensação, todavia, não durou muito tempo.

Seu pai, Francisco Paiva Junior, dono de uma aguçada capacidade de observação própria da profissão de jornalista, logo notou que além de ser excessivamente calmo para um bebê, Giovani apresentava outros comportamentos que o distinguiam da maioria das crianças: não utilizava os brinquedos de acordo com a função para a qual haviam sido feitos (carrinhos, por exemplo, eram jogados ou chutados como bolas); repetia durante um bom tempo uma mesma ação, como levantar até a altura do rosto uma peça de um jogo de montar e depois deixá-la cair; dificilmente atendia ao ser chamado por seu nome; não olhava nos olhos de ninguém etc.

Graças à Internet, Paiva Junior pôde ter acesso a informações que o levaram a suspeitar do que poderia estar acontecendo com seu filho e – o que é o mais importante – buscar ajuda especializada. Pesquisando acerca dos comportamentos atípicos de Giovani, o jornalista descobriu que o filho poderia ser autista.

Diferentemente do que o público leigo imagina, o autismo não é uma categoria diagnóstica que comporta apenas uma única caracterização sintomatológica. Dito de outro modo, indivíduos com autismo não são todos iguais. Fala-se no campo psicopatológico, de um espectro autista, ou seja, de uma faixa que comporta vários níveis e graus de autismo. Nesse sentido, há casos leves, moderados e graves de autismo, com sintomatologias específicas em cada um dos níveis. O elemento comum que permite designar os diferentes quadros nosológicos como autismo é a existência de um atraso no desenvolvimento das funções de comunicação e socialização, o que caracteriza essa psicopatologia como um transtorno global do desenvolvimento (TGD).

Em “AUTISMO: não espere, aja logo! Depoimentos de um pai sobre os sinais de autismo” (M.Books, 2012, 132 páginas, R$39), o jornalista Paiva Junior corajosamente narra todo o percurso que vai desde o complicado parto de seu filho Giovani, passando pelo recebimento do diagnóstico de autismo, até o começo do tratamento do filho. Não se trata, porém, de um relato destinado a satisfazer a curiosidade que grande parte das pessoas sente em relação aos comportamentos de uma pessoa autista.

O interesse de Paiva Junior é utilizar o caso de Giovani como ilustração para a necessidade que os pais têm de estarem atentos aos comportamentos de seus filhos a fim de que, caso haja a suspeita de autismo, o diagnóstico seja feito o mais precocemente possível para que se inicie imediatamente o tratamento.

Paiva Junior, ao longo de todo o livro, insiste no seguinte ponto: tanto pais quanto profissionais, ao perceberem qualquer sinal que possa indicar que a criança seja autista, não devem ficar na expectativa de que o tempo lhes vá trazer a confirmação da suspeita. Muitas vezes, o tempo de espera poderia ter sido utilizado para a concretização do tratamento caso o diagnóstico de autismo fosse efetivamente feito. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores serão as chances de que os comprometimentos nas áreas de comunicação e socialização do indivíduo sejam minimizados.

Giovani, como o leitor pode notar ao longo do livro, não apresentava sinais muito evidentes de que fosse uma criança autista. Tanto é que uma pediatra a quem os pais foram consultar no início, disse que os comportamentos atípicos do garoto eram apenas traços de sua personalidade, que “aquele era o jeito dele”.

Se não fosse pelo insistente (e saudável) desejo do pai de compreender o que de fato se passava com seu filho, Giovani só teria sido diagnosticado com autismo muitos anos depois, quando muitos dos problemas já teriam se agravado. Paiva Junior e sua esposa buscaram a ajuda de um neuropediatra (que, inclusive, escreve o prefácio do livro) e dele obtiveram a resposta que tanto esperavam e que ao mesmo tempo temiam: o diagnóstico de autismo.

Aliás, a reação dos pais diante da confirmação do diagnóstico é outro ponto bastante enfatizado no livro. Paiva Junior, através de uma descrição íntima e direta da experiência que vivenciou com a esposa, mostra que a negação é a primeira resposta da maioria dos pais diante do diagnóstico de autismo. Muitos se recusam a acreditar no que ouvem do médico e, por conta disso, acabam procrastinando o início do tratamento. O que está em jogo é a perda da imagem do filho perfeito que todos os pais idealizam para seus descendentes e da qual muitos resistem a se desfazer.

O livro ainda traz os casos de outras crianças autistas e suas famílias, abordando a descoberta dos sinais, a confirmação do diagnóstico e a reação dos familiares. Tais relatos foram fornecidos por pais que faziam parte de listas de discussão sobre autismo na internet das quais Paiva Junior participa. O jornalista, aliás, tem contribuído ativamente para o processo de propagação de conhecimento acerca do autismo. Em 2010, criou a Revista Autismo, gratuita e sem fins lucrativos, que se dedica a disseminar informação sobre o transtorno, colaborando para a desconstrução das imagens preconceituosas ainda existentes sobre o indivíduo autista.

A M.BOOKS, editora responsável pela publicação do livro, disponibilizou um exemplar da obra para presentear um dos leitores. O escolhido será aquele que elaborar o comentário mais criativo e bem fundamentado acerca do tema AUTISMO. Sugestões: história do conceito de autismo; como o autismo tem sido visto pela psicologia e pela psicanálise; teorias sobre a causalidade do autismo; a inclusão do indivíduo autista na sociedade etc. A intenção é transformar o espaço de comentários em um pequeno mural de informações a respeito do tema. O dono do comentário mais criativo e bem fundamentado receberá o livro diretamente em sua casa. Não se esqueça de inserir seu nome completo e email.