Enquanto os obsessivos são nostálgicos do ser, os histéricos são militantes do ter

No clássico (e, infelizmente, esgotado) livro “Estruturas e Clínica Psicanalítica”, Joël Dor propõe a seguinte tese:

“Se pude dizer que os obsessivos são uns NOSTÁLGICOS DO SER, pode-se igualmente dizer que os histéricos são uns MILITANTES DO TER.” (p. 67, gritos do autor).

Para o autor, a gênese das estruturas histérica e obsessiva está diretamente relacionada a certas condições relativamente comuns que podem se apresentar ao sujeito quando criança.

No caso da obsessão, teríamos invariavelmente na infância a relação com um Outro que mantém o sujeito numa posição de objeto suplementar de seu desejo.

Em outras palavras, a criança percebe que o Outro deseja coisas que estão para-além dela, mas entende que essas outras coisas não são suficientes para dar conta do desejo do Outro.

Assim, o sujeito é levado a crer que ocupa uma posição privilegiada junto a esse Outro e que é o seu DEVER mantê-lo sempre satisfeito.

Por isso, o obsessivo teria essa eterna NOSTALGIA DE SER o objeto que não deixa o Outro “a desejar”…

Na histeria, por sua vez, teríamos uma configuração diferente, ligada ao momento da infância em que o sujeito precisa reconhecer que tanto ele quanto o Outro não são completos.

Dependendo do modo como é apresentada a essa “descoberta”, a criança pode ser levada a acreditar que a incompletude não vale para todos e que ela é, na verdade, uma INJUSTIÇA.

Para o histérico, existem alguns Outros que indevidamente possuem o privilégio de serem completos e, por isso, precisam ser “castrados”.

Colocar-se a serviço do Outro, por exemplo, costuma ser uma típica estratégia histérica para manter o Outro castrado: “Se ele precisa de mim, é porque é carente e incompleto. 😌”.

Quanto à sua própria incompletude, o histérico a reconhece, mas a considera, como eu disse acima, uma injustiça.

“Sou incompleto, sim”, ele diz, “mas só porque o Outro me fez assim, privando-me daquilo que me faria inteiro e feliz”.

Por isso, o histérico passa a vida MILITANDO, reivindicando, se queixando daquilo que ele acha que somente uns privilegiados têm, mas que, na verdade, NINGUÉM TEM…


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Histeria e obsessão: respostas neuróticas ao desejo do Outro

Originalmente, histeria e neurose obsessiva eram termos que designavam tão-somente transtornos mentais.

Por outro lado, desde o início de sua abordagem dessas patologias, Freud observou que em cada uma delas haveria uma constelação específica de traços de personalidade.

Na histeria, por exemplo, haveria quase sempre uma atitude de repúdio à sexualidade ao passo que na neurose obsessiva normalmente se encontraria, dentre outros traços, um crônico sentimento de culpa.

Lacan, por sua vez, propôs que histeria e neurose obsessiva seriam, na verdade, não apenas categorias psicopatológicas, mas as duas posições subjetivas possíveis para uma pessoa neurótica.

No pensamento de Lacan, o neurótico pode ser pensado como o sujeito que trava sua vida em função da pergunta “O que o Outro deseja?”.

Empacado diante desse problema, o neurótico constrói uma fantasia e passa a viver nela, protegendo-se da constatação de que não há resposta definitiva para aquele mistério.

O obsessivo vive na fantasia de que precisa ser completo, autônomo, tendo tudo sob controle. Para se proteger da questão sobre o desejo do Outro, ele tenta fingir que o Outro não existe.

Daí o desespero em que se vê quando sua parceira se recusa a encarnar o papel de um simples objeto, ou seja, quando resolve se manifestar como uma Outra pessoa de verdade.

A fórmula do amor do obsessivo é “Eu amuminh’a mulher” (amor + múmia). Com efeito, para ele, a mulher ideal é uma mulher… morta.

A histérica, por sua vez, encara de frente a questão do desejo do Outro. Sua saída, no entanto, não é melhor que a do obsessivo:

Na histeria, o sujeito tenta encarnar o objeto que supostamente seria a causa do desejo do Outro.
Percebam: a histérica não quer ser o objeto que satisfaz o Outro. Ela busca se converter no objeto que CAUSA o desejo.

É como se ela pensasse: “Se o Outro deseja, logo eu existo, pois sou exatamente o objeto que o faz desejar”.

Daí sua famosa insatisfação crônica: para ela nunca está bom, está sempre faltando alguma coisa…

Precisa faltar! Encarnando em fantasia o papel de objeto causador do desejo do Outro, a histérica só pode sustentar sua existência se mantiver o Outro num estado perpétuo de carência.


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Você possui um olhar HISTÉRICO em relação à vida?

Originalmente, histeria era o nome dado a um tipo de adoecimento conhecido desde a Antiguidade em que a pessoa pode apresentar sintomas físicos como dores, dormências, paralisias bem como desmaios e crises aparentemente convulsivas. Todavia, num quadro histérico, nenhuma dessas manifestações é causada por fatores orgânicos. A origem delas é totalmente psíquica ou, como se costuma dizer atualmente, emocional.

Atualmente, no meio médico, não se utiliza mais o termo histeria. Um psiquiatra, por exemplo, falaria em “transtornos dissociativos, conversivos e somatoformes” para se referir a um quadro clínico como o descrito acima.

Na psicopatologia psicanalítica, a categoria de histeria permanece válida. Contudo, hoje em dia os analistas entendem que a histeria não se refere apenas a uma entidade clínica, mas é também UM MODO DE SE POSICIONAR DIANTE DA VIDA ou, se você preferir, uma estrutura de personalidade.

A pesquisa psicanalítica evidencia que os sujeitos histéricos não conseguiram encontrar uma saída para uma questão humana fundamental que nos é apresentada já nos primeiros anos de infância: o problema da diferença entre os sexos.

Para todo o mundo é difícil fazer o reconhecimento de que homem e mulher são apenas diferentes, isto é, que não existe um sexo superior ou inferior ao outro. O histérico, contudo, ficou preso a essa dificuldade e não conseguiu sair desse impasse. É isso que está implícito nas noções freudianas de “medo da castração” e “inveja do pênis”. O menino só tem medo de ser castrado porque acredita que há seres que efetivamente o foram: as mulheres. A menina, por sua vez, só tem inveja do pênis porque imagina que esse órgão confere completude aos homens.

O sujeito histérico é aquele que não conseguiu ultrapassar essas ilusões infantis. Ele continua achando que existem pessoas que são completas, plenamente felizes, que possuem tudo, ao passo que outras (entre as quais ele se inclui) são impotentes, faltosas, incompletas. Cronicamente insatisfeito, o histérico está sempre numa postura de queixa e reivindicação, denunciando a suposta completude do outro.

Você possui esse olhar histérico em relação à vida ou conhece pessoas que o possuem?


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Dora: a jovem que disse NÃO para o dr. Freud

A partir do dia 10/05/2021 (segunda-feira) começaremos a estudar na CONFRARIA ANALÍTICA o caso clínico de Dora, uma jovem histérica de 18 anos, atendida por Freud e que abandonou o tratamento após apenas de 3 meses de terapia.

Quem era essa moça que ousou dizer não para Freud? Quais eram os seus sintomas? Como se estruturou sua neurose? Por que Freud fracassou na condução desse caso?

Essas são algumas das perguntas que buscaremos responder nos próximos meses ao longo de nossas aulas ao vivo, sempre às segundas-feiras às 20h.

Para participar dessa jornada de estudos, você precisa fazer parte da CONFRARIA ANALÍTICA. A Confraria é uma comunidade online para quem deseja estudar Psicanálise junto comigo de forma séria, rigorosa e profunda. Saiba mais clicando aqui.

3 traços da estrutura histérica

Na matriz clássica da Teoria Psicanalítica distinguimos duas grandes estruturas neuróticas: a obsessiva e a histérica.

Já falei em outro momento sobre alguns traços da estrutura obsessiva e agora é a vez de falarmos sobre os histéricos.

Assinalo que esses são apenas alguns dos principais traços que caracterizam a estrutura histérica. Existem vários outros sobre os quais podemos refletir em outro momento.

1 – RESSENTIMENTO: O sujeito histérico não conseguiu admitir o fato de que ninguém possui o falo, ou seja, o fato de que todo o mundo é faltoso, carente, incompleto, vulnerável. O histérico trabalha com a crença inconsciente de que existem pessoas inteiramente satisfeitas, poderosas, inabaláveis e de que ele faz parte do grupo daqueles que foram injustamente privados dessa plenitude. Na mulher, esse traço se manifesta amiúde no sentimento constante de estar sendo injustiçada e no homem apresenta-se na preocupação excessiva com sua virilidade (“Será que sou um homem de verdade?”).

2 – SUBMISSÃO AO DESEJO DO OUTRO: Como o sujeito histérico se sente injustamente prejudicado e privado de fazer parte do grupo dos poderosos, completos e inabaláveis, ele tende se colocar de maneira infantil diante do outro a quem atribui esse lugar de superioridade. De fato, o histérico encara esse outro como o detentor de todos os segredos e como aquele que sabe o que é melhor para ele (histérico). Por isso a hipnose funcionava tão bem com as histéricas do século XIX e é também por essa razão que os homens histéricos estão constantemente se lamentando por não serem como o fulaninho, a quem atribuem o status de “homem de verdade”.

3 – IDENTIFICAÇÃO FÁLICA: Outra crença inconsciente sempre presente no sujeito histérico é a de não ter sido suficientemente amado quando criança, de não ter ocupado juntos aos pais (especialmente a mãe) o lugar de falo, ou seja, de objeto ideal do desejo deles. Assim, o histérico passa a vida tentando exercer essa função fálica, só que agora para outras pessoas. É por isso que os histéricos tendem a ser sedutores: querem ser o tempo todo desejados, colocados no lugar de objeto privilegiado do outro. Excesso de ciúme e submissão a humilhações na tentativa de recuperar o amor do outro podem ser algumas das formas de manifestação desse traço em ambos os sexos.

Ao observar esses três traços, vem à sua mente a imagem de alguma pessoa específica? De você mesmo? 😅


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Não são as respostas que movem o mundo. São as histéricas.

Originalmente, histeria era um termo utilizado para designar uma variedade de quadros psicopatológicos, mais frequentes em mulheres, que tinham como traço comum a aparência de serem simulações. Com efeito, as histéricas apresentavam diversos sintomas físicos como dores, paralisias de membros e desmaios, mas não possuíam nenhum problema real em seus corpos. Pareciam, portanto, estarem simulando doenças para “chamar a atenção”.

Freud descobriu que, de fato, era isso mesmo. As histéricas inventavam doenças para chamar a atenção. No entanto, esse processo não acontecia de modo consciente. Além disso, Freud não olhou com menosprezo para o desejo histérico de chamar a atenção. Pelo contrário, decidiu investigá-lo para tentar entender o que levaria alguém a simular uma doença real e sofrer por conta disso apenas para conseguir chamar a atenção. Por que a atenção seria tão importante para aquelas mulheres?

A conclusão de Freud foi a de que elas precisavam da doença para chamar a atenção porque viviam em um contexto no qual não podiam se expressar espontaneamente. A fabricação de uma doença era o único meio de que dispunham para manifestar sua revolta contra a a civilização que, para funcionar, precisa necessariamente produzir dejetos, restos, lixo.

Ao adoecerem, as histéricas denunciavam a falsa paz da sociedade de sua época, obtida às custas do silenciamento da espontaneidade feminina. Foi graças a elas que Freud se viu levado a investigar o esgoto que a civilização produz em cada um de nós e batizá-lo de Inconsciente. Foi também pela incitação delas que o médico vienense se aventurou a mapear a sexualidade humana.

As histéricas são aquelas que não admitem a hipocrisia inerente ao laço social. São aquelas que se revoltam diante de situações para as quais a maioria das pessoas diz: “Deixa pra lá, é assim mesmo, sempre foi”. Incapazes de se submeterem passivamente às ordens do outro, são aquelas que questionam a tradição e apontam para aquilo que ela sufoca, reprime, apaga.

Se não fossem os gritos, as reclamações, os escândalos das histéricas, o mundo seria imóvel, previsível e chato.


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“Os histéricos sofrem de reminiscências”

A frase que dá título a esta postagem foi enunciada por Freud como uma fórmula conclusiva a respeito da origem dos sintomas dos primeiros pacientes histéricos que ele e Breuer atendiam lá no fim do século XIX.

Freud constatou que os sintomas físicos apresentados pelos histéricos eram uma espécie de monumento erguido em homenagem a um trauma emocional vivido há meses ou mesmo há anos. Os sentimentos que outrora não haviam sido expressos encontravam na doença uma forma de serem repetidamente descarregados.

Pensar o adoecimento emocional como resquício de um passado mal digerido é uma das principais contribuições da Psicanálise para a Psicopatologia. Afinal, quando olhamos ingenuamente para alguém em sofrimento, tendemos a pensar que se trata de uma resposta do sujeito a coisas que estão acontecendo atualmente com ele. De fato, as circunstâncias presentes são fatores importantes e devem ser levados em conta, mas o que aprendemos com a Psicanálise é que, na maioria dos casos, o que acontece no presente funciona apenas como um GATILHO para a evocação de traumas do passado.

Uma pessoa pode, por exemplo, desenvolver um episódio depressivo após ter sido demitida do trabalho. Isso não significa, contudo, que foi a demissão o fator que efetivamente causou a depressão. É muito mais provável que o fato de ter sido mandado embora tenha ATUALIZADO para esse sujeito outras “demissões” sofridas por ele na adolescência ou na infância e das quais nunca conseguiu de fato esquecer, como o período em que ficou distante da mãe e fantasiou que ela o havia abandonado.

Um dos objetivos da Psicanálise é alterar o modo como o paciente se relaciona com seu passado. Afinal, quem procura a ajuda de um analista o faz justamente por não suportar mais sofrer as consequências de viver fugindo da própria história. No divã, o paciente é convidado a integrar o passado, único caminho possível para evitar que ele continue se presentificando.

[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 03

Nesta aula: quatro traços típicos da estrutura histérica: insatisfação crônica, sedução/dramatização, repúdio à sexualidade e compulsão a “castrar” o outro.

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Desabafo não é terapia: entenda por que Freud abandonou o método catártico

Desabafo não é tratamento. Foi por se dar conta disso que Freud abandonou o método catártico. Lucas, mas o que é esse tal de método catártico de que você fala?

Vamos lá: no final do século XIX, Freud, um jovem neurologista que desejava ser pesquisador universitário, começou (meio a contragosto) a atender pacientes com o objetivo de fazer algum dinheiro. Com efeito, o pobre rapaz queria desposar sua amada Martha Bernays.

Um amigo e colega mais experiente chamado Josef Breuer, cuja clínica já era bastante reconhecida e bem-sucedida na Viena dos anos 1890, vinha experimentando um novo método de tratamento da histeria, baseado na aplicação da famigerada técnica da hipnose.

O tal método consistia em hipnotizar o paciente histérico e, durante esse estado de consciência rebaixada, exortar o doente a se lembrar e relatar as ocasiões exatas em que seus sintomas haviam aparecido. Quando o paciente conseguia fazer isso, o resultado era uma explosão emocional, indicando que a narrativa dos episódios que estavam na origem dos sintomas possibilitava a DESCARGA de sentimentos que estavam represados na mente do paciente. Não por acaso, após tais relatos acompanhados desses arrebatamentos emocionais, o paciente se via livre do sintoma que estava sendo investigado.

Eis, portanto, o método catártico. Esse termo foi cunhado por Breuer e Freud tomando como referência o termo “catarse”, de origem grega (“kátharsis”) e que designa a ideia de purificação ou purgação. Num sentido metafórico, o método inventado por Breuer levava o paciente a se “limpar” das “sujeiras” emocionais que ele vinha inconscientemente guardando.

Influenciado por Breuer, Freud inicialmente também experimenta o método catártico com seus pacientes histéricos e conquista muitos êxitos. Contudo, por não se considerar um hipnotizador muito bom e, principalmente, por se dar conta de que as melhoras obtidas por seus pacientes não se mantinham com o passar do tempo, o fundador da Psicanálise decide abandonar tanto a hipnose quanto o método criado por Breuer.

Freud se dá conta de que o método catártico possibilita que o paciente “coloque para fora” os sentimentos que lá atrás haviam sido sufocados, mas não ajuda o paciente a discernir os motivos pelos quais essa repressão havia acontecido. É por isso que a pessoa voltava a adoecer: com efeito, diante de novos desafios emocionais, o paciente voltava a utilizar a mesma estratégia defensiva do passado que havia dado origem aos antigos sintomas.

Além disso, Freud percebe também que não era necessário hipnotizar o doente para ter acesso à dimensão inconsciente da psique dele. Bastava exortar o paciente a falar de forma espontânea tudo o que lhe viesse à cabeça. É essa nova técnica, a associação livre, que estará na base do novo método terapêutico, desta feita inventado por Freud, denominado Psicanálise.

[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 02

Nesta aula: como Freud passou da teoria da sedução para a teoria da fantasia na busca por encontrar as causas da histeria na infância.

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[Vídeo] Histeria e Psicanálise: ENTENDA TUDO | Aula 01

Este é o primeiro vídeo da série “Histeria e Psicanálise” na qual pretendo explicar o que é a histeria, como se formam os sintomas histéricos e os traços constitutivos da estrutura histérica de personalidade. Nesta primeira aula, falo sobre o encontro de Freud (e de Breuer) com as histéricas do final do século XIX e as primeiras descobertas pré-psicanalíticas relativas à gênese dos sintomas histéricos.

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Entenda a regra da abstinência de Freud (parte 1)

laura-week-two-1920Em 1915, no artigo “Observações sobre o amor transferencial”, Freud escreveu que “o tratamento [psicanalítico] deve ser levado a cabo na abstinência”. O público leigo poderia pensar que Freud estava apenas alertando os analistas para que jamais cedessem à tentação de terem algum envolvimento amoroso e/ou sexual com seus pacientes. O buraco, contudo, é mais embaixo. Para Freud, não se tratava de uma questão meramente ética, mas, sobretudo técnica. A abstinência em questão deveria ser mantida principalmente do lado do paciente.

Neste momento você pode estar se perguntando: “Como assim?”. Para entendermos porque Freud defendeu que o tratamento psicanalítico deve acontecer num estado de abstinência, é preciso levar em conta a forma como Freud entendia o surgimento de uma neurose, ou seja, do tipo de adoecimento psíquico que mais aparecia em sua clínica.

Para Freud, uma neurose, seja ela uma obsessão, uma histeria ou uma fobia, é sempre o resultado de um grave conflito psíquico. Conflito entre aquilo que o sujeito acredita que é (o que Freud chamou de ego) e determinados pensamentos, lembranças e fantasias que num primeiro momento lhe proporcionam muito prazer, mas que ele acaba mandando para o inconsciente porque não estão de acordo com a imagem que tem de si mesmo. Um exemplo bobo: uma moça criada em um contexto religioso muito severo acredita que não deve jamais fazer sexo oral com seu marido, pois isso a desqualificaria como mulher. Quando adolescente, no entanto, essa moça já teve fantasias de que fazia sexo oral em um professor. Como tais pensamentos eram incompatíveis com seu ego, a moça, embora sentisse muito prazer, recalcou-os no inconsciente.

Pois bem, a neurose, de acordo com Freud, poderá emergir justamente quando esses pensamentos que foram recalcados tiverem oportunidade de ser “reativados”. Se isso acontecer, o sujeito precisará se defender a fim de impedir que eles novamente se manifestem. Do contrário, terá de ver manchada a bela imagem que tem de si mesmo. Estabelece-se, então, uma guerra entre o ego e os pensamentos recalcados. Quem costuma vencer? Freud dirá: ambos! Ego e recalcado fazem uma espécie de “acordo”. O ego permite que o recalcado se manifeste desde que seja de forma disfarçada. A neurose é precisamente um desses disfarces! Na histeria, o recalcado se disfarça como sintomas corporais: dores, parestesias, formigamentos, vômitos etc. Na neurose obsessiva, o disfarce é constituído de pensamentos irrelevantes que não saem da cabeça do sujeito. E na fobia, o medo de um objeto, animal ou situação é a máscara adotada pelo recalcado.

E o que a abstinência tem a ver com tudo isso é o que você deve estar se perguntando. Ora, a questão que ficou em aberto acima é a seguinte: como é que os pensamentos, fantasias e lembranças recalcados entram novamente em ação? Freud responde: quando a libido, a energia sexual, retorna para eles. E como a libido retorna para eles? Quando ela não tem mais para onde ir. Não entendeu, né? Eu explico: quando estamos nos relacionando com alguém e nos sentimos satisfeitos com esse relacionamento, grande parte da nossa libido está investida na pessoa com quem estamos nos relacionando. Portanto, o recalcado não tem combustível para “subir” até as portas da consciência. Contudo, se por alguma razão, o relacionamento atual for rompido (seja pela morte da pessoa amada ou por uma separação mesmo) aquela libido que estava investindo o objeto de amor, acaba ficando livre, leve e solta. Como forma de compensar a frustração sofrida, ela vai reinvestir aqueles pensamentos que um dia nos provocaram satisfação. Que pensamentos são esses? Sim, os recalcados, que agora terão munição de sobra para entrarem em combate com ego novamente.

Em outras palavras, a neurose como “acordo” entre o recalcado e o ego só foi possível porque a realidade deixou o indivíduo num estado de… abstinência!

Leia a parte final

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[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise IV: Sandor Ferenczi

Psicossomática e Psicanálise IV: Sandor Ferenczi

Se não me falha a memória, passei toda a minha graduação em Psicologia sem ouvir sequer uma única vez o nome de Ferenczi ser pronunciado por algum de meus professores. Ao contrário do que o leitor possa pensar, não se trata de uma deficiência específica da universidade em que me formei. A maior parte dos cursos de Psicologia não aborda as proposições teóricas e técnicas desse importante autor. E isso não se deve apenas a uma limitação de tempo, mas também – e principalmente – pelo fato de as disciplinas relacionadas à teoria psicanalítica se dedicarem quase que exclusivamente às idéias de Freud e Lacan. No máximo Winnicott, Melanie Klein ou Jung aparecem à surdina.

Assim, o estudante de Psicologia sai da graduação sabendo apenas que Ferenczi foi um discípulo de Freud que em determinada época começou a propor umas inovações na técnica psicanalítica – e que Freud não foi muito com a cara delas. Pouca gente sabe, por exemplo, que quem mais defendeu a chamada “segunda regra fundamental da psicanálise” segundo a qual todo analista deveria passar por sua própria análise pessoal foi Ferenczi e não Freud.

Em decorrência disso, quem conhece a obra ferencziana um pouco mais provavelmente o fez como resultado de uma formação psicanalítica tradicional em alguma instituição ou leu seus escritos por conta própria – o que foi o meu caso. E é justamente sobre um trabalho de Ferenczi que o post de hoje trata.

Por que Ferenczi?

Estamos abordando nessa série as concepções de doença psicossomática na teoria psicanalítica. De fato, Ferenczi não foi um autor que versou muitas páginas sobre o tema. No entanto, sua inclusão aqui se deve a duas razões: a primeira é a de que ele foi um dos primeiros autores da psicanálise a crer na eficácia do método freudiano no tratamento de doenças orgânicas. Tanto é assim que quando Georg Groddeck, o autor que levará mais seriamente essa idéia e cujas teses veremos em um dos próximos posts, faz sua entrada na psicanálise, Ferenczi se tornará um de seus mais próximos colegas e até seu paciente. A segunda razão que nos leva a incluir Ferenczi nessa série é seu interessante artigo “As neuroses orgânicas e seu tratamento”, justamente o texto em que o autor esclarece o que pensa sobre a possibilidade de processos inconscientes serem expressos pelo corpo. Vejamos, então, o que Ferenczi diz nesse trabalho.

Quando o corpo vira amante

Apesar de ter sido utilizada pela primeira vez em 1818, mesmo em 1926, quando o artigo foi escrito, a palavra “psicossomática” ainda não era um termo comum, de modo que havia diversas expressões para designar desordens somáticas com fatores etiológicos psíquicos. Ferenczi utiliza o termo “neurose orgânica”.

No início do artigo, não há nada de novo. Ferenczi se dedica apenas a repetir aquilo que na semana passada vimos ser a concepção de Freud acerca das chamadas “neuroses atuais”. Assim, na neurastenia e na neurose de angústia (que para Ferenczi são neuroses orgânicas) o fator desencadeador principal seria um déficit na vida sexual atual do indivíduo (coito interrompido, abstinência sexual, etc.). O tratamento para esses casos não seria psíquico, mas consistiria em mudanças efetivas na vida sexual.

É na segunda parte do artigo que encontramos a contribuição realmente original de Ferenczi. Nessa seção, ele vai versar sobre o que chamou de “neuroses monossintomáticas”. Trata-se de afecções caracterizadas por crises de sintomas específicos, como asma, perturbações do estômago, irritações intestinais, alterações do ritmo cardíaco etc. São transtornos cujos sintomas parecem confluir para um determinado órgão do corpo.

No tratamento de pacientes com esse tipo de queixa, Ferenczi se dá conta de que o órgão que se tornara problemático e disfuncional, antes do advento da doença havia sido exageradamente investido de libido. Sim, coração, estômago, intestino, rins, pulmões, todos esses órgãos também possuem a capacidade de se tornaram erógenos e não apenas as zonas erógenas tradicionais (boca, seio, pênis, vagina, ânus).

Freud descobriu que é através da relação com o outro que determinadas partes do corpo adquirem uma significação erótica, ou seja, a rigor qualquer parte do corpo pode se tornar erógena dependendo das relações que o sujeito venha a experimentar com o outro. A libido é extremamente plástica e passível de ser investida em qualquer zona corporal.

Como Ferenczi ressalta, na saúde a libido está investida de maneira equânime em todo o corpo, proporcionando aquela sensação de bem-estar físico que os saudáveis experimentam. No entanto, em função de determinados eventos de sua história de vida, o sujeito pode começar a investir uma quantidade exacerbada de libido em determinado órgão, ou seja, quebrar o equilíbrio. Ferenczi nota que isso geralmente acontece quando a vida amorosa/sexual do sujeito encontra-se limitada por alguma razão de ordem inconsciente. Assim, é como se determinado órgão que, ao longo da história do sujeito, se tornou significativo em função da sua relação com o outro, por exemplo, o estômago, passasse a constituir uma espécie de depósito de libido insatisfeita. É como se o estômago adquirisse uma significação genital. A propósito, é comum observarmos pessoas com distúrbios orgânicos desse tipo se referirem a seus órgãos doentes como se eles fossem pessoas, por exemplo: “Quando meu estômago ataca…”; “Meu intestino é muito preguiçoso…”; “Se minha perna deixar…”.

Em suma, é como se o sujeito passasse a ter uma relação amorosa com seu órgão. E é precisamente esse “excesso de amor” o que gera a doença, pois se o órgão passa a ter que exercer para o sujeito o papel de parceiro sexual, não poderá mais atuar nas suas funções normais. Notem que essa dinâmica é muito semelhante à que ocorre nos casos de histeria. Nesses, todavia, são as representações do corpo que sofrem a investida de uma libido represada. Nas neuroses orgânicas, é a estrutura física mesmo do corpo que é prejudicada em função da sobrecarga de libido.

Tratamento

Frente a um quadro desses, o que fazer? Como a psicanálise poderia ajudar sujeitos que sofrem de uma neurose orgânica? Ferenczi observou que nessas situações o analista não precisa utilizar nenhuma técnica especial. O dispositivo analítico em si mesmo já seria terapêutico. Isso porque a relação que se estabelece entre o paciente e o analista não é uma relação qualquer; é propriamente uma relação de amor na medida em que supomos que ali acontece um negócio chamado transferência. Nesse sentido, ao entrar em análise o sujeito teria à sua disposição um novo objeto (o analista) para fazer uso, podendo finalmente, deixar o órgão doente funcionar em paz.

Concluindo

Esquematicamente, poderíamos dizer que o desenvolvimento de uma neurose orgânica para Ferenczi atravessaria as seguintes fases: (1) Num primeiro momento, na infância, determinado órgão ou parte do corpo se torna mais potencialmente erógeno do que os outros (isso em função de identificações, superestimulação etc.); (2) Quando adulto, ou mesmo ainda criança, as relações amorosas “normais” do indivíduo com o outro são, por alguma razão, dificultadas ou mesmo impossibilitadas; (3) A libido que não pôde ser investida naquelas relações retroage para o órgão mais potencialmente erógeno, desvirtuando suas funções e obrigando-o a ocupar um lugar semelhante ao de objeto sexual genital na economia psíquica do sujeito.

***

Se você quiser saber um pouco mais sobre as teses e as proposições técnicas inovadoras de Sandor Ferenczi, adquira o já clássico “Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan”, organizado por Juan-David Nasio, no Submarino, por apenas R$39,90, clicando neste link.

[Vídeo] Psicossomática e Psicanálise III: Sigmund Freud