O que é complexo de Édipo? (parte 2)

Terminamos o último post com uma historieta através da qual dispusemos os personagens que participam do drama edípico tal como Freud no-lo conta. Paramos no momento em que nosso herói, um guri no auge da sua quinta primavera, se vê às voltas com o desejo de que aquele ser que atrapalha seu sonho de viver feliz para sempre com mamãe, isto é, papai, morra. Pois bem, continuando: imediatamente após ter esse pensamento, o garotinho se lembra de que embora papai seja esse “estraga-prazeres”, ele também é aquele cara que ele sempre quis ser! Afinal, não foi nosso heroizinho que se encheu de orgulho quando a professora lhe perguntou qual era a profissão do pai e ele, altivo, disse: “Motorista de ônibus!”. Sim, havia dias que ele passava noites em claro imaginando como o pai era poderoso conduzindo aquele monte de pessoas para seus destinos. Se ele decidisse parar de dirigir todos estariam fritos! Bem, isso fora a mãe quem lhe dissera, mas ela não tinha porque mentir e o menino botava muita fé nas palavras dela, afinal era mamãe, ora bolas! Logo após se lembrar disso, nosso pequeno Édipo sentiu um avassalador sentimento de culpa: ele estava odiando justamente aquele a quem mais admirava: papai, o seu herói! “O que fazer?”, pensa o menino. “Eu quero mamãe, mas ela é do papai. Então, que papai morra! Não, não, não pode. Ele é papai!”

Eis o conflito edípico stricto sensu. É a forma como cada um resolverá esse conflito que definirá o modo como organizará sua vida psíquica, ou seja, sua estrutura. Evidentemente, essa historinha é um mito que, como esclareci num dos primeiros posts deste blog, é uma explicação do que se passa no real de uma maneira metafórica, carregada de imagens e símbolos. Freud, no entanto, não acreditava que se tratava de um mito. Para o criador da psicanálise, o complexo de Édipo era de fato uma fase da qual nenhuma criança escaparia. Daí que nosso pequeno conto lhe pareceria extremamente factível. E, de fato o é, meus caros, Freud não era tão delirante! Muitas crianças experimentam o conflito edípico de maneira semelhante à que descrevemos. No entanto, isso não é regra. E foi exatamente com o intuito de demonstrar isso que Lacan um belo dia chegou ao seu Seminário e disparou: “O complexo de Édipo é um sonho de Freud”. Ele só se esqueceu – leia-se: não quis – explicitar que o complexo de Édipo a que estava se referindo era a forma como Freud o caracterizava, a qual foi resumida por nós na anedota anterior.

Uma das principais tarefas a que Lacan se consagrou na psicanálise foi a de fazer com os mitos psicanalíticos o mesmo que Lévi-Strauss fez com os mitos dos povos ditos primitivos, isto é, extrair deles a sua lógica e as funções que se ordenam a partir dessa lógica. É o mesmo trabalho que um farmacêutico faz, por exemplo, para extrair o princípio ativo de plantas medicinais. A idéia é justamente poder prescindir da planta e produzir artificialmente o medicamento a partir do conhecimento dos elementos químicos essenciais que compõem o princípio ativo. O objetivo de Lacan, portanto, era o de depurar a teoria psicanalítica de seus mitos, os quais por estarem carregados de imagens, faziam muitas pessoas incorrerem em erros banais que vão desde contestações leigas como: “Ah, então se uma criança é filha de mãe solteira ela não experimenta o complexo de Édipo” a argumentos assim chamados “acadêmicos” que pretendem jogar a psicanálise no lixo, do tipo: “Existiram sociedades arcaicas em que o incesto era permitido. Logo, o complexo de Édipo não é universal. Logo, a psicanálise é uma falácia”. Lacan começou a perceber que boçalidades dessa estirpe só não pareciam absurdas aos olhos da sociedade porque seus colegas psicanalistas davam margem a elas, ao insistirem em descrever a teoria com anedotas burguesas de alcova.

Ao abordar o complexo de Édipo, portanto, Lacan pensou: “Essa historinha de que mais ou menos aos cinco anos, o menino quer comer a mãe e para isso deseja matar o pai só atrapalha. Até porque explicar como é que na menina isso acontece de forma inversa (ou seja, querer dar para o pai e matar a mãe) é um imbróglio danado. Vejamos o que está realmente, estruturalmente em jogo no complexo de Édipo: temos, em primeiro lugar, uma pessoa, um sujeito, que pode ser menino ou menina. Esse sujeito, antes de desejar aquela pessoa que o gerou, é, em primeiro lugar, desejado por ela. Ou seja, o tema do incesto não aparece inicialmente com o menino que quer comer a mãe, mas com a mãe que adora ter o menininho pra se sentir poderosa!”

CONTINUA…

Sugestões de leitura:

41nF3j4hLCL._SX310_BO1,204,203,200_     513falUYOjL._SX333_BO1,204,203,200_     41Pgkx3h3HL._SX331_BO1,204,203,200_

O que é falo? (final)

muehlberg_01_aufdiemensurEncerramos o post anterior com uma afirmação que, após uma segunda leitura, julguei que poderia levar a um mal-entendido: a afirmação de que há dois tipos de seres humanos: os que têm o falo (os homens) e os que não têm o falo (as mulheres). Essa pode ser a fantasia de muitos homens mas, na verdade, ninguém tem o falo! E isso se deve ao fato de que uma das formas que temos de pensar o falo é tendo em mente a possibilidade de não tê-lo. Sim: é só se lembrar do menininho e da menininha. O menino morre de medo de ser castrado e a menina tem inveja do menino porque já nasceu castrada.

É por isso que o Lacan quando vai falar desse falo que figura na nossa imaginação ele utiliza a letra grega “fi” acompanhada de um sinal minúsculo: (-φ), ou seja, o falo é sempre algo “real” ou virtualmente faltoso (não se tem ou se pode perder).

Mas o leitor pode estar pensando: “Pô, mas se o que o menino sente é um medo de perder o pênis e a menina um desejo de ter um pênis, por que Freud não fala só de pênis em vez de usar o termo falo?” Porque, caro leitor, o pênis é só o ponto de partida dessa representação chamada falo. Sem pênis não haveria a idéia de falo, mas o falo NÃO é o pênis.

O falo, prestem atenção, é a representação simbólica do pênis. Ou seja, qualquer coisa que tenha para uma pessoa a mesma significação que o pênis para a criancinha no complexo de castração. E qual é essa significação? É só se lembrar dos posts anteriores: para a criança recém-confrontada com a visão do órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto.

A razão disso é o fato mais do que óbvio de que não gostamos de nos sentir incompletos, faltosos, isso gera angústia. É por isso que os homens geralmente gostam tanto de competições e se gabam tanto entre si de suas conquistas: desde ter conseguido pegar a garota mais bonita da escola até a compra de um carro novo. Tanto a garota quanto o carro funcionam na economia psíquica deles como falos. É preciso mostrá-los, como crianças disputando para ver quem tem o pênis maior.

Do lado das mulheres, o exemplo mais comum de falo é o filho. Já repararam na auto-suficiência de uma grávida? Já notaram o quão cuidadosas são a maioria das mães com seus filhos? Elas parecem estar cuidando de uma parte de seus próprios corpos. E na fantasia, os bebês são mesmo uma parte do corpo delas. Winnicott achava que nesse momento as mães viviam uma espécie de psicose necessária. Então, senhoras e senhores, para a mulher é como se com o filho ela estivesse tendo uma recompensa por ter nascido sem pênis.

Sugestões de leitura:

41nF3j4hLCL._SX310_BO1,204,203,200_     513falUYOjL._SX333_BO1,204,203,200_     41Pgkx3h3HL._SX331_BO1,204,203,200_

O que é falo? (parte 3)

04eve1No último post, interrompemos nosso relato mítico no momento em que meninos e meninas estavam lá no paraíso infantil, cada qual se divertindo como podia: o menino com seu recém-descoberto pênis e a menina com seu também recém-descoberto clitóris. Mas eis que em determinado momento eles se encontram e percebem que em relação a esse tipo de diversão eles não são iguais.

É nesse momento que as crianças se deparam com uma grande descoberta: a de que existe um tipo de ser humano diferente (de tipo diferente delas mesmas). E o que os diferencia? A imagem não mente: um deles possui algo entre as pernas e o outro não possui algo entre as pernas. É assim que meninos e meninas a princípio percebem a diferença entre homem e mulher. Mas, prestem atenção: até esse momento a criança não vai entender esse “um tem algo no meio das pernas e o outro não tem” como “um tem, aquilo que no outro falta”. Isso só vai acontecer no momento seguinte, em que a criança, neste caso o menino, se lembrar de uma ameaça geralmente feita pelo pai: a de que se ele ficasse mexendo no próprio pênis, este lhe seria cortado.

Nesse momento é como se o menino tivesse um insight: “Eureka! Agora entendi porque as meninas não têm pênis! Elas tinham mas perderam. É que elas ficaram mexendo muito em seus próprios pênis e por isso foram castradas!”

Do lado das meninas a coisa se passa de forma diferente. Como elas não receberam a ameaça de terem o pênis cortado, ao se depararem com a diferença entre seu pequenino clitóris e o pênis do menino, elas criam uma fantasia de que seu clitóris é como um “pênis filhote”, que logo mais irá crescer e ficar como o do menino. Após algum tempo, ao se dar conta de que ele não vai crescer mesmo, a menina então passa a entender que ela nasceu defeituosa. E se assim foi, a culpa é de quem? Da mãe, claro, que foi quem a botou no mundo.

Pois bem, meus caros leitores, não levem muito a sério essa historinha, mas também não pensem que se trata apenas de um simples historinha. Essa, que Freud deu o nome de complexo de castração, assim como o complexo de édipo são mitos. O que é um mito? Eu já disse em outro post: um mito é uma forma figurada de falar do Real. É isso que faz com que o mito não seja uma mera anedota.

Então, o que o mito do complexo de castração demonstra: que no caso específico da espécie humana, a única que se coloca a questão: “Qual a diferença entre um ser humano macho e um ser humano fêmea”, a diferença entre os sexos é entendida da seguinte forma: “Há dois tipos de seres humanos: aqueles que têm, mas podem perder e aqueles que não têm. É justamente esse “algo” que uns têm e outros não têm que a psicanálise chama de falo.

CONTINUA…

Sugestões de leitura:

41nF3j4hLCL._SX310_BO1,204,203,200_     513falUYOjL._SX333_BO1,204,203,200_     41Pgkx3h3HL._SX331_BO1,204,203,200_

O que é falo? (parte 2)

05edwardNo último post apresentei algumas considerações que seriam explicadas em maiores detalhes subsequentemente. Neste post, apresentarei alguns pressupostos que permitirão esclarecer a primeira e a terceira teses: a de que o falo é apenas uma representação e que tal representação só existe porque os órgãos genitais de homens e mulheres são como são. Então, vejamos.

Quando Freud utiliza os termos “falo” e “fálico” ele tem em mente uma fase do desenvolvimento da libido. Libido é  o nome que Freud toma emprestado da literatura universal para descrever a energia que nos move na busca de um objeto de satisfação da nossa pulsão sexual (da mesma forma que a fome é a energia que nos move na busca de um objeto de saciedade).

Pois bem, quando a gente é ainda muito bebê, não procuramos a satisfação em um objeto do mundo (como hoje adultos fazemos ao buscar uma mulher, um homem, um cachorro ou um travesti). A gente se diverte sexualmente com o próprio corpo. É o que Freud chamou de autoerotismo.

Assim, primeiro nossa maior fonte de diversão é a mucosa da boca. Tanto é que as crianças usam chupeta ou chupam o próprio dedo, quando não têm o seio da mãe – não se enganem, o seio da mãe não é ainda, para a criança, um objeto externo. Ela sente o seio como se fosse uma parte dela. Essa é a chamada fase oral. Depois, a fonte principal de satisfação passa a ser o ânus (e a gente passa a se divertir retendo e soltando as próprias fezes), é a fase anal. Obviamente, essas fases não se sucedem assim, desse jeito bonitinho. Elas meio que ocorrem simultaneamente. É preciso sempre lembrar: a psicanálise não trabalha com o tempo do idiota, o tempo cronológico, mas com o tempo lógico.

Após essas duas fases, ocorre algo diferente. O mais importante para a criança agora não é a mais uma parte do corpo, mas uma idéia, uma representação. Explico: é que a libido, após ter se concentrado na boca e no ânus, se desloca, no caso do menino, para o pênis e, no caso da menina para essa parte tão misteriosa do corpo feminino chamdada clitóris. E é nesse momento que começam os problemas, especificamente humanos.

É que até então não havia diferença entre meninos e meninas. Ambos se satisfizeram com as mesmas partes do corpo: boca e ânus. Agora, eis que surge uma diferença que persistirá na cabeça de homens e mulheres para o resto da vida.

CONTINUA NO PRÓXIMO POST…

Sugestões de leitura:

41nF3j4hLCL._SX310_BO1,204,203,200_     513falUYOjL._SX333_BO1,204,203,200_     41Pgkx3h3HL._SX331_BO1,204,203,200_