Quando o analista não se apaga (parte 3)

ep-101-jesse-1024Ferenczi observou que o choque entre a linguagem da ternura expressa pela criança e a linguagem da paixão manifesta pelo adulto é inevitavelmente traumático. Afinal, assim como a criança é ainda incapaz de compreender uma sexualidade que ultrapasse os limites do pré-prazer lúdico, o adulto também não tem condições de abandonar completamente a linguagem da paixão e identificar-se de forma plena com o modo infantil de amar. Em decorrência, um ponto de incompreensão marcaria desde o início as relações entre os adultos e as crianças. Contudo, para Ferenczi, essa fator só se tornaria efetivamente um trauma desestruturante e fonte de adoecimento emocional se o adulto negligenciasse a diferença entre o seu modo de amar e o modo de amar infantil e impusesse a linguagem da paixão sobre a criança. No texto “Confusão de língua entre os adultos e a criança”, Ferenczi cita especificamente o exemplo do abuso sexual, em que essa imposição se dá de modo flagrante. No entanto, podemos inferir, à luz dos desenvolvimentos teóricos de outros autores, como Winnicott, que, ao falar do potencial traumático das imposições do adulto sobre a criança, Ferenczi não estava fazendo referência apenas a casos de abusos sexuais.

O que Ferenczi parece querer acentuar – e as modificações que ele fará no plano da técnica evidenciam isso – é o papel que o ambiente exerce na etiologia do adoecimento emocional. De fato, com o abandono da chamada “teoria da sedução” e a valorização da fantasia, Freud passou a dar menos importância aos fatores externos na formação das neuroses, enfatizando muito mais os mecanismos de defesa e as fantasias inconscientes. Foi justamente esse enfoque eminentemente intrapsíquico do adoecimento emocional que deu origem ao enquadre terapêutico clássico proposto por Freud, no qual o analista é uma figura passiva, que funciona basicamente como um endereço para as projeções do paciente. Em outras palavras, se o ambiente externo não exerce papel importante na etiologia das neuroses, a pessoa do analista é igualmente irrelevante. Assim como, no plano teórico, o ambiente externo não teria levado ao surgimento da doença, no plano da técnica, o comportamento do ambiente externo (analista) também não contribuiria para o resgate da saúde.

Ferenczi, por seu turno, ao se dar conta dos efeitos deletérios da aplicação da técnica ativa e refletir sobre o potencial traumatogênico dos comportamentos do adulto em relação à criança, chegou à conclusão de que o ambiente externo poderia, sim, ser fonte de adoecimento emocional. Muitos pacientes, em especial os que apresentavam patologias mais graves, não teriam adoecido apenas em decorrência de conflitos intrapsíquicos mal elaborados, mas em função de traumas provocados por comportamentos invasivos, opressivos ou negligentes do ambiente externo. Nesse sentido, o tratamento desses pacientes não poderia mais ser concebido como um processo exclusivamente intrapsíquico, como queria Freud. Se o comportamento de determinadas pessoas foi determinante para o surgimento da neurose, assim também o comportamento do analista seria igualmente determinante para o sucesso do tratamento. Ferenczi fará, então, fortes questionamentos em relação ao lugar clássico do analista.

Do ponto de vista ferencziano, o comportamento clássico do analista, marcado por certa frieza emocional, objetividade e neutralidade, é bastante semelhante à atitude geral de um ambiente que pode traumatizar uma criança. Com efeito, a criança espera encontrar à sua volta um ambiente terno, afável, acolhedor, que a compreenda e no qual ela possa confiar para continuar simplesmente existindo, sem se preocupar com os perigos do mundo. Esses desejos, contudo, são expressos na linguagem da ternura, ou seja, a criança não tem a expectativa de ser satisfeita pelo adulto com uma relação sexual propriamente dita. Exercitando sua aguda perspicácia clínica, Ferenczi observará que muitos pacientes, ao longo do processo terapêutico, começam a fazer essas mesmas demandas infantis. Diferentemente de outros analisandos que expressavam desejos de efetivamente terem uma relação amorosa com o analista, esses pacientes faziam demandas que eram bem características da linguagem da ternura. Em outras palavras, eles não queriam transar com o analista, mas encontrar nele acolhimento e confiabilidade – elementos com os quais não teriam podido contar na infância.

Ferenczi compreendeu, portanto, que esses pacientes haviam regredido para um ponto de seu desenvolvimento anterior à incidência do trauma, um ponto em que ainda eram capazes de esperar acolhimento, ternura e confiabilidade do ambiente externo. Se o analista, frente a essas demandas, se comportasse da maneira clássica, ou seja, frustrando-as e mantendo-se numa posição de neutralidade, ele estaria repetindo a mesma atitude traumatogênica do ambiente primário do paciente. Em outras palavras, podemos dizer que, em certos casos, o apagamento do analista não contribui para o sucesso do tratamento. Pelo contrário, favorece a continuidade e a intensificação do adoecimento.

Atento ao potencial “re-traumatogênico” da neutralidade analítica, Ferenczi irá propor que a técnica psicanalítica não seja mais padronizada, mas vem ao encontro das necessidades de cada paciente. Tomando emprestada uma expressão proposta por um de seus analisandos, Ferenczi defenderá uma “elasticidade da técnica psicanalítica”. Para o analista húngaro, se levarmos em conta que na clínica encontramos vários perfis de pacientes (alguns mais traumatizados que outros ou mais amadurecidos que outros, por exemplo), isso significa que nossa intervenção não pode ser a mesma para todos eles. O terapeuta precisaria modular sua posição clínica de acordo com as especificidades de cada caso. E como saber o tipo de abordagem que cada paciente precisa? Observando e classificando os sintomas? Lendo tratados de psicopatologia? Não, dirá Ferenczi. Para identificar as necessidades de cada paciente, o analista deverá fazer uso da empatia, ou seja, deverá colocar-se não mais numa posição de neutralidade e objetividade, mas de sintonia, sentindo com o paciente o que esse lhe dirige.

Quando o analista não se apaga (parte 2)

SmoochesSándor Ferenczi, analista húngaro cuja obra tem sido injustamente pouco valorizada nos cursos de psicologia do Brasil, foi certamente um dos pioneiros no questionamento da neutralidade do analista. Esse questionamento se deu, sobretudo, em virtude dos efeitos colaterais produzidos pela aplicação do que Ferenczi chamou de “técnica ativa”, uma tática clínica que pretendia radicalizar o princípio de abstinência freudiano. A técnica ativa consistia basicamente em exortar o paciente a adotar certos comportamentos (como enfrentar diretamente uma fobia através da aproximação ao objeto fóbico, por exemplo) e proibi-lo de executar outros (como certas manias ou tiques, hábitos considerados equivalentes à masturbação). O objetivo era impedir que o paciente utilizasse suas inibições ou comportamentos, principalmente no setting analítico, como meio de descarga pulsional. Ferenczi observava que, ao ter sua tensão psíquica aumentada dessa maneira, o doente não poderia evitar o trabalho de rememoração e elaboração dos conteúdos recalcados, acelerando o processo analítico. Vale lembrar que, ao formular o princípio de abstinência segundo o qual o analista não deve atender a nenhuma demanda do paciente, Freud tinha em mente a mesma intenção: aumentar a tensão psíquica através da frustração da demanda e, com isso, facilitar o aparecimento do material recalcado. O aspecto inovador da técnica ativa proposta por Ferenczi foi a constatação de que, a despeito de não poder utilizar o analista, o paciente poderia encontrar outros meios de descarga pulsional, como os ganhos secundários dos sintomas e certos comportamentos de caráter masturbatório. Portanto, seria preciso estancar também essas vias de descarga a fim de evitar que a análise estagnasse.

Do ponto de vista do objetivo clássico do tratamento psicanalítico, qual seja, promover a rememoração e integração psíquica dos conteúdos recalcados, a aplicação da técnica ativa proporcionou resultados bastante positivos. De fato, quando o paciente se submetia às injunções e proibições do analista, a análise que até então parecia estagnada e girando em círculos, apresentava um significativo avanço. O material recalcado passava a se manifestar de modo menos tolhido e o trabalho de elaboração adquiria um novo impulso. Contudo, do ponto de vista da relação entre paciente e analista, a técnica ativa produzia efeitos de natureza iatrogênica. O terapeuta inevitavelmente acabava ocupando o lugar de mestre – posição que Freud sempre considerou contrária aos objetivos da psicanálise – e o paciente, em contrapartida, colocava-se numa posição de submissão a qual, como o próprio Ferenczi percebeu, frequentemente era utilizada para esconder sentimentos de desconfiança, incredulidade e hostilidade em relação ao analista.

A partir da constatação desses efeitos colaterais da técnica ativa e de uma reflexão renovada sobre o papel do da fator traumático na causação das neuroses, Ferenczi chegaria à conclusão que o faria questionar o princípio de abstinência e a neutralidade do analista. Ferenczi notou que esse lugar de sujeição ao terapeuta que o paciente era obrigado a ocupar pela aplicação da técnica ativa era análogo à posição de uma criança vítima de um trauma. Assim como um bebê que é forçado precocemente a abrir mão de sua espontaneidade para se sujeitar à realidade dura do ambiente à sua volta que não o compreende, na técnica ativa o paciente é forçado a se submeter às regras ditadas pelo analista. Quando o terapeuta proíbe o paciente de executar determinadas ações ele se comporta como um pai ou uma mãe que vê seu filho brincando com seu órgão genital e o proíbe terminantemente de fazê-lo. Assim como a mãe ou o pai acreditam que tal comportamento não é adequado, o analista também se fundamenta no pressuposto de que determinados comportamentos podem ser inadequados para o alcance dos objetivos psicanalíticos. Em ambos os casos, as proibições apresentam um caráter moralizante. Podemos, ademais, nos questionarmos acerca da própria natureza dos comportamentos que a técnica ativa proibia. Eles representariam de fato uma descarga pulsional, ou seja, seriam a expressão deslocada da sexualidade tal como vivenciada pelo adulto? Não seriam, talvez, equivalentes à manipulação lúdica que a criança faz de seus órgãos genitais, manipulação que evidentemente provoca prazer, mas um prazer diverso daquele em jogo na sexualidade adulta, que visa ao orgasmo?

Penso que Ferenczi respondeu afirmativamente a essa última pergunta, já que o abandono da técnica ativa é contemporâneo das reflexões sobre as diferenças entre os pontos de vista dos adultos e das crianças que o analista húngaro faz em um de seus textos mais conhecidos: “Confusão de língua entre os adultos e a criança”. Nesse artigo, Ferenczi defende a tese de que a expressão da sexualidade na criança é bastante distinta da manifestação da sexualidade entre os adultos. Diferentemente da sexualidade adulta, a sexualidade infantil não visaria o prazer final (orgasmo). Permaneceria, portanto, nos limites daquilo que Freud chamou de “pré-prazer”, isto é, daqueles comportamentos que, na sexualidade adulta, servem como preliminares à penetração. O pré-prazer seria suficiente para satisfazer a criança e sua expressão não comportaria a seriedade e o caráter apaixonado presente na sexualidade adulta. A sexualidade infantil se manifestaria através da ternura e apresentaria um caráter lúdico. Nesse sentido, em termos de sexualidade, crianças e adultos falariam dois idiomas completamente diferentes: a linguagem da ternura e a linguagem da paixão.

CONTINUA

[Vídeo] Trauma

No senso comum a palavra “trauma” costuma ser associada a eventos extraordinários como acidentes, catástrofes, tragédias e abusos. No entanto, quando nos debruçamos sobre o sentido original do conceito de trauma na teoria psicanalítica, nos damos conta de que o aspecto que define um evento como traumático não é sua natureza mais ou menos impactante, mas sim a capacidade do indivíduo de lidar com uma determinada experiência.


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Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (final)

Vimos até aqui que, por tudo o que Freud escreveu, sobretudo a partir de 1920 com a introdução do conceito de pulsão de morte, a felicidade para o pai da psicanálise é um sonho humano fatalmente destinado à frustração. Espero ter deixado claro que essa conclusão faz todo o sentido se levarmos em conta as premissas que guiaram o pensamento do médico vienense.

De fato, se pressupormos como verdadeiras as seguintes asserções:

(1) que entre o indivíduo e a cultura há um conflito inexorável oriundo da presença em cada organismo humano de uma pulsão destrutiva que se contrapõe à vida em sociedade;

(2) que, para que o indivíduo possa se inserir no campo que Lacan chamará de grande Outro, isto é, o campo da cultura, cuja estrutura basilar é a linguagem e suas leis, ele deve necessariamente abdicar de parte de suas tendências pulsionais – o que coloca em jogo novamente um conflito eterno entre o indivíduo e a pulsão;

(3) que a felicidade seria a possibilidade de que tal conflito inexistisse, ou seja, que, no limite, pudéssemos atualizar nossas intencionalidades sem qualquer tipo de impedimento por parte da cultura;

Logo,

(conclusão) a felicidade é de fato impossível.

Em outras palavras, para Freud a felicidade é impossível porque, ao defini-la, ele se coloca na posição do neurótico clássico, incapaz de superar o drama edipiano. Ora, o que significa ser feliz para tal neurótico? Fantasisticamente, poder ter a mãe só para si. Nos termos de Jacques Lacan, poder ter acesso a um gozo pleno, que não existe, mas que o neurótico, em sua fantasia, supõe que exista em algum lugar da terra.

Ora, por que o limite imposto pela cultura aos nossos desejos tem que ser visto necessariamente a partir da ótica da falta, da insatisfação, do mal-estar? Esse é o ponto de vista do neurótico, que sonha em ultrapassar o rochedo da castração. Por que não podemos enxergar no limite a instauração da dimensão do possível na existência humana? Sim, porque todo limite, ao mesmo tempo em que impede a execução de uma determinada intenção, nos mobiliza a inventar uma nova forma de agir, de modo que o limite ou a resistência do real aos nossos desejos nos põe na trilha da criatividade, da invenção. Não obstante, para que paremos de nos queixar diante do limite e passemos a utilizá-lo como motor de criação, nossa âncora subjetiva deve estar em outro lugar que não o da satisfação pulsional. Era assim que Donald Woods Winnicott pensava.

Para-além do mecanicismo: Winnicott e o ser

Refém do modelo mecanicista proveniente da modernidade, Freud jamais conseguiu pensar que para o sujeito humano há algo mais fundamental que as pulsões, algo que, inclusive, possibilita o uso saudável da dimensão pulsional. Para o pai da psicanálise, o ser humano é uma máquina de descarregar pulsões que se complica por sua pertença ao campo da cultura. Para Freud, não há nada na natureza do humano que o singularize com exceção do fato de que nele há pulsões e não instintos, o que faz com que a subjetividade deva ser concebida necessariamente como uma construção social (o que Lacan expressará com sua fórmula: “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”).

Em contrapartida, para Winnicott, que não tinha experiência apenas com neuróticos insatisfeitos com a castração, mas com bebês doentes e saudáveis, antes de o homem se ver às voltas com a dinâmica pulsional, algo de caráter muito mais essencial deverá ser constituído. Trata-se do que Winnicott chama de “experiência de continuidade do ser” ou “a experiência de que a vida faz sentido, de que vale a pena viver.”. Para o psicanalista inglês, é esse o elemento fundamental que possibilita uma vida saudável. É essa a âncora subjetiva que todo ser deve possuir para conseguir lidar de modo não problemático nem doentio com as limitações da existência.

A construção do fundamento para a felicidade

Como se constitui essa experiência de continuidade do ser? Winnicott, diferentemente de Freud, não conseguiu ver no bebê humano uma maquininha de descarregar pulsões. A experiência clínica do analista inglês com crianças não lhe deixou dúvidas de que o pequeno filhote de Homo sapiens é dotado de determinadas tendências para o desenvolvimento que, para serem realizadas, precisam de uma contrapartida ambiental, ou seja, a adaptação ativa de alguém. Portanto, o homem não é, nem a princípio nem posteriormente uma máquina burra. Trata-se de um organismo orientado para o amadurecimento.

Num primeiro momento, as necessidades do bebê demandam uma atenção tão intensa por parte do ambiente (mãe) que o bebê não tem condições de discernir-se como um ser separado dele. Se o ambiente for suficientemente bom, isto é, se conseguir atender adequadamente as necessidades da criança, o único registro psíquico que o bebê fará dessa experiência será o de “estar sendo”, ou seja, de existir.

Gradativamente, a dependência do infans em relação ao ambiente vai se relativizando, de modo que a mãe pode se desligar um pouco do bebê. Ainda assim, ela não pode se ausentar por muito tempo. Do contrário, como o bebê ainda não se constituiu como uma pessoa inteira capaz de reconhecer o outro como independente, se for deixado desamparado por longo tempo, ele sente como se estivesse desaparecendo, uma experiência que Winnicott chamou de “angústia inimaginável” e que quebra aquele sentimento de “estar sendo” que vem sendo solidificado desde o nascimento.

Se tudo correr bem, ou seja, se o ambiente não provocar a emergência de angústias inimagináveis no bebê, o indivíduo vai paulatina e naturalmente aceitando o fato de que o outro é independente e possui corpo e psiquismo próprios. Essa passagem ao reconhecimento da alteridade só é feita de maneira saudável, isto é, não-traumática, se o sujeito conseguir consolidar esse estofo subjetivo, essa âncora, que é o sentimento de “estar sendo” ou “sentimento de continuidade da existência”. Esse sentimento funciona como algo que capacita o indivíduo a enfrentar as intempéries da vida sem se deixar abater de modo doentio. É como se, dotado desse sentimento, o sujeito pudesse dizer: “Aconteça o que acontecer, eu sou.”.

A experiência de “estar sendo” permite a atualização na vivência cotidiana de uma dimensão humana que Freud sequer cogitou existir que é o que Winnicott chama de “verdadeiro self”, que é o ponto subjetivo a partir do qual podemos criar. Trata-se de um aspecto do sujeito que Winnicott qualifica como “indevassável” no sentido de que ele é irredutível a qualquer tentativa de incorporação cultural. Ele é a marca de nossa singularidade. No indivíduo saudável, que conseguiu consolidar o sentimento de continuidade da existência, o verdadeiro self não precisa ficar oculto, não precisa ser defendido, pois possui a força daquele sentimento para resistir às limitações do mundo externo.

A presença do verdadeiro self na existência individual possibilita a experiência de sentir que a vida faz sentido. Isso porque só sentimos que a vida faz sentido quando nos sentimos vivendo e, ao mesmo tempo, criando nossa própria experiência vital. Trata-se de uma sensação oposta àquela que experimentamos quando temos que vivenciar situações que nos foram impostas. Nesses casos, vivenciamos uma sensação de futilidade, justamente por não nos sentirmos co-criadores no processo. A experiência do sujeito freudiano clássico é dessa ordem. É um indivíduo que sente as limitações colocadas em jogo por nossa pertença à cultura como meras imposições externas que o tornam insatisfeito. Tal sujeito fundamenta seu ser não na experiência de continuidade de ser, mas na satisfação pulsional. Por isso, sua conclusão será inevitavelmente a de que a vida não vale a pena, ou seja, de que não é possível ser feliz.

Felicidade a toda prova

Finalmente, para Winnicott, a felicidade é sim, possível, e pode ser vista como sinônimo de saúde. E o que é a saúde para Winnicott? Não se trata de uma existência sem desprazer ou sem limitações. Pelo contrário, ser saudável para Winnicott significa ser capaz de incorporar e fazer frente a tais experiências. E isso só é possível se o indivíduo tiver construído seu ser sobre a rocha, para usar uma metáfora bíblica. Construir o ser sobre a rocha significa ter conseguido vivenciar nos momentos iniciais da vida a experiência de ser sem interrupções e sem angústias traumáticas. Essa experiência constitui-se em uma espécie de amparo ambiental introjetado, uma rocha que permitirá ao ser sobreviver às chuvas, aos ventos e às tempestades. Mais do que isso: essa experiência permitirá ao indivíduo encarar a vida não como algo pronto ao qual nosso papel é unicamente o de adaptação, mas sim como uma algo que se abre às contribuições espontâneas e criativas do vivente.

Concluindo, diria que a felicidade, do ponto de vista winnicottiano, não tem a ver com a dimensão dos afetos. Ser feliz não significa experimentar alegria ou prazer, pois isso implicaria em considerar a felicidade como algo fugaz, momentâneo, passageiro. Também não se trata, como pensara Freud, de uma felicidade utópica cuja impossibilidade reside precisamente no fato de ser descrita como estando na dependência daquilo que é barrado pela inserção na cultura. Não. Para Winnicott, a felicidade é uma condição existencial experimentada pelo ser que se sente existindo de modo criativo, ou seja, que não encara a vida como um fardo ou na posição de mero espectador. O que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer.

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Defesa e Viver Criativo – Um Estudo sobre a Criatividade nas Obras de S. Freud e D. W. Winnicott

Como você lida com o seu passado? (final)

Vimos no post anterior que, de acordo com Vattimo, Nietzsche põe em oposição dois modos de se lidar com a história. O primeiro, que ele denomina “doença histórica” é a forma tradicional com a qual a cultura ocidental sempre encarou o passado, qual seja, como um emaranhado de eventos que devem ser conhecidos objetivamente sendo possível, para algumas cabeças pensantes (como Hegel, por exemplo) encontrar nessa concatenação de acontecimentos um sentido, isto é, um devir que se processa tendo em vista um objetivo final. A esse modo “doentio” de pensar a história, Nietzsche apresenta sua própria perspectiva, a qual não concebe a história nem como uma “verdade factual” que gradualmente descobrimos nem como uma fábula com final feliz. A história, para Nietzsche, é puro devir e os acontecimentos que se processam nesse devir alimentos que podemos recusar ou nos apropriar deles tendo em vista o quanto eles favorecem a nossa capacidade de agir e criar a qual é justamente aquilo que resiste à “hitoricização”.

Um passado traumático

O exercício da reflexão me leva a pensar que o processo de desenvolvimento da Psicanálise enquanto método de tratamento das neuroses experimentou dois momentos que podem dispostos analogamente aos dois modos de se pensar a história propostos por Nietzsche. Ainda que você, leitor, seja apenas superficialmente versado na teoria psicanalítica, provavelmente deve saber que antes de inventar a Psicanálise com a ajuda de suas brilhantes professoras histéricas, Freud utilizava a hipnose como técnica de tratamento. Ora, em que consiste o procedimento hipnótico? Supõe-se que para que o paciente seja curado de seus sintomas atuais ele precisa ser levado a reencontrar-se com as lembranças reais de seu passado relativas a eventos que foram a causa dos sintomas. Ao recordar o que o levou a produzi-los, o paciente poderia retroativamente reagir de maneira distinta aos eventos em questão e abdicar dos sintomas. Com efeito, esses haviam surgido porque o paciente havia reagido inadequadamente àqueles acontecimentos.

O encontro de Freud com o não-histórico

Por que Freud desistiu da hipnose e deu um jeito de inventar a Psicanálise? Porque ele foi se dando conta que freqüentemente a técnica hipnótica fracassava e isso porque parecia haver um fator que dificultava o acesso às lembranças, um elemento que impunha uma resistência ao trabalho terapêutico. Logo, a estratégia de invadir o território inimigo à força bruta com o auxílio da redução do limiar de consciência precisava ser revista, pois fortes muralhas se formavam no meio do caminho. Era preciso elaborar uma estratégia que contemplasse essas muralhas. Nasce, então, a Psicanálise como um método que vai buscar justamente compreender isso que bloqueia o acesso do sujeito à sua própria história.

E, pasmem, isso que o bloqueia é a própria vida! Não é a pulsão de morte, como muitos pensam. O ser não quer morrer. Pelo contrário, quer criar, se expandir, agir e só se torna apático, retraído e doente quando essa é a única forma de se defender daquilo que “aprendeu” a encarar como um perigo maior. A resistência, portanto, é a manifestação da vida em nós que resiste contra aquilo que considera um mal maior do que a dor do sintoma. Nesse sentido, quando Freud se depara com o fenômeno da resistência o que ele encontra é precisamente o que Nietzsche define como vida, isto é, como impulso para a criatividade e a ação. Parece contraditório, pois nos acostumamos a pensar a resistência apenas como um fator que dificulta o trabalho de análise. Mas quero chamar sua atenção para o fato de que ela só é um obstáculo para o alcance daquilo que para o sujeito é um mal maior.

A “doença histórica” na Psicanálise

Assim, poderíamos ver a fase pré-psicanalítica de Freud, com o uso da hipnose, como sendo o predomínio da “doença histórica” nietzschiana. Nesse momento o que se busca é a verdade dos fatos, escondida nos porões mentais das histéricas. Pergunta-se ao paciente quando começaram seus sintomas, quem estava lá, o que aconteceu, enfim, o objetivo é fazer uma historiografia do doente. Quando a vida irrompe na cena na forma da resistência, Freud se apercebe que não é possível fazer uma remontagem fria e objetiva da história. Ele nota que há algo ali que opta, afirmando ou negando determinadas realidades e que é preciso encarar o passado do doente tendo como guia esse elemento.

Torna-se preciso entender por que a vida negou determinado acontecimento e hoje insiste em não querer afirmá-lo. Via de regra, é por medo que ela o faz, como defesa contra uma realidade angustiante e imaginariamente aniquiladora. É justamente por não levar isso em conta que a hipnose fracassa, pois sua prática pressupõe que o simples encontro com a história é suficiente para eliminar o medo; é o pressuposto de que a história sendo a verdade objetiva é capaz por si só de devolver a saúde ao sujeito.

Muitos analistas hoje dizem que fazem Psicanálise, mas fundamentam sua prática nesse mesmo pressuposto: para eles é preciso mostrar a qualquer custo “a verdade” ao sujeito sem qualquer tipo de acolhimento que possa permitir ao doente se sentir seguro para conseguir lidar com sua própria história, isto é, sem o temor de ser aniquilado.

O que essa “doença histórica psicanalítica” (parafraseando Nietzsche) gera são sujeitos que se dizem analisados e conscientes de sua própria história (como provavelmente atestou uma banca de “passe”) e que continuam como os mesmos sintomas com os quais iniciaram a análise. Eles dizem que tais sintomas são “irredutíveis”, expressam seu modo de se relacionar com o mundo. Na verdade, não se trata de nada disso. Em geral, foram maltratados por analistas defensivamente silenciosos e continuam com os mesmos medos, com as mesmas defesas e, por não terem sido tratados corretamente, encontram uma saída na positivação de seus sintomas, considerando-os não mais como problemas, mas como “estilo”.

Portanto…

O pressuposto de uma psicanálise cujo modo de encarar o passado fosse análogo ao proposto por Nietzsche deveria vê-lo não como “a verdade do desejo”, mas sim como uma série de afirmações e negações feitas pela vida. É dessa dinâmica que emergem os sintomas e para levar o paciente a abdicar deles (na medida em que eles constituem formas restritas de vida) é preciso supor que há uma potência de vida guiando o enfrentamento do devir. Essa potência, que Nietzsche denomina de “força plástica”, precisa ser tornada consciente e fortalecida. Só assim o doente estará seguro o suficiente para estabelecer uma relação saudável com seu passado.