Batman e o problema do mal

two-faceOntem assisti ao segundo filme da nova versão de Batman, The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas) – o primeiro foi Batman Begins. Em The Dark Knight o vilão da vez é Joker (que em português ficou “Coringa”, mas cuja tradução mais fiel seria “Bobo”, pois a referência é o desenho na carta de baralho que é de um bobo da corte). Para combater o Coringa, Batman une forças com o já conhecido comissário Gordon (que só no fim do filme vira realmente comissário) e com o promotor mais famoso de Gotham, Harvey Dent. É com esse último que pretendo iniciar a presente análise.

Harvey Dent é conhecido em Gotham pelos casos difíceis que consegue ganhar, mandando os maiores bandidões para a cadeia e também por sua simpatia por Batman. Dent é o típico bom moço e representa no filme o papel do herói, identificado com os grandes ideais, como o bem, a justiça e a paz. Ao contrário de Batman, ele combate o crime legitimamente, sob o jugo da lei e o apoio da polícia e, assim, é aclamado pelo povo de Gotham como seu legítimo justiceiro, enquanto Batman é só um criminoso estranho.  No entanto, no final do filme, Batman tem de decidir entre salvar Dent ou salvar Rachel Dawes, a moça por quem é apaixonado mas que vai se casar com Dent. Batman escolhe salvar Dent , mas durante o resgate, o promotor tem uma das partes do rosto queimada. No hospital, Harvey é visitado pelo coringa e influenciado pelo vilão e pelo ódio que já estava sentindo por Batman e pela polícia por terem deixado Rachel morrer, Dent resolve assumir a identidade de Duas Caras (um antigo apelido) e iniciar uma matança.

Creio que a escolha do autor de Batman pela alcunha de “Duas Caras” para Dent não foi por acaso. Todo mundo desconfia de quem é muito bonzinho, suspeitando de que por trás dessa máscara a pessoa esconde um demônio. Os pré-socráticos, os gnósticos e Jung sempre insistiram na complementariedade existente entre o Bem e o Mal. Só sei o que é o Bem se sei o que é o Mal e vice-versa. Logo, se escolho investir no Bem, terei que abrir mão do Mal. O problema é que ambos pertencem a uma totalidade e só são dicerníveis pela linguagem, o que significa dizer que mesmo abrindo mão do Mal e cultivando o Bem, o Mal não desaparece por completo, mas fica em estado latente e, quando menos se espera, ele aparece com força redobrada. Isso está subentendido em duas teorias psicológicas: a de Freud, com a idéia do recalque e do retorno do recalcado e a de Jung, com a noção de sombra, que seria o local psíquico onde despejaríamos todos os nossos traços de personalidade que consideramos desprezíveis, obscenos, abjetos, enfim, maus. E Jung faz uma ressalva: quanto mais andamos na luz, maior é a nossa sombra, isto é, quanto mais queremos ser bons, mais acumulamos mal em estado latente.

Todo esse processo é mostrado com brilhantismo em Batman. Em vez de continuar o padrão dos super-heróis que são sempre bons, leais, justos e adorados pelo povo, como o Super-Homem, o autor de Batman procura mostrar que onde quer que procuremos Bem encontraremos também o Mal. Em vez de colocar o Mal figurado apenas nos vilões, o autor une Bem e Mal no próprio “herói” da história: Batman combate o crime, mas passa por cima das leis, possui um ódio avassalador por seus inimigos e, de quebra, é odiado por todos pela bagunça que provoca. Tanto assim que no final do filme, Gordon diz que Batman não é um herói mas um dark knight, um cavaleiro das trevas.

E essa indissociabilidade entre Bem e Mal se encarna em Dent. Identificado-se apenas ao herói e ao Bem, o promotor esquece-se de sua “sombra” e projetando-a nos criminosos que manda pra cadeia, diante do primeiro sentimento de ódio, sucumbe perante tudo aquilo que teve de reprimir para ser o bom moço. Como dizia Jung:

“Se você declara que o rio que corre perto de sua casa não existe, ele pode inchar e encher seu jardim com seixos e areia e minar sua casa” (JUNG, C. G. Análise de Sonhos, Seminário de 1928-1930)

Anúncios

10 comentários sobre “Batman e o problema do mal

  1. …Bem e Mal…Bem ou Mal…assunto interessante, se levarmos em conta que ninguém é tão bom que nada tenha de negativo ou ninguém é tão mal que nada tenha que se aproveite.Só não concordo e apoio o FINGIMENTO, que alguns teimam em manter por toda uma vida e ainda acreditam que enganam alguém. Se vc finge ser o que não é e o outro aceita é pq pouco se importa com a sua vida…lhe é indiferente as “palhaçadas” que vc possa fazer ou não de sua vida.

    “O fingimento não serve para nada. Uma máscara que é facilmente arrancada do rosto engana a poucos.” (Sêneca)

    Muito mais digno assumir as fraquezas e as incompletudes de nossa vida, do que querer se mostrar um herói e deixar tranparecer seus caquinhos. Não seja digno de piedade pelos que o cercam…mesmo vindo das trevas como Batman…mostre que também tem um lado de luz…um heroismo nato…uma força para vencer seu lado Mal…que te levam a mentiras e fantasias.Não busque o Bem nos outros…o encontre em você, sendo apenas você será querido, amado e admirado por quem realmente importa…os outros são os outros…e…só…rs. Temos o Bem e Mal em nós e de nós virá a “escolha” por qual caminho deveremos seguir…somos nosso espelho…fazemos nossa vida…lutamos contra nossos medos…dia após dia…e nos formamos como seres humanos completos ou incompletos…verdadeiros ou irreais…mas não pense que engana a alguém…só a você mesmo…por isso…seja VOCÊ…BOM OU MAL…assuma e seja VOCÊ!

    “Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo.” (Abraham Lincoln)

    Bjoooo

  2. uma frase q muito me chamou a atencao nesse filme foi o coringa dizer q saude mentel e’ igual a gravidade so’ precisa d um impurraum, achei muito bem dita. tem outra do duas cara tbm q e’ boa, naum lembro na integra mas no resumo e’ dizer q. A unica coisa realmente democratica na vida e’ a probabilidade em referencia a moeda, tbm gostei muito.
    Naum gosto muito dessa referencia bem e mal, acho q como fuciona o direito, bem e mal tem mais a ver com convencimento e d como a situacao e’ incarada mais do q com conseitos sociais e religiosos.

  3. Caro Ricardo, em primeiro lugar obrigado pela visita ao blog. Na verdade a frase do Coringa é “A loucura é como a gravidade. Só precisa de um empurrãozinho” Mas acho que ele não estava falando daloucura como nós do mundo psi entendemos, isto é, a psicose. Ele utiliza a palavra “madness” que denota a loucura comoa entendemos quando dizemos que “o Fernandinho Beira-Mar é um louco”, quer dizer, aloucura da violência, do caos, da ausência de regras.

  4. Obrigado pelos esclarecimentos mas vc sabe taum bem qnto eu q qm da o sentido é qm escuta, e isso me chamou atenção, mas como vc me esclareceu agora tenho mais d uma interpretação valeu. desde já qro dizer q achei muito interessante suas colocações.

  5. Valeu Ricardo! De qualquer forma, acho que a frase do Coringa também vale para o louco psicótico: afinal, basta um empurrãozinho: no caso, a ineficácia simbólica do pai…

  6. Parabéns pela análise.
    Eu diria que o Batman é “quase” um anti-herói. Transita também na fronteira entre o “ser” e o “não ser” por se vestir de preto e surgir apenas durante a noite. Não tem superpoderes e age com sentimentos. É carregado de culpa pela morte dos pais. O desejo de vingança e o conflito entre o (ser) bem e mau (com “u” neste caso) coloca o Batman numa posição muito próxima dos vilões da histõria.
    É o inconsciente da grande cidade, com o qual a população não quer se deparar e rejeita veementemente.

  7. Certamente, Vladimir. A análise do personagem chega a ser quase infinita. A gente pode pensar, por exemplo, nessa questão dos contrários (bem e mal, bom e mau, ser e não-ser) em relação à condição social de Bruce Wayne: o homem mais prestigiado da cidade devido a sua fortuna e ao mesmo tempo o homem mais detestado quando veste a pele de Batman.

    Muito obrigado pela visita!

  8. Oi Lucas, muito legal este seu ensaio sobre luz e trevas tomando Batman, o Cavaleiro das Trevas, como paradigma desta sua análise.
    É interessante com em nossa sociedade luz e sombras ganharam valores de bem em mal num maniqueísmo que se acentuou na nossa transformação numa sociedade predominantemente judaico-cristã.
    Na China, os opostos Yin e Yang coexistem de forma complementar e não se imagina um universo se manifestando sem a coexistência destas duas energias primordiais. Mais ainda, como se deduz dos hexagramas do I-Ching os opostos se manifestam em graus variáveis em toda natureza.
    Parte da nossa neurose social advém deste recalque da nossa natureza primitiva que, forçosamente, tem que acontecer para que possa existir uma condição mínima de coesão social (Freud, S. O mal estar da civilização).
    O que parece complicado para mim é como conseguir uma sublimação destes nossos impulsos primitivos sem o desencadeamento deste mal-estar, sem sofrimento, sem neurose.
    Talvez o primeiro passo esteja na tomada de consciência da sombra dentro de nós. Só aceitando que talvez não sejamos tão bons quanto imaginamos possamos iniciar um processo de crescimento que nos capacite a refrear os nossos impulsos destrutivos sem, necessariamente, ingressar numa espiral de sofrimento.
    Por outro lado, Lucas, tenho visto nesta nossa sociedade um movimento muito sinistro de valorização dos aspectos mais doentios do nosso ser. Nos últimos 20 anos observo uma super-valorização da individualidade, do egocentrismo, da ganância, da cobiça, do desprezo pela alteridade como valores desejáveis à uma elite de líderes capazes de guiar o futuro da sociedade.
    É como se aquela sombra à tanto tempo represada tenha ganho um reconhecimento como objeto do desejo para os nossos filhos.
    Nasci numa sociedade diferente que emergia no pós-guerra querendo e buscando formas de coexistência pacífica, mesmo armada até os dentes, pois parecia que o homem recém-descobrira a sua imensa capacidade destrutiva. Passados tantos anos observo uma inversão neste processo em que “ser bom” passou a estar fora de moda e, para se tornar uma “celebridade” é necessário conspirar, trair e se dar bem a qualquer custo. Isto fica muito claro em publicações da imprensa leiga, como p. ex. a revista “Você S.A.” ou no nefasto programa Big Brother Brasil (BBB) onde pessoas são confinadas como animais para que dêem vazão aos seu impulsos mais baixos. Ser um “predador” na nossa sociedade passou a se um valor celebrado.
    Gostaria de ler algumas considerações suas sobre isso e gostaria de sugerir, como cinéfilo que sou, um estudo seu para dois filmes muito interessantes que falam dos nossos descaminhos na Terra: Blade Runner e Matrix.
    Muito obrigado pelo seu ótimo blog.
    Abs, Luiz otávio Zahar

  9. Olá Luiz! Vou comentar sucitamente suas palavras, embora elas mereçam no mínimo um opúsculo. Penso que a idéia de que para que haja coesão e agrupamento social é necessária a repressão dos instintos só faz sentido justamente em um ponto de vista que vê tais “instintos” como ameaçadores. Freud pensava assim. E antes dele, Schopenhauer, Platão… Freud inclusive cogitou a hipótese posteriormente bastante explorada por seus discípulos de uma “pulsão de morte” (da qual ele trata também no ‘Mal-estar’). Todavia, pensar na existência de uma pulsão de morte ou de instintos que precisam ser regulados pela razão, pelo simbólico ou por qualquer outra instância só é possível se os instintos não estão integrados ao restante da personalidade. Não acredito que os homens sejam naturalmente maus – nem naturalmente bons. Não acredito que eles tenham qualquer predicado moral antes de se adequarem a algum elaborado socialmente. No real, os homens apenas vivem. E, do ponto de vista psicanalítico, vivem em busca de algo que eles mesmos não sabem o que é, mas que, em sendo encontrado, traria um gozo absoluto. Essa vivência pode se dar sob o signo da revolta por não conseguir encontrá-lo, do afundamento nas formas fugazes que funcionam como semblantes desse gozo (como no caso da toxicomania) ou pode se dar também como criatividade, como aceitação da impossibilidade desse gozo e criação na vida de suplências singulares a essa satisfação impossível. Eu trocaria com toda a tranquilidade os conceitos de bem e mal pelos de saúde e doença…
    O que ocorre na sociedade atual é o que o filósofo Fuy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”. Nesse tipo de sociedade, os ideais são rechaçados pois não se que “ser” nada, mas sim “apare-ser” pois com o sucesso dos meios de comunicação visuais, a nossa existência passou a estar condicionada ao aparecimento. Basta ver o sucesso dos twitters da vida…

    Bom, não sei se meu contário fez jus ao teu, mas tentei pensar alto um pouquinho, mas o assunto é matéria para ótimas conversas.

    Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s