O que é inconsciente coletivo? (parte 1)

4stanne1Apesar dos poucos votos, na primeira enquete deste blog, venceu Inconsciente Coletivo como o conceito que você, caro leitor, gostaria de entender melhor.  Então vou explicar o mais claramente possível esse que é uma das idéias-chave do pensamento de Jung. Mas antes quero fazer uma ressalva que vale para todos os conceitos que já abordei aqui e para os que virão no futuro:

Conceito, minha gente, não é apenas uma palavrinha bonita que determinado autor achou por bem utilizar, nem algo vindo sabe-se lá de que dimensão. Conceitos são instrumentos de compreensão da realidade, isto é, são funcionais, servem como atalhos mentais, para que você não precise ter que passar por todas as experiências pelas quais o autor passou para elaborar o conceito. Por isso, sempre que você se deparar com um conceito novo, não faça perguntas do tipo: “O que é o Real em Lacan?”. Em vez disso, prefira: “Por que Lacan teve necessidade de utilizar o conceito de Real?” Assim, você não corre o risco de começar a discutir o sexo dos anjos, destino certo de quem opta pela primeira pergunta.

Então, para compreender o Inconsciente Coletivo, procederemos da mesma forma, fazendo a pergunta: “Por que Jung teve a necessidade de criar o conceito de Inconsciente Coletivo?”

São várias as razões. E a primeira delas é: porque já existia um conceito de inconsciente, o de Freud que, grosso modo, significava os pensamentos e fantasias que a pessoa havia recalcado e que retornavam na forma de sonhos, sintomas, esquecimentos etc. Por essa definição, já dá pra notar que o inconsciente para Freud era essencialmente pessoal, quer dizer, o que estava no inconsciente de uma pessoa eram só coisas que diziam respeito à história dessa pessoa.

Só que Jung começa a perceber na sua experiência de psicanalista e psiquiatra que muitos pacientes apresentavam conteúdos brotados do inconsciente que não tinham como ter saído da própria experiência pessoal do paciente. Por exemplo, muitos pacientes psicóticos tinham delírios cujo conteúdo era muito parecido com mitos da antiguidade. Mas aí o leitor pode falar: “Ah, mas o paciente pode ter lido sobre o mito antes do surto.” Sim, é uma possibilidade, e Jung a considerava. Mas para nosso espanto, havia casos em que não havia nenhuma possibilidade do paciente ter tido contato com qualquer informação sobre o mito.

Um exemplo, é o caso de um paciente que Jung atendeu que em seu delírio via o “pênis do Sol” (sic) e dizia que o movimento de sua cabeça ao mesmo tempo que o pênis produzia o vento.  Jung descobre quatro anos depois que esse delírio era quase idêntico a um ritual de invocação ao deus Mitra. Detalhe: o livro onde  Jung descobre essa informação só foi publicado quatro anos depois do paciente ter tido o delírio, ou seja, era impossível que o paciente tivesse tido acesso ao relato da invocação.

Além dos delírios de pacientes esquizofrênicos, Jung também observava que seus pacientes “comuns”, neuróticos, apresentavam sonhos e fantasias que também eram muito parecidos com mitos antigos, fábulas e lendas com os quais nunca tiveram contato. Vejamos então como se processou o pensamento de Jung:

“Bom, Freud diz que sonhos, fantasias e delírios psicóticos são conteúdos provenientes do inconsciente, certo? Certo. Mas ele diz também que não existe nada no inconsciente que a pessoa não tenha vivido e recalcado, certo? Certo. Mas então, como eu, Jung, na minha clínica, vejo pacientes tendo sonhos, fantasias e delírios que não têm nada a ver com a história pessoal deles? Só posso concluir então que existem dois tipos de inconsciente: um, pessoal, que é esse que Freud descobriu e outro que não é pessoal, mas que tem conteúdos da história da humanidade como um todo. É então, um Inconsciente Coletivo.”

 Mas se esse Inconsciente Coletivo realmente existe, como é que ele funciona?

A RESPOSTA NO PRÓXIMO POST

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Um comentário sobre “O que é inconsciente coletivo? (parte 1)

  1. Pingback: O que é complexo de Édipo? (parte 1) « Lucas Nápoli

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