Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 02)

Fiquei de apresentar nesta segunda parte do texto um esboço dessa estrutura que está na base da caracterização feita por Freud, mas não se confunde com ela. Tomemos, então, o mito freudiano e destaquemos seus elementos estruturais.

Freud começa sua descrição do Édipo com a imagem de um menino que tem cerca de quatro ou cinco anos e está vivenciando o que o pai da Psicanálise chama de “fase fálica” do desenvolvimento sexual. Nesse estágio, a criança do sexo masculino estaria intensamente interessada no prazer proporcionado pelo pênis. Uma menina da mesma faixa etária também passaria por essa fase e seu interesse estaria voltado para o clitóris, parte do corpo feminino equivalente ao pênis. Do ponto de vista estrutural, tais imagens representam o fato universal de que nosso corpo é fonte de gozo, ou seja, de que a experiência de prazer é primariamente autoerótica.

Na sequência da narrativa freudiana, tanto o menino quanto a menina passam a nutrir fantasias sexuais envolvendo a mãe, ou seja, passam a tomar a genitora como objeto sexual, vinculando-a ao prazer que experimentam em seu próprio corpo. Essa imagem da criança conectando seu gozo autoerótico ao outro materno ilustra o processo estrutural que Lacan nomeou como ALIENAÇÃO. Trata-se do fato de que todo ser humano nasce num ambiente social já formatado, com uma cultura própria da qual ele não pode escapar. Assim, no início da vida, todos nós somos obrigados a nos submetermos a esse ambiente (que Lacan chama de Outro com “O” maiúsculo). Dessa forma, o nosso próprio gozo que, originalmente é autoerótico, passa a estar “adaptado” ao Outro, subordinado às regras dele. No mito de Freud, esse fato universal é expresso pela imagem da criança apaixonada pela própria mãe.

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O que é libido em Psicanálise?

Você já ouviu médicos ou leigos dizerem que antidepressivos e outros medicamentos podem reduzir a libido?

Então… Essas pessoas NÃO estão se referindo ao conceito psicanalítico de libido. Em Psicanálise, libido não é o mesmo que tesão.

Nesse sentido, do ponto de vista psicanalítico, não existem pessoas com libido alta ou libido baixa. Ela varia, de fato, mas em termos de direção, ou seja, ela pode estar mais orientada para X do que para Y, por exemplo, mas SEMPRE estará voltada para algum lugar…

Deixa eu explicar isso direitinho.

Libido é um termo em latim que pode ser traduzido por “desejo”. Ele foi introduzido na literatura científica lá no fim do século XIX pelos primeiros sexólogos para designar justamente o que a gente chama popularmente de tesão. Por isso, a medicina ainda hoje utiliza essa expressão no sentido de desejo sexual.

Freud, por sua vez, vai pegar esse conceito e dar a ele uma conotação muito mais ampla, assim como fez com a noção de sexualidade que, antes de ele, se referia apenas a práticas relacionadas aos órgãos genitais.

Na obra freudiana, a libido será vista como uma ENERGIA que sustenta a ação da pulsão de vida em nós. Considerando que a pulsão de vida refere-se à tendência inata que temos de buscar manter e expandir a vida, podemos pensar na libido como o combustível que permite a expressão dessa tendência.

Todavia, diferentemente da gasolina ou do álcool, a libido é um combustível que nunca acaba e tampouco diminui. Nosso “tanque” está sempre cheio de libido.

Uai, Lucas, mas e essas pessoas que dizem que estão sem desejo sexual? Elas não estão com falta de libido?

Não. Essa libido que supostamente estaria faltando provavelmente está sendo investida em outra coisa. O tesão é apenas uma das formas de manifestação da pulsão de vida. O autocuidado, o desejo de trabalhar, a devoção religiosa, o ímpeto criativo do artista, enfim, todas essas manifestações que denotam em nós a existência de um amor pela vida também são sustentadas pela energia libidinal.

Quem está na Confraria receberá ainda hoje uma aula especial em que explico a evolução do conceito de libido na obra de Freud e dou mais detalhes a respeito dele.


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O sintoma é uma mensagem que eu envio para mim mesmo.

Estamos acostumados a olhar para nossas formas de adoecimento emocional como problemas a serem solucionados ou obstáculos a serem superados.

A Psicanálise, contudo, nos ensina a enxergar nossos sintomas como mensagens.

Ora, toda mensagem pressupõe um emissor e um receptor. No caso do sintoma, essas duas posições são ocupadas pela mesma pessoa, a saber: nós mesmos.

Em outras palavras, você é, ao mesmo tempo, o emissor e o receptor da mensagem veiculada pelo sintoma.

Mas, Lucas, por que eu mandaria uma mensagem para mim mesmo?

Ora, a gente só manda mensagem para quem está distante. Não faz sentido mesmo enviar um “zap” para quem está ao meu lado. Afinal, eu poderia simplesmente falar diretamente com a pessoa.

Nesse sentido, quando digo que o sintoma é uma mensagem que enviamos para nós mesmos, isso significa que entre eu como emissor e eu como receptor existe uma distância.

Sim! O eu emissor é aquilo que, em Psicanálise, a gente chama de Inconsciente, ao passo que o eu receptor poderia ser chamado de “ego” (só para não confundir com o termo “eu”).

O Inconsciente está o tempo todo expressar os desejos que nele habitam, mas tais desejos geralmente não conseguem chegar até o ego por conta do muro de censura que o próprio ego ergueu entre ele e o Inconsciente. É essa parede a responsável pela distância entre o eu emissor (o Inconsciente) e o eu receptor (ego).

Assim, o Inconsciente é obrigado a codificar os desejos, transformando-o em mensagens, pois somente dessa forma eles conseguem ultrapassar a distância estabelecida pela censura.

O problema é que o ego (eu receptor) não consegue decodificar adequadamente tais mensagens, acreditando que elas significam X, quando, na verdade, expressam Y.

É por isso que a Psicanálise não trabalha com a proposta de eliminar os sintomas do paciente pura e simplesmente. Por considerá-los como mensagens do Inconsciente, o analista ajuda seus analisantes a aprenderem o código do Inconsciente a fim de capacitá-los a compreender as mensagens do eu emissor.


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[Vídeo] Entenda o conceito de IDENTIFICAÇÃO em Psicanálise

Neste vídeo: entenda de forma clara, simples e didática o conceito de identificação em Psicanálise e conheça as 3 modalidades de identificação descritas por Freud em “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 01)

Por outro lado, o problema que a Psicanálise enfrenta para sustentar o conceito de complexo de Édipo atualmente não tem a ver com uma suposta “heteronormatividade” que estaria implícita nele. A maior dificuldade com a qual precisamos lidar diz respeito ao fato de que a descrição que Freud faz do Édipo só tem como referente um formato muito específico de família: aquele no qual a criança nasce e é criada no seio de um casal composto pelos seus dois genitores. O pai da Psicanálise não nos forneceu uma caracterização universal do complexo de Édipo, que pudesse ser aplicada para outros formatos de família, alguns dos quais são tão frequentes no mundo contemporâneo.

Como pensar o Édipo, por exemplo, numa família em que o pai morreu, sumiu ou nunca se fez presente e os filhos são criados apenas por sua mãe? Crianças que já nos primeiros dias de vida foram levadas para instituições de acolhimento e lá viveram durante 10, 15 ou 18 anos não passam pelo complexo de Édipo? E o que dizer daqueles meninos e meninas que são filhos de parcerias homossexuais? O Édipo valeria também para essas crianças? Se sim, como seria possível, já que Freud fala apenas de pai e mãe e nunca de dois pais ou duas mães?

O teórico que nos ajudou a “universalizar” o complexo de Édipo permitindo que ele pudesse ser aplicado às mais diversas configurações familiares foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Para ele, o complexo de Édipo, tal como descrito na obra freudiana, seria, na verdade, um mito criado por Freud.

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A gente faz Psicanálise para mudar, mas, na maioria das vezes, não sabemos o que precisa ser mudado.

Muita gente imagina que o principal objetivo da terapia psicanalítica é promover mudanças no comportamento do paciente.

Faz sentido pensar assim. Afinal, via de regra as pessoas procuram ajuda psicoterapêutica quando estão insatisfeitas consigo mesmas e desejam mudar.

No entanto, diferentemente do que acontece em outras modalidades de psicoterapia, na Psicanálise nós não tomamos a demanda consciente e expressa pelo paciente de forma acrítica. Em outras palavras, não é porque o sujeito nos diz que deseja deixar de ser tímido que o analista estabelecerá como objetivo do tratamento reduzir a timidez dessa pessoa.

Na Psicanálise, não vale o velho jargão comercial: “Seu pedido é uma ordem!”.

Uai, Lucas, mas como assim? O paciente não sabe o que precisa ser mudado?

Frequentemente, não. Isso acontece porque naturalmente nós não temos consciência da maior parte dos fatores que influenciam nosso comportamento e, consequentemente, formatam nossas ideias acerca do que precisa ser mudado em nós.

Assim, é bem possível que o rapaz que chegue ao analista dizendo que quer deixar de ser tímido possa estar formulando essa demanda em função do que ele tem ouvido desde criança da boca de seu pai: “Você precisa ser mais pra frente!”, “Desse jeito você nunca vai conseguir transar!”, “Pare de ser tão retraído!”.

Percebe? O desejo de ser extrovertido não é do paciente, mas de seu pai. Portanto, ao questionar a demanda inicial desse sujeito, o analista pode ajudá-lo a se dar conta de que não é ele efetivamente quem almeja deixar de ser tímido.
Ah, Lucas, mas a timidez não é um problema em si mesmo? O certo não seria mesmo esse rapaz deixar de ser tímido?

Sim, seria certo… do ponto de vista do ideal do pai dele!

Como em Psicanálise a gente não fica tentando encaixotar o sujeito em ideais de saúde, sucesso e felicidade, um trabalho verdadeiramente analítico com esse paciente iria na direção de ajudá-lo a compreender as razões pelas quais ele assumiu a timidez como posição diante da vida. Que fantasia estaria na base desse modo de ser?

Dessa forma, o sujeito estaria em melhores condições para decidir se quer manter-se nessa posição ou se deseja dar outro destino à fantasia subjacente a ela.


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Quais são os capítulos censurados da sua história?

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise”, Lacan afirma que “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.” (p. 260 dos “Escritos”).

Esse trecho é interessante porque nele Lacan revela um aspecto muito específico de como pensa a existência humana.

Para o analista francês, desde antes do nascimento nossa história já está sendo contada. Depois que chegamos ao mundo, pegamos esse bonde sem saber que ele já estava andando. Em outras palavras, assumimos a autoria de um livro que já estava sendo escrito e aí continuamos a escrevê-lo, tomando a narrativa da forma como a encontramos.

No entanto, não escrevemos nossa história de um ponto de vista exterior, como um jornalista relatando fatos para uma matéria. Somos personagens da nossa própria narrativa, de modo que não conseguimos nos situar fora dela.

A imagem que, a meu ver, melhor ilustra essa ideia lacaniana de difícil apreensão é a gravura “Drawing Hands”, de Maurits Cornelis Escher, que certamente serviu de inspiração para o clipe de “Drive” da banda Incubus. No quadro aparecem duas mãos, uma sendo desenhada pela outra e vice-versa, sugerindo a ideia de um “autodesenho”.

A concepção de subjetividade em Lacan tem a ver com isso. A gente não vive numa realidade e, ao mesmo tempo, vamos construindo narrativas sobre ela. Não! Para Lacan, a gente vive na própria história que criamos, iniciada e, portanto, estruturada pelo Outro.

Assim, ao dizer que “O inconsciente é o capítulo censurado”, Lacan está propondo que, no interior desse livro do qual sou o autor e, ao mesmo tempo, o personagem, existem páginas que foram rasgadas ou trechos sobre os quais fizemos colagens para ocultar o conteúdo original.

Nesse sentido, a Psicanálise pode ser tomada como um convite para a revisão de nossa própria história. Ao se submeter à experiência analítica, o sujeito seria convocado a recompor o seu “livro da vida”, resgatando as páginas censuradas e desfazendo as falsificações.


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Como é possível “conversar” com o Inconsciente?

Para a Psicanálise, a única maneira que temos de descobrir saídas para o labirinto em que nos colocamos na neurose é estabelecendo uma conversa franca com o inconsciente.

Quanto mais insistimos na atitude soberba de achar que controlamos conscientemente todas as nossas escolhas e caminhos, mais complexo se torna o labirinto.

Mas, Lucas, como é que a gente pode dialogar com o inconsciente?

Ora, a aposta de Freud — aposta que nós, psicanalistas, mantemos viva até hoje — é a de que essa conversa só pode ser feita por meio da ASSOCIAÇÃO LIVRE ou, para sermos literais na tradução do termo alemão utilizado por Freud (einfall), por meio da “invasão” de ideias na consciência.

Dizemos aos nossos pacientes: “Fale exatamente tudo o que vier à sua cabeça. Não tenha pudores, não se preocupe com a lógica ou com o sentido, apenas deixe que as ideias invadam sua consciência e as comunique a mim. Essa é a única regra que você deve seguir. Não tem tarefa de casa, não tem exercício, nada disso. Basta dizer tudo o que vier à sua cabeça. Com o tempo você perceberá que não está falando de forma aleatória, que há um fio condutor articulando essas ideias que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra. É como se você começasse a pintar um quadro sem a menor ideia do que deseja expressar. Você vai simplesmente jogando as cores na tela, de forma desorganizada mesmo. De repente, você começa a perceber que nesse movimento aparentemente caótico algumas figuras foram se formando… Você percebe um rosto ali em cima, uma casa ao fundo… Uma paisagem começa a aparecer…”.

É assim que a gente conversa com o inconsciente: escutando-o, ou seja, abrindo mão do controle egoico e permitindo que ele fale com o máximo de liberdade possível.

Consequentemente, e com a ajuda do analista, adquirimos a segurança necessária para continuar mantendo um diálogo aberto com o inconsciente para-além do consultório, a fim de aprender com ele algumas saídas para o labirinto da neurose.


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Por que a Psicanálise dá tanta importância à sexualidade?

Ao assinalar que a sexualidade humana não é biologicamente determinada, estou fazendo referência ao fato igualmente óbvio de que o modo como expressamos nossos impulsos sexuais está diretamente vinculado às experiências pelas quais passamos – experiências que, por sua vez, ocorrem no interior de contextos socioculturais específicos. Para ser mais claro: o modo como um cavalo, por exemplo, vivencia sua sexualidade não depende (ou depende muito pouco) das suas experiências de vida nem das coisas que ouviu de seus pais quando era filhote – até por que cavalos não falam, né? A forma como o cavalo expressa seus impulsos sexuais depende fundamentalmente da programação biológica própria da espécie Equus ferus caballus.

Com o Homo sapiens é diferente. Toda a discussão que temos assistido nos últimos anos a respeito da famigerada “educação sexual” evidencia justamente o fato de que, nos seres humanos, a sexualidade é naturalmente “desregulada”. Ao contrário do que acontece com o cavalo, não temos um roteiro biológico rígido que nos indique exatamente como devemos ser e o que devemos fazer no terreno sexual. É como se a nossa sexualidade fosse uma massa passível de adquirir diversas formas diferentes a depender dos recipientes nos quais ela é colocada. Tais recipientes são justamente as experiências socioculturalmente enquadradas pelas quais passamos desde o ventre materno.

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Encerrar a sessão é uma forma de intervenção do analista

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan diz o seguinte: “A suspensão da sessão não pode deixar de ser experimentada pelo sujeito como uma pontuação em seu progresso” (“Escritos”, p. 314).

Essa frase sintetiza a fundamentação de uma inovação técnica introduzida pelo psicanalista francês no campo psicanalítico: as sessões de tempo variável.

Antes de Lacan, havia um consenso entre os analistas de que as sessões de análise deveriam ter uma duração fixa, seja ela de 50, 45 ou 30 minutos. A quantidade de minutos em si não era o aspecto mais relevante, mas, sim, a invariabilidade na duração das sessões.

Havia uma justificativa para isso, a qual Lacan, inclusive, aponta no mesmo texto: “Decerto, a neutralidade que manifestamos ao aplicar estritamente essa regra mantém a via de nosso não-agir.” (“Escritos”, p. 315).

Lacan está reconhecendo o fato de que, ao encerrar todas as sessões rigorosamente aos 50 minutos, por exemplo, o analista estaria se resguardando quanto a sua contratransferência, a qual o levaria, de repente, a ficar pouco tempo com certos pacientes e muito tempo com outros por razões puramente pessoais. Em suma, o tempo fixo das sessões ajudaria o analista a se manter o mais neutro e abstinente possível no tratamento (o que Lacan chama de “via de nosso não-agir”).

No entanto, como o psicanalista francês explica no primeiro trecho citado, o momento em que o analista encerra a sessão funciona como uma pontuação na fala do paciente. Por exemplo: suponhamos que um terapeuta encerre a sessão após o paciente dizer algo como “Se pudesse eu mataria o meu pai.”. Agora imaginemos que o analista tivesse deixado o paciente continuar falando porque, sei lá, restavam ainda 4 minutos para que a sessão atingisse 50 minutos. Nesse caso, o paciente poderia ter continuado seu discurso e talvez tentaria relativizar o peso de seu desejo de morte ao pai com frases como: “Na verdade, acho que não o mataria… Onde estou com a cabeça? Eu amo meu pai. Jamais faria uma coisa dessas. Acho que falei isso só porque estou chateado com ele…”

Sacou? O paciente que sairia da sessão encerrada pelo analista após a expressão do desejo parricida não seria o mesmo que sairia da sessão finalizada após 50 minutos.

Nesse sentido, acho que você percebeu que o encerramento da sessão pode ser utilizado como uma intervenção pelo analista na medida em que exerce um efeito sobre o que o paciente diz e, portanto, no que ele escuta de si mesmo.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje uma mini-aula especial na qual falo sobre esse assunto com mais detalhes e exemplos.


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Por que Lacan dizia que “a resistência é sempre do analista”?

Num trabalho de 1958 chamado “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Jacques Lacan afirma que “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”. Tá lá na página 601 dos “Escritos”.

Quem me ajudou a entender essa famosa formulação foi o Bruce Fink no recomendadíssimo “Introdução clínica à psicanálise lacaniana” (Zahar, 2018). A propósito, Fink é um daqueles raros autores lacanianos que escreve em humanês e não em lacanês.

O que Lacan está querendo dizer com essa ideia de que a resistência é sempre do analista?

A dificuldade para compreender essa tese vem do fato de que, com base na leitura de Freud, a gente chega à conclusão de que o paciente é quem está sempre “resistindo”. Afinal, o sintoma neurótico só aparece na vida do sujeito porque ele RESISTE a reconhecer o próprio desejo, certo?

Pois é! Lacan não está contradizendo essa descoberta freudiana. Pelo contrário! Ao fazer a provocação de que a resistência é sempre do analista, o que o francês está querendo mostrar é que a resistência do paciente é óbvia, de modo que é tão irrelevante dizer que o paciente está resistindo quanto dizer que a água é molhada.

É claro que o paciente resiste! Quem não pode resistir é o analista!

Portanto, quando dizemos coisas como “essa análise não está andando por causa da resistência do paciente”, o correto seria reconhecermos que a inércia do processo está sendo provocada pela resistência DO ANALISTA. Afinal, a resistência do paciente sempre está presente. Ela não é um fator acidental que ora se manifesta e ora desaparece.

Essa resistência nunca cede naturalmente. Do contrário, o sujeito poderia se curar sozinho sem fazer análise. O fator que se opõe à resistência e faz a análise funcionar é o desejo… mas o desejo DO ANALISTA.

É o analista quem, por meio de seus silêncios, pontuações, cortes e interpretações, encoraja o paciente a renunciar ao gozo inútil, mórbido e pouco criativo do sintoma, encarando a angústia inerente à condição humana e buscando formas mais autorais e criativas de expressar seu desejo no mundo.

A resistência é sempre do analista porque, no tratamento, só o analista tem a “opção” de não resistir e fazer valer seu desejo de analisar.


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[Vídeo] Por que a neurose é o negativo da perversão?

Neste vídeo: entenda de forma simples, clara e didática por que Freud disse nos “Três Ensaios” que a “neurose é o negativo da perversão”.


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A fantasia como esforço para dar conta do trauma

Freud observou que as fantasias sexuais infantis de seus pacientes pareciam ter sido construídas justamente em resposta a essas experiências reais, como parte de um esforço para se apropriarem subjetivamente delas. Nesse sentido, a fantasia seria um recurso defensivo para fazer do trauma uma fonte de prazer e não de dor.

É a partir dessas observações que Freud irá propor o conceito de FIXAÇÃO como um elemento crucial para a compreensão de como a neurose se desenvolve. A fixação constitui-se no apego inconsciente do sujeito à memória daquelas experiências infantis traumáticas. É como se a pessoa resistisse a esquecer aquelas situações, trazendo-as constantemente de volta ao presente ao invés de abandoná-las no passado.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Por que nos preocupamos com o outro? Winnicott explica.

Por que a gente se importa com outras pessoas?

Você já havia se feito essa pergunta?

Por que será que você se preocupa com seus amigos, familiares e parceiros amorosos?

O psicanalista inglês Donald Winnicott se interessou por investigar essa questão. Diferentemente de Freud que se dedicava majoritariamente ao estudo dos aspectos “negativos” do comportamento humano como a culpa, o mal-estar e a divisão subjetiva, Winnicott gostava de explorar também os elementos “positivos” da subjetividade, aqueles que fazem parte da dimensão saudável da experiência humana.

O sentimento de se importar com os outros é um desses elementos. A palavra em inglês que expressa essa preocupação com o próximo é CONCERN. Nas obras de Winnicott, ela comumente é traduzida em português por PREOCUPAÇÃO ou CAPACIDADE DE SE PREOCUPAR.

No artigo “O desenvolvimento da capacidade de se preocupar”, de 1963, o analista inglês afirma que “A palavra ‘preocupação’ [concern] é empregada para expressar de modo positivo um fenômeno que em seu aspecto negativo é expresso pela palavra ‘culpa'”.

De fato, nos sentimos culpados quando percebemos que causamos dano a um objeto que estimamos, o qual pode ser uma pessoa, um animal, um grupo ou mesmo uma instituição. O concern, por outro lado, diz respeito a uma atitude que justamente evita a experiência da culpa. Se me preocupo com o outro, se me importo com ele, buscarei ativamente não agir de modo a prejudicá-lo.

Para Winnicott, o concern se desenvolve já nos primeiros meses de vida, quando o bebê percebe, por intermédio de fantasias, que a expressão crua de seus impulsos pode causar dano à pessoa que ele mais ama: a mãe. Esse “insight” leva o bebê a imaginar que pode “consertar” o “prejuízo” causado à figura materna por meio de um gesto de reparação. Se o infante percebe que a mãe aceita esse seu “pedido de desculpas”, o resultado é a consolidação do sentimento de preocupação com outro, que a criança levará para todos os seus demais vínculos de amor.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje um vídeo especial em que descrevo em mais detalhes como se desenvolve o concern e por que esse sentimento pode florescer de modo distorcido em algumas pessoas.


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As 4 tentações do analista: salvador, professor, aliado e moralista

No artigo “Contratransferência”, de 1960, o psicanalista inglês Donald Winnicott afirma o seguinte: “O analista é objetivo e consistente na hora da sessão, sem pretender ser um salvador, professor, aliado ou moralista. O efeito importante da análise do próprio analista neste contexto é que fortalece seu próprio ego de modo a poder permanecer PROFISSIONALMENTE envolvido, e sem esforço demasiado.” (grifo do autor).

Winnicott elenca nesse parágrafo quatro funções que são diametralmente opostas ao papel que o analista deve exercer no tratamento: salvador, professor, aliado e moralista. Essas são, talvez, as quatro principais tentações às quais está sujeito aquele que se aventura a escutar pessoas mediante o método psicanalítico.

Quando é que o analista cede à tentação de se tornar SALVADOR? Quando considera equivocadamente que sua tarefa consiste em devolver a saúde mental ao paciente, quando se esquece da dimensão do gozo implicada em todo adoecimento emocional e quando ele próprio, o analista, passa a gozar com a fantasia messiânica de curar a alma do analisante.

Quando é que o analista cede à tentação de se tornar PROFESSOR? Quando troca a atenção flutuante e a escuta sensível e empática por um discurso que visa transmitir um saber pronto, artificial e distante da experiência do paciente ou quando tenta ensinar ao paciente como viver, ainda que a fonte de sua instrução seja o “Santo Magistério Psicanalítico”.

Quando é que o analista cede à tentação de se tornar ALIADO? Quando se coloca a serviço das ilusões egoicas, reforçando identificações ao invés de apontá-las, homologando defesas ao invés de denunciá-las, tamponando o Inconsciente ao invés de conjurá-lo por meio de pontuações, cortes e interpretações.

E, por fim, quando é que o analista cede à tentação de se tornar MORALISTA? Quando se arvora em guia espiritual do paciente, buscando submetê-lo à moral que ele, analista, adota (ou finge fazê-lo) em sua própria vida, seja ela de direita ou de esquerda, progressista ou conservadora, religiosa ou ateísta. Em outras palavras, é quando o analista para de fazer “silêncio em si” (como dizia o Nasio) e passa a “cagar regra”.


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