O falso amadurecimento da criança mal acolhida

Holding é a palavrinha em inglês que o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott utilizava para se referir à função principal que os pais precisam exercer na vida de seus filhos durante a infância.

Essa palavra pode receber diversas traduções em português como sustentação, suporte, contenção ou o ato de segurar. Por essa razão, na Psicanálise costumamos utilizá-la em inglês mesmo.

Do que se trata?

Holding se refere ao conjunto de cuidados básicos que os pais oferecem à criança. Esses cuidados fornecem a ela uma base física e emocional para que possa se desenvolver e, ao mesmo tempo, protegem a criança de fatores externos que podem desvirtuar seu crescimento espontâneo.

O holding está presente, por exemplo, quando uma mãe percebe que seu bebê está com fome e o coloca em seus braços para amamentá-lo. Nessa singela experiência, a genitora está sustentando o bebê fisicamente (ao segurá-lo e dar a ele o leite) e também emocionalmente ao proporcionar à criança aconchego e satisfação. Ao mesmo tempo, a mãe está evitando que o bebê passe precocemente pela experiência da frustração, que ele ainda não pode tolerar.

Também podemos enxergar o holding na sábia atitude dos pais quando decidem poupar seus filhos pequenos de informações sobre seus problemas pessoais e conjugais. Dessa forma, ao “blindarem” as crianças, esses pais estão permitindo que elas possam continuar se desenvolvendo tranquilamente, sem a necessidade de trocarem o fluxo espontâneo da infância pela preocupação com “problemas de adultos”.

Quando a criança frequentemente não vivencia um ambiente marcado pelo holding, ela acaba tendo que “amadurecer” precocemente já que não pode contar com o suporte e a sustentação de seus cuidadores e acaba sendo confrontada indevidamente com situações que ainda não está pronta para enfrentar.

Coloquei a palavra amadurecer entre aspas porque não se trata de um amadurecimento genuíno. O sujeito amadurece por fora, ou seja, torna-se uma espécie de “mini-adulto”, mas, por dentro, permanece sendo a criança insegura e apavorada que foi precocemente chamada a voar quando ainda mal sabia caminhar…

Você acha que isso pode ter acontecido com você ou com alguém que você conhece?


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Insegurança e autossabotagem: por que podemos ter medo do sucesso?

Engana-se quem pensa que só o fracasso nos amedronta.

Eventualmente podemos ter medo de que as coisas deem certo, de que consigamos atingir nossos objetivos.

Isso não acontece porque o sucesso em si nos pareça uma experiência perigosa. O que podemos temer são as CONSEQUÊNCIAS dele, ou seja, as implicações conscientes e inconscientes de uma conquista.

Como dizia o tio Ben de Peter Parker, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Muitas vezes a gente quer crescer no campo profissional ou acadêmico, mas intuitivamente sabemos que quando estivermos num patamar superior seremos confrontados com diversos novos encargos e compromissos e podemos não sentir à altura deles.

Em outras palavras, a gente quer o primeiro lugar do pódio, mas temos medo de não conseguir suportar o peso da taça. Isso já aconteceu com você? Já houve ocasiões em que você estava diante de uma grande oportunidade de crescimento, mas preferiu renunciar a ela por achar que não daria conta das implicações do sucesso?

Há momentos em que uma parte de nós está convicta de que conseguirá enfrentar as “grandes responsabilidades” inerentes aos “novos poderes”, mas há outra parte que permanece insegura, com medo de não dar conta. O resultado pode ser um processo de autossabotagem. Você aceita o desafio, mas, sem perceber, vai fazendo tudo para sutilmente… fracassar e voltar à segurança da mediocridade.

A autossabotagem pode também estar associada às implicações inconscientes do sucesso. Uma pessoa que apresenta questões mal resolvidas com seu pai, por exemplo, pode desenvolver a crença inconsciente de que não pode ser mais bem-sucedido que ele. Nesse caso, o sujeito se boicota para evitar a angústia dilacerante que experimentaria se “ultrapassasse” a figura paterna.

Você já se percebeu fazendo autossabotagens e desperdiçando oportunidades de crescimento?


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[Vídeo] Sua autoimagem é reflexo de suas ações

Não dá para se ver como uma pessoa produtiva e diligente se você se comporta como um preguiçoso.


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[Vídeo] A função do pai simbólico na estruturação do sujeito

Neste vídeo: conheça as diferenças entre as três dimensões do pai em Psicanálise (real, imaginário e simbólico) e entenda a importância da função paterna para a entrada do sujeito no mundo propriamente humano caracterizado pelo desejo.


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O que são os mecanismos de defesa?

Freud descobriu que a mente trabalha de forma semelhante. Ela recebe as experiências que a gente tem na vida, processa essas experiências, assimila aqueles pensamentos que considera úteis e tenta descartar o excedente. Os mecanismos de defesa se fazem presentes justamente na etapa de processamento. Na hora de definir quais ideias serão absorvidas e quais serão rejeitadas, a mente adota os parâmetros que foram nela instalados pelas pessoas significativas com as quais o sujeito conviveu e que exerceram a função de autoridade na vida dele (por exemplo: pai, mãe, professores, avós etc.).

Com base nos critérios que essas pessoas “injetaram” na nossa mente, a gente seleciona com que pensamentos vamos ficar e que pensamentos vamos “excretar”. O problema é que, diferentemente do que acontece com o funcionamento do aparelho digestivo, nós não podemos “defecar” experiências, ideias, pensamentos. Por mais que queiramos expurgá-los da nossa alma, eles continuarão presentes lá, como visitantes indesejados. É aí que entram os mecanismos de defesa: eles existem justamente para que possamos continuar vivendo sem nos incomodarmos com essas “fezes psíquicas”.

Leia o texto completo em bit.ly/drdmecanismos


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3 ingredientes fundamentais para alcançar seus objetivos

Não é papo furado. Asseguro a você que todos os grandes objetivos que conquistei até aqui (aprovação em concurso público federal, mestrado, doutorado, publicação de livros, criação da Confraria Analítica, dentre outros) foram obtidos com base na mistura desses três ingredientes.

Importante dizer que eles não valem apenas para o campo profissional, mas são condições básicas para o alcance de objetivos em todas as demais esferas da vida.

Você acha que está faltando algum desses ingredientes no seu dia-a-dia? Já vem fazendo uso de todos eles? Conta pra mim!


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Dependência emocional: quando o outro parece imprescindível

Volta e meia alguém me pede para falar sobre dependência emocional.

Vamos refletir primeiramente sobre o que significa DEPENDER de uma pessoa. Creio que todos vocês concordariam que significa não poder viver longe da presença de alguém, certo?

Essa é a condição em que nos encontramos no início da vida. De fato, um bebê é incapaz de sobreviver sem o cuidado de outra pessoa. Tem que haver alguém capaz de alimentá-lo, protegê-lo e sustentá-lo física e emocionalmente.

Por outro lado, a razão nos leva a acreditar que a condição do adulto é diferente. Em tese, ele não PRECISARIA de outra pessoa ao seu lado. Supomos que um adulto seja capaz de buscar sozinho os meios necessários para sua sobrevivência e bem-estar.

Por que será, então, que muitas pessoas, apesar de já serem adultas, SE PERCEBEM incapazes de viver sem a presença de um outro (que pode ser o marido, a esposa, os pais etc.)?

Ora, à luz do que coloquei no terceiro parágrafo, podemos compreender essa situação como a expressão de uma REGRESSÃO EMOCIONAL. O sujeito, embora seja física e “funcionalmente” adulto, está emocionalmente regredido à condição de bebê. É como se inconscientemente ele tivesse voltado a ser um pequeno filhotinho de Homo sapiens que precisa NECESSARIAMENTE da presença e do colo de um cuidador.

Lucas, mas por que isso acontece? Por que uma pessoa trocaria a liberdade que a independência adulta proporciona pela dependência infantil?

É verdade que uma vida independente proporciona liberdade, mas também exige RESPONSABILIDADE, ou seja, exige que nós mesmos tenhamos que lidar com as consequências de nossas ações. E isso, para muitas pessoas, pode ser APAVORANTE!

Indivíduos que não atingiram níveis suficientemente bons de maturidade emocional conservam no seu Inconsciente diversos medos infantis como o medo dos próprios impulsos sexuais, o medo da rejeição e o medo de não conseguirem caminhar sozinhos. Assim, para fugir desses medos, buscam se vincular a pessoas com quem poderão reviver simbolicamente a situação infantil de dependência e se sentir seguros.

Você conhece pessoas emocionalmente dependentes de outras? Você é uma delas? Já foi dependente e hoje conseguiu amadurecer?


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Entenda o que são id, ego e superego

Importante dizer que essas três palavras são os termos em latim para as expressões alemãs Es (isso), Ich (eu) e Über-Ich (acima-do-eu) que foram originalmente utilizadas por Freud.

Id (isso/Es) foi o nome que Freud deu para a nossa mente em sua versão ORIGINAL. Como assim, Lucas? Explico: no começo da vida, a nossa mente é basicamente composta por IMPULSOS que buscam descarga. Pense num bebezinho, por exemplo, ávido por saciar nos seios da mãe a sua fome e o seu tesão de chupar.

À medida que a gente vai crescendo e interagindo com as pessoas e a realidade, vai se construindo nessa mente original (que é o Id) uma espécie de “camada” dotada de autoconsciência, capacidade de suportar frustração, que pensa racionalmente, ou seja, que não busca descarregar cegamente os impulsos. Essa parte da mente mais ou menos adaptada à realidade é o que Freud chamou de ego (eu/Ich).

Lucas, mas depois que o ego se forma, o id deixa de existir? Não. O id permanece sendo a dimensão primitiva, impulsiva, selvagem da nossa mente, mas que agora sofre a oposição do seu filho ego, já que esse trabalha com os critérios da realidade e da sociedade, os quais, frequentemente se opõem à satisfação imediata dos impulsos do id.

E o superego (acima-do-eu/Über-Ich)? Se o ego é uma parte do id original, o superego é uma parte do ego. Esse, por sua vez, é construído com base na identificação do sujeito com pessoas com quem convive (“Tal pai, tal filho”). Só que dentre essas pessoas, existem algumas que exercem AUTORIDADE sobre a criança, ou seja, pessoas que estão ACIMA dela. Tais autoridades ganharão um lugar especial na formação do seu ego. Esse lugar especial é o superego. Dito de forma simples: o superego é o produto da internalização das figuras de autoridade no ego. Mas tem um detalhe: a gente só internaliza o aspecto vigilante, ameaçador e punitivo dessas figuras de autoridade. Por isso, o superego funciona não exatamente como um pai, mas como um CARRASCO do ego.

E aí, essa explicação te ajudou a entender melhor esses conceitos?


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No mundo contemporâneo, trocamos o valor da experiência pelo gozo com a imagem da experiência no olhar do outro.

No último fim de semana eu estava assistindo à série “Quem matou Sarah?” que gira em torno da morte de uma adolescente ocorrida há 18 anos durante uma tarde de diversão com seus amigos.

Ao longo dos episódios, frequentemente aparecem cenas do dia em que a garota teria morrido nas quais seus amigos filmam com uma câmera de vídeo os momentos de alegria do passeio.

Em certo momento, diante de uma dessas cenas, comentei com minha esposa: “Se esse passeio tivesse acontecido nos dias de hoje, eles não estariam filmando, mas fazendo stories e postando no Instagram.”.

Com efeito, na época em que Sarah supostamente morreu, ainda não haviam redes sociais. Todavia, as pessoas também fotografavam e filmavam momentos importantes de suas vidas.

Por que o faziam?

A resposta é simples: para “guardar de recordação”. A gente registrava situações e ocasiões que considerávamos relevantes para, no futuro, podermos recorrer a esses arquivos e relembrarmos aqueles momentos especiais.

Percebe? Nós gravávamos eventos para nós mesmos e para pessoas significativas com quem gostaríamos de compartilhar aquelas memórias. Não nos preocupávamos com o fato de ninguém mais ficar sabendo, além de nós mesmos, nossa família ou amigos.

O valor estava na experiência em si mesma e não no olhar dos outros sobre essa experiência.

É impressionante e, ao mesmo tempo, interessante observar como isso mudou com o sucesso das redes sociais, em especial o Instagram. Pouco a pouco fomos nos acostumando a substituir o desejo de “guardar para recordação” pela vontade de “postar para repercussão”.

Ao contrário do que imaginavam os criadores desta plataforma, as pessoas não postam fotos e vídeos apenas com o objetivo de compartilharem momentos com seus amigos, mas, fundamentalmente, para SEREM VISTOS por eles. É diferente…

O valor da experiência dá lugar ao gozo com a IMAGEM que essa experiência terá aos olhos do outro.

Tanto é que há pessoas que se sentem frustradas quando, por alguma razão, não conseguem postar stories em uma festa ainda que a experiência tenha sido extremamente satisfatória.

Você já havia se dado conta dessa mudança radical na maneira como lidamos com os registros de nossas experiências?


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[Vídeo] Resista à tendência autoimune da alma

Quando passamos por experiências dolorosas, nossa alma tende a se comportar como o sistema imunológico nas doenças autoimunes.

Assista ao vídeo e me responda: você tem dificuldades para se APROPRIAR dos momentos de dor da sua história?


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[Vídeo] Por que os psicanalistas usam o divã?

Neste vídeo respondo 3 perguntas:

1) Por que o divã faz parte da Psicanálise?

2) Qual é a função técnica do divã?

3) O divã é indispensável?


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O lugar do pai em Psicanálise: uma introdução

É o pai o responsável por ajudar a mãe a reconhecer que aquela sensação de completude que ela vivencia é ilusória e que ela possui outros interesses para-além do bebê. Só que o pai que faz isso não é o pai real, o genitor de carne e osso, mas, sim, o pai simbólico. O pai real pode até encarnar essa função simbólica (e frequentemente o faz), mas o agente da separação não é ele enquanto “pessoa física”.

Uai, Lucas, por que não é ele? Não é o pai real que literalmente separa a criança da mãe quando a procura para fazer sexo, por exemplo? Sim, mas a separação entre a criança e mãe necessária para o desenvolvimento psíquico saudável do sujeito não é essa separação física; trata-se de uma separação… simbólica. O que isso significa? Significa que essa separação precisa acontecer na dimensão do significado que a criança tem para a mãe e no significado que a mãe tem para ela. A mãe precisa passar a considerar a criança não mais como um símbolo daquilo que lhe tornaria completa e a criança precisa olhar para a mãe não mais como o símbolo do paraíso, da satisfação plena.

Leia o texto completo em bit.ly/drdpaterno


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3 traços da estrutura histérica

Na matriz clássica da Teoria Psicanalítica distinguimos duas grandes estruturas neuróticas: a obsessiva e a histérica.

Já falei em outro momento sobre alguns traços da estrutura obsessiva e agora é a vez de falarmos sobre os histéricos.

Assinalo que esses são apenas alguns dos principais traços que caracterizam a estrutura histérica. Existem vários outros sobre os quais podemos refletir em outro momento.

1 – RESSENTIMENTO: O sujeito histérico não conseguiu admitir o fato de que ninguém possui o falo, ou seja, o fato de que todo o mundo é faltoso, carente, incompleto, vulnerável. O histérico trabalha com a crença inconsciente de que existem pessoas inteiramente satisfeitas, poderosas, inabaláveis e de que ele faz parte do grupo daqueles que foram injustamente privados dessa plenitude. Na mulher, esse traço se manifesta amiúde no sentimento constante de estar sendo injustiçada e no homem apresenta-se na preocupação excessiva com sua virilidade (“Será que sou um homem de verdade?”).

2 – SUBMISSÃO AO DESEJO DO OUTRO: Como o sujeito histérico se sente injustamente prejudicado e privado de fazer parte do grupo dos poderosos, completos e inabaláveis, ele tende se colocar de maneira infantil diante do outro a quem atribui esse lugar de superioridade. De fato, o histérico encara esse outro como o detentor de todos os segredos e como aquele que sabe o que é melhor para ele (histérico). Por isso a hipnose funcionava tão bem com as histéricas do século XIX e é também por essa razão que os homens histéricos estão constantemente se lamentando por não serem como o fulaninho, a quem atribuem o status de “homem de verdade”.

3 – IDENTIFICAÇÃO FÁLICA: Outra crença inconsciente sempre presente no sujeito histérico é a de não ter sido suficientemente amado quando criança, de não ter ocupado juntos aos pais (especialmente a mãe) o lugar de falo, ou seja, de objeto ideal do desejo deles. Assim, o histérico passa a vida tentando exercer essa função fálica, só que agora para outras pessoas. É por isso que os histéricos tendem a ser sedutores: querem ser o tempo todo desejados, colocados no lugar de objeto privilegiado do outro. Excesso de ciúme e submissão a humilhações na tentativa de recuperar o amor do outro podem ser algumas das formas de manifestação desse traço em ambos os sexos.

Ao observar esses três traços, vem à sua mente a imagem de alguma pessoa específica? De você mesmo? 😅


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O que é esse tal de objeto a?

Primeira coisa que você precisa saber: “objeto a” foi um conceito criado pelo psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981).

Segunda coisa que você precisa saber: o conceito de objeto a não possui um referente concreto, como o conceito de “garrafa”, por exemplo. Você pode olhar para uma Coca-Cola de 600ml e dizer: “Veja, eis uma garrafa”, mas não poderá fazer o mesmo com o objeto a. Não tem como ver, tocar ou experimentar o objeto a. Trata-se de um conceito ABSTRATO, como os números. Apesar de utilizar expressões como “Comprei  cinco laranjas”, você nunca viu O NÚMERO 5 EM SI. Então, o conceito de objeto a precisa ser pensado com base nessa mesma lógica, combinado?

Beleza. Então, vamos lá:

Por que Lacan precisou criar o conceito de objeto a?

Há várias maneiras de responder a essa pergunta. Eu optarei pela que considero a mais simples: Lacan inventou o conceito de objeto a para nomear algo já presente na teorização freudiana.

Com efeito, Freud demonstrou que nossos impulsos (sexuais e agressivos) procuram ser satisfeitos, ou seja, descarregados. Para alcançar essa meta, eles UTILIZAM objetos, mas a natureza desses objetos é pouco relevante do ponto de vista deles. Tanto faz se for homem, mulher, comida, sapato. O mais importante para os impulsos é a obtenção de descarga.

Freud mostrou, portanto, que, embora precise haver objetos para que os impulsos possam ser satisfeitos, esses objetos são variáveis. Portanto, os impulsos não estão vinculados a objetos específicos, mas precisam de algo que exerça para eles a FUNÇÃO DE OBJETO. Pois bem! Olha aí: “objeto a” foi justamente o nome que Lacan deu para essa função, esse lugar, que pode ser ocupado pelos mais diversos objetos concretos.

É como se nossos impulsos fossem mendigos com uma latinha vazia na mão dizendo para o mundo: “Por favor, me deem qualquer coisa para encher minha latinha. Qualquer coisa serve desde que a preencha!”. A latinha, nessa analogia, seria o objeto a. É justamente por ele ser, tal como a latinha, um lugar virtualmente vazio que faz nossos impulsos serem atiçados. Por isso, Lacan dizia que o objeto a é a causa do desejo.

Esta singela postagem ajudou você a compreender esse conceito?


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Quem vive culpado está sempre procurando um carrasco para chamar de seu

Quando estamos com medo de um cachorro e nos aproximamos dele, há uma grande chance de que ele comece a latir.

Isso acontece porque o cão é “programado” biologicamente para emitir uma reação de defesa (o latido) quando identifica uma possível ameaça no ambiente. De fato, uma pessoa com medo pode reagir agressivamente para se defender e os doguinhos instintivamente sabem disso. Assim, latem para tentar afugentar o possível agressor.

Mas como é que os cachorros sabem quando uma pessoa está com medo? Simples: pelos sinais corporais involuntários que emitimos quando estamos sentindo essa emoção, como, por exemplo, tensão muscular, postura, expressão facial etc. O animal é biologicamente preparado para detectar e interpretar esses sinais como indicativos de medo e, portanto, de uma chance de ser atacado.

Processos semelhantes a esses acontecem nas relações humanas. Com efeito, também somos capazes de “farejar” a configuração psicológica das pessoas e reagir “instintivamente” com base nesse “faro”.

Por razões de espaço, não posso dar inúmeros exemplos (embora eles existam), mas vou me focar em um: a relação entre o indivíduo que carrega consigo um sentimento de culpa crônico e aquele que gosta de botar a culpa nos outros. Quando eles se encontram, é batata: dá match!

É impressionante constatar a facilidade que pessoas culpadas têm para encontrarem parceiros amorosos vitimistas, que estão sempre culpabilizando o mundo por seus infortúnios. Quem não conhece aquela pobre mulher acanhada, passiva, que está sempre pedindo desculpas e licença por onde passa e que está namorando ou casada com um homem duro, controlador, que sempre coloca a culpa nela por todos os problemas que acontecem na vida deles?

Inconscientemente, o sujeito culpado vive preso à fantasia masoquista de que precisa estar sempre sendo punido e humilhado. Ora, para que essa fantasia possa ser encenada, é preciso encontrar um carrasco. E é exatamente isso o que o culpado faz: assim como um cão que “fareja” medo, ele “instintivamente” escolhe para estar ao seu lado EXATAMENTE aquela pessoa que lhe dá todos os sinais de que saberá puni-lo diuturnamente…


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