Enigma feminino

Transpassa-me a alma o clamor do Outro

Sinto o terror da solidão em rios de fel

Gozo de ti servida a granel

Com gosto de morte em seus lábios

Velho está o espírito

Que derrama em frios pensamentos

Todo o ar que ainda existe

E as soluções desfilam por entre os galhos

Os morcegos já não sabem onde esconder

Em que se apóia ti para te achares mulher?

Tua falta eu já supri faz tempo

Foi muito para o lugar do vazio

Fujo de mim em ti com unhas e dentes

A plenos pulmões, grito!

Grito!

Os sons são despenhadeiros

E os músculos contraídos denunciam o horror

Da carne em tua boca

Em tua alma sobra o prazer

O que, afinal, tu queres?

Redenção

Os dons de tua alma franciscana

Recolhia-as qual a soma dos dados

Sem saber que Javé só afana

Onde há pó de outros deuses cremados

 

Tuas sendas já não guiam meus pés

Verdugo, fiz perecer tua graça

Feito o povo que exaspera Moisés

Roubei-te o linho, te fiz linhaça

 

Mas tua ira fez-se eco em meu pensar

Da madeira dos ídolos adveio holocausto

E mesmo roto e maltrapilho advogo-lhe altar

 

Não como o Daquele que assenta na Terra os pés

Pois se no éter habitam espadaúdos

Só aqui adora-se a deusa que és

Chá com os mortos

Vislumbro o tempo e não sei onde me encontro

Em meio a trevas e luzes entediantes

O suplício pra chegar ao cume

O prazer da vista não paga

O velho pergaminho esconde-se por entre as pedras

Cubro meu sonho com velho perfume

Quem está aí pra dizer que não é assim?

Os felizes idiotas em seus castelos infernais

Ser é complicado

As opções nos desagradam

E no fim um sofá aconchegante

Café, cigarros, mulheres e refrigerantes

Onde estão os extraterrestres, a ciência, os dinossauros e Ele?

Antes a curiosidade, hoje o tédio

O espírito se mostra cansado

Crer é um esforço!

Em grutas distantes o prazer, o amor, o altruísmo, o afeto

Arraigados em meu peito a apatia, a indiferença

E o tédio

Calvário

Grande é o vilão nas colinas de Diana

Sonoro tilintar sob as vestes de Zaqueu

Sol escaldante no horizonte do ateu

Gota de orvalho do meu pé emana

 

Adentrou no casco a patrícia fugidia

Encontrou entre a porta ameaça de açoite

Ela que do dia só sabia a noite

Gemeu entre espasmos e forte azia

 

Folha seca bordejando o tamborim

Folha morta nas paredes do liceu

Folha branca esquecida qual pasquim

 

Pensa, pensa até ferver as tripas

Com óleo de chumbo que brota dos olhos

Das mães suspirantes, gementes, aflitas